Kabuki-cho estava barulhenta e animada como sempre, mas definitivamente o Shinsengumi estava mais. Hijikata estava particularmente irritado naquele dia e por mais que Sougo quisesse tentar irritá-lo ainda mais, preferiu sair do quartel general para não ter que ouvir as ordens gritadas do superior e o aroma desagradável de cigarro duas vezes mais forte, já que Hijikata fumava ainda mais nesses dias. Se bem que o aroma de bebida barata e o ar poluído que ele encontraria nas ruas não seria provavelmente melhor. Enquanto andava, chegou a pensar até que o tenente demoníaco poderia ficar mais irritado ainda sabendo que ele tinha saído escondido, mas ele não se importava de qualquer forma. “Qualquer coisa, estou patrulhando, resolvendo um caso ou dois, cortando os braços de alguns rebeldes... Não importa.”
─ Ei seu moleque estúpido, você realmente acha que eu vou aceitar esse tipo de coisa?! ─ Uma voz familiar surgira há alguns metros. A ruiva estava rodeada por alguns adolescentes, provavelmente mais velhos que ela, e esta estava encarando um deles nada contente.
O policial se aproximou com curiosidade, já com um sorriso sarcástico pronto para iniciar mais um dos seus joguinhos com aquela garota.
─ Ei crianças, qual o problema aqui hein?
─ Ah, sério era só o que me faltava... ─ A garota revirava os olhos impaciente ─ Olha só seu idiota por que você simplesmente não passa direito e não se intromete, sim?
─ Bem eu sou um policial e vocês estão causando uma certa confusão nessa rua ─ Sougo continuou, ignorando a língua afiada de Kagura enquanto os outros ao redor o observavam.
─ Acontece que essa idiota não sabe perder, é isso. ─ Iniciou um deles, o mais alto e com uma cicatriz no rosto, com um sorriso debochado. Eles e os outros três garotos ao redor aparentavam ter uns 17 anos.
─ Eu que não sei perder? Ou você está com vergonha de ter perdido para uma garotinha? ─ Ela rebateu. ─ Agora vai ter que pagar a aposta seu imprestável!
─ Ei Kagura, seus pais não ensinaram a saber reconhecer quando perdeu? Que vergonha... ─ Sougo respondeu com uma voz monótoma, aquela que ele sempre usava para caçoar da ruiva ─ Ela é realmente uma garota mimada não é mesmo caras?
─ Você realmente veio aqui apenas para me atormentar, seu policial de merda?
─ Além de mimada tem uma boca suja! ─ Um outro garoto comentou, enquanto todos riam em concordância. Era como um cerco de deboche.
─ Quer saber? Dane-se, são tantos idiotas num mesmo lugar que se eu continuar aqui por mais alguns segundos eu vou acabar pegando essa doença também. ─ Kagura apontou o dedo para o mais velho ─ Não pense que vai se livrar fácil dessa, seu bastardo! Sorte sua que eu não consigo permanecer no mesmo lugar que esse policial inútil por mais de um minuto se não você realmente estaria em uma situação vergonhosa aqui. Talvez mais tarde você não tenha a mesma sorte.
A ruiva virou-se irritada e rapidamente montou em seu cachorro grande e peludo que foi embora logo em seguida.
─ Ah... Que irritante... ─ Sougo murmurava enquanto os outros olhavam-se entre si.
─ Haha, aquela vadia realmente acha que me assusta? ─ O mais velho debochava, tentando restaurar o clima de ameaça que havia ficado com as palavras da garota. ─ Eu poderia pisá-la antes mesmo dela perceber, só que eu estou sendo gentil hoje... Aquela merdinha.
Os outros riam enquanto continuavam soltando xingamentos e comentários no mínimo inapropriados entre sorrisos debochados enquanto inflamavam seus egos.
─ Não é mesmo, parceiro? ─ O mais velho pôs sua mão no ombro de Sougo.
─ Ah... Sinceramente... ─ O policial num movimento rápido torceu o braço do garoto e colocou sobre suas costas, enquanto posicionava sua espada afiada no pescoço do garoto, que logo substituiu seu sorriso de deboche por uma face atormentada e desesperada.
─ Olha cara... Não me entenda mal, eu também gosto de zoar aquela garota, vai por mim. Mas por que você não tenta falar essas coisas nojentas na frente dela, seu pedaço de merda?
Os outros ao redor permaneciam parados e não ousavam mexer um músculo.
─ Ou será que o que ela disse está certo, hein? Você tem medo de ser derrotado por uma garotinha? Se ela estivesse aqui esse seu sorriso idiota já teria se desfeito há muito tempo com um chute na sua cara. Mas já que ela não está, acho que seria interessante eu fazer isso, só porque eu tô entediado agora.
─ P-por favor!! Me desculpa... eu pensei que... ─ O garoto começava a derramar lágrimas lentamente.
─ Você pode falar qualquer coisa daquela garota, por mais repugnante que seja, mas se você não tem coragem o suficiente pra falar na cara dela e aguentar as consequências, bem, você não tem moral nenhuma pra abrir a boca ou me chamar de “parceiro”.Você é só mais um merdinha covarde.
Sougo tirou sua espada do pescoço do garoto, que já não conseguia segurar as lágrimas, e o empurrou, o que o fez cair no chão.
─ Da próxima vez que eu vir você e esses seus amigos tentando bancar os fodões pra cima daquela garota, eu realmente espero que vocês saibam fazer isso direito. Eu iria adorar ver a cara de vocês toda quebrada.
Os garotos já assustados com as ameaças do policial e temendo o que ele poderia fazer, logo fugiram, deixando apenas uma nuvem de poeira e um saco de doces e algas secas que provavelmente seria o valor da aposta com aquela garota.
─ Esses jovens de hoje em dia... Sinceramente.... ─ Sougo murmurou, com as mãos no bolso enquanto tentava afastar a lembrança de que ele poderia ter a mesma idade que aqueles garotos, mas a ideia de parecer legal falando aquilo o fazia ignorar esse detalhe.
Kagura estava sentada em um dos bancos da praça na qual costumava ir com Sadaharu, irritada demais para brincar com o cachorro e concentrada demais tentando bolar um jeito de fazer aqueles garotos se arrependerem. Era sempre assim, sempre a subestimavam por conta da sua idade e do seu tamanho, mas provavelmente se ela tivesse dado um murro ou dois, eles provavelmente não estariam se vangloriando daquele jeito. Ou se aquele policial idiota não tivesse chegado se intrometendo...
Sua concentração foi interrompida por um dos latidos de Sadaharu, que provavelmente havia cansado de correr sozinho e estava ali na sua frente chamando por sua companhia.
─ Tudo bem Sadaharu... Vamos brincar juntos então...
Mas algo em Sadaharu havia chamado sua atenção. Havia algo familiar pendurado em sua coleira.
Um saco de doces.
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