Notas iniciais
Este capítulo é mais comprido, mas também tem mais ação. Espero que gostem!

A região onde o lenhador morava, de fato, estava toda destruída e cheia de crateras. Observando a área, eles reconheciam marcas de golpes imbuídos de cosmos, que tanto costumavam ver no Santuário.

"Se o que o Aureus disse é verdade, quando o Basilio mudou para uma personalidade mais agressiva, também ganhou o domínio do cosmos."

"Ou então o possuía, só não o usava."

"Eu duvido. Se você fosse um lenhador, usaria machados ou o seu corpo? Veja, dentro da casa dele encontrei vários tipos de machados, bem gastos. Se ele já dominava o cosmos, por que usaria essa variedade toda de lâminas? Não acha estranho?"

"Só vamos saber a resposta quando o encontrarmos, o que não será tão fácil. Não sinto nenhum cosmos por perto. Pode ser que ele nem esteja mais por aqui."

"Mas… O que terá acontecido afinal? Mesmo o forno do carvão foi destruído… E a casa, que ele provavelmente construiu com o próprio suor… Mas olhe só, El Cid. Ele tem um quadro da família, que permanece intacto. Ainda há sentimentos dentro dele, não é?"

"Você é um sujeito otimista demais. Provavelmente esse cara é a perturbação que o Grande Mestre encontrou na leitura das estrelas. Se soubéssemos melhor sobre o ritual que fazia com o homem assassinado e para qual deus pediam poder…"

"O poder para ressuscitar os mortos… Pode até ter sido para Hades, não acha? Se a Athena-sama já reencarnou na Terra, é bem possível que o atual receptáculo de Hades também. Existe a chance de a alma de Hades já estar circulando sobre a Terra."

"Eu espero que você esteja errado quanto a isso, Sísifo."

"Eu também."

"E então? Como vamos encontrar Basilio agora? Alguma ideia?"

"Bem, nenhuma melhor que ficar andando pelas vilas da região até encontrá-lo…"

"Isso leva tempo demais."

"Minha última missão também desembocou nisso, então acabei demorando mais do que gostaria. Mas podemos nos separar e agilizar a busca."

"Acho que não tenho escolha senão aceitar sua proposta", consentiu El Cid, para a surpresa de Sísifo. "Está bem."

Com a ajuda do mapa, dividiram as áreas que percorreriam atrás de Basilio. Sabiam, no entanto, que ele dificilmente apareceria nas cidades, por já ter sido dado como morto. Sísifo caminhou por todos os lugares onde Basilio poderia ter se escondido, sem encontrar nenhuma pista. Sentia-se mal por ter tido a ideia de roubar o quadro da casa do lenhador para carregar por todos os lugares, na esperança de que seu oponente o reconhecesse e viesse reavê-lo.

O dia passou relativamente rápido, e ele se surpreendeu quando notou que o sol começava a se por. Já havia circulado três vezes em toda a área estipulada e por isso decidiu voltar à casa do lenhador, onde combinara reencontrar El Cid. Este já esperava por ele.

"Estou vendo que não teve resultados também", comentou, ao ver o colega.

"Nem mesmo esse quadro que você levou adiantou de algo, não é?"

"Sim…"

"Sabe, Sísifo, pode ser que estejamos procurando à toa. Pode ser que aquele homem tenha morrido, e que estejamos fazendo papel de idiotas com essa busca."

"Eu não me importo que me chamem de idiota, só gostaria de saber a verdade…"

"Sinceramente? Acho que fomos enganados pela raposa. Fazendo com que procuremos um homem morto, ela consegue desviar nossa atenção daquilo que ela não deseja que investiguemos, que é aquela casa. Assim ela pode continuar enganando aquela família, fingindo ser o pai dela. Eu entendo que você queira acreditar naquela bola de pelos, mas tem que admitir que existe essa possibilidade, e que não podemos deixá-la de fora de nossa missão."

"Eu detesto essa ideia, você sabe, mas tem razão. Pelo menos seria bom investigarmos a casa mais uma vez."

"Ótimo. Vamos lá."

A ideia de que raposas eram traiçoeiras era bastante popular, e nenhum cavaleiro de Athena podia ser competente sem levar a sério lendas e contos. Sísifo precisava admitir que havia a possibilidade, apesar de querer confiar em Aureus. Confiava, sobretudo, no relato da menina que dizia ter um novo pai gentil e atencioso. Retornaram para a vila e pararam na frente da casa da família, mais uma vez.

"Aposta quanto que a mulher vai querer nos matar quando nos vir?"

"Talvez seja melhor você falar."

"É? O que aconteceu com o cavaleiro solitário que resolve tudo sozinho?"

"Eu tive de fazer o fiz por sua causa. Cale a boca."

