Epílogo: Oração (Um Conto de Gelo e Fogo)
1 Oração (One-Shot)
Notas iniciais
Uma forte tormenta castigava os céus da Grande Cidade.
Nuvens negras e pesadas se espalhavam até onde a vista alcançava. A lua cheia estava ocultada por todas aquelas trevas chuvosas e a única luz que tornava possível enxergar naquele breu caótico provinha dos relâmpagos que se propagavam aos montes. Fortes vendavais varriam as ruas e vielas da cidade e criavam túneis de vento, que assoviavam a cada forte soprada da tempestade. Estava assim há três dias.
Fazia décadas que algo assim havia acontecido. O esgoto da cidade havia estourado e transbordado e o odor de fezes e podridão se espalhava a quilômetros de distância, cadáveres pútridos, outrora amontoados em pilhas para serem incendiados, agora eram carregados pela correnteza que havia se formado. A natureza se vingava. O Inverno havia chegado.
Dentro da Grande Pirâmide, no centro das muralhas da cidade, dezenas de Sacerdotes Vermelhos se reuniam, vindo de todo o continente, desde Pentos até a sombria Asshai. Todos aqueles homens e mulheres estavam reunidos em torno de uma grande fogueira, ajoelhados, rezando pela vinda da aurora, os rostos amedrontados.
Parte do teto da pirâmide havia sido destruído por catapultas devido ao grande cerco à cidade alguns meses antes. Com a ausência da Rainha e os rumores da vinda do Inverno, os serviçais restantes providenciaram um conserto provisório com tábuas de madeira e cimento. A esplendorosa Grande Pirâmide, uma das últimas relíquias do extinto Império Ghiscari, se encontrava remendada, destruída, apagada.
A água da chuva se infiltrava através das tábuas e o assovio do vento forte ameaçava arrancá-las a qualquer momento, como um curativo velho e seco. As pessoas no salão se reorganizaram na forma de uma plateia, com a fogueira ao lado, enquanto uma sacerdotisa vermelha clamava um sermão.
— São em noites como essa que Ele aparece para testar a nossa fé – ela dizia, olhando nos olhos de cada um – A vinda do Grande Outro é iminente. Relatos de atividade dos seus servos no oeste eram trazidos todos os dias, até que cessaram abruptamente.
Grande parte da audiência tremia, de frio ou de medo.
— Nunca antes essa cidade viu tamanha escuridão e castigo – ela continuou – As trevas obscurecem nossas visões nas chamas. Talvez esta noite de hoje seja eterna. Talvez seja nosso julgamento, a punição por toda destruição que o homem cria a cada passo que dá. Mas não podemos deixar o medo nos consumir. Devemos lutar. Somos o exército do Senhor da Luz e estamos aqui para batalhar contra o frio do Grande Outro e sermos dignos de herdar o Calor e a Aurora divina!
O discurso havia acendido uma esperança nos corações de todos os presentes. As palavras da mulher surtiam um efeito hipnótico, quase mágico, sobre todas aquelas mentes.
— Todos nós somos peões no jogo divino, todos nós temos papéis a desempenhar na Grande Guerra. O Grande Outro não pode morrer porque enquanto a luz existir, ela lançará sombras e essas sombras são o domínio dele. Estamos sem notícias do maior guerreiro de R’hllor, o Azor Ahai, há semanas. Mas se as trevas estão aqui consumindo o mundo neste dia, significa que ele provavelmente falhou no seu dever divino. Ele se foi, mas ainda estamos aqui. Por isso estamos aqui, para diminuir o Reino das Trevas através das nossas chamas e proteger a humanidade do frio da morte. É nosso dever propagar a palavra do Senhor da Luz a todos e iluminar as suas mentes, porque a noite é escura e cheia de terrores.
— Porque a noite é escura e cheia de terrores – os outros sacerdotes repetiram a prece, em uníssono.
Um estrondo monstruoso soou nos céus, mais forte que os trovões. Todo o ruído de vozes no salão cessou e só se escutava o barulho da chuva e do vento. Alguns momentos depois um barulho ritmado se fez audível, como couro sendo agitado. Alguns sacerdotes se levantaram de seus lugares e foram até a sacada da pirâmide, em direção ao ar livre, e olharam o céu noturno.
