Entrelaços
1 Lana Woods
Mal podia acreditar que estava vendo novamente aquelas montanhas.
Deixando aquele vento litorâneo modelar meu cabelo.
Sentindo aqueles raios solares que só existem em um lugar do mundo...
...Santa Barbara.
Quantas recordações conseguimos guardar dentro de nós? Quando estacionei meu Fiat Toro na Alameda Yayá, me senti revivendo todos aqueles momentos que achei que estivesse perdido para sempre. Como é bom caminhar por essas ruas novamente, mesmo que agora as coisas já não estejam exatamente como as deixei. Minha casa foi a que mais mudou de todo quarteirão, quem achou que seria uma boa ideia paredes laranja?
Não imaginava sentir aquilo que nem ao mesmo sem nomear, foi como um impulso que me fez avançar escadaria a cima, como se pudesse alcançar novamente minhas idas e vindas passadas. Pus minha mão na maçaneta de cobre e algo me fez parar e pensar racionalmente: Aquela não era mais minha casa! Mas eis um segredinho sobre mim... Eu não sou nada racional.
Quando percebi, já estava no meio da sala. Se a entrada já tinha me causado estranheza, olhar o interior me fez cair na real, aquela não era a minha casa, não mais. Olhava para os lados tentando me situar, tinha quase certeza que uma parede havia sido demolida, o ambiente parecia mais amplo de fato, mas menos reconfortante.
Ainda impactada, comecei a ouvir passos descendo a escada central, mal pude me mover e já estava de frente com um típico corpo bronzeado da Califórnia. Deparei-me com seus negros olhos penetrantes e, num movimento irracional, já estava me guiando entre o modelo de seu abdômen. Vi-me contemplando sua tatuagem de cruz perto da cintura, sua marquinha de bronze, até mesmo seu grande e volumoso... Mal pude terminar meu pensamento, quando fui subitamente repreendida por ele.
— Quem é você? O que ta fazendo aqui?
— Por que você ta pelado? – Disse em histeria.
Rapidamente suas intimidades foram tapadas por uma almofada que se encontrava ali por perto. Mais e mais minha ficha ia caindo, eu estava em uma enrascada com um peladão desconhecido.
— Essa é a minha casa, eu tenho direito em andar pelado!
— Eu sei, eu sei, eu só... É que a porta tava aberta e...
— E você achou que seria tudo bem entrar na casa dos outros?
— Não, você não entendeu...
— Dá o fora.
Sua voz máscula e consistente me vez calar, não poderia explicar o que estava fazendo ali, como dialogar com uma pessoa tão... desprotegida? Aceitei que iria ficar com a fama de louca que invade casas alheias, e talvez eu seja isso mesmo. Se ele pelo menos me deixasse explicar...
Ainda de frente a mim, aquele homem possuía algo que me encantava, não importava o quão bravo estivesse, eu sentia algo diferente vindo dele, algo que talvez não pudesse explicar. Num último sinal para me mandar embora, o cara estica seus braços em direção a saída. A tentativa de me pressionar acabou desabando a almofada no chão, e lá estava a razão de tanta fascinação, só que um pouco mais duro do que antes. Em uma ação rápida ele tentou puxar o objeto de volta pra si, mas eu não esperei mais nenhum segundo para ir embora, minha vergonha era maior do que meu interesse em um belo físico de Santa Barbara.
Entrei no meu carro e partir sem olhar para trás, não foi assim que imaginei encontrar minha casa, em nenhum dos meus sonhos imaginava um peladão avantajado parado na minha sala de estar (Pelo menos não em sonhos comuns). Parti acreditando que só viria aquela casa novamente quando o morador mudasse, e de preferência utilizaria a campainha antes de entrar. Sempre fui uma pessoa que não lidava bem com os próprios micos, com certeza essa cena vergonhosa iria me assombrar por várias noites ainda.
Deixando algumas ruas para trás, agora sim me encontrava no meu novo endereço. Era hora de começar uma vida nova na minha velha cidade litorânea. Aluguei uma casa perto da praia, ela era do jeito que eu queria, não muito grande, mas também não muito pequena, eu diria que na proporção perfeita para uma solteirona e suas tralhas. Sai do carro determinada a esquecer o primeiro vacilo e partir dali a minha nova história. Mas foi por meus pés na calçada para vozes do passado voltarem a tocar meus ouvidos, mais precisamente uma voz. Uma voz doce e acolhedora que fez meu corpo tremer inteiro.
— Lana? Lana Woods? É você mesmo?
Olho para trás e vejo um rapaz montado em sua bicicleta, me avistando com um sorriso incrédulo no rosto. Mas não era qualquer rapaz, era o bom e velho...
— ...Logan Price.
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