Sísifo riu e tomou a frente. A mulher abriu a porta, olhou-o e fechou no segundo seguinte, com força. Sísifo voltou-se para o colega.

"Parece que ela não gosta mais da gente…"

"É lógico que não. Você devia ter segurado a porta e entrado à força."

"Eu não sou um troglodita. Mas com certeza sou persistente."

Sísifo bateu na porta novamente, tendo um 'vá embora!' como resposta. E insistiu:

"Ei, não vamos fazer nada de mau, eu prometo…"

A insistência prosseguiu por mais de dez minutos, até que El Cid avançou e disse:

"Nós sabemos que seu marido é uma raposa!"

"El Cid! E se ela não souber disso ainda?"

"Então só achará que somos loucos."

Mas a mulher acabou abrindo a porta, com os olhos molhados de lágrimas.

"Sinto incomodar", disse El Cid. "Mas estamos conduzindo uma investigação e precisamos conversar com a senhora… sobre os seus maridos. E também sobre o lenhador Basilio."

"Eu não quero…"

"Somos cavaleiros de Athena", anunciou Sísifo, "guerreiros que lutam pela paz no mundo. Fomos enviados para investigar uma perturbação nesta área, e acredito que essa perturbação tenha a ver com o que aconteceu no beco aqui atrás, com o seu quintal e com os homens envolvidos na sua vida. Não sabemos sobre tudo que está acontecendo, mas sabemos que a situação pode escalar para algo perigoso, que pode colocar as pessoas desta região em risco. Para que possamos proteger as pessoas, é importante conhecermos toda a verdade."

"Podem provar o que dizem?"

"Nossas armaduras dentro destas urnas são provas de que somos o que somos, mas infelizmente a senhora não possui meios de saber se são verdadeiras ou se falamos a verdade. Resta-nos apenas colocar a decisão em suas mãos, sobre confiar ou não em nós… Ontem estive com Aureus, a pequena raposa que tem sido gentil com a sua filha. Mas precisamos saber mais… Precisamos saber tudo que pudermos, e isso é pela segurança de todas as pessoas por aqui. Não vou mentir, a senhora é nossa peça chave para resolvermos o caso, e o sucesso de nossa missão depende de sua colaboração. Eu sei que tem medo, mas não sei do que tem mais medo, se de nós ou de alguma outra coisa…"

A mulher precisou de um tempo para responder. Por fim, pegou um casaco pendurado numa cadeira e gritou para a escada.

"Filha! Venha! Vamos sair!"

A menina empalideceu ao vê-los, e a mulher, sem notar, apresentou-a.

"Esta é Carla, minha filha. Poderíamos conversar em outro lugar? Preciso levá-la também, não posso deixá-la sozinha."

"É claro. Muito prazer, Carla", disse Sísifo, fingindo não conhecê-la.

"Oi…"

"Conheço um restaurante no centro com salas individuais", disse a mulher. "Vamos."

Isso queria dizer que a mulher não se sentia segura na própria casa para conversar sobre o que quisesse. Significava que Aureus não poderia ouvi-la? Sísifo não conseguia entender o motivo, mas permitiu-se guiar até o restaurante, que era bem vazio, talvez pelo preço, nada barato.

O funcionário da casa levou-os até uma sala fechada, sem janelas, e El Cid parou antes da porta.

"Eu vou ficar aqui fora de guarda para garantir que estejam seguros."

"Não deixe que mais ninguém entre, El Cid", orientou Sísifo.

"Certo."

Sísifo permitiu que a mulher e a filha se acomodassem na mesa e escolheu os pratos rapidamente, sem se importar com o que viesse. O fundamental era ter paz para conversar com a mulher.

"Não seria melhor se Carla esperasse lá fora com El Cid? Ele vai protegê-la, eu garanto", sugeriu Sísifo.

"Não. Eu quero que ela ouça."

"Certo…"

"Muito bem", disse ele, ocupando a cadeira em frente às duas, "vamos começar. Sinta-se à vontade para dizer tudo, não tenha vergonha nenhuma de falar, por mais absurda seja a coisa que queira me contar. El Cid é de confiança, ele nos manterá seguros aqui."

"Bem… Meu marido, Gino, é um pesquisador financiado por nobres… Eu nunca entendi bem os detalhes do trabalho dele, mas…"

"Meu pai pesquisa um jeito de fazer as pessoas felizes!", comentou Carla.

"Querida, por favor, não interrompa. A pesquisa dele causou muita repercussão, e não raro ele era alvo de ameaças. Por isso, o que dizia para as pessoas devia diferir do que ele pesquisava de fato. Sei que o senhor irá se surpreender… até se revoltar com o trabalho dele… Mas a verdade é que Gino buscava um meio de curar a própria morte."

