Entrelinhas

2 A Grande Guerra e o treinamento de Hamon


Numa tarde de domingo, a bolsa da jovem Erina se rompeu, e Jonathan correu a cidade por um médico. Jorge Joestar nasceu naquela casa, forte e saudável. Ele e Lisa Lisa foram criados como amigos, não como irmãos. Essa amizade, pouco a pouco, foi revelando-se um sentimento mais afetuoso. Numa tarde de brincadeiras no quintal:

-Lizzie!

-Aqui! -a jovem estava sentada costurando um pano

-O que acha, eu sou forte? -o jovem Jorge erguia um pequeno toco de madeira em um dos braços e exibia o bíceps com o outro

-Você está engraçado todo sujo de terra, Jorge.

-Você não me acha bonitão e sarado?

-Se você achar que "sarado" é parecer a lona que o papai usa pra cobrir a caminhonete...

O garoto desfez a expressão confiante de seu rosto:

-...porém, você é bonito sim. -ela sorriu, cobrindo o rosto com a tarefa em mãos

Certa vez, Jorge procurou por seu pai:

-Entre. -Jonathan estava em sua biblioteca, respondendo uma carta

-Papai? -o jovem Jorge Joestar trajava roupas de jóquei

-Sim, meu filho?

-Eu preciso ter uma conversa de homem pra homem. O senhor tem um tempo?

-É claro que sim. -ele fez menção para que Jorge tomasse lugar no sofá e deixou os óculos sobre a escrivaninha — Aceita chá?

-Sim, obrigado.

Após a primeira golada do chá de ervas preparado pelas mãos habilidosas de Erina e com auxílio de Elizabeth, o garoto encarou os olhos do pai:

-Jonathan Joestar. Eu, Jorge Joestar, assumo ter interesse em Elizabeth Joestar, jovem donzela com quem fui criado e passei ótimos momentos em sua companhia. Gostaria da sua aprovação para assumir um compromisso sério com ela, e consequentemente, tê-la como minha futura esposa. -ele suava nervoso

Jonathan bebericou do chá, encarando o filho, e sorriu quando pôs o pires e a xícara sobre a mesa:

-Jorge Joestar. Eu, Jonathan Joestar, na condição de patriarca do clã Joestar, manifesto minha aceitação de sua proposta e permissão, desde que consentida pela jovem Elizabeth Joestar, quanto ao relacionamento.

Os dois caíram na risada. Talvez porque tamanha seriedade nunca fora tida entre pai e filho. E, com a risada, as garotas apareceram na porta:

-Eu e a Lizzie gostaríamos de entrar na brincadeira também. O que é, um concurso de melhores piadas? -Erina sorriu, trazendo mais chá e um bolo recém feito por elas

-Estávamos tendo uma conversa de homens, minha querida. Elizabeth, meu bem.

-Sim, pai?

-Acredito que Jorge tenha algo a lhe dizer. Melhor, a pedir.

A garota de cabelos negros deu um passo a frente e sorriu, encarando o jovem jóquei:

-Elizabeth Joestar, aceita ser minha namorada?

Ela levou as mãos ao rosto e buscou os olhares dos responsáveis. Jonathan sorria tanto quanto Erina. A resposta era nítida para a jovem:

-Oh sim, mil vezes sim!

Os jovens envolveram-se num caloroso abraço. Erina serviu o chá e pediu um momento a sós com Jorge, deixando Elizabeth e Jonathan no cômodo:

-Papai, você tem certeza disso?

-Prefiro que você me diga, Elizabeth. Não gostou?

-É claro que sim! Eu sempre amei o Jorge, mas fomos criados juntos... Não seria um relacionamento entre familiares?

