Eu sempre acreditei na existência de outras dimensões. Seria algo realmente incrível. Mas não acredito na existência delas porque seria incrível, mas sim porque a minha realidade é horrível. Muitas pessoas já se conformaram com isso, mas eu não.

É agonizante saber esse tipo de coisa. É ainda mais horrível que você não seja capaz de saber a sua própria.

Não... Talvez seja melhor assim mesmo.

Nesse mundo, nós podemos ver a data da morte de outra pessoa.

Acho que alguém de outra dimensão pensaria, “nossa, mas isso é tão legal!”, até porque, muitas pessoas daqui pensam assim. Mas eu a rebateria na mesma hora. Imagine saber quando será a morte de seu melhor amigo? De seu irmão? De seus pais.

Imagine você ser um médico. Imagine que não importa o quanto você tente, nada poderá mudar o destino daquele paciente que você está tratando. É horrível.

Eu não tenho ideia de como funciona. Não é algo que nos ensinam na escola porque ninguém gosta de tocar nesse assunto. Eu só sei que quando você olha nos olhos de alguém você imediatamente pode ver, como um outdoor piscante acima de sua cabeça, a exata data em que aquela pessoa irá morrer.

Algumas pessoas adotaram óculos e lentes de contato como solução, já que eles previnem contato ocular direto. Eu sou uma dessas pessoas. Eu decidi, após o dia em que minha melhor amiga morreu, que eu nunca mais iria olhar nos olhos de outra pessoa de novo.

Não é algo escrito, ou uma lei, mas é algo que todo mundo concorda. Você nunca deve dizer para outra pessoa quando ela irá falecer.

Não irá mudar nada no destino dela, mas as pessoas têm uma ideia de quanto isso pode mudar o resto da vida de alguém.

Eu ouvi de alguns amigos meus que no dia em que minha melhor amiga morreu eu fiquei muito mais gentil com ela. Tratando ela melhor do que sempre. Quase como que se eu estivesse preparando ela para o terrível final que ela teria.

Naquele dia, ela foi atropelada na frente da minha casa. Na frente dos meus olhos.

E o olhar de ódio que ela me lançou enquanto se engasgava por ar vai ficar gravado na minha mente para sempre.

Recentemente eu arranjei um namorado. Um garoto que eu estive gostando há algum tempo. Também me reconciliei com a minha mãe, com quem eu briguei e me afastei por um longo tempo. Falei com antigos colegas de classe que eu não via há eras, brinquei com meus dois irmãos mais novos sem gritar de frustração com eles, consegui ir ao show da minha banda favorita. Tantas coisas. Em um único mês.

E eu só percebi quase no fim.

Eu estava sendo preparada para o meu encontro com a morte.

Um dia antes da minha morte, eu chorei todos os meus medos, todas as minha frustrações, abracei todos da minha família, disse todos os “eu te amo’s” que segurei em minha língua por tanto tempo.

E no dia seguinte, eu estava preparada. Eu vesti meu uniforme, fui para a escola, e tentei ficar o mais feliz possível para os meus amigos. Quando eu estava andando o caminho de volta para casa eu pude sentir a pressão da morte nos meus ombros. Foi quase o suficiente para expulsar todo o ar de meus pulmões. Foi o suficiente para eu perceber que não.

Eu não estava preparada.

“EU NÃO QUERO MORRER!” Eu gritei, e fugi.

Eu corri o mais rápido que eu pude, sem parar uma única vez para tomar folego, mas a Morte não tem misericórdia. No rosto daquele homem que me perseguia havia um sorriso maníaco, em seus olhos, um brilho enlouquecido. Em suas mãos, a faca mais aterrorizante.

Eu entrei em um beco, e parei a ponto de me encontrar com a parede. Eu cai de joelhos.

“Não...” Eu chorei.

“Hey, bebê. Não chore... Prometo que será rápido.” Aquela voz, que parecia o silvo de uma cobra, não fez nada que ajudasse o meu medo. Ela apenas o aumentou.

Eu entrei em desespero. Em um único movimento, agarrei o que descansava perto de mim, sem nem ver o que era, e lancei no monstro a minha frente.

“SUA VADIA!” Ele gritou sem ar, após o que eu acredito que era um pedaço lascado de tijolo o atingir no peito. Eu aproveitei e corri.

E quando eu pensei, “não tem que ser agora.”, o destino me passou a perna.

E eu encarei o mesmo fim de minha melhor amiga.

Notas finais
Olá, espero que tenham gostado. =)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!