"Curar a morte… Como se ela fosse uma doença."

"Você não parece surpreso."

"Eu estou acostumado a trabalhar com coisas que deixam as pessoas de cabelo em pé. Por favor, conte tudo o que conseguir lembrar. Quanto mais detalhes, melhor."

"Ele pesquisava muitos livros de mitologia para descobrir o segredo da cura da morte. Eu tinha medo dos resultados que o trabalho dele podia gerar, mas… era a nossa forma de sustento. Eu fiquei com tanto medo quando um dia ele apareceu empolgado, dizendo que havia encontrado a fórmula de uma poção capaz de curar a morte."

"Uma poção? Isso é verdade?"

"Ele descobriu, se bem me lembro, em um templo de um deus grego… Ta… Tanos… não."

"Thanatos?"

"Isso mesmo! Nem sabia que tal deus existia… Quando ele me contou que algumas das plantas necessárias para a poção não existiam mais, eu confesso para você que fiquei muito aliviada. Mas então ele conheceu o lenhador, que dizia saber a localização de todas as plantas. No início, o lenhador se recusou a recolher os ingredientes, por dizer que a morte era uma lei natural. Mas depois… Depois, quando a família dele foi cruelmente morta… E… foi o meu marido que mandou matá-la… O lenhador mudou de ideia."

"Não! Meu pai nunca faria isso!"

"Querida…"

"Está mentindo, mãe! Ele não faria isso!"

Carla levantou-se, e Sísifo segurou-a pelo pulso.

"Carla."

"Me larga! Eu quero meu pai…"

"Não vá lá pra fora agora. Se não pode suportar a verdade, cubra seus ouvidos. Mas saiba que a verdade não irá mudar se fugir dela."

"Não…"

A menina correu desesperada para o canto da sala e cobriu os ouvidos, chorando.

"Talvez tivesse sido melhor ela ter ficado do lado de fora", comentou Sísifo, com pena.

"Nós passamos muito tempo fingindo que nossa família era normal. Eu quero que ela entenda…"

"Não há pressa para que ela aceite tudo. Deixe-a tranquila por enquanto."

Ouviram leves batidas na porta, e El Cid apareceu, segurando um prato com a comida.

"Eles entregaram. Posso por aí?"

"Por favor. Obrigado, El Cid."

Depois de arrumarem a mesa, El Cid verificou se não havia entrado nenhuma criatura pela porta, nem mesmo uma mosca. Sísifo também olhou bem a sala e depois se agachou ao lado de Carla.

"Carla… Não gostaria de comer um pouco?"

A menina negou com a cabeça, chorando. Sísifo deu-lhe um lenço para limpar o rosto.

"Vou fazer de tudo para que as coisas fiquem bem, eu prometo."

Tentando impor um ambiente tranquilo, Sísifo apontou para a comida.

"Sirva-se, fique à vontade."

"Obrigada."

Enquanto preparava o prato, a esposa continuou relatando seu problema.

"O lenhador passou a colaborar com meu marido depois disso. Trazia as plantas… Eu trouxe aqui a fórmula que ele olhava de novo e de novo… Veja… Eu não faço a menor ideia do que está escrito…"

"Pode me emprestar um pouco?"

A folha continha uma cópia de uma fórmula que ele jamais havia visto. Gostaria de estar com o Grande Mestre para perguntar sobre ela, pois, apesar de ter se empenhado bastante nos estudos, tinha uma séria dificuldade em decifrar um grego tão antigo. Conseguia ler algumas letras, lembrava-se de algumas palavras. Ele não possuía um alfabeto num dos livros? Pegou a mochila e caçou entre seus escritos um livro que continha documentos com grafias antigas.

"Isso é grego? Consegue ler?"

"Eu sou grego, mas este documento é bem antigo. Me dê um tempo, acho que consigo decifrar isto…"

"Você… diz a verdade quando fala que é esse tal de cavaleiro de Athena? Você consegue falar comigo, mesmo sendo grego, sabe ler, sabe lutar e ainda consegue ler grego antigo? Não acha que você tem habilidades demais com tão pouca idade? Quem é você?"

"Sou um cavaleiro de Athena, é a verdade. E existe algo de muito errado aqui…"

Aquilo não podia estar certo. Sísifo conferiu o alfabeto no livro e releu o documento e suas a anotações. Ele estava lendo certo, então o problema não era ele… O que significava aquilo?

"Você está com cara de que está com dificuldades de entender."

"Escute… Seu marido estudou grego antigo?"

"É lógico que estudou! Ele decifrou a fórmula, não decifrou? Ele lia e analisava vários documentos antigos, também chegou a fazer algumas traduções para os nobres."

"Então… Tem certeza de que é essa a folha com a fórmula?"

