Então, é Natal
1 Na Véspera...
Mais uma vez aquela época do ano, e mais uma vez, o terror se instaura. Por todo o mundo, crianças começam a ficar pesarosas, pais e mães começam a fazer preparativos, avós rezam pelo bem estar de seus netos. As armadilhas começam a ser instaladas, pelo menos duas no caminho da chaminé, mais uma em cada janela da casa. As portas, trancadas e seladas, muitas trancas travando e cadeados fechando. Os templos se enchem de fiéis, pedindo ajuda para o criador. Pedindo piedade para quem quer que seja, pedindo pelo bem de suas crianças. As velas de sete dias iluminam as casas pela noite. Acreditam que as luzes afastam o mal que vem.
Durante o dia, as árvores são assassinadas com desesperados golpes do machado, as pilhas de lenha crescem para manter o fogo aceso a noite toda. Os abrigos são abertos, para passar a noite segura. Os pais temem o sono enquanto trabalham, imaginando se serão capazes de passar todo o tempo acordados para proteger suas crias. É um dia internacional de luto. É um dia em que a tensão se estende a limites inimagináveis, em que o desespero causa acidentes pelas ruas, e a ira gera problemas. Tempos de luto, tempos de medo.A noite chega, o terror se espalha. As janelas se fecham, as trancas são passadas todas mais uma vez. O fogo nas lareiras crepita fortemente enquanto protege a entrada. Teoricamente, nada consegue passar por ali. De fato, o fogo atrapalhava, mas nunca fora impedimento. Naquela noite, tudo parecia mais escuro. Até as estrelas brilhavam com menos intensidade, e a Lua, Bela Dama, raramente aparecia naquele dia. Pelas casas, muitas luzes brilhavam. Várias lâmpadas penduradas nos batentes das portas, pelos telhados, jardins e colunas, janelas e calhas, faziam com que as ruas lembrassem mais dia do que noite. A luz ajudava a afastar o mal, diziam, então, que se iluminasse a noite como se dia fosse. E então, um dia se acabou, o próximo se iniciou, e tudo parou. No exato instante entre um minuto e outro, no tempo que um segundo leva para se tornar o próximo, tudo parou. As nuvens deixaram de voar pelo céu, o vento pausou em meio ao vôo. As árvores cessaram seu lento crescer, e cada animal deixou de ser para meramente estar. A água não mais era que ar denso, o fogo não mais era que luz concentrada. Nada faria frente ao que estava por vir, e antes que a consciência humana pudesse ser totalmente apagada, muitos ouviram pelo mundo uma longa e terrível gargalhada. Ho. Ho. Ho. E então, tudo parou. Nada mais era, ninguém mais pensava, não existiam pessoas, existiam estátuas. Animais eram meras presenças, a própria natureza era mera ilusão. O próprio tempo, dali em diante, não mais existia. Cessara de ser, fechara os olhos e simplesmente dormia. O mundo era só dele. Por todo o céu estagnado, um único som se ouvia. O silêncio sepulcral espalhando o barulho sinistro de guizos por toda a terra, embora ninguém além dele os pudesse ouvir. O chicote estalando nas costas dos únicos animais ainda pensantes não perdoava, enquanto um trenó vermelho-e-verde atravessava a noite como um cometa. Era o momento certo. A hora de festejar. Buscar os presentes que viriam a alegrar crianças — não as desse, mas as de outro mundo. Era a hora da colheita. Com a calma de quem tem o tempo todo para si, ele passava de casa em casa. Pelas chaminés, cheias de armadilha, ele passava sem ativá-las. Pelo fogo, aceso para proteção, ele passava sem se queimar. Abria as trancas com o mais leve toque de sua macabra magia, e avaliava. Procurava pelas casas com a paciência infinita que a noite eterna lhe dava. Os humanos ficavam mais e mais engenhosos, escondendo suas crias de formas cada vez mais eficazes. Nunca, porém, tão eficazes quanto o sentido dele. Aquele pulsar de leve em sua têmpora, indicando sangue jovem próximo. Sempre atento, ele escolheu. As mais belas, mais corajosas, mais inteligentes, ele as pegava, sem hesitar. Guardadas em seu mágico saco, as crias humanas de mais alta qualidade eram levadas para outro lugar, eram escondidas e iam direto para sua oficina, onde os pequeninos ajudantes já preparavam tudo. E assim, de casa em casa, por todo o mundo, ele passou, pegando todas as crianças que o agradassem, e que, ele sabia, agradariam a seus mestres. Então, mais uma vez, o Tempo voltou a respirar, tornando tudo novamente vivo, fazendo com que a realidade deixasse de apenas estar e voltasse a não-tão-somente ser. Pais desesperados gritaram pela inutilidade de suas tentativas, mães choravam angustiadas pela perda. Avós rezavam pelo bem de seus netos, onde quer que estivessem, e irmãos tentavam entender onde estavam seus iguais. Quase em uníssono, um grito de agonia percorreu o mundo. Um mundo mais triste, menos populoso, onde um futuro menor esperava. Um mundo de crianças a menos, e almas incompletas. Um mundo com furos na alma. Dentro da oficina, o tempo também retornava. Os pequenos ajudantes, duendes verdes com expressões maníacas, agarravam as assustadas crianças sem piedade, despindo-as e fazendo as preparações. Chegava a hora mais esperada para os pequenos seres esverdeados. Era o momento de embrulhar os presentes. E os presentes, mal sabiam, os pequenos, não podiam sequer imaginar o horror que apenas começava. Mais uma vez, chegara e passara o dia mais temido do ano. Mais uma vez, uma legião de crianças desapareceu sem deixar rastros. Mais uma vez, mães gritavam pela perda, o mundo estava em luto. Por mais um ano, por mais um dia, era Natal.
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