A princípio não se via nada. Somente a escuridão densa engolindo qualquer vestígio de luz e a chuva torrencial e o vento castigando os cabelos e olhos. Foi quando um relâmpago cintilou e iluminou todo o céu noturno.
Uma gigantesca forma alada voava lentamente no espaço em torno da Grande Pirâmide. Asas coriáceas e escuras batiam com força e chacoalhavam a água e o ar ao redor, a forma escura colossal se destacando em meio ao céu iluminado momentaneamente pelos relâmpagos. A criatura demoníaca soltou um rugido que fez cada osso o corpo dos presentes tremer.
— Demônio! – gritou um dos homens – O Grande Outro veio na sua Montaria de Trevas nos buscar! Vamos todos morrer aqui!
Um burburinho começou a se agitar entre os sacerdotes. O medo os estava deixando irracionais. Alguns correram. Um outro se jogou da sacada.
— Calma, todos vocês! – gritou uma mulher e todas as vozes cessaram. Ela possuía os cabelos negros ondulados e penetrantes olhos azuis. Ela não costumava falar muito e toda vez que o fazia, era ouvida – Não vêem? Não é um demônio. É a esperança. Ele nos traz uma dádiva.
— Dádiva? – falou um homem, exasperado – Você está louca, Kinvara? Não vê o que vemos? As trevas nos encontraram.
— As trevas fazem parte da luz – disse Kinvara, com a voz calma e suave de sempre – As vezes o Senhor as usa para nos mostrar o caminho certo a se tomar – ela olhou fundo nos olhos dele e deu um sorriso.
O homem ameaçou avançar para cima dela e discutir, mas na mesma hora os portões do salão são escancarados. Um homem alto, bonito, com cabelos negros acima dos ombros e barba grossa adentrou o lugar. Vestia uma roupa de couro de batalha.
— Vocês viram? Ela voltou – ele disse, direcionando-se a Kinvara.
Ela respirou profundamente.
— Sim, ela voltou – disse tranquilamente.
— Não entende, bruxa? Ela não voltaria a não ser que algo não tivesse ocorrido como o planejado, caso algo tenha dado errado. Ela nunca... – ele hesitou por um momento. Seu tom de voz ficou mais baixo – Ela nunca voltaria.
— O Senhor da Luz trabalha de formas misteriosas, Daario Naharis – disse Kinvara, descendo os degraus da sacada e indo em direção ao salão, em direção ao homem – Eu vi nas chamas há algum tempo. Seu retorno talvez não seja como você espera.
Deixando Daario sem entender aquelas palavras, Kinvara se vira para a multidão:
— Temos um grande trabalho a fazer aqui hoje – ela disse – As visões nas chamas podem ter parado, os corvos podem não vim mais do oeste para nos trazer notícias, mas antes do caos eu tive uma última visão. Uma visão deste dia e é por isso que todos nós fomos convocados aqui hoje. Para trazermos de volta a Aurora!
Os sacerdotes se entreolharam. Apesar de tudo, confiavam na mulher.
— Preciso que adaptem este salão do trono para um altar de sacrifícios. Tragam velas de cera, velas de obsidiana, incensos, panos limpos, leite de papoula e tinas com água – ela se virou para um grupo de sacerdotes homens – Preciso que tragam três meninas vestais do vilarejo. O mais rápido possível. Digam que faz parte de um ritual para passar a tempestade. Se protestarem, sabem o que fazer.
Todos assentiram e se puseram em movimento. Kinvara se pôs ao lado de Daario. Os dois encaravam o remendo de madeira gigantesco no teto.
— Não tema, Daario Naharis – ela falou, sem desviar os olhos de cima – Hoje, pela primeira vez na história, a noite não será escura e cheia de terrores.
* * *
A sala do trono da antiga Rainha de Mereen foi transformada em um templo improvisado. Uma grande mesa de pedra sacrificial adornada com entalhes sagrados havia sido trazida até o lugar, ladeada por grandes tochas de metal e velas espalhadas por toda parte.