"Absoluta! Só faltava ele dormir com ela. Ele sempre a segurava e sempre a olhava quando ia falar dos ingredientes. Certeza absoluta."

"Então… não entendo."

"O que foi?"

"Isto não é a fórmula de um remédio que cura a mortalidade. Isto é… Isto, com a ajuda daquela pedra… É a fórmula capaz de separar corpo e espírito… e de dar livre arbítrio ao espírito sem o corpo…"

"Isto não seria o mesmo que morrer?"

"É um pouco diferente, mas… Por que ele achou que isso era a cura da morte? Se a pessoa está separada do corpo, então… é algo como a morte… Não entendo…"

"Existem mais coisas que eu queria contar para você."

"Claro. Fale."

"Sobre a noite em que meu marido morreu… Ele e Basilio brigaram porque a pedra sumiu. Eu vi tudo… Balisio o matou… A raposa transformou o rosto do meu marido… E Basílio bebeu a poção e… desapareceu. Algo aconteceu com o corpo, eu não sei… ficou tudo muito claro."

"Por que ele beberia a poção?"

"Meu marido dizia que o remédio não era pro morto, mas pro vivo. Esse vivo seria capaz de trazer as pessoas que ele amava de volta à vida. Ele bebeu, o corpo brilhou muito… não consegui enxergar direito. Não vi o corpo de Basilio, apenas o do meu marido. Eu estava com medo, não queria que achassem que fui eu… Joguei o corpo dele no beco… A raposa estava inconsciente e ainda segurava a pedra. Eu devolvi a pedra ao meu marido, porque era o resultado de anos de trabalho dele… E deixei a raposa na rua, num jardim. E depois, quando tentava me recuperar da morte dele, ele reapareceu… De início, achei que ele tivesse ressuscitado mesmo… Mas depois percebi que não era isso. Era a raposa. Ela tem sido boa para a gente, por isso eu finjo que ela é ele… e Carla também…"

"Então quero que me responda o seguinte, com toda a sinceridade: por que quis fazer esta reunião escondida se ela tem sido boa para vocês?"

A esposa aquietou-se, com uma expressão dolorida, antes de começar a chorar. Enxugando os olhos, respondeu:

"Ela muda de repente… Ela é boa e má. Eu não sei! Eu tenho medo dela! Está ficando mais frequente, está me assustando, e eu tenho medo de que ela machuque Carla."

"Por que ela faria isso?"

"Eu não sei! Eu não sei o que ela tem… Eu quero acreditar que ela é boa, mas às vezes, quando conversamos, ela diz coisas horríveis… assustadoras… Tenho tanto medo…"

"Seja mais específica, fale de todos os detalhes! O que ela faz? O que ela fala?"

"Ela diz… Ah…"

Como a mulher parecia não ter mais coragem de continuar falando, Sísifo segurou-lhe a mão e insistiu, mais uma vez:

"Olhe, nós vamos fazer todo o possível pelo bem da senhora e de sua filha, mas precisamos saber de tudo. Eu prometo que irei protegê-la até ter certeza de que não haverá nenhum risco, por isso se acalme. Crie coragem, pelo bem de sua filha... E me conte o que está havendo."

"...Mais de uma vez, ouvi a raposa falando consigo mesma… Dizendo que nos mataria. Uma vez ela brigou comigo e disse que minha filha e eu tínhamos que estar mortas. Na última vez, ela segurava uma faca e apontava para Carla. Eu me joguei contra ela, e ela então voltava a ser boa… Mas… Eu não aguento mais ser enganada! Por favor, mate a raposa! Ela é falsa! Ela quer nos matar! Acredite em mim! Ela é muito boa e muito má ao mesmo tempo! É impossível!"

"Calma… Escute… Fale mais sobre a raposa. Fale tudo que sabe dela."

"O Basilio era que trazia essa raposa… Eles colocavam-na pra dormir e faziam coisas com ela que eu não entendia… rituais. Eu não entendo! Não sei como ela se transforma! Não sei por que ela é assim! Eu já pedi para ir embora, mas ela não vai! Ela diz que quer ficar e nos proteger! Mas quer nos proteger de quem?! De quem?! Ninguém acreditaria na minha história…"

"É mentira!", interveio Carla. "A raposa é boa! Ela é meu segundo pai!"

"Ela quer te matar, Carla!"

"Ei, vamos parar de gritar por aqui. A raposa vai ouvir se estiver lá fora", observou Sísifo, em tom reconciliador. "Não adianta brigarmos. Suas informações ajudaram muito, senhora, e está mais do que evidente que precisa de proteção. Precisamos entender melhor a raposa. Eu conversei com ela, e ela me pareceu apenas um filhote inocente."

"É mentira!"

