Entregando a vida a Cristo
1 Capítulo 1

— Alieli! — Dona Quitéria chamou a filha, que estava arrumando uma das mesas.
A garota parou o que fazia e foi até a mãe, que apontou para o local onde o grande bolo de aniversário deveria ficar. Alieli entendeu tudo e foi até a cozinha.
Seu irmão Pedro, que estava empilhando os pratos, parou para ajudá-la a levar o bolo. Juntos, colocaram o bolo na segunda mesa.
As horas foram passando, e os convidados começaram a chegar um por um. Eram conhecidos e familiares, alguns com presentes nas mãos. A tia preferida da aniversariante também apareceu, segurando um embrulho bonito.
Alieli subiu as escadas para acordar sua irmã mais nova, que tinha o costume de dormir até tarde.
Entrou no quarto — que ainda não tinha porta, apenas uma cortina —, se aproximou da cama e chamou com voz calma:
— Ana Lúcia. — deu uma leve sacudida na irmã.
Ana Lúcia bocejou, piscou várias vezes e olhou sonolenta para a irmã.
— Levanta, toma um banho e vai pra sala — pediu Alieli.
A garota revirou os olhos e bufou, fazendo a irmã rir antes de sair do quarto.
Quando ficou sozinha, Ana Lúcia foi até a cômoda vermelha-vinho. Na parede acima havia uma imagem de Jesus Cristo, outra de Nossa Senhora das Graças e uma oração que ela mesma havia colado — uma prece que fazia todas as noites por si e por sua mãe, mesmo sem ela saber.
Juntou as mãos e orou, depois leu um pedacinho de papel onde estava escrita outra oração. Quando terminou, disse o de sempre:
— Muito obrigado, Senhor, por mais uma oportunidade.
Guardou o papel na gaveta e saiu para o banho.
Detestava tomar banho de manhã, mas, como a irmã pediu, obedeceu.
Vestiu uma blusa lilás com a palavra Love escrita em letras grandes e um short marrom-claro com desenhos de folhas secas. Penteou os longos cabelos e desceu as escadas.
Antes de chegar ao fim, viu que a casa já estava cheia de gente. Por ser antissocial, engoliu em seco, sem saber se voltava ou descia. Mas Alieli a viu e foi buscá-la.
— Feliz aniversário! — gritaram todos.
Lúcia sorriu, envergonhada, e se aproximou do bolo com as velas de 17 anos acesas. Todos começaram a cantar parabéns.
Fez o primeiro pedido, assoprou uma vela. Aplausos.
Fez o segundo pedido, assoprou a outra vela. Mais aplausos.
Partiu o bolo e deu o primeiro pedaço à mãe. Apesar de, às vezes, se sentir “a filha rejeitada”, Lúcia costumava brincar com isso.
Sua tia preferida, Margarida, se aproximou e entregou o presente. Abraçaram-se sorrindo.
Depois que todos deram seus presentes e curtiram a festa, a noite chegou e os convidados começaram a se despedir, desejando felicidades à aniversariante.
Mais tarde, Lúcia abriu os presentes, cercada pelos irmãos curiosos.
Alguns eram chocolates, outros roupas e perfumes.
Até que abriu o presente da tia Margarida: um caderno rosa, grosso, de capa dura.
— Tem uma coisa escrita aí — disse Pedro, apontando para um cartão.
Lúcia leu:
> “Aqui você poderá escrever todos os seus sentimentos e sonhos.
Espero, do fundo do meu coração, que todos se realizem.
— Tia Margô.”
Ela sorriu. Um de seus maiores sonhos era ser escritora.
Já tivera uma oportunidade, mas não deu certo. Às vezes se sentia distante desse sonho, outras vezes achava que talvez nunca o realizaria.
Amava escrever. Queria ver suas histórias virando livros e filmes, e sonhava em abrir uma biblioteca com suas próprias obras.
Mas, cada vez mais, parecia se afastar desse sonho.
Mas de noite, depois de conversar com sua amiga virtual Raquel e com o ex-namorado Raul — com quem ainda falava até de madrugada —, Lúcia ficou pensativa.
Apesar de o namoro virtual ter terminado, Raul ainda a tratava como se fossem um casal.
Raquel, por outro lado, era cristã e morava em outro país. As duas riam, compartilhavam vídeos engraçados e também mensagens da Palavra.
Mesmo assim, a amizade delas já tivera altos e baixos — como quando Raquel insistiu para Lúcia fazer algo que ela não queria.
Lúcia se afastou sem explicar o motivo, e Raquel ficou preocupada com o sumiço dela. Depois de conversarem, a amizade voltou ao normal.
Com Raul, as coisas estavam mais confusas.
Ele dava respostas vagas, não perguntava como ela estava, ignorava os vídeos que ela mandava.
Dizia “eu te amo muito”, mas suas atitudes não confirmavam.
Parecia mais apego do que amor.
Terminar com ele tinha sido difícil, mas necessário.
Agora, Lúcia esperava um sinal de Deus para saber se deveriam voltar — e nenhum sinal vinha.
Cada vez mais, o comportamento dele a cansava.
Até os apelidos carinhosos que antes pareciam doces, agora soavam irritantes.
— A gente reatou? — perguntou ela certa vez.
— Eu acho que não.
— Sem problemas. A gente estava agindo como se tivesse voltado.
— Então a gente vai voltar?
— Eu acho que sim.
— Que bom, meu amor. Tenho certeza de que vamos ser muito felizes.
Mas Lúcia não sentia isso.
Não tinha voltado com ele, mas ele acreditou naquele “acho que