Entretenha-me, Sebastian
7 Sieben
Notas iniciais
Ciel considerava-se maduro o suficiente para saber o outro lado de um relacionamento que levava com Sebastian, só que justamente por ele ser considerado “criança” não ultrapassava mais do que abraços e beijos. Irritava-se com isso. Curioso para saber até onde poderia ir, o garoto resolveu testar seu mordomo.
E de aquele dia não passaria.
— Sebastian! — estava sentado e descansando em uma poltrona da biblioteca, o livro que lia agora estava fechada em suas pernas.
O mordomo apareceu logo em seguida e segurando um ramalhete de rosas brancas, as trataria mais tarde para enfeitar a mesa da sala de jantar.
— Sim jovem Mestre?
— Venha até aqui. — fez um leve gesto com o a mão. Ao ser obedecido, Ciel deu-lhe um pequeno beijo — Temos algum compromisso para esta noite?
— Não, estarás de tempo livre após a aula de história geral. — verificou em seu relógio de prata — Pretendes algo para esta noite?
— Talvez… — voltou a abrir o livro e retomar sua leitura. Sorriu.
Parece que irá chover pela noite…
.x.
Após o jantar, Sebastian acompanhou o garoto até o quarto para um banho antes que a chuva caísse. Um recipiente com água morna já estava em cima de uma mesinha, uma pequena toalha fora mergulhada. A fita preta ao redor do pescoço de Ciel caiu na cama, os botões foram abertos e seu casaco já retirado.
— Bastante mel desta vez, ou a quantidade de sempre? — o fio dourado e doce do mel formava leves desenhos no líquido branco e logo se dissipava.
— Bastante, o mais doce possível. — sorriu levemente, planejava algo — Esta noite será doce como esse mel.
Passou o dedo no fio que ainda escorria para dentro da xícara e furtou o pote da mão de seu mordomo. Com o indicador molhado ele passou pelos lábios e logo chamou Sebastian para mais perto. Curioso e divertido com a cena, o moreno inclinou-se mais para provar se seus beijos também seriam adocicados.
— Estás tramando algo desde hoje cedo, jovem Mestre. — lambeu o lábio inferior — Percebi seus movimentos, e digo que infelizmente não terás o que tanto anseias. — tomou-lhe o pote da mão e o tampou, deixando na bandeja que estava no criado-mudo.
— Como? — sem entender nada e frustrado pelo afastamento repentino do mordomo, Ciel fez bico e sentou-se na cama — Por que tu sempre acabas com meu envolvimento logo na metade?
— Porque justamente ainda és novo demais para ter “aquele” tipo de envolvimento, e irei zelá-lo até que seja a hora apropriada para o ato. — sorriu e deu-lhe um beijo na testa — Mas por enquanto não, jovem Mestre.
— E quando será? — resmungou emburrado.
— Em dois ou três anos. — arrumou-lhe o lençol novamente — Está muito apressado, não achas? — os olhos brilharam famintos, as mãos passeavam pelos cabelos e rosto do garoto.
— Isso não é de sua conta.
— De certa forma é de minha conta sim.
Empurrou as mãos de Sebastian de si e virou-se para o lado oposto. Aquele demônio tinha arruinado seus planos não mais secretos que vinha bolando desde o começo da manhã. Poderia ordenar, mas sabia que o mordomo não faria com toda a sua vontade, já que Ciel ainda não estava pronto.
Ou poderia ser apenas uma desculpa para caso Sebastian saísse de seu controle. Meio improvável, mas nada de deixar de lado quaisquer hipóteses possíveis. Passou a mão pelos cabelos e suspirou derrotado.
— Que seja então, perdi a curiosidade mesmo. — o sono parecia dar sinais, os olhos pesavam — Mas da próxima… é melhor que não me venhas com essa desculpa novamente ou chamarei Grell para uma visita a seu quarto. É uma ordem!
Sebastian deu um sorriso atrevido, aquele garoto continuava agindo naturalmente, mal ele sabia do que aquele mordomo seria capaz se pudesse ir além daquele relacionamento. Seria algo resumido a dois dias de cama para Ciel.
