Enxergue o invisivel
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Não pode ser! Ele sequer sabe o meu nome...
— Clary – finalmente a voz ganhou forma, um menino parou de frente pra ela e colocou as mãos em seus ombros – puta que pariu! O que aconteceu? Você está bem?
Clary ainda paralisada começou a pensar em suas opções. Talvez ela tenha batido a cabeça e isso estava lhe causando alucinações, ou quem sabe esteja sonhando, talvez ainda esteja desmaiada no banheiro, ingeriu alguma droga, ficou louca de vez... Qualquer coisa era valida porque de jeito nenhum Justin Bieber estaria ali na sua frente, a encarando preocupado e aguardando explicações.
Talvez eu tenha morrido. MERDA! EU TINHA TANTOS LIVROS PRA LER...
— Vem, é melhor você se sentar um pouco – de novo aquela voz falou com ela.
Diante da falta de resposta da garota, Justin passou um braço pela cintura da mesma e a encaminhou até uma mesa onde normalmente os estudantes se sentavam quando chegavam cedo demais, ou quando cabulavam aula, ou pra qualquer outra coisa. Ainda em choque a garota deixou que o menino a levasse, ela não tinha controle de suas pernas, ainda não conseguia acordar ou ressuscitar, nem mesmo quando Justin a segurou pela cintura e facilmente a sentou sobre a mesa de cimento, ele ficou na frente dela, muito próximo acomodado entre as pernas da menina, como se fossem íntimos. Os olhos castanhos claros lhe encaravam com ansiedade.
Clary sentiu um pequeno choque com o contato das mãos dele em sua pele, ainda sentia a cintura formigar onde ele tinha tocado. Aquilo era real, ele era real, mas como era possível? Por que diabos o garoto mais popular daquele inferno estava ali, parecendo tão preocupado com ela? Por que o destino era tão cruel a ponto de fazê-la esbarrar com o menino naquele momento?
Já estudava naquela escola há quase três anos, ha um conheceu Justin, quer dizer, o observava de longe, nunca foram apresentados, nunca se falaram, ela o observava e ele a ignorava, simples assim como qualquer clichê que já tenhamos presenciado. Ela invisível, ele o menino mais bonito da escola, mundos diferentes que nunca se conectariam.
E por mais louco que fosse, Justin Bieber ainda continuava parado na sua frente.
Se ele nunca tinha enxergado ela, como ele sabia o seu nome?
— C-como você sabe o meu nome? – a garota gaguejou após vários minutos em silencio. Sua voz saiu áspera e baixa, mas o menino pareceu compreende-la.
— Clary May Mafster – ele respondeu calmamente, o indicio de sorriso em seus olhos mascarado pela preocupação – terceiro ano, dezessete anos, boas notas, escolhe pelo menos uns três livros na biblioteca por semana, e odeia barra de cereal... Por que eu não saberia o seu nome?
A garota arregalou os olhos diante daquelas informações. Não sabia se estava diante de um perseguidor, se ficava encantada por ele saber várias coisas sobre ela, ou se caia na real já que estava na cara que aquilo era algum tipo de brincadeira doentia.
Ela optou pela mais provável, a terceira.
— Ok, eu já estou bem — Clary fechou a cara, não ia aguentar aquela merda vinda dele, não depois do que tinha acontecido – é melhor eu ir andando.
— Não, espera – Justin tocou o joelho da menina para impedi-la de descer da mesa, mas logo tirou a mão ao vê-la se contrair com seu toque.
Clary queria sair dali o mais rápido possível, fugir do toque dele, da expressão angustiada que parecia sincera. Mas ela não tinha como sair com ele estando tão perto, as duas mãos apoiadas na mesa criando uma prisão.
— O que você quer? – ela perguntou rispidamente.
Justin deu um passo pra trás diante da aspereza da garota, não estava esperando uma reação assim, não estava acostumado a ser tratado com tanto desprezo pelo sexo oposto.
Isso fez com que ele gostasse ainda mais dela, mesmo que talvez ela fosse mais uma que o odiasse.
— Eu sei que a gente nem se conhece – Justin falou baixinho, usando sua melhor cara de suplica quando desejava alguma coisa – mas eu só quero te ajudar. Por favor, me deixe te levar pra casa, ou cuidar dos seus machucados, tenho um kit de primeiros socorros no carro.
— Não vou entrar no seu carro – ela respondeu automaticamente, continuava na defensiva e sabia que era melhor assim – e não preciso da sua ajuda.
Não podia ter contato com ele, justo ele, mesmo que fosse apenas aceitar a sua ajuda, já estava muito machucada não precisava de uma decepção a mais quando descobrisse que aquilo tudo não passou de uma aposta.
— Por favor – Justin levantou uma mão para colocar na dela, mas desistiu no meio do caminho – deixe-me apenas fazer um curativo na sua sobrancelha, assim que tiver certeza que você está bem, eu te deixo em paz.
