Entrelace de opostos
2 Capítulo 2
No dia seguinte, quando acordou, soube que El Cid já o esperava no salão. Ao sair do quarto, deparou-se com o colega, carregando a armadura na urna. Esfregou os olhos, sonolento, e percebeu que El Cid viera antes do horário combinado.
“Você não dorme?”“Eu dormi mais cedo ontem para estar descansado hoje. A propósito, está pensando mesmo em levar essa bagagem?”Sísifo olhou para a mochila que deixara preparada no dia anterior.“Ah… Nós não vamos para uma região qualquer. Dentro da bagagem, levo todas as anotações importantes que fiz sobre a vila e os arredores dela. História, costumes, incidentes notáveis… São dados que eu venho recolhendo há quatro anos, que podem ser úteis pra gente. Eu não sou como o meu irmão, que pode conversar com a natureza e saber tudo sobre o lugar. Preciso investigar tudo para não ser pego desprevenido. Mas não se preocupe, não pesa muito não. Me dê alguns minutos para me aprontar, ok?”E, apesar de ter dito que carregaria a bagagem, El Cid fez a gentileza de ajudá-lo.—-------------------------------------Quando desceram da carroça, ao fim do trajeto, Sísifo apontou para um extenso povoado ao pé da colina e tirou da mochila a cópia da leitura do Oráculo de Delfos para mostrar a El Cid.“Já faz quatro anos que recebemos essa leitura do oráculo. É difícil acreditar que algo a ver com a Guerra Santa aconteça por aqui… Sempre que venho, sinto um aperto no coração. É uma vila tão pacífica, odeio pensar que algo possa acontecer com ela no futuro…”“Isso se o oráculo estiver certo…”“O Grande Mestre diz que é confiável, e meu irmão tinha uma relação mais ou menos próxima com o oráculo… Eu também vi os poderes dela em ação, e digo que são verdadeiros. Tudo indica que a leitura se tornará verdade, cedo ou tarde, seja lá o que queira dizer. Sempre passo uns dias por aqui, e nunca noto nada suspeito. Está vendo aquele muro? É onde a cidade originalmente foi construída. Com o tempo, ela se expandiu, e outros vieram morar nesta região. Esse muro deveria ser para proteger a cidade, mas acabou virando uma barreira que separa os ricos dos pobres. Durante o dia, as pessoas vão para o centro trabalhar… e depois voltam para seus barracos. É um lugar tranquilo, mas eu não diria justo.”“E o que fazemos agora?”“O Grande Mestre teve a leitura de que algo acontecerá nesta região em breve, mas não sabe exatamente onde. Pode ser nesta vila, mas também pode ser nos povoados aqui perto. Vê? Todos estão ao alcance do olhar daqui da colina. Eu também pesquisei cada uma delas em todo caso. Agora só nos resta zanzar por aí.”“Então é verdade que o Grande Mestre gosta de lhe conferir missões fáceis?”“Fácil depende muito do ponto de vista de cada um. Se um cavaleiro de bronze vier pra cá e ficar encostado num muro sem fazer nada, a missão com certeza vai ser fácil. Eu não vim aqui para tirar férias. A partir de agora, você vai precisar disto aqui.”El Cid recebeu o caderno de anotações e o pedaço de carvão e fitou-o, desconfiado.“Pra que isso?”“Nunca confie apenas em sua memória. Estamos aqui para observar e investigar. Se houver alguma coisa que sinta necessidade de escrever para não esquecer, tenha sempre um papel em mãos. Eu vim aqui pela última vez há um ano. Então vamos recolher informações sobre o que aconteceu na vila nesse último ano e comparar com os dados anteriores. Vamos fazer isso primeiro com a vila principal e depois vamos para as demais. Então iremos monitorar as vilas por algum tempo e manter todos seguros, enquanto buscamos qualquer pista do que quer que vá acontecer por aqui. O que acha desse plano?”“Me parece bom.”“Ótimo. Vamos lá, eu te mostro como sempre faço nas missões.”Desceram pelo caminho mais fácil até alcançarem a parte pobre da vila. Reconhecendo as ruas e as casas, Sísifo observou tudo com toda a atenção. Havia umas casas reformadas ou até novas. Algumas ruas pareciam mais movimentadas do que antes; outras menos. Parou numa pequena praça na área pobre, onde havia o poço. Algumas mulheres conversavam e falavam dos problemas de suas próprias casas.“Parece que tudo está em ordem por aqui.”“Como pode ter certeza?”, perguntou El Cid.“É só acontecer alguma coisa para as esposas no poço pararem de falar sobre os problemas da casa e se concentrarem na novidade. Eu te garanto que nos próximos trinta minutos o assunto do momento será dois rapazes estranhos rondando a cidade. Em uma hora, quase todos estarão sabendo. Viu? Elas já estão olhando pra gente.”“Não vamos conversar com elas?”“Não, elas são muito desconfiadas. Conversei com elas apenas uma vez e até hoje me arrependo disso. Existe um senhor que sempre me dá boas informações, mas é difícil encontrá-lo. Vamos continuar andando.”“Você até parece um residente daqui.”“Eu procuro memorizar os dados da região que visito. Como venho para cá com alguma frequência, conhecer a vila e os costumes das pessoas é útil. Nesta direção tem uma rua mais larga e também movimentada. Vamos ver o que encontramos por lá.”Havia pessoas indo e vindo ao longo da rua. Sísifo parou ao lado de uma casa e ficou observando a movimentação.