Já era hora da garota saber a verdade. Jonathan contou o episódio para ela sobre sua origem e, quando mencionou seu Hamon, a garota resolveu questionar sobre aquilo. Lembrando-se das palavras do Senhor Zeppeli, ele explicou tudo da forma que ouviu e aprendeu com seu mestre. Elizabeth saltou do sofá, clamando para aprender aquilo da forma que fosse possível:

-E-eu não sei se tenho capacidade suficiente pra te ensinar, Lizzie. Sou um mero aluno. -desculpou-se

-Mas... Não tem ninguém que possa me ensinar?

-Eu acredito que tenha. Vou pedir ao Speedwagon que traga ele quando vier à América.

-Pelo menos, posso aprender o que você sabe?

-Não sei se a Erina ficaria feliz com isso, mas podemos tentar.

Os dois deixaram o cômodo e foram para o quintal. Jonathan usou o dedo mindinho para pressionar o corpo da garota e fazê-la sentir a pequena onda enviada. Aparentemente, o intuito tivera sucesso. Então, ele ensinou-a o truque da respiração, e a forma de conduzir a energia concentrada para o punho. A garota era boa naquilo, porém, era o máximo que Jonathan sabia e, consequentemente, podia ensinar:

-É isso?

-Bom... O que eu sei, é. Mas espero que ele possa treinar você.

-E quem seria "ele"?

-O senhor Straits. Um homem que conheci quando confrontei o Dio. Ele, o senhor Dire e o senhor Zeppeli eram discípulos do Mestre Tonpetty. Acredito que o senhor Straits já deva ser o sucessor do Mestre. Ele pode te ensinar para além do que eu sei.

A garota respondeu com um sorriso e um olhar fascinado. Logo Erina apareceu, acompanhada por um Jorge reclamante:

-Pai, eu também posso aprender essa técnica? Parece ser interessante!

-Eu não sei... Acho que sua mãe já vai brigar comigo por ter ensinado à Lizzie sobre isso.

Erina sorriu e balançou a cabeça para os lados:

-Ebaaaa! É a minha vez!

Jorge passou pelo mesmo treinamento que Elizabeth, porém seu sucesso não fora espantoso como o da garota:

-Ah droga, eu errei...

-Não se preocupe, podemos fazer isso o dia todo. Você vai conseguir, filho! Concentre-se e acerte.

O garoto deveria usar o Hamon em uma folha e abrir um corte na pedra. Os dois treinaram até que Jorge concluísse a tarefa atribuída. Para isso, foram precisas quase todas as folhas da árvore, e a paciência de Jonathan. Depois de concluído, Jonathan retornou ao escritório e correu para enviar a carta a Robert E. O. Speedwagon. Erina voltou para seus afazeres, deixando os dois a sós no quintal:

-Ei, Jorge...

-Quê?

-Quer treinar?

-Eu não vou bater em você, Lizzie.

-Tá com medo de perder? -ela sorriu, desafiadora

-Pff... Pra você? Certo... Então pelo menos troque suas roupas. Não quero ouvir a mamãe me xingar por sujar o seu vestido.

Momentos depois, a garota voltou com roupas mais folgadas e descalça

-Vamos lutar assim? -Jorge atirou a camisa e os sapatos para longe — Muito bem, mas lembre-se: Foi você que pediu, Lizzie.

Os dois tomaram suas posições como dois lutares de boxe. Jorge avançou com um direto em direção à garota, mas esta desviou e usou a palma da mão para jogar o adversário de cara na lama. Irritado, ele cruzou as pernas na cintura da garota e a fez desequilibrar e cair sentada em outra poça de lama. Os dois riram:

-Empate?

-Você foi bem inteligente. Eu estava distraída, senão teria sido vitoriosa.

-Lizzie, eu não perderia pra você.

-Sabe Jorge... Esse seu jeito de insistir até vencer. Se tivermos um filho, quero que ele herde isso.

-Ele vai. -o garoto limpou o rosto na camisa — Um Joestar que desiste não é um Joestar. Acho que é filosofia de George Joestar I. Papai me contou isso um dia.