Seus olhos acompanhavam sua expressão sincera, implorando para que a garota o deixasse fazer algo por ela. Ele devia ser um bom ator, pois Clary acreditou nele e tinha quase certeza de que não desistiria tão cedo.
Ela não era páreo para aqueles olhos castanhos lhe dizendo “Por favor”, havia perdido aquela batalha no momento que Justin Bieber foi gentil, aquilo a desarmou, pois nunca havia presenciado essa atitude vinda dele.
Sem dizer nada Clary apenas assentiu com a cabeça, rezando para que não se arrependesse.
Justin capitou o consentimento dado pela menina, um pouco surpreso e aliviado deu dois passos para ir correndo até o carro pegar o kit, mas voltou-se para a menina que olhava cada movimento dele.
— Não saia dai, eu já volto – finalmente ele sorriu, um sorriso tímido que o deixava mais adorável – por favor.
A menina sabia que deveria aproveitar a oportunidade e fugir, mas não fez isso. Ela estava curiosa pra saber aonde aquilo tudo ia dar. Sabia que queria sentir novamente o toque dele, por mais superficial que fosse, mesmo sendo mentira, ela podia fingir que ele realmente se importava, aproveitaria cada minuto em que Justin Bieber estivesse cuidando dela. Talvez o destino não fosse tão cruel assim, quem sabe ele esteja dando um premio de consolação pelo que a menina havia passado naquele dia.
Observou o garoto correndo até um carro de luxo prata estacionado não muito longe dali, aproveitou para reparar em seu corpo magro e atlético, ele usava jeans escuros com tênis de cano médio branco, a camisa cinza escondia a cueca que aparecia devido a calça larga em seus quadris. Ele era lindo, o rosto sem nenhum traço de acne, os cabelos antes castanhos agora estavam em um tom loiro platinado, ficou lindo mesmo Clary preferindo a cor original. Ela visualizou quando ele abriu a porta do carro e tirou de lá uma caixa média na cor vermelha, depois voltou a se inclinar e tirou algumas coisas que a menina não conseguia enxergar.
Quando Justin bateu a porta do carro e começou a voltar com as coisas Clary desviou o olhar, não queria ser flagrada espiando. Encarando os próprios dedos a menina torceu para que no fim aquilo a ajudasse a camuflar os seus machucados antes de ter que encarar a mãe, e que por algum milagre não ganhasse hematomas em seu coração.
— Aqui está o kit, e esses são pra você – Justin anunciou a sua volta. Ele depositou o kit de primeiros socorros ao lado da menina, junto trouxe duas garrafinhas de agua e um chocolate Reese's.
Clary estava com a boca seca então aceitou a agua sem pestanejar, deu um grande gole sentindo a aspereza da garganta se esvair aos poucos. Mas balançou a cabeça diante do chocolate que coincidentemente era o seu favorito.
— Não, só a agua já está ótimo – sua voz saiu mais suave – obrigada.
— Esse é o seu favorito – ele disse convicto – pode comê-lo mais tarde se preferir.
A menina estreitou os olhos, como é que ele sabia de tantas coisas sobre ela?
— Você não é nenhum tipo de psicopata não, né? – Clary murmurou enquanto Justin remexia na caixa – porque sinceramente eu não seria uma vitima muito interessante.
— Psicopata? – ele sorriu mais abertamente. Ele pegou um lenço e o umedeceu com a outra garrafinha que trouxera.
Por alguns segundos a menina se perdeu naquele sorriso, uma raridade que a mesma teve a sorte de presenciar.
— Sim, você sabe algumas coisas sobre mim – ela respondeu desconfiada – então deduzo que seja um psicopata.
— Ou talvez eu seja apenas um bom observador – Justin rebateu sem se abalar – prometo que só quero te ajudar, posso?
O garoto levantou o lenço já umedecido pedindo permissão para limpar os vestígios de sangue.
Clary apenas assentiu e desviou o olhar enquanto Justin delicadamente colocava algumas mechas do cabelo dela atrás da orelha para que pudesse ter livre acesso ao seu rosto. A menina mordeu o lábio inferior corando fortemente ao sentir o roçar dos dedos dele em sua orelha.
Controle-se, porra. Ele mal te tocou.
— Tudo bem, você é um observador – ela retomou a conversa, precisava se distrair – mas não explica o porquê escolher a mim pra observar.
— E por que eu não te observaria? – ele perguntou confuso. Suas mãos no rosto dela eram tão suaves, como se ele tivesse medo de machuca-la.
— Porque você é Justin Bieber – Clary rosnou sem paciência.
É tão obvio! Talvez ele quisesse a porra de um reconhecimento.