A fogueira havia sido desfeita e a mesa encontrava-se no centro do salão. Alguns momentos antes, as três virgens vestais foram lavadas, purificadas e sangradas e seus líquidos vitais agora preenchiam uma grande tigela de metal. Os sacerdotes vermelhos murmuravam cânticos ancestrais enquanto finalizavam os preparativos e sentavam sobre os joelhos em volta da mesa.
Kinvara estava de pé em frente a esse altar improvisado, com uma sacerdotisa vermelha de cada lado. Seu rosto demonstrava expectativa. Daario Naharis encontrava-se ali perto, embora suficientemente longe de toda aquela cerimônia. Já havia testemunhado rituais de feitiçaria antes e não desejava se envolver novamente.
A Sacerdotisa Vermelha respirou fundo, olhando todos os presentes.
— Devemos começar? – ela entoou.
Como se tivesse ouvido as palavras e esperado a sua deixa, a criatura alada soltou outro rugido. Nos segundos que se seguiram, ela estraçalhou a cobertura de madeira e cimento do teto com suas patas traseiras fortes e musculosas e adentrou o salão, aumentando mais e mais o rombo no processo. Escombros, poeira, vento e chuva, iluminados pela luz das velas e archotes, criavam uma neblina espectral amedrontadora.
A criatura era um dragão. Completamente negro, com um padrão de escamas escarlates brilhantes, dentes pontiagudos e olhos que pareciam dois carvões em brasa. Ele era imenso, um dos maiores, senão o maior animal andando por aquela terra. Ainda assim, o padrão de construções colossais adotados pelo Império Ghiscari no passado tornava a Grande Pirâmide e a Sala do Trono gigantes o suficiente para comportar uma besta daquele tamanho.
A criatura pousou com um grande impacto e um pouco de desequilíbrio, o que rachou o piso e estourou algumas vidraças na parede. Daario já o havia visto diversas vezes, geralmente com ela montada em cima dele. O homem andou em volta da criatura tentando enxergá-la, mas não a viu. Qual motivo a faria atravessar meio mundo debaixo de uma tempestade descomunal em cima de um dragão, sozinha?
Quando olhou para o animal, ele entendeu. O dragão sempre fora rebelde e exibia uma carranca perversa, pronto para atacar ao menor sinal, o que deveria ser a expressão facial própria e única da espécie predadora. Porém, se um dragão poderia ficar triste e cabisbaixo, Daario jurava que Drogon estava.
O bicho soltou uma espécie de ganido e abriu as asas. Ele estendeu a pata traseira para a frente e Daario percebeu que ela estava fechada, carregando algo, por isso o desequilíbrio no pouso. Drogon depositou o conteúdo no chão do salão, na frente de todos, e o coração do homem falhou uma batida.
Era um corpo. Um cadáver. O cadáver dela.
Daario tentou avançar com tudo, mas três sacerdotes vermelhos o seguraram a tempo.
— Descrentes não devem interferir nos negócios de R’hollor – disse Kinvara, firmemente.
Porém, o homem não desviou os olhos do cadáver por um minuto. Estava perto o suficiente para vê-la. Era quase do jeito que ele lembrava. Os cabelos platinados sedosos trabalhados em frondosas tranças agora estavam bagunçados, quebradiços e sem vida devido às intempéries. O rosto angelical e rosado agora se encontrava pálido e magro, cheio de feridas e ressecado. O sangue havia se depositado em suas extremidades por causa do rigor da morte, suas mãos e orelhas estavam roxas. A roupa, rasgada e em frangalhos. E ali, bem em cima do lugar do coração, coberto por sangue seco, havia uma ferida aberta, grande e purulenta.
— Você sabia disso? – ele, gritou – Você sabia disso e não me contou? Não contou para nenhum deles? Que tipo de Irmandade vocês são?
— Tragam-na até mim – disse Kinvara, ignorando-o.
Dois sacerdotes foram em direção ao corpo com a intenção de erguê-lo, mas o dragão se armou e rosnou para os rapazes. Ambos pararam abruptamente e abaixaram a cabeça. Por fim, Drogon cedeu e voltou a se encolher no chão do salão, soltando ganidos de tristeza.