-Então você só age assim por ter ouvido que é atitude de um Joestar?

-Não, eu sempre agi assim. Derrota dá um gosto ruim na boca, mesmo que seja pra perder pra garota mais linda que eu já vi. Eu não posso admitir perder. Só se não tiver jeito, aí é melhor nem criar confusão e...

A expressão de Elizabeth estava congelada e fixa em Jorge:

-Que foi?

-Não, é que... Você disse "perder pra garota mais linda que você já viu"...

-Tá, e o que tem? Você acha mesmo que tem uma garota mais linda que você, Lizzie?

-V-você é quem tem que dizer isso! -ela encarou a cerca branca do quintal

Nisso, o Joestar se aproximou da jovem caída na lama e pôs a mão em seu rosto:

-Ei, eu tô aqui.

O rosto branco da garota aderiu à cor rosa. Jorge a beijou e passou o dedo sujo de lama na ponta de seu nariz:

-J-Jorge...

-Eu amo você, Elizabeth Joestar... Joestar? Espera, será que o seu sobrenome vai ser duplicado? Hmm... O que você acha?

Ela apenas sorriu, encarando o namorado.

Speedwagon e companhia chegaram dias antes da festa de aniversário de Elizabeth. Ele e Straits vieram sob convite de Jonathan. O primeiro, portando a cartola do senhor Zeppeli e um novo terno que dava-lhe um ar de nobreza que jamais tivera. O segundo, com suas vestes longas e cachecol. Reunidos, o loiro explodiu:

-Senhor Joestar, senhorita Erina, eu preciso muito dizer uma coisa a vocês!

-Diga, Speedwagon. -Erina sorriu, de braços dados ao marido

-Eu fiquei milionário! Descobri óleo e vendi a valores altíssimos, inaugurando assim meu empreendimento, de nome Fundação Speedwagon. Por fora, é uma companhia que explora óleo e vende para as indústrias. Até entrei num empreendimento de carruagens motorizadas, chamadas de automóveis. Estou investindo bastante, e talvez arriscando o nome de um Speedwagon "recém-nascido". Porém, meu real intuito é continuar o seu estudo, senhor Joestar, sobre a Máscara de Pedra e sobre o Dio. Estou conseguindo reunir pessoas interessadas nesse assunto de diversas áreas.

-Isso é ótimo, Speedwagon! Ficamos felizes por sua conquista.

-E eu estou colaborando com os estudos. -pronunciou Straits — Não sou tão inteligente, mas colaboro com o Hamon e sua filosofia.

-Por falar em Hamon, senhor Straits, há algo que eu preciso pedir a você.

O homem de cabelos longos sorriu, e prontificou-se para ouvir o que o Joestar iria dizer. O pedido não lhe pareceu algo tão "vergonhoso", para a forma que Jonathan abordou. Então, pediu a presença da aniversariante:

-Muito prazer, eu sou Elizabeth Joestar. Você deve ser o senhor Straits.

-Eu mesmo, é um prazer. Chegou aos meus ouvidos a notícia que a jovem gostaria de treinar o Hamon, está correto?

-Sim! -seus olhos cintilavam de alegria

-Certo. Então, quando você fizer 18 anos, eu voltarei aqui e levarei você para o local de treinamento. Porém, saiba que você não poderá ver sua família por um pelo menos uns 10 anos.

-10 anos? Isso é muito tempo... Eu posso ver o Jorge?

-Fique tranquila. Se você conseguir dominar o Hamon, o treinamento será mais curto e aperfeiçoar as técnicas será seu trabalho individual. O que me diz?

A garota olhou para o chão encerado de sua casa e pensou um pouco. Depois, encontrou o rosto de Straits e, confiante, aceitou a proposta. O homem, então, combinou aquela mesma data, alguns anos à frente. Do outro lado, Jorge, Speedwagon e Jonathan conversavam sobre o futuro próspero do mundo:

-O que você espera desse novo século, senhor Joestar?

