Entrelaços
17 Is too soon to say goodbye.
Notas iniciais
MANUELA
Seria alguma dor comparável a da perca de alguém amado? Eu podia jurar que o mundo perdera todas as cores ao observar do lado de fora por uma das janelas laterais da casa dos Ribeiro. As pessoas continuavam a me observar com olhares de acusação, e em partes, até eu me olharia de tal forma. Não tinha como aceitar que aqueles olhos tão vivos e azuis que outrora pareciam imunes a qualquer fator externo, nunca mais se abririam novamente. “A culpa não foi sua!” meu inconsciente tentava me convencer inutilmente, talvez uma forma de defesa as acusações recebidas por tantos olhares.
— Manu! Ei, fala comigo, Manuela. – A voz distante de Filipe livrara-me de meus devaneios.
O dia da morte do David conseguia me levar a nocaute até hoje, aos poucos consegui recuperar os sentidos e comecei a notar que estava em meu quarto, eu parecia ter dormido por anos, tantas lembranças surgiam vertiginosamente que eu mal sabia em que época da vida me encontrava agora, mas de súbito as lembranças do acidente de Isabella tomaram minha mente e o meu choro desesperado tomou conta do ambiente.
— Calma, Manu! Tá tudo bem com a Isa, tenta se acalmar para que nós possamos conversar. – Pediu Filipe, parecendo entender o motivo da minha reação.
Ainda meio atordoada, consegui sentar na cama, sem entender muito o bem o motivo de o mundo estar rodando a meu redor.
— E-eu, como.. – Levei as mãos à cabeça tentando inutilmente aliviar a dor terrivelmente forte que me impedia de formular a frase corretamente. – Me medicaram com alguma coisa? Onde está a Isa? Eu preciso vê-la, o que aconteceu com ela? – Indaguei de uma só vez.
— Ei, vamos com calma, tá legal? Primeiramente, sim, você foi medicada e possivelmente ainda deve estar meio grogue, ainda no local do acidente você desmaiou quando viu a Isabella dentro do carro e bem, ao acordar no hospital você teve um pequeno descontrole emocional e foi preciso que os enfermeiros lhe aplicassem um sedativo. – Explicou meu amigo com o a voz calma. – A Isabela por um possível milagre não teve algo mais sério que ferimentos superficiais, ela está bem, apesar do braço imobilizado e alguns cortes de certa profundidade. A Isa ainda está no hospital Saint Anne, vai ficar em observação até o fim da semana por exigências da mãe. E por fim, temo que você não possa vê-la por enquanto. – Finalizou.
Demorei um pouco a assimilar todas as informações, mas tomou toda a minha atenção.
— Eu tanto posso que vou ver a Isabella agora. – Falei tentando me levantar.
Filipe parecia já esperar minha reação e logo voltou a falar me conduzindo de volta a cama.
— Você não deve lembrar, mas... Como eu posso dizer isso? – Falou quase que pra si mesmo.
— Diz de uma vez, Filipe. – Reclamei impaciente.
— Bem, você meio que rebateu as acusações da mãe da Isabella quando ela te viu no hospital e fez todo aquele discurso, usando o argumento de que amava a filha dela e não sairia de perto do amor da sua vida. E sim, você usou exatamente essas palavras. — Concluiu Filipe.
— Ah, Meu Deus! Eu não, n-não fiz isso! – Disse ao mesmo tempo em que começava a lembrar da discursão. – Quanto tempo eu dormi, Filipe? – Questionei confusa.
— Algo perto de umas 19 horas! – Respondeu o rapaz.
— Onde estão os outros? O Tavinho sabe do que aconteceu? – Voltei a questiona-lo.
— O Arthur está na fazenda com o Tavinho, ele e o Léo acharam melhor deixa-lo avulso aos acontecimentos recentes, explicaram de uma forma genérica. O Leonardo foi providenciar o jantar e a Amanda continua no hospital. – Respondeu enquanto me ajudava a levantar de forma definitiva daquela cama.
— Ótimo! Vou me trocar e nós iremos pra o hospital! – Anunciei.
Filipe me olhou com um olhar repreensivo, mas pareceu saber que não adiantava contestar, revirou os olhos e seguiu até a porta.
— Você não toma jeito, né? Te espero lá em baixo, mas saiba que só sai dessa casa depois que estiver em condições. – Falou para em seguida se retirar do cômodo.
ISABELLA
A primeira coisa que eu senti antes mesmo de abrir os olhos foi dor, uma dor aguda que se espalhava por varias extremidades do meu corpo. Meus olhos pareciam ter problemas com a luminosidade do local, então optei por mantê-los fechados. Aos poucos alguns flashes do momento do acidente iam tomando a minha mente, a estrada escura, o tempo fechado, a árvore que mais parecia ter surgido de forma repentina, e por fim, o impacto. Consegui lembrar quase tudo que ocorrera antes do acidente, estava consciente o suficiente pra concluir que eu precisava vê-la, e com uma urgência desesperadora. Esforcei-me o quanto pude em busca de chamar por seu nome.
— Manuela. – Falei com um fio de voz.
— Isa, meu amor, você acordou. – Ouvi a voz conhecida, e senti mãos tocarem as minhas de leve.