Os rapazes levaram o corpo da Rainha até o altar de pedra e lá a despiram de suas roupas. A mulher, que antes era uma das mais bonitas de todos os reinos, agora se encontrava acinzentada como uma estátua decrépita, amortecida.
Kinvara, os dois rapazes e as duas sacerdotisas começaram seus trabalhos. Uma pequena pira havia sido acendida ali perto e os cinco cortavam os cabelos do cadáver e os jogavam no fogo enquanto todos os outros entoavam um cântico em uníssono. O mesmo era feito com os panos que eles utilizavam para limpar as suas feridas.
— Nascida da Tormenta e do Fogo – proclamou Kinvara, com uma voz penetrante – Morta pelo Ferro e Gelo.
Mãe dos Dragões, Filha de Três, os outros sacerdotes ajoelhados proferiram, em uníssono.
— Três fogueiras teve de acender – falou Ezzelyne, a outra sacerdotisa, enquanto jogava uma mecha platinada na pira flamejante – Uma pela vida, uma pela morte e uma pelo amor.
Mãe dos Dragões, Filha da Morte, eles entoaram.
— Três traições conheceu – falou o sacerdote Korroro, enquanto esfregava o sangue seco do peito da Rainha – Uma por sangue, uma por ouro e uma por amor.
Mãe dos Dragões, Matadora de Mentiras...
— Vinda do sal e da fumaça – falou Kovar, o outro sacerdote – Renascida pela estrela vermelha.
Mãe dos Dragões, Noiva de Fogo...
— Para tocar a luz, tem de passar sob a sombra – disse Nissa, a última sacerdotisa no altar.
Mãe dos Dragões, Princesa Prometida...
Nesse momento as chamas da pira ficaram mais altas. A fogueira de antes, cujas toras haviam sido empilhadas e colocadas de lado no salão, acendeu-se num turbilhão de fogo e luz. Todos se assustaram momentaneamente, mas continuaram focados. Kinvara vestiu o cadáver com uma túnica de algodão, limpou a garganta e todos calaram.
— Zȳhys ōñoso jehikagon Āeksiot epi, ela entoou o feitiço ancestral. “A Oração”, como eles costumavam se referir a ele.
De repente, todos começaram a declamar o feitiço, repetindo-o, cada vez com um tom mais forte que o anterior.
Zȳhys perzys stepagon Āeksio Ōño jorepi
Se morghūltas lȳs qēlītsos sikagon
Hen sȳndrorro, ōños, hen perzys, hen ñuqīr, perzy
Hen sȳndrorro, ōños, hen ñuqīr, perzys, hen morghot, glaeson
Daario só conseguia absorver em partes. Era uma mistura de alto valiriano com várias línguas existentes. “A morte é uma linguagem universal”, supôs ele. “Faz sentido feitiço ser em todas as línguas conhecidas pelos homens e deuses”.
A parte seguinte foi a mais clara que Daario conseguiu assimilar. Era o idioma comum:
Nós iremos orar
Oremos todos juntos
Nós a traremos de volta
Orem, lembrem-se...
Trovões ribombaram no céu, mais altos que antes. Relâmpagos rasgavam a escuridão com uma freqüência anormal. A chuva ameaçava inundar tudo a qualquer momento. Uma ventania tomou posse do salão e começou a chacoalhar tudo, cabelos, vestidos, lustres, exceto as chamas, sobrenaturalmente firmes. O ar no salão ficou pesado, Daario percebeu. Já testemunhara algo assim antes. Magia.
— Irmãos – Kinvara falou, depois de um longo tempo. Seu rosto outrora impassível, agora estava marcado pelo cansaço – Chegamos ao sacrifício final. Ao derradeiro ato de nossa missão aqui na terra para o Senhor da Luz.
Todos os sacerdotes vermelhos no salão choravam. As lágrimas escorriam pelos seus rostos cansados, tristes e assustados, molhados de chuva ou sujos de fuligem da fogueira.
— Nós pedimos pela vida – falou Kinvara, com todas as suas forças – Agora pagaremos por ela.
— Só a morte paga pela vida, purificada pelo fogo – eles falaram em coro.