— Sim, meu Lorde!
.x.
Após aquele dia, Ciel não tocara mais no assunto por pelo menos cinco meses. Os empregados continuavam exercendo seus serviços normalmente, exceto em vezes de invasões à mansão, comida queimada, jardins destruídos, louças despedaçadas… mas nada de anormal. O mesmo para o conde e seu mordomo, tudo ia muito bem e as mil maravilhas, por trás, claro!, das cortinas ou sozinhos no quarto do garoto, geralmente a noite.
Mas foi justamente em uma noite, chuvosa, de sábado que Ciel ressuscitou aquele assunto. Sebastian não poderia escapar dessa vez.
— Mas jovem Mestre…
— Nada de mais. — ajoelhou-se e o puxou pelo colarinho — Esqueceste-te da ordem de não retornares com as mesmas desculpas?
Passou as mãos no cabelo e resmungou algo como “Ordem não, chantagem!”.
— Que dissestes?
— Nada. — apoiou as mãos na cama e segurou o rosto do garoto — Tens certeza do que queres? Ainda podes ter tempo de recuares.
— Sabes muito bem com quem estás falando, então é óbvia a minha resposta, não?
— Sim, só perguntei para ter certeza — sorriu — já que quem sofrerá efeitos colaterais será o meu jovem Mestre.
Balbuciou alguma palavra de baixo calão e retirou seu tapa-olho, jogando-a na cama.
— Certeza eu tenho.
O moreno continuava imóvel, apenas deixou Ciel lhe desabotoar os botões desajeitadamente e retirar-lhe o fraque. Percebeu os olhos vermelhos dele que brilhavam como nunca, provavelmente Sebastian também queira fazer aquilo tanto quanto o próprio garoto. Ele fora deitado delicadamente, as luvas já tinham sido retiradas e estavam deixadas de lado assim como a camisa de dormir de Ciel.
— Creio que a partir de agora tu sejas apenas meu e nada de usar deste artifício para resolver pistas de algum trabalho que a Rainha mandar. Ou achas que eu não estou sabendo daquela vez em que me deixastes a arder em febre pela noite enquanto estavas com a Beast ou do que tive de ouvir dos gritos daquela freira? — apertou os dedos em seus ombros.
— Oh! Mas que eu saiba não havíamos nos declarado e nem estávamos juntos durante.
— Que seja… só quero que não o utilize para esse fim.
— Sim, jovem Mestre! — cobriu o corpo dele com o seu ainda apoiado nos travesseiros — Espero que me perdoe pelos meus próximos movimentos. — os olhos vermelhos brilharam misteriosamente.
A fraca luz que emanava das velas do castiçal lhes permitia observar o corpo já nu do outro, Ciel estava visivelmente nervoso, mas decidido a ir até o fim, afinal, Sebastian nunca lhe trairia e muito menos deixaria nada de mal acontecer com seu corpo. Então estaria tudo bem.
Após alguns minutos, as gotas de suor em suas costas fizeram com que o lençol grudasse nelas e o incomodasse. O mordomo apenas deu um puxão no tecido e o jogou ao chão, logo virou lentamente o garoto, as suas mãos deslizaram pelas costas e se demoraram na cintura. Afundou os dedos no travesseiro e gemia baixinho.
— Não te demores muito em isso. — resmungou quase sem fôlego Ciel — Malditos preparativos…
— Não reclames agora, ao não ser que desejas passar o dia com dor nos quadris. — sorriu e moveu mais os dedos.
Contentou-se com a resposta e agarrou mais ainda o pobre travesseiro, abraçou tão forte que mais um pouco e as finas costuras rebentariam expondo assim, as mais macias das penas de ganso. A chuva aumentara mais e mais, trovejava alto o suficiente para certos sons não serem escutados por ninguém, exceto por aqueles que estavam no quarto escuro e quente.
Naquela noite Ciel pôde ver a quão excitante era a porta do céu e do inferno.
.x.
As cortinas foram abertas e os raios de sol incomodavam imensamente, tentou puxar seu lençol, mas este estava nas mãos de Sebastian. Resmungou.
