Entrenós
1 2016, um início de ano fenomenal.
Notas iniciais
“Dance comigo sobre os fracassos que um dia eu vou cometer.”
Carrossel em câmera lenta- Selvagens a Procura da Lei
********
Tem sempre uma mini-crise na hora de escolher a roupa para reencontrar pessoas queridas. Era isso o que pensava quando vasculhava a mala de viagem, jogando todas as roupas para o lado de fora, ciente de que se minha avó entrasse no quarto naquele exato momento, iria me dar uma vassourada.
Minha irmã já estava inclinada para o espelho oval do quarto, passando maquiagem enquanto fazia caras e bocas. Ela estava linda, sempre soubera vestir-se melhor que eu.
Olhei resoluta para a mala, como se ela fosse a culpada pela minha habilidade nula de decisão. Decidi por minha calça favorita e uma blusa que mais parecia ter sido feita por Homero Britto. Coloquei todas as roupas que estavam no chão de volta para a mala, dobrando só as de cima e dando aquela aparência de arrumado.
Vasculhei em volta, vendo se esqueci algo.
“Perfume? Confere. Franja bem arrumadinha? Confere. Unhas bem modeladas? Confere. Cabelo um pouco mais selvagem do que eu gostaria? Confere. Ar despojado? Confere. Coração saudável prestes a ser quebrado novamente? C.O.N.F.E.R.E.”
********
Minha irmã e eu adoramos suspense, por isso sempre zelamos por chegar pelo menos 15 minutos atrasadas quando vamos encontrar alguém, só para dar aquela sensação de chegar depois de todos e ter os olhares sobre si. Mania de grandeza? Talvez. Ego inflado? Com certeza.
Conhecemos nossa cidade natal de ponta a ponta, de modo que foi fácil chegar ao lugar combinado previamente. Andando na praça, avistei as três pessoas na frente da sorveteria, as três pessoas que passariam dali em diante a fazer parte integral da minha vida, principalmente uma. Não preciso dizer que foi nele que meus olhos grudaram.
Chegamos ao lado da mesa. Três olhares direcionados, dois de pura surpresa, um triunfante. A cara de susto dele é algo que não esquecerei.
—Já tava na hora né? – Natalie levantou e nos abraçou, a única que sabia do nosso encontro. Parabenizei-a silenciosamente por guardar segredo das outras duas pessoas.
Logo que saí do abraço de minha amiga, já me joguei em outro. Gabe sempre fora uma pessoa maravilhosa, fiquei contente em ver que mesmo depois de 2 anos sem nos vermos, ele continuou a mesma pessoa.
Terceira pessoa. Se fosse a filmagem de um filme, a câmera focaria nele e depois em mim, não teria nenhuma música de fundo, meio segundo se passa e nos abraçamos. Não foi tão longo mas foi o suficiente para ser relembrado. Luke estava tão diferente, muito mais bonito do que 2 anos atrás. Malditos genes.
Nada do que aconteceu depois disso precisa ser lembrado, basta dizer que foi um dos melhores dias da minha vida, onde reencontrei meus futuros amigos e futuro amor.
Conversamos muito, eu e Gabe principalmente. Pedi discretamente para ele me por a par de tudo o que estava acontecendo no momento, incluindo Luke.
Luke estava apaixonado. Muito apaixonado por uma garota que não merece lugar na história, não merece inclusive, lugar na vida dele, mas mesmo assim ele estava apaixonado por ela. Não era recíproco.
Todos os meus alertas piscaram naquele momento. Terreno perigoso, eu sabia, mas meu ser era dado a riscos, dado a aventuras com fins trágicos.
Chegou a despedida, eu sabia que aquela noite não poderia terminar, não como se nós não fôssemos nos ver mais. De modo astuto, combinei de irmos na casa de Gabe no dia seguinte, o que foi prontamente aceito por todos. O “todos” não importou muito quando vi que a ideia foi prontamente aceita por Luke.
Naquela noite chorei. Chorei por conseguir uma noite incrível, por ser agraciada com a presença de pessoas que a muito tempo não via, chorei por estar tão feliz que transbordava. Foi a primeira vez que lembro que chorei por felicidade.
********
—Alguém quer nadar comigo? – direcionei a pergunta para as três pessoas deitadas no sofá de Gabe. Natalie e Lara, minha irmã, me olharam com uma cara de tédio. Gabe até parecia querer ir, mas optou pelo conforto.
—Nana, a água tá fria. – Gabe disse, esperando que eu voltasse e me acomodasse ao seu lado novamente.
—Não ligo, nada comigo. – fiz manha, geralmente funciona quando quero algo. – Natalie? Lara? Vamos gente.
Ninguém moveu um músculo. Eu ficaria brava se não fosse tudo parte de um plano muito bem elaborado.
—Então chama o Luke pra nadar comigo, tenho certeza que ele viria.
—Ahh Nana, deixa isso de lado – Gabe me olhou com uma cara de por-favor-não-chama-ele, cara que entendi meses depois.
—Gabe, nós tínhamos combinado ontem do pessoal vir aqui, ele ainda não chegou, chama ele por favoor.
Acabou que por fim Natalie o chamou. Como um bom garoto, ele chegou meia hora depois, recebendo meu abraço molhado da piscina e já tirando a roupa – eu sei, também queria que fosse em outras circunstâncias – para nadar. Algum tempo depois estávamos todos na piscina.
Meus olhos sempre o buscavam, como um imã, mesmo que ele não olhasse de volta. Estava centrado demais se divertindo enquanto eu estava centrada demais prestando atenção nele, em seus traços.
As costas dele era firme e quente, como constatei mais tarde quando encostei meu corpo comodamente naquela parte. Ouvia o ribombar da voz de Luke enquanto ele falava, já que meu ouvido estava colado entre suas omoplatas. Voz grave, diferente da voz feminina do garoto que conheci anos atrás. Foi nesse momento que constatei o quanto havíamos crescido.
Já próximo da hora de ir embora, ficamos todos perto da rede, conversando. Luke secou meu cabelo com a toalha, enquanto aproveitei para esconder meu rosto ligeiramente avermelhado. Fato que deve ter passado desapercebido por ele.
Despedimos do pessoal, com a promessa de nos vermos novamente sempre que eu e Lana formos para a cidade natal. Promessa que foi mantida.
Não posso dizer que me apaixonei a partir do primeiro olhar, ou do primeiro abraço, nem mesmo quando ele tirou a blusa – oh yeah – porém posso dizer que a semente de uma árvore linda seria plantada ali. Uma árvore linda e doente,fadada a ser cerrada desde seu nascimento.
Fale com o autor