“Tudo normal, aparentemente. Esta região está um pouco mais movimentada. Eu me pergunto se a vila tem crescido nos últimos meses. Seria bom para essa gente na área pobre. Nesta rua vemos um pouco mais de comércio. Aqui tem uma taverna, vamos passar mais tarde por lá para comer e para investigar melhor.”“Com quem vamos conversar?”“Vamos esperar um pouco e ver se ele passa por aqui… o leiteiro sempre me conta tudo o que eu quero saber. Ora, não me lembro daquelas crianças na última vez que vim.”Aquele orfanato era pequeno, mas sempre era movimentado, pois as crianças precisavam aprender a trabalhar para sobreviver no futuro. Como a adoção era muito improvável, a educação ali era baseada no treino para trabalhos braçais. Havia uma menina com no máximo dois anos, de cabelos roxos e um vestidinho meio sujo de terra. Como não podia ajudar as crianças mais velhas, corria pela rua, brincando.“Você se lembra dos moradores?”“Eu sempre me lembro das crianças. Há dois anos, o Grande Mestre leu nas estrelas que a reencarnação de Athena-sama já surgiu na Terra. Como isso não aconteceu no Santuário, só nos resta acreditar que ela nasceu como uma humana comum neste mundo. Não seria incrível se essa menininha fosse a Athena-sama?”“Até parece que você seria tão sortudo assim.”“Eu sei que não”, riu Sísifo. “Mas por causa dessa leitura, eu sempre presto atenção nas crianças. Posso não ser sortudo, mas a Athena-sama com certeza terá a sorte de nos encontrar de alguma forma. Então precisaremos estar de ouvidos e olhos abertos para perceber seus sinais. Afinal, não podemos esperar que a Athena-sama, com seus dois anos de vida, suba a montanha e apareça no Santuário dizendo que veio lutar na Guerra Santa.”“Você devia se concentrar mais na missão em vez de ficar fantasiando com a Athena-sama.”“Ah, isso também é do interesse do Santuário. Não seja tão duro, El Cid…”A menina, correndo sem a vigilância da freira, separou-se do grupo de crianças e tropeçou numa pedra, espatifando-se no meio da rua. Começou a chorar, e Sísifo imediatamente veio em seu socorro. Sentou-a no chão e espanou a areia do vestido. Ainda chorando, ela apontou para o joelho ralado, sem conseguir falar nada. Sísifo tirou o cantil do bolso do casaco, lavou a perninha e pegou a pequena no colo para acalmá-la.“Está tudo bem agora, pequenina. A dor vai parar logo, por isso se acalme.”A freira deixou o grupo e veio correndo até ele. Nesses segundos, o choro diminuiu, e Sísifo devolveu a criança aos braços da senhora.“Obrigada, meu jovem. É só me descuidar um pouco para ela sair correndo…”“É uma criança cheia de energia.”“Ela é muito corajosa. Perdeu os pais muito cedo, mas enfrenta cada dia com um sorriso no rosto. Eu tenho tanta pena… Seria muito bom se alguém pudesse cuidar dela. O senhor por acaso não saberia de alguém…”“Me perdoe, eu não sei…”“Então, não estaria interessado em adotá-la? Pelas roupas, vejo que tem condições para cuidar de uma criança…”“Bem…”El Cid meteu-se no meio da conversa, com uma pergunta direta demais para o gosto de Sísifo.“Senhora, aconteceu alguma coisa fora do normal nesta vila no período de um ano atrás até hoje?”Sísifo quase respondeu ao companheiro para reclamar da falta de delicadeza no trato com a freira idosa. A senhora olhou para o alto, tentando lembrar.“Hum… Em um ano…? Ora, não me lembro de muita coisa em especial… Coisas terríveis acontecem todos os dias. Um caso terrível foi o jovem que apareceu morto no dia seguinte. Que Deus tenha piedade da alma dele…”“Quando isso aconteceu?”