Entrelinhas
4 Mais Hamon e a enfermeira italiana
Loggins não havia mencionado, mas eles iriam treinar sobre um enorme poço de espinhos. Com movimentos rápidos, o treinador chegou ao meio do campo e cruzou os braços:
-Certo JoJo, concentre o Hamon na ponta dos seus pés e chegue até aqui. Quando o fizer, tire este ovo chinês das minhas mãos. E cuidado, pois ele é frágil e a Lisa Lisa ficaria uma fera se quebrasse...
-Nah, essa coisica aí? -o jovem coçou o cabelo — Minha bola de futebol americano já acertou o armário de louça de casamento dela, e ela nem ficou furiosa comigo... Só meus gibis que sumiram de uma forma muito peculiar, e o vovô disse que foram as fadas do condado. Nem tem condado em Nova York, droga!
-Você vai ficar aí conversando sozinho ou vai treinar, rapaz? Desse jeito, você vai ter que correr em volta da casa mais do que já ia correr.
Com certa dificuldade e falta de equilíbrio, Joseph caminhou sobre os espinhos e foi seco na relíquia da mãe. Esta, por sua vez, foi lançada por Loggins sobre os espinhos, provocando uma ponte por parte do rapaz e o dolorido contato com as pontas:
-Caramba, isso aqui tá tão afiado que eu consigo cortar o cabelo com dois desses.
-Você se machucou?
-Não não, isso aqui é mais confortável que a poltrona do meu vô. Ó, eu garanto! -ele sorriu irônico — MAS É CLARO QUE EU ME MACHUQUEI, DROGA! VOCÊ JOGA O OVO POR AÍ COMO SE FOSSE UMA PETECA, QUERIA QUE EU CAÍSSE EM CIMA DE UM TRAVESSEIRO?
-A sua reação foi deveras impressionante. Eu não disse nada, e você se dispôs a proteger o ovo... Hmm... É uma pena que eu tenha envolto ele em Hamon, e por isso ele não quebrou.
-Então você quer quebrar o ovo da mamãe, e jogar a culpa em mim?
-Basicamente. — Loggins deu de ombros — Esse é o seu primeiro treinamento. Quando conseguir, poderemos ir adiante e quem sabe você se torne um Mestre em Hamon.
Mais uma vez. Loggins se moveu para outro ponto e pôs o ovo sobre um espinho, cruzando os braços e fechando os olhos. Joseph entendeu isso como uma "colher de chá" e mais uma vez avançou seco no objeto de treino. Centímetros antes que o aprendiz chegasse, o professor chutou o objeto para o alto, trazendo uma expressão de desespero ao rosto do Joestar:
-Ei JoJo, onde pensa que vai?!
-Vou buscar aquela coisa.
-Você não pode sair da arena!
-Ah, cala a boca, seu sem sobrancelha! Vou salvar a minha pele, ou meu nome não é Joseph Joestar!
Quase engatinhando sobre os espinhos, Joseph conseguiu chegar ao chão de pedras mais uma vez. Acompanhou o trajeto apenas olhando pra cima e, de repente, caiu na enorme piscina. A única coisa que conseguiu ficar para fora fora sua mão direita, que conseguiu pegar o objeto... Mas não se parecia com um ovo. Assim que ele saiu da piscina, saltou várias vezes para escorrer a água do corpo e de repente ouviu um riso feminino à sua direita. Pernas brancas, um vestido azulado com avental e braços brancos segurando um cesto de roupas secas:
-Você entende inglês?
O risinho se repetiu:
-To-a-lha. Pegou? Eu quero uma toalha.
A garota deu ré e voltou para a área de serviço sem deixar que Joseph visse suas costas. Minutos depois, ele se lembrou que estava no meio de um treinamento e resolveu analisar o objeto que tinha nas mãos: Uma bola de baseball. Uma maldita bola de baseball. Queria fazer Loggins engoli-la com farinha no jantar. Furioso, retornou ao campo batendo os pés:
-Que porra de bola de baseball é essa?! Cadê o ovo chinês?
-Eu disse pra não sair da arena.
-Mas ele tava ali, e você chutou e... Como é que aquela coisinha virou essa coisa redonda e maciça?!
-Pague flexões aqui. 120.
-Cara, o chão é só fora da arena.
-Aqui.
-Você deve estar brincando... Só pode ser.
-Eu não brinco em serviço, JoJo. Vamos, cento e vinte ainda é pegar leve.
Contrariado, ele acatou a ordem. Porém, sua esperteza o presenteou com uma ideia levemente menos dolorosa: Fechar os punhos, e deixar os espetos entre os dedos. Conseguiu tranquilamente até a vigésima quarta, quando Loggins decidiu pisar em suas costas:
-Que diabos está fazendo?!