— Bom dia, jovem Mestre. — entregou-lhe a xícara.
— Ceylon? — tomou um pequeno gole.
— Sim. — afastou mais os lençóis — A chuva de ontem a noite não se estendeu tanto quanto imaginei, logo, seus compromissos para hoje não foram afetados.
— Preferia não ter de levantar desta cama. — passou a mão pelas costas — Mas fazer o que…
— Quanto a isso… — Sebastian se ajoelhou — Peço perdão pelos meus atos.
— Levante-se, não tem do que ser perdoado, já que eu queria.
Levantou-se e pegou o braço de Ciel, havia marcas roxas que vinham do ombro e se estendiam por uma pequena parte do antebraço.
— Suas costas e quadris estão marcados também, não era minha intenção, mas como eu tinha dito antes, esse é o efeito colateral de ter feito comigo.
— Eu não me importo, o que uma boa roupa não possa cobrir? — levantou-se devagar, aceitando a mão que o moreno lhe entendeu.
Satisfeito, Sebastian tratou de vesti-lo. E os compromissos do dia foram concluídos normalmente, sem mais.
.x.
Acordou sobressaltado e suando. As cortinas estavam abertas e Sebastian lhe olhando com certo espanto enquanto segurava a xícara e o bule. O olhar do garoto demorou-se em seu mordomo, para logo irritar-se e quase querer pular da cama para o pescoço daquele demônio.
— Não tens vergonha do que fizestes comigo? — apontou acusadoramente o dedo — Por que tinhas de me engolir em um sonho?
— Vejo que descobristes. — sorriu.
— Não sorrias para mim, achas mesmo que eu não descobriria? — ficou de pé na cama — Que truque mais sujo.
Os olhos de Ciel pareceram perder o brilho assassino, a tristeza o abateu.
— Por que me lançaste esse sonho? Por que mentistes? Quebrastes o contrato sabias?
— Não. A marca ainda continua em seu olho, eu não quebrei o contrato. — aproximou-se — Apenas atendi a teu desejo e fiz o que tanto querias, só que não fora fisicamente.
— Quão baixo os demônios podem ser? — queria recusar qualquer tipo de contato com o mordomo pelo resto do dia, mas não poderia, já que nem um simples laço em seu tapa-olho conseguia fazer direito. “Maldito seja”. — E ao menos posso saber quando o lançaste em mim?
— Bem… logo após eu ter dito “Espero que me perdoe pelos meus próximos movimentos”. — suspirou.
— Desgraçado… — resmungou, deitou-se novamente e agarrou o travesseiro — Por que tens de tornar tudo mais difícil?
— Apenas não quero ter de desfazer a sua pureza assim tão rapidamente, entenda-me, jovem Mestre. — tocou-lhe o rosto — Saiba que me és importante o suficiente para eu ter de tomar essa decisão, e espero que meu amo também a cumpra. — virou-o. Seus dedos deslizavam lentamente pelas bochechas rosadas do garoto — E assim que chegar a hora eu queria que fosse importante, assim como para minha pessoa, como para meu Mestre também.
Ciel continuava calado e repetindo aquela declaração em sua mente, Sebastian ainda lhe massageava as bochechas. Pensou e por fim teve de aceitar, não queria força-lo, assim como não gostaria de ser também. Respeitou a decisão do mordomo e lhe sorriu.
— Então está bem. — suas mãos tocaram os dedos enluvados — Assim que ambos sentirmos que é hora, será. — fora inevitável sentir um leve arrepio ao ver o enorme sorriso de Sebastian.
— Macias…
— Como?
— Suas bochechas são macias. — apertou-lhe delicadamente — Assim como as patas dos gatos.
Sentou-se na cama e puxou Ciel para seu colo, o garoto apoiou-se no peito do moreno enquanto encarava aqueles lindos e exóticos olhos castanho-avermelhados. Suas bochechas eram abusadas por aqueles longos dedos, mas era um carinho que adorava receber.
Entretido, acabara por atrasar em meia hora os compromissos daquela manhã. Mas não fora em vão.
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