“Acho que uns dois meses atrás… mais ou menos…”“Sabe quem ele era?”“Me disseram, mas sabe que eu esqueci? Na minha idade, já não lembramos muito bem…”“Entendi. Obrigado pela informação. Vamos, Sísifo.”Puxado pelo colega, Sísifo nem teve tempo de despedir-se da freira e da criança. El Cid parecia furioso por algum motivo que não conseguia compreender. Caminharam rápido e foram para outra rua, quando o colega diminuiu de velocidade e fitou-o, irritado.“Você é um irresponsável!”“Eu? Você jogou a pergunta na cara de uma freira idosa sem dar bom dia nem nada, e eu sou o irresponsável por aqui?”“Como você acha que faríamos a missão se você adotasse aquela criança?”“Quem disse que eu ia adotá-la? Eu já estava pensando em alguma desculpa para recusar…”“Você, com esse coração mole, diria uma mentira para uma freira idosa? O que diria para ela então?”“Eu não sei, você interrompeu o meu raciocínio.”“Sei...”“Ela podia ser a Athena-sama.”“Ah, então você sairia adotando todas as garotinhas de dois anos de idade atrás da Athena-sama? Uma estratégia muito inteligente.”“Eu já disse que estava pensando numa desculpa para recusar!”“Mas não acharia nenhuma e acabaria aceitando. Eu já ouvi sobre você. Dizem que tem um coração mais mole que um tecido.”“Ok, mas adotar uma criança quando se é um cavaleiro de Athena perto de uma Guerra Santa não é algo inteligente de fazer, e eu sei disso… Você precisa ter mais confiança em mim. Eu não ia adotá-la… acho.”“Tsc. De qualquer forma, vamos para a taverna buscar informações.”“Certo… Ah, droga. Pelo menos queria ter perguntado para aquela senhora qual era o nome daquela garotinha…”Eles eram diferentes demais para trabalharem bem juntos. Chegaria o dia em que Sísifo conseguiria lutar lado a lado de El Cid para defender a Terra? Era difícil saber. Contudo, não podia acabar como inimigo de seu próprio vizinho.“Desculpe, El Cid. Você tem razão. Talvez eu tivesse mesmo adotado aquela menina.”“Eu tenho certeza de que você teria.”“Talvez eu estivesse destinado a aceitar, e você estivesse destinado a me impedir!”“Antes que esta conversa piore, vamos falar desse homem que a freira mencionou. Precisamos saber mais sobre as circunstâncias da morte dele.”Estavam tomando outro caminho para a taverna, quando uma carroça passou, com um homem controlando dois cavalos. Foi a vez de Sísifo puxar El Cid pelo pulso e sair correndo atrás do veículo.“Venha!”“O que foi?”Não podia perder aquela chance: quando alcançou a carroça, saltou para dentro e sorriu para o rosto assustado do homem. Cumprimentou-o:“Bom dia! Não se lembra de mim?”“Você… Ah, é aquele maluco que se diz guerreiro?!”“Ah… O senhor acha que sou maluco…?”“E quem é esse outro?”“Ah, ele está trabalhando comigo esses dias. Posso ajudar o senhor hoje?”“Você apareceu na hora certa! Minhas costas já não são mais as mesmas… Eu podia ter a ajuda de um jovem saudável.”“Terá a ajuda de dois hoje.”“Obrigado! Venha se sentar aqui! Por onde andou, rapaz?”“Tenho viajado por toda a parte, o senhor nem imagina.”“Mas sempre volta pra cá. Faz tempo mesmo.”“E o que aconteceu enquanto eu estive fora?”“Ih, tanta coisa que vou precisar do dia todo para falar tudo!”“Eu tenho o dia todo.”