Aos prantos, Kinvara desceu do altar improvisado e caminhou até o dragão. Na mesma hora o animal colocou-se de pé, em modo de ataque. Porém, antes de chegar perto o suficiente, Daario agarrou seu braço.
— Você está louca? O que pensa que está fazendo? Ele vai matá-la!
— Com o fogo e a morte, ela deu-lhe a vida – disse a sacerdotisa, encarando o dragão – Com o fogo e a morte, ele irá fazer o mesmo.
— O quê? – falou Daario, sem entender – Dragões só respondem a um mestre e a mestre dele está morta!
Kinvara riu.
— Oh, pequena criança do Verão... dragões são tão inteligentes quanto nós humanos. Talvez até bem mais. Por que acha que ele a trouxe aqui, até nós, justo agora? Ele queria isso. Ele sabe o que fazer. A magia só renasceu por causa dele e de seus irmãos. Ele a conhece melhor que cada um de nós.
— Ele nunca irá escutá-la — disse Daario. Porém, seu instinto de guerreiro o fazia se afastar da mulher mais e mais em direção à porta.
Kinvara fechou os olhos e respirou fundo. Todos os sacerdotes ficaram de pé atrás dela, perto do altar. Quando tornou a abri-los, ela juntos toda a sua força e pronunciou uma palavra só:
— Dracarys!
O dragão ergueu o corpo, estufou o peito e cuspiu uma rajada flamejante em direção a Kinvara, aos sacerdotes e ao altar. A nuvem de fogo se espalhava em alta velocidade. Daario correu em direção à porta e a fechou para se proteger, porém seu braço direito e rosto foram lambidos pelas labaredas avermelhadas. Com o cabelo em chamas, ele gritava de dor e desespero.
O salão estava sendo consumido pelo fogo. Tapeçarias, lustres, móveis, tudo estava virando cinzas. Os sacerdotes cantavam enquanto queimavam, mas logo a melodia deu lugar a gritos agonizantes de dor e, momentos depois, ao silêncio. O fogo consumia tudo. De cima, mais alto que o fogo, Drogon assistia ao espetáculo piromante como um deus da morte e do caos.
* * *
O mar de fogo havia abrandado. De algum modo ele ficara contido somente à sala do trono. Após a dor agonizante diminuir, Daario Naharis ousou espionar através de uma fresta da porta.
A cena era a de um pesadelo. Tudo era cinza. O fogo havia se extiguido e somente o altar de pedra com o cadáver da Rainha continuava em chamas. Daario adentrou o salão. Drogon estava novamente deitado, os olhos voltados para o altar, com grande expectativa. Esqueletos carbonizados se espalhavam pelo lugar cheio de cinzas. Parte do teto havia caído. Era possível ver o céu. A tempestade começava a se dissipar.
Daario se dirigiu ao altar, mancando. O fogo ao redor começou a diminuir.
“A Não-Queimada”, era como a chamavam. Daario nunca tinha entendido muito bem essa alcunha. Veio encontrá-la muito depois do Renascimento dos Dragões. Mas agora entendia o porquê.
A túnica, os archotes, as velas, a pira, até o próprio altar, tudo virara cinzas ou derretera. Menos ela. Pelo contrário, parecia mais vívida. Ele observava sua imagem nua, ondulante pelo calor das chamas ainda acesas. O cabelo platinado voltara a ter vida, as feridas agora eram apenas cicatrizes, o rosto voltara a ter vigor. Ela se parecia novamente com a mulher que ele amou.
O homem estava tão hipnotizado por aquela visão que não percebeu quando o dragão levantou a cabeça abruptamente, em alerta, percebendo algo no ar.
Dentro do círculo flamejante ela repousava. Tum, o coração deu a primeira batida. Tum, o sangue voltava a circular no corpo. Tum, as memórias voltavam em um turbilhão.Tum...
Abruptamente, a Rainha abriu os olhos. Seu semblante inicialmente era doce e vívido, pacífico até, mas ao relembrar seus últimos momentos, o último ato dele, seu rosto começou a se fechar na mais completa e pura fúria. Os olhos, do mais profundo, claro e reluzente azul, refletiam a luz e o calor das labaredas dançantes ao seu redor. Neles só se podia ler duas coisas:
Fogo e Sangue.

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