"Não vamos tirar conclusões precipitadas… Antes de tudo, as duas ficarão sob nossa proteção. Em segundo lugar, preciso ter mais uma conversa com essa raposa… Mas fiquem tranquilas… Meu trabalho é resolver essa situação. Não sei como isso se resolverá, mas garanto que não sairei daqui sem cumprir o meu dever. Agora, pode tentar lembrar mais coisas que possam ser úteis? Coisas que seu marido ou que a raposa falou, detalhes dos rituais… Qualquer coisa pode ser útil. Faça uma força e tente se lembrar…"

Sísifo ouvia fragmentos de memória da mulher, na esperança de conseguir qualquer informação adicional, quando ouviu batidas fortes na porta. Rapidamente pediu silêncio e abriu-a.

"Ele está aqui", informou El Cid.

Sísifo vestiu a armadura de ouro, surpreendendo a mulher. Sorriu-lhe, tentando tranquilizá-la.

"Eu sei que você aprendeu a amar este novo marido, ao mesmo tempo que vê dentro dele um demônio. É por isso que dói tanto. Eu prometo, manterei isso em mente. Espere aqui e não saia em hipótese alguma."

Já no corredor, viu um homem com a pedra na porta do restaurante. El Cid queimava o cosmos, pronto para atacar. Interrompeu-o.

"Eu cuido dele. Parece que ele tem a intenção de machucar as duas. Quero que fique aqui, protegendo-as. Eu vou conversar com ele."

"Conversar? E não lutar?"

"Vou lutar, se for necessário. Mas… vista a armadura e fique preparado. Se desembocarmos na luta, será bem trabalhoso com tanta gente em volta."

Sísifo aproximou-se do homem, sorrindo.

"Oi, Aureus. Não quis vir na sua forma verdadeira? Garanto que você é bem mais bonito nela."

"Sísifo! Eu vim ver minha família humana! Posso ir lá?"

"Sinto… Agora é impossível. E eu preciso conversar com você."

"Comigo?"

"Sim. Acho que encontrei o Basilio."

"Encontrou?!"

"Sim! E vou te levar até ele!"

"Não! Não, eu tenho medo, Sísifo… Eu… Eu… Está bem."

"Ué. Mudou de ideia muito rápido."

"Eu vou. Eu fiquei com vergonha quando fugi antes… É minha família, mesmo humana, e eu quero proteger ela… Eu quero ser forte pra elas. Eu tenho muito medo… Mas vou tentar se valente e lutar!"

Como ele poderia ser cruel quando parecia tão inocente? Sísifo não acreditava que aquilo tudo fosse apenas teatro. Não podia ser. Mas também acreditava nas palavras da esposa.

"Eu admiro muito a sua coragem. Venha comigo."

"Sim…"

Precisava de um lugar onde poderiam lutar sem colocar ninguém em perigo. Rezava para que não tivesse de recorrer à violência… mas era pouco provável resolver tudo sem uma luta. No meio do caminho, Aureus retornou para a forma de um filhote, e agora andava ao seu lado, com a pedra na boca. Sísifo sentia pena dele, que na verdade fora vítima de toda a situação…

Quando se afastaram da cidade, Aureus deixou a pedra no chão por um instante, só para perguntar:

"Sísifo, quando vamos chegar? Pode me dizer onde é?"

"Acho que aqui já está bom. É, aqui é mais seguro."

"Seguro? O que quer dizer?"

"É que… É muito possível que eu seja obrigado a lutar contra você, Aureus, por isso eu quis vir para um lugar distante da cidade, para que ninguém se machuque."

"Mas… por que a gente lutaria? Nós somos amigos, não somos? Você acreditou em mim! Você foi bom pra minha família…"

"Sim, nós somos amigos. Você deve ser a raposa mais boazinha do continente, e eu admiro muito o seu coração. Mas a realidade é algo que não podemos ignorar… Sabe, você me mostrou o quão terrível e cruel será a Guerra Santa dos cavaleiros de Athena, na qual eu pretendo lutar no futuro."

"Guerra Santa? Cavaleiros de Athena? Minha mãe já falou dos cavaleiros de Athena… Que são humanos que lutam pela Terra, mas sem entender a Terra direito…"

"Sem entender a Terra…? Bem, é verdade que só o meu irmão entendia a natureza… Eu não te disse, não é? Eu sou um cavaleiro de Athena. Daqui a alguns anos, a deusa Athena irá lutar contra o deus da morte, Hades, e eu terei de participar dela… Você sabia, Aureus? A cada dois séculos, mais ou menos, o deus Hades escolhe o humano mais puro da face da Terra e o utiliza como hospedeiro. Como a alma dele é mais forte, o humano não consegue controlar o corpo, e Hades faz o que quer dele."

"Eu não sabia! Esse Hades é muito mau!"

"Sim, ele é… Eu não sei bem como funciona o lado dos nossos inimigos nessa possessão que ele faz de um dos humanos, mas… aquele homem estava estudando documentos recolhidos de templos dedicados a Hades… E o remédio que ele queria fazer não era pra trazer os mortos de volta à vida, mas era… era para separar corpo e espírito."

"Corpo e espírito?"

"Acredito que o documento tenha a ver com renascimento de Hades neste mundo, e que a fórmula seja necessária para algum ritual dos nossos inimigos. De qualquer forma, parece que Basilio bebeu essa poção…"

"Sim, e então sumiu."

"Ele não sumiu… Ele está num lugar. Como Hades, ele escolheu uma alma muito pura para habitar."

"Que alma…?"

"Eu sinto muito, meu amiguinho… Olha, poderia me emprestar essa pedra por um instante?"

"Claro, pegue!"

Aureus estava prestes a entregar o objeto, quando seus olhos ficaram vermelhos de repente, um rosnado soltou uma voz diferente, grave, ao mesmo tempo que tirava a pedra do alcance de Sísifo:

"Pare! Você não pode!"

"Está aí, Basilio, não é?", disse Sísifo, procurando manter o tom calmo. "Você usou seu grande amigo para o ritual, sem que ele percebesse. Você se aproveitou do inocente Aureus para transferir sua alma para ele, sabendo que ele era uma raposa especial!"

"Não! Eu fui enganado! Era para reviver minha esposa e filha! Era para que elas voltassem a viver! Quando soube que tinha sido enganado, resolvi me vingar!"

"Não muda o fato de que você se aproveitou de Aureus! E agora aprendeu a dominar o corpo dele e pretende matar a outra família. Desista disso enquanto é tempo! Saia do corpo de Aureus! Ele é inocente! Ele ainda gosta de você, ele ainda quer que você volte a ser o homem bom que era!"

"Já é tarde para isso!"

Basilio rosnou, eriçando os pelos e segurando firme a pedra, que lhe dava uma quantidade considerável de energia. Sísifo assumiu postura de batalha, observando atentamente a transformação de seu adorável amigo para um monstro. Do tamanho de um urso, transbordando de poder e sedento de sangue, impunha-se para Sísifo como um obstáculo intransponível, não apenas pela força, mas pela dúvida de como salvar o pequeno Aureus daquele espírito. Não conseguiria apenas conversando com ele, com certeza.

A pedra foi infelizmente engolida, de forma que qualquer plano para tomá-la exigiria machucar seu amigo. Ainda bem que El Cid não estava por lá, ou já teria cortado a raposa em duas. O que fazer? Desviou-se de um ataque, com as garras chocando-se com a armadura. Sísifo recuou um pouco, pensando em como poderia salvar Aureus. Como tirar a alma de Basilio dele?

Recuou com outro ataque e saltou sobre Basilio, apoiando a mão em suas costas. Os pelos pareciam agulhas, de modo que sua mão sangrava um pouco ao pousar no chão.

"Ei, eu prefiro seu pelo como era antes. Era tão macio."

"Desgraçado! Eu vou matá-lo! Depois matar as duas!"

"Sei não", respondeu Sísifo, desviando-se, mais uma vez. "Não é fácil me matar, e matar as duas não vai trazer sua mulher e sua filha de volta. Eu sinto por elas, mas a morte é uma lei."

"Não! Eu vou trazê-las de volta! Com o sangue delas!"

"De que jeito?"

"Há outra fórmula! A fórmula verdadeira! Eu vou fazer… e vou trazê-las de volta, custe o que custar!"

"Idiota… Se você realmente se integrasse ao corpo que possuiu, sentiria uma conexão profunda com a natureza, até mais do que eu. Eu não quero matar o Aureus, saia do corpo dele!"

"Acha mesmo que vou sair? Com esse poder?!"

Foi um golpe bem mais poderoso que o anterior, que Sísifo não conseguiu enxergar. Atingido em cheio, foi arrastado no chão por vários metros. O cosmos de Basílio praticamente triplicara, assim como seu tamanho. Quanto poder havia na pedra?

Outro golpe deixou uma enorme cratera, e Sísifo sabia que não podia mais ficar na defensiva. Queimou o cosmos, lançou um ataque para distrair Basilio e avançou pela lateral. Aplicou um soco no corpo da raposa, com certo receio de machucá-lo. Por causa disso, não conseguiu derrubá-lo e foi obrigado a recuar mais uma vez.

"Idiota. É assim que se luta!"

A cabeça de raposa surgiu imediatamente na sua frente, dando-lhe um murro que o fez perder o ar dos pulmões. Sísifo apoiou a mão no chão ao ser lançado e conseguiu continuar de pé, de alguma forma. Com dor, notou que o cosmos se fortalecia cada vez mais. Se continuasse a crescer, a única saída seria matá-lo.

"Antes incapacitá-lo que matá-lo… Perdão, Aureus… Vou ter que lutar sério agora…"

Queimando o cosmos, Sísifo lançou um ataque mais forte, que pegou Basilio de surpresa e atirou-o para trás. Este ainda conseguiu avançar novamente, mas Sísifo desviou-se de sua investida e aplicou um forte golpe na pata dianteira. Afastou-se e viu que Basilio não conseguia se levantar após o ataque.

"Desculpe, Aureus… Preciso achar uma forma de tirar a pedra…"

Precisava provocar a perda de consciência de Basilio, para que assim pudesse achar um modo de arrancar a pedra do interior do corpo, nem que fosse enfiando o braço goela abaixo e procurando no trato digestivo da raposa. Um golpe cuidadoso na nuca talvez funcionasse…

Aproximava-se de Basilio, quando este saltou subitamente para o lado e desviou-se de um golpe cortante que veio da direção oposta. Por estar ferido, não conseguiu escapar por completo e ficou com um corte no peito. Era El Cid.

"Não, El Cid! Aureus é inocente! Basilio está possuindo o corpo dele! Não o mate!"

"Do que está falando, Sísifo? O cosmos dele é gigantesco, não é hora de dizer que devemos lutar detendo nossos poderes, ele pode nos matar!"

"Mas o Aureus… Ele é inocente, não podemos nos esquecer disso! Só vamos recorrer à morte dele em último caso. Por favor, El Cid… Se conseguirmos arrancar a pedra dele, talvez possamos…"

"Tsc. Qual é o seu plano então?"

"Se conseguíssemos deixá-lo inconsciente… Poderíamos retirar a pedra com cosmos que ele engoliu… Quem sabe assim ele volte a ser Aureus… E então pensamos numa forma de expulsar o espírito de Basilio dele…"

"É um plano vago… Mas está bem. Farei como quiser."

"E as duas?"

"Elas estão seguras por lá. Eu não podia ficar parado, sentindo o cosmos dele te atacando… A fonte do problema está aqui, é aqui que devo estar!"

"Entendo. Cuidado com o deslocamento dele, não podemos deixar que ele vá pras vilas."

"Eu sei disso. Como vamos detê-lo?"

"Ainda não sei…"

"Não vamos chegar a lugar algum assim…"

El Cid lançou vários golpes em uma sequência que fez Sísifo temer pela vida da raposa. Basilio conseguiu desviar-se de cada ataque, mas foi forçado a ir para apenas uma direção. Sísifo sabia que precisava atacar naquele momento, e que não podia mais deter o próprio punho. Lançou um ataque na velocidade da luz, que atingiu a raposa em cheio. Quando ouviu um ganido, deteve o ataque, receoso do resultado. Basilio, coberto de sangue rosnava e queimava o cosmos ainda mais forte.

"Estaríamos perdidos se ele tivesse conhecimento de batalha", comentou El Cid. "Sísifo! Vamos atacar de novo!"

"Sim!"

Detestava a ideia de lançar aqueles golpes. Não haveria nenhuma outra forma mesmo? Sabia que El Cid estava detendo um pouco seus golpes em respeito a seu desejo, mas era verdade que eles nunca derrotariam Basilio daquela forma. Lançou mais uma rajada de cosmos, junto com o colega, atingindo o inimigo, que resistia com sua grande quantidade de poder, enquanto rosnava. Foi quando tiveram de saltar para trás a fim de escapar de um contra-ataque inesperado: fogo. Viram, por trás da fumaça gerada pelo ataque, as chamas na boca da raposa, rapidamente desaparecendo do focinho.

"Foi ele que lançou?"

"Isso é ruim", comentou El Cid. "Sísifo, eu sinto muito, mas a única forma de detê-lo é…"

"Não, El Cid! Deve haver alguma forma…"

"Não há outra forma! Se isto continuar, há o risco de ele machucar pessoas ou causar um incêndio em toda a região. Não temos um cavaleiro de gelo para deter um incêndio, precisamos acabar com isto agora!"

"Mas…"

Outra rajada de fogo foi lançada para eles. Sísifo saltou para escapar do ataque, e El Cid cortou as chamas com o braço. Foi quando viu. A boca aberta, voltada para ele, revelando um brilho diferente no interior do corpo. Sísifo pegou o arco e, quando retirava a flecha da armadura, sentiu uma dor aguda no lado esquerdo. Viu os dentes perfurando a armadura e sangue começar a escorrer deles.

"Sísifo!"

A boca da raposa tomou impulso e derrubou-o, antes que um golpe de El Cid os separasse à força. A dor intensificou-se ao quicar no chão e cair novamente, dolorido. El Cid correu até ele.