-Não sei. Talvez os homens aprendam a voar como os pássaros, ou esse tal automóvel seja algo bom para a civilização. E talvez a energia elétrica chegue a todos os lugares também.

-Ouvi dizer que dois americanos conseguiram se lançar no ar. E um homem no Brasil conseguiu voar mesmo. Com motor e tudo mais.

-Preciso conhecer esse homem! -Speedwagon saltou e quase derrubou a taça — A Fundação tem muito o que discutir com a genialidade desse senhor. Preciso expandir o nome exterior dela.

-Calma, Speedwagon. Não sabemos como é esse tal Brasil.

-É um bom país. A Coroa Inglesa vivia arrumando o que fazer por lá no século passado.

-É, mas agora são independentes e republicanos.

-Oh... Isso é um pouco ruim. Mas mesmo assim, vou procurar o próximo navio para lá assim que puder!

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A Grande Guerra eclodiu. Já havia algum tempo que Elizabeth estava treinando com Straits na Ásia, e os homens Joestar foram convocados para aquele evento que assolava o mundo. Aparentemente, o tal automóvel e o avião foram popularizados com a ajuda da Fundação Speedwagon, que ganhou um tremendo nome no território inglês. Jorge Joestar se tornou um dos pilotos da Força Aérea Real, e Jonathan se tornou médico. Seu Hamon deixava o exército boquiaberto. Quando a Guerra acabou, Jonathan foi condecorado com a honraria máxima que qualquer médico jamais imaginaria em receber. Já Jorge, este ganhara seu rosto estampada na referência aeronáutica do Exército Britânico. Retornaram para casa sãos e salvos, para o espanto de Erina e a recém-chegada Elizabeth:

-Jorge, você está bem! E você está mais bonito. Acho que a Guerra te fez bem. -ela riu

-Fazer o que, homens precisam resolver as coisas como homens resolvem as coisas. E Lizzie... Eu andei pensando, e já até discuti isso com o papai anteriormente...

-Sobre o que?

Jorge pôs-se de joelhos ali mesmo, de farda e quepe na cabeça, mantendo o olhar fixo na amada:

-Elizabeth Joestar, aqui, na frente das pessoas que nos criaram e nos tornaram as pessoas que somos hoje... Quer se casar comigo?

-Mas claro que sim, Jorge! Que pergunta boba é essa?

Ele sacou a caixinha do bolso e exibiu o anel de safira que trouxera de Londres. Colocou-o no devido lugar e beijou a mão da jovem. Foram aplaudidos pelo sorriso sincero dos responsáveis. A mão de Jonathan parou sobre o ombro do filho:

-Estou orgulhoso de você, garoto. O sobrenome Joestar é algo que você faz honrar-se o tempo todo.

-Também estou muito orgulhosa de você, amor. Você se tornou um homem incrível como seu pai! Não que eu já não esperasse isso... -ela sorriu outra vez, olhando para o marido

-É... Talvez a Erina tenha dito isso uma certa vez, e devo dizer que ela estava certa esse tempo todo.

O casamento fora marcado e feito da maneira mais elegante o possível. E, com ele, o sucessor do nome Joestar também havia sido encaminhado. Jorge e Elizabeth arrumaram-se num apartamento próximo ao dos pais, também construído pela fortuna Joestar que rendia até o dia em questão. E, com a popularização da Fundação Speedwagon, a fortuna Joestar não conhecia "tempos difíceis".

E nove meses depois, Joseph Joestar era concebido ao mundo. Nascera num hospital da cidade, forte e saudável como seu pai. Seu primeiro presente fora um cachecol tricotado pela própria avó e um conjunto de roupas de bebê com suas iniciais. Não demorou muito para que ele e Elizabeth estivessem em casa, sendo paparicados pelo pai e pelos avós de primeira viagem.