— M-mãe, eu preciso ver a Manuela. – Prossegui ainda com a voz muito baixa, porém o mais alto que conseguia.
— Minha filha, você precisa descansar! Esqueça essa moça que anda sujando o próprio nome e o de nossa família. Você quase morreu! Por Deus, Isabella. – Falou com o tom de voz por instável.
Permaneci calada por falta de forças para pronunciar o que quer que fosse, abri os olhos por poucos segundos, apenas o suficiente para conseguir saber onde estava e encontrar a aparência cansada de minha mãe, o que era raro de ser visto. Me rendi à falta de forças e senti todos os meus sentidos indo embora de forma instantânea.
MANUELA
De todas as coisas inusitadas que nós fazemos na vida, nada parece ser louco ou estranho demais quando é feito por amor, a sensação da quase perca do amor da sua vida, faz você não ter medo algum ou hesitar em se arriscar de qualquer forma que seja. Concluí isso enquanto vestia aquele uniforme de enfermeira um numero menor que o meu, e que com certeza chamaria mais atenção do que deveria. Aquele depósito minúsculo não facilitou em nada o meu progresso em vestir aquela roupa.
— Você é mesmo louca! – Exclamou Amanda sem conter o riso.
— Para, Amanda! Isso é pela Isa. Mas que droga de hospital difícil de passar pela segurança. – Reclamei com tom de frustração.
— Vai dar tudo certo! A enfermeira falou que a mãe da Isa vai sair do quarto em minutos, e eu vou te dar cobertura. E sabe, quanto a você, nada mal pra alguém que teve um colapso nervoso e ainda está sob o efeito de calmantes. – Falou a morena.
— Eu já estou bem, Mandy! E nem que me aplicassem outro sedativo, eu deixaria de ir ver a Isabella. – Retruquei.
— É admirável, o amor de uma pela outra! Vocês têm sorte. – Acrescentou Amanda antes de deixar o corredor.
ISABELLA
Eu já tinha conseguido um grande progresso àquela manhã, desde fazer refeições a conseguir tomar banho, com uma pequena ajuda, é claro. Não consegui entender a relutância da minha mãe em me deixar ligar pra a Manuela. Eu não podia receber visitas, o que me restringiria à presença apenas dos meus pais e funcionários do hospital pelo menos até o fim da semana. Minha mãe comentara a respeito da presença de Leonardo, Filipe e Amanda no hospital em busca de noticias minhas, mas o nome de Manuela nem ousou ser mencionado.
Apenas no fim da manhã, consegui convencer minha mãe de que ela precisava sair daquele quarto e que as enfermeiras cuidariam do que fosse necessário, visto que as dores tinham diminuído bastante devido a quantidade de medicamentos. E foi logo após sua saída que eu vi aquela silhueta mais do que conhecida, vir em minha direção.
— Eu quase morri sem poder te ver! Como você está se sentindo, meu bem? – A voz mais doce do mundo ecoou pelo quarto.
— Eu já estava achando que você não viria, e quanto a meu estado, apenas algumas dores. – Respondi sorrindo com a sua aproximação.
— O que diabos você pensou, quando saiu daquele jeito? Nunca mais cometa tal imprudência! Eu achei que tinha perdido você, Isa. – Falou deixando algumas lágrimas caírem enquanto acariciava o meu rosto.
— Tá tudo bem agora, só fica comigo! – Pedi, puxando-a para deitar-se a meu lado.
Nos entreolhamos por algum tempo e senti tanto os lábios quanto o corpo de Manuela se unirem aos meus, num beijo que podia ser descrito quase como que celestial de tão perfeito. Aos poucos o beijo tomou proporções maiores e eu deixei o momento fosse conduzido por ela. Afastamo-nos com relutância.
— Eu te amo tanto, Isa! Saiba que você não tem o direito de me deixar. – Disse enquanto afagava meus cabelos e me encarava com aquele olhar verde e intenso.
— Eu que amo você, Manuela! Sempre amei, você sabe. – Respondi para em seguida voltar a beija-la.
Se não fossem as batidas na porta, não creio que nos afastaríamos tão cedo.
— Esse é meu sinal, eu preciso ir agora. – Anunciou levantando-se da cama e me dando um ultimo beijo. – Eu andei discutindo com a sua mãe, então não creio que possamos nos encontrar novamente aqui no hospital, eu só queria ter certeza se você estava bem. – Explicou.
Antes que ela pudesse sair, percebi que ela estava vestida com um uniforme de enfermeira e não pude conter o riso.
— Nós daremos um jeito de manter contato, de qualquer forma. Ah, e só mais uma coisa que eu não sei se você reparou, você sabe que esse uniforme é de uma loja de fantasias, não é? – Indaguei sem conter a gargalhada.
— É, foi o máximo que eu consegui, problemas técnicos! Acho que seria mais discreto ter continuado com a roupa anterior. O que eu não faço pra poder te ver, hein? – Retrucou dando uma piscadela e abrindo a porta para se retirar.
— Você precisa usar mais vezes, digo, quando eu sair daqui. – Falei antes que a porta fechasse e ainda consegui perceber o riso que o comentário lhe provocara.
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