-Eu não disse que ia dificultar?
-Argh, não...?
-Ah, pois bem... JoJo, eu vou dificultar. Pronto, eu disse agora. -ele sorriu satisfeito
-Argh, maldito.
-Olha como fala com o seu treinador! -o homem sem sobrancelhas subiu nas costas do garoto — Agora, JoJo, as outras 96 flexões estão te esperando. Vamos, vamos, ritmo!
Joseph levou quase duas horas para conseguir terminar as flexões propostas. Depois daquilo, já com o corpo todo espetado, o treinador sugeriu um treino de contato: Os dois amarraram um pequeno pires em seus peitorais e, quem conseguisse quebrar o pires do outro primeiro, era declarado vencedor. A energia do Joestar já se aproximava do zero, mas mesmo assim ele se pôs em posição de combate. Dessa vez, foi Loggins a avançar contra ele com a palma das mãos. Em uma de suas investidas, ele deixou a guarda aberta, o que permitiu ao garoto saltar e chutar o chapéu do treinador:
-Como você...?
-Qual o problema, Logginszinho? Será que está se aproximando da hora de dormir e, porventura, você está com soninho?
-Foi uma bela estratégia, JoJo. Mas não se vanglorie tanto, ela não será repetida. -ele estalou os dedos e o pescoço
Mais uma vez, insistiu nas investidas com a palma das mãos. Agora, com um acréscimo: Seu joelho direito ia na direção de Joseph para acertar seu estômago. Isso funcionou uma vez, e quase puíu o pobre pires. A energia do pobre garoto já era negativa, e seu corpo clamava por descanso. De repente, ele pisou em falso entre dois espetos e acabou fazendo uma abertura (de dor):
-Pera um pouquinho, essas coisas estão mexendo?!
-Você entrou na Zona de Perigo, JoJo.
-Será que não dá nem pra facilitar um pouquinho? Daqui a pouco vão ter que me carregar num caixão.
-Não aguenta o treinamento? Pois bem, eu acredito na Zona de Perigo. Ela vai definir se você é digno de continuar aqui em Air Supplena ou não. Você é um idiota fraco!
Joseph recompôs sua postura e apontou o dedo, furioso, para Loggins:
-Ei, maldito, que história é essa de me chamar de idiota?!
-Eu fui bem claro. Volte já para o colinho de sua avó, porque você é fraco demais pra estar aqui.
Citar Erina talvez tenha sido o pior erro do treinador. Por um momento, o garoto sumiu do seu campo de visão. Aquilo o fez olhar para os lados, um pouco atônito. Ele não estava em lugar nenhum:
-Sua próxima frase será: "Onde você se meteu, JoJo?!".
-Onde você se meteu, JoJo?! Hã?!
Do meio dos espetos móveis, Joseph emergiu num uppercut acertando desde o pires até o queixo de um Loggins atirado para fora da arena:
-Hamon: Rising Sun Overdrive!
Os espetos pararam de se mover sob seus pés, e ele pode caminhar para fora da arena:
-C-Como foi que você...
-É uma técnica Joestar. Patente requerida.
-Você se saiu muito melhor do que eu poderia esperar. Está dispensado.
Ele bateu as mãos nas calças e, no primeiro passo para dentro da mansão, ele caiu urrando de dor e rolando de um lado pro outro. A imagem de duas canelas brancas em sua frente confortou a sua mente, fazendo-a desligar. De alguma forma, quando acordou, ele estava em uma cama e alguém passava um pequeno pano com álcool em suas feridas. Talvez pelo esgotamento, sua visão estava deveras borrada e a cabeça doía como se uma marreta tivesse acertado sua testa a 90 km/h:
-Ei ei ei ei, vai com calma aí. Essa coisa arde!
A voz era feminina, e se assustou:
-Não precisa parar. Eu só disse pra ir com calma.
-Deixe ele. -era Caesar — A Maestra Lisa Lisa precisa de você lá embaixo.
A garota recolheu o que estava lá e levou embora numa bacia de metal. Joseph reconheceu pelo reverbe das coisas que eram, literalmente, jogadas:
-Caesar?
-Quê?
-Por que você não tá todo arrebentado também?
-Eu estou, mas sou mais resistente que você.
-Tá brincando? Isso aqui é como brincar no quintal lá de casa: Quase nada. -ele riu sozinho, sem graça
-Tá... Sei. Enfim, o jantar tá pronto. Eu vim ajudar você, a pedido da Maestra.
-E de onde foi que você tirou que eu preciso da sua ajuda, Caesarino?
-Talvez porquê, no primeiro dia de treinamento, você está em um estado vexatório?