Mas assim que as palavras foram ditas, Justin encarou a menina. Raiva, tristeza, vergonha e arrependimento tomaram conta dos olhos castanhos. Clary quis se socar ao observar o menino desviar o olhar e se ocupar em molhar mais um lenço, visualizar aqueles sentimentos nos olhos dele fez com que seu coração apertasse.
— É apenas um nome – ele falou amargurado. Suas mãos estavam de volta ao rosto dela limpando os vestígios de sangue – não torne alguém inalcançável quando na verdade ele não passa de um babaca.
— Eu não...
— Mas nos últimos meses eu parei de me importar – ele a interrompeu – depois de tantos anos eu finalmente posso ser eu mesmo, algumas pessoas se decepcionam com a verdade, mas pelo menos elas irão me odiar sabendo quem realmente é Justin Bieber.
Clary observou Justin revirar os olhos enquanto se referia a si mesmo na terceira pessoa, a indiferença em sua voz não passou despercebida.
Justin realmente havia mudado desde o ultimo ano. Antes era rodeado de pessoas querendo um segundo de sua atenção, meninas disputando o papel de namorada do dia. Ate os professores faziam seus papeis de fãs mesmo ele não tendo as melhores notas. O nome do menino era citado em 90% das conversas, Justin era o sinônimo de popular, mas nessa época Clary não achava nada de interessante no garoto, para ela era só mais um rostinho bonito que conseguia o que queria com a beleza, contraditoriamente ele passava a ser invisível para a menina. Até que um dia Justin Bieber apareceu na escola depois de quase um mês de ausência, seu semblante antes sorridente as vezes até mesmo malicioso estava fechado, o menino parecia ter envelhecido uns dez anos, seu maxilar tenso fazia a menina se perguntar quantas emoções ele escondia por trás daquela fachada. O que mais impressionava era os seus olhos, o castanho claro quase dourado estavam frios e sem vida, mesmo observando de longe Clary sentia-se congelar por dentro, isso quando tinha coragem de tentar decifrar a origem dos esqueletos encobertos pela imensidão castanha.
Clary só notou e se interessou por Justin quando o mesmo estava invisível para os outros. O garoto passou a andar somente com um amigo, na maioria das vezes ficava sozinho. Não dava mais atenção a seus “fãs”, não fazia nada pra chamar a atenção das pessoas, optando por ficar isolado, e quando os corajosos se atreviam a se aproximar, eram dispensados pelo silencio do garoto. Ate que um dia a menina lembrou de onde conhecia aquele olhar vazio cravado na face de Justin, houve um tempo em que ela o via todos os dias enquanto olhava-se no espelho, o olhar de alguém que sofrera uma perda, uma dor tão insuportável que corroía toda a sua alma até sobrar um imenso vazio para lembra-lo do tamanho da sua perda.
Foi assim que Clary teve a sua confirmação, Justin assim como ela havia perdido alguém que amava. Após a confirmação a menina passou a se interessar, até mesmo gostar do menino. Mas mesmo mudado Justin não conseguia perder a sua popularidade, mesmo tornando-se um cara reservado ele ainda tinha os seus” fãs”, a diferença é que ele os ignora. Hoje em dia Clary percebeu uma melhora no garoto, já o viu conversando com mais pessoas, voltou a jogar basquete, até mesmo teve oportunidade de vê-lo sorrindo depois de tantos meses, mas uma coisa lhe dizia que o loiro nunca voltaria a ser aquele Justin.
Popular ou não Justin Bieber sempe seria seu romance clichê, sua paixonite platônica dos tempos de escola. Inalcançável como o mesmo dissera.
No entanto, Clary sentia a danada da esperança rastejando sorrateiramente, ignorando os sentidos de “platonico” e “inalcançável” a partir do momento que Justin se ofereceu para ajuda-la, e de quebra revelou que também a observava.
— Você realmente mudou nesses últimos meses – Clary resolveu revelar que também o observava – e sinceramente acho que não tenha sido uma mudança ruim.
— Acha? – Justin perguntou surpreso.
— Sim.
— Isso é ótimo – o menino deu mais um dos seus sorrisos arrasadores, a satisfação estampada em sua expressão.
— Por que você fica feliz com a minha “aprovação”, Justin? – a menina perguntou estressada, estava surtando com toda aquela conversa sem sentido – por que você sabe tantas coisas sobre mim? Por que está me ajudando? Por que revela coisas como se fossemos íntimos?
A menina respirava rápido devido a sua ansiedade, suas mãos automaticamente fecharam-se em punho prestes a se defender quando ele revelasse que havia voltado a ser o bom e velho Justin, e pra comemorar ela fora escolhida para ser sua vitima.
No entanto, Justin não falou ou fez nada diante da explosão da menina. Ele apenas a encarava, os olhos desviando-se para a boca dela e parando ali como se desejasse algo. Com o coração acelerado Clary observou o menino mordendo o cantinho da boca enquanto ainda olhava os lábios dela.
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