Novamente, Lúcia dormiu tarde — como vinha acontecendo nos últimos dias.

Ela havia conversado com Raquel, que finalmente explicou:


— Eu não te troquei por ninguém. Acontece que, quando eu não respondo, é porque estou ocupada. E você?

— Também. Ando fazendo umas coisas — respondeu Lúcia.


Agora as duas sabiam o motivo de uma e outra demorarem a responder.

E assim, voltaram a conversar normalmente.


Enquanto falava com Raquel, Lúcia também conversava com Raul.

Ele enviava fotos de desenhos que dizia serem dela — mas o retrato não parecia nada com Lúcia.

Os olhos no desenho eram verdes, mas os dela eram castanhos escuros.

O cabelo do desenho era liso, enquanto o de Lúcia era ondulado e com uma franja bagunçada — que agora já estava crescendo.

E, em vez da fita que ele desenhou, ela costumava usar uma fivela.


O desenho parecia mais com uma personagem de novela, mas estava bonito.


— Eu não consegui lembrar a cor dos seus olhos — ele se explicou. — A gente se vê tão poucas vezes…

— Você sabe o porquê — respondeu Lúcia.

— Porque a gente não se assume? — perguntou Raul.


Lúcia revirou os olhos. Nem namorado ele era, o que é que tinha pra assumir?

— Ainda não, Raul!

— Tá bom, eu vou esperar — respondeu ele, rindo.


Depois, mudaram de assunto e começaram a falar sobre arte.

Raul contava que gostava de aquarelas e mostrou alguns de seus trabalhos.

Até que ele era talentoso.


— Você é minha maior inspiração — escreveu ele.


Lúcia sorriu, envergonhada.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer, minha princesa.


E assim, passaram horas conversando, até de madrugada.



---


No dia seguinte, Lúcia acordou e fez o que sempre fazia pela manhã.

Depois do café, com um tempo livre, pegou o caderno e começou a escrever:


— 24/10 — 11:22 AM, sexta-feira


Ontem estive conversando com a Raquel.

Percebi que quem errou em tudo fui eu.

Por isso, nunca devemos julgar sem saber.


Ainda não terminei o capítulo da história da Rute, porque tem sido bem difícil.

Não quero fazer de qualquer jeito, de forma alguma.


Ontem também li algumas frases.

Costumo refletir sobre elas:


“Não são eles que estão te excluindo, é Deus quem está te separando.”


A Elisa tem se afastado de mim.

Fiquei mal? Não.

Estou super bem com isso.


“Cristo não anula dias difíceis, mas como é bom ter Cristo em dias difíceis.”


Quando entreguei minha vida a Cristo, eu estava passando por momentos bem complicados.

O Senhor estava comigo — e agora, que tudo parece normal de novo, mais do que nunca quero me aproximar d’Ele.


“Se a Bíblia chama isso de pecado, é pecado. Sua opinião não importa.”


Só Deus pode dizer o que é certo e errado.

Se está na Bíblia que é pecado, então é pecado.


“A vida é curta, mas a eternidade é longa.

Não brinque com sua alma.”


A gente tem que levar a alma muito a sério.

Esses dias eu estava feliz, e quase cheguei a cair novamente no pecado.

Mas foi pela misericórdia de Deus que consegui me livrar.

Meus pensamentos quase me levaram de volta a algo do qual eu já havia sido liberta.

A conversa com Raul me animou... mas veio uma animação terrena, e graças a Deus fui protegida.




Lúcia respirou fundo.

Lembrou do momento em que foi liberta — e reconheceu ali o Espírito Santo agindo, a guardando.


Depois que parou de escrever, almoçou e dormiu um pouquinho.

Quando acordou, tomou banho, vestiu uma blusa vermelha e um short azul-claro.


Ao terminar de se arrumar, viu sua prima Ângela na sala, conversando com as irmãs.

Ângela sorriu ao vê-la e disse:


— Agora vocês me dão licença, vou sair com a Lúcia!


E as duas saíram juntas.



---


Como sempre, Ângela estava ali para ajudar Lúcia a fortalecer a fé.

Sentaram-se em um banco sob a sombra de uma árvore, e Ângela abriu o livro que trazia na bolsa.

Começou a ler:


> “Tudo que acontece com você tem significado espiritual. Tudo!”




— Isso mostra que nada na nossa vida acontece por acaso — disse Ângela.


Lúcia assentiu, lembrando do que tinha acontecido com Raquel.

Talvez aquilo tivesse vindo pra ensinar a não julgar sem saber.


> “É por isso que temos de orar: Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu.”




— Essa parte mostra que é melhor que seja feita a vontade de Deus e não a nossa — explicou Ângela.

— Só Ele sabe o que é melhor pra nós.


> “Quando você é refinado pelas provações, as pessoas podem ver o reflexo de Jesus em você.”




— Porque é nas nossas fraquezas que Cristo se revela — completou Lúcia.

— Tem uma parte na Bíblia que fala de quando São Estevão foi apedrejado... as pessoas viram no rosto dele o rosto de um anjo.


— Exatamente. Por isso temos que ser humildes nas provações e firmes na fé.


Ângela continuou a leitura:


> “Sempre que Deus disser ‘não’ ao seu pedido de alívio, lembre-se: Ele está fazendo o que é melhor para nós, treinando-nos para viver o melhor da Sua santidade.”




— Por isso devemos obedecer ao ‘não’ de Deus — comentou Lúcia. — É melhor do que se arrepender depois.


Ângela sorriu e seguiu lendo:


> “Para fazer um bolo, você usa farinha, sal, ovos crus, açúcar e óleo. Sozinhos, cada ingrediente é desagradável, mas juntos se tornam deliciosos.

Assim também são as experiências difíceis da vida — Deus mistura todas elas e faz algo bom.”




— Então entregue seus problemas a Deus — disse Ângela. — Ele sabe o que fazer. Somos dependentes d’Ele.


Lúcia sorriu. Aquilo era lindo.


> “Entendam que os problemas vêm para testar a fé e gerar perseverança.

Deixem que esse processo continue até que se tornem pessoas de caráter maduro, de integridade, sem nenhum ponto fraco.”




— Sempre que um problema vier, permaneça firme, confiando em Deus — disse Ângela. — Vai passar. E quando passar, você vai perceber o quanto cresceu.


> “Você sabe que está amadurecendo quando começa a ver a mão de Deus nos acontecimentos confusos e sem sentido.”




— Isso você já deve ter percebido, não é? — perguntou Ângela.

Lúcia assentiu. — Várias vezes.

— Pois é, isso mostra que você está amadurecendo.


> “Se você olhar para o mundo, ficará aflito.

Se olhar para si, ficará deprimido.

Mas, se olhar para Cristo, ficará em paz.”




— O mundo só oferece uma alegria falsa — disse Ângela. — A verdadeira alegria vem de Cristo.


Por fim, Ângela fechou o livro e olhou para a prima:


> “Não desista — cresça!”




Lúcia ficou em silêncio, refletindo sobre aquelas palavras.


Mais tarde, já em casa, voltou a escrever.

Tentava terminar o capítulo da história — e, enquanto escrevia, as palavras da prima ecoavam na mente:


> “Não desista — cresça.”