-O que, isso? Eu tô ótimo, é sério.
-Então fique de pé.
Dito e feito, o Joestar estava de pé:
-Então vamos. A Lisa Lisa detesta atrasos.
-Já tô indo.
Caesar desceu as escadas e Joseph se arrastou pela parede para descer. Lá embaixo, todos estavam à mesa e o garoto se guiou pelo sim dos talheres:
-JoJo, recomponha-se. -era a voz de sua mãe
-Não dá pra ver, aliás, nem eu consigo ver direito também, mas eu tô tentando.
Sentiu algo no rosto e, de repente, a visão clareando. Conseguiu ver a mão da mãe tocando seu rosto e tirando a máscara. Nisso, ele recebeu um prato servido da outra mão de Lisa Lisa:
-Coma.
-Espera aí, por que ele ganha um prato pronto e eu tenho que servir? — o italiano reclamou
-Caesar, coma.
-É porque eu tenho privilégios, Caesarino. -JoJo vangloriou-se
-Nem um pio sobre esse assunto. -ela o encarou, séria
-Tá... Foi mal aí.
O prato foi limpo numa velocidade incrível. Resolveu, então, servir mais salada de batata e peixe quando:
-Ei, você aí, eu te conheço. Caesar, é ela, não é?
O loiro não respondeu. Estava ocupado comendo e ignorando Joseph:
-A gente se conheceu ontem à noite, não foi? Lembra de mim?
-Pode sair. -Lisa Lisa vociferou
A garota sumiu para a cozinha. O garoto terminou de comer e teve a máscara recolocada. Embrenhou-se para a cozinha, em busca da garota. A encontrou na área de serviço, virada para o tanque:
-Você é... a Suzie, não é?
-E-eu não posso me relacionar com você aqui. São regras da signora Lisa Lisa.
-Fica tranquila, ela não vai fazer nada comigo. A gente pode, pelo menos, conversar?
-Ela vai brigar comigo! Por favor, entenda...
-Jogue a culpa em mim. Se precisar, eu venho assumir na frente dela.
A garota respirou fundo e continuou a movimentação de seus braços:
-Tá bem, vamos falar baixo. Sente-se aqui do lado, assim não vão te ver se chegarem à porta, e digo que estou conversando sozinha.
Ele acatou, e tomou o lugar:
-Essa máscara é incômoda. Droga, quero ficar livre desse troço logo!
-Você tem um rosto tão bonito... -ela suspirou
-O que você disse?
-E-eu falei que estou fazendo um trabalho bonito! Sim, foi isso aí! -ela riu baixinho
-E aí, que dia a gente vai passear de novo?
-Eu só tenho folga aos fins de semana, e preciso levar sopa para uma família de órfãos que mora no final da minha rua. Não sei se você vai poder sair daqui.
-Não se preocupe, eu dou um jeito. Nem que pra isso precise nadar cachorrinho até a outra margem.
Ela ficou em silêncio, apenas esfregando o tecido que tinha nas mãos:
-O que você faz aqui?
-Como eu disse, sou a assistente da signora Lisa Lisa. O que ela pedir pra fazer, eu faço. Principalmente, cuidar da casa.
Ele ergueu o braço esquerdo, olhando os pontos machucados pelos espetos da Zona de Perigo:
-E desde quando cuidar dos meus ferimentos é cuidar da casa? -ele sorriu, olhando de lado para ela
O barulho do sabão em barra caindo dentro do tanque entregou a expressão da garota:
-Sua próxima frase será: "Ma-mas... Como você...?". -ele sorriu, esperto
-Ma-mas... Como você...? Hmmm?!
-Fala sério, minha mãe não teria feito aquilo. E a vovó Erina está a milhas daqui. Por falar nisso, suas mãos são suaves. Nem parece que você cuida da casa.
Ela ficou congelada, talvez pela vergonha que estava sentindo, ou talvez porque estava espantada por ter sido descoberta:
-Deixa eu adivinhar, você pediu para o Caesar não dizer uma palavra à Lisa Lisa sobre estar cuidando de mim. De qualquer jeito, valeu por fazer isso. Eu vou pensar em algum jeito de te pagar, talvez a gente vá tomar sorvete da próxima vez, ou outra coisa. Mas eu prometo retribuir, palavra de escoteiro! Agora, se me der licença, eu tô só a poeira. Boa noite pra você, Suzie.
Joseph sumiu para dentro da casa. Pouco a pouco, Suzie Q conseguiu recuperar o fôlego e viu seu reflexo na água do tanque: Estava vermelha, e sorrindo:
-Oh JoJo, mi fai così disorientata. Tu sei bello come il sorgere del sole...—e voltou a esfregar
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