“Então se prepara porque eu falo mesmo!”Não havia melhor relatório sobre tudo que acontecia naquela vila. O leiteiro era um homem viúvo, sem filhos, que só tinha os animais para conversar depois de um longo dia de trabalho. Por isso, adorava conversar com todas as pessoas. Sabia da vida de todos, sem exceção. Conhecia as rotinas, as mudanças, os lugares, e o melhor de tudo: informava absolutamente qualquer coisa que Sísifo desejasse. Era o melhor informante da região.Enquanto ajudava o senhor com a venda de leite, Sísifo soube do caso do homem morto com mais detalhes. O sujeito era um lenhador e produtor de carvão que vivia fora da vila, no meio da floresta. A esposa e os filhos também haviam sido encontrados mortos, em outra vila, três meses antes do homem. Diziam que ele havia se suicidado, mas o leiteiro negou com uma pergunta:“Você já viu alguém destro se suicidar com uma facada no lado direito do corpo?”“Isso é verdade? O ferimento foi mesmo no lado direito?”“Todo mundo me disse que foi no lado direito, sem dúvida alguma. Pobre homem, foi assassinado, mas todos dizem que foi ele mesmo…”“E o que o senhor acha que foi?”“O fantasma, é lógico!”“Hein?!”“Isso foi pouco depois de eu te encontrar. Todas as noites, um fantasma era visto na região onde aquele homem apareceu morto. Mas, depois da morte dele, o fantasma sumiu! Desapareceu completamente! Ou seja, provavelmente o fantasma ficou por aqui porque tinha algum rancor com o lenhador e ficou assombrando a cidade até encontrá-lo e matá-lo!”
“É uma teoria interessante”, riu Sísifo.“Teoria coisa alguma! É a realidade, rapaz! É a realidade! Tem que acreditar, senão vai se dar mal na vida, hein? Fé é tudo!”“O senhor tem razão! Pode me falar mais sobre esse fantasma?”“Eu sei tudo sobre ele! Te conto a história toda!”A conversa prosseguiu o dia inteiro. Precisavam interrompê-la para entregar o leite, mas o leiteiro fazia o favor de comentar com o cliente o assunto da conversa, de forma que Sísifo pôde ouvir os mesmos boatos das bocas de outras pessoas. Ao anoitecer, o leiteiro convidou-os a ficar em sua casa como agradecimento pela ajuda. Sísifo ficou em dia com todas as fofocas da vila, ouvindo o empolgado homem até tarde da noite. Quando finalmente entrou no quarto emprestado para dormir, suspirou.“Bem, com isso temos bastante coisa para pensar.”“Você com certeza gosta de conversar com as pessoas”, comentou El Cid, preparando-se para dormir.“Não sei se eu gosto tanto, chega uma hora que realmente cansa… Mas a gente precisa ter paciência, porque as pessoas são muito carentes, El Cid. Todos os anos eu torço para que ele encontre alguém com quem possa conversar…”“A propósito, sobre a história do fantasma…”“Ah… Aquilo é mesmo estranho… A princípio, não vamos acreditar que seja um fantasma.”“Eu quero investigar o local amanhã.”“Eu também pensei a mesma coisa. Vamos fazer isso assim que acordarmos.”“Certo.”El Cid deitou-se na cama e nem deu boa noite. Sísifo compreendeu que o colega não tinha a intenção de ser rude, apenas era daquele jeito. Preparou-se para dormir e ocupou a cama do lado.“Ei. Eu me pergunto se você nunca se sentiu carente também. Você veio sozinho para o Santuário e não conversa com as pessoas. Não sente falta de amigos em quem possa confiar?”“Meu objetivo é me tornar uma espada, e não ter amigos. Agora durma, precisamos acordar cedo amanhã.”“Certo… Boa noite, El Cid.”Não houve resposta. Tudo bem. O silêncio era bem melhor do que ouvir alguém duvidando de suas capacidades.
Notas finais
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