"Eu disse para desistir do filhote, Sísifo! Você está bem?"

Sentia o cheiro de sangue, e a dor impedia-o de mexer-se. Conseguiu apenas olhar para Basilio, que avançava com o corpo. El Cid atacou-o obrigando a desviar-se, e queimou o cosmos mais forte.

"Eu não vou mais deter meus ataques, Sísifo. Isto é para a sua própria segurança. Você entende, não entende?"

"Não, espere, El Cid..."

"Eu não posso mais seguir suas instruções, nem trabalhar com você. Somos diferentes demais."

Não podia permitir! Sísifo apoiou-se no arco e forçou o corpo para cima, tentando ignorar a dor dos ferimentos. Quando a perna suportou o peso do corpo, quase não aguentou a dor. Se não fosse o desespero de salvar Aureus, certamente não teria conseguido dar mais três passos adiante de El Cid e tomado a postura de arqueiro.

"Sísifo! Saia da frente!"

"Se quiser me cortar em dois, El Cid, corte. Mas existe mais uma chance, e eu preciso de sua ajuda… por favor…"

"Você já teve a sua chance! Agora saia da frente!"

"Corte o fogo quando ele lançar a rajada… e abra caminho para a flecha… Eu não vou errar."

"Com esses ferimentos…"

"Por favor, El Cid!"

"Você... Droga, se falhar, eu não irei mais escutá-lo!"

A visão começou a escurecer, e Sísifo sacudiu a cabeça, pedindo ao corpo mais alguns segundos. Viu a boca de Basilio abrir-se, cheia de chamas, e El Cid preparar-se para dar seu golpe. Rezava para que não fosse letal.

As chamas vieram, uma linha reta e vertical dividiu o fogo, e Sísifo conseguiu enxergar: era o pequeno ponto brilhante, sua última esperança pra salvar Aureus. Lançou a flecha e gritou de dor com os músculos pressionando os ferimentos. Acabou caindo, sem saber o resultado de seu ataque. Mas viu, em meio ao brilho das chamas, o corpo de uma raposa adulta saltando entre ele e a mandíbula aberta de Basilio. E uma explosão deixou-o desesperado: o que havia acontecido com o corpo de Aureus? Em seguida, veio o silêncio. Não podia ficar parado. Rolou o corpo para o lado, suportando a dor, apenas para olhar o campo de batalha.

O corpo de Basílio encolhia e, dentro de sua boca, havia o de uma segunda raposa, adulta. Ela ainda estava viva, pois saiu de dentro do corpo maior. Logo este se convertia em Aureus, caído e inconsciente, coberto de sangue. A pedra havia se transformado em vários fragmentos, em volta do focinho ensanguentado da raposa adulta. Ela levantou-se, fazendo com que mais sangue gotejasse no chão, e, rosnando, mordeu o filhote. Contudo, não mordera seu corpo, e sim seu espírito. O focinho, translúcido, penetrou no corpo de Aureus como se fosse um fantasma e arrancou dele uma massa quase transparente.

Pôde-se ouvir o grito do homem no interior do filhote: Basilio. A raposa arrancou completamente o espírito do invasor e, utilizando um pouco de cosmos, mordeu-o com força, estilhaçando-o. Sísifo pôde vê-la melhor em seguida: era a mãe do filhote, maior e com várias caudas, mas com a mesma expressão. Ela aproximou-se do cavaleiro, estendeu o focinho para os machucados e começou a lambê-los, fazendo-os arderem ainda mais. Mas logo a dor diminuiu e deu lugar a uma sensação de dormência na região. Com isso, o mal estar passou.

"Como Aureus está?", perguntou, olhando para o filhote caído.

"Eu o protegi da explosão da pedra", disse uma voz feminina, vinda da raposa. "Ele está machucado, mas vai ficar bem. Raposas como nós se curam muito rápido."

"É mesmo…? Ainda bem…"

"Obrigada por salvar o meu filhote. Eu não podia retirar o espírito daquele humano do corpo dele por causa da pedra. O humano me impedia de arrancar a pedra, então eu desisti, para proteger meus outros filhotes. Graças a você, cavaleiro de Athena, Aureus está bem agora."

"Não poderia desejar mais do que isso…"

Tudo estava bem. Sísifo entregou-se ao cansaço e ao sono repentino que sentiu. Viu as patas da raposa caminhando diante dele, fazendo algo que ele não entendia. Sentiu um cosmos quente e puro vindo dela, o possível motivo de sua exaustão.

"Seus cortes são fundos. Eu vou dar um jeito nisso. Durma agora."

Parecia um feitiço, pois a ordem da raposa foi obedecida nos segundos seguintes.

Notas finais
A fic já está no finzinho! Se gostaram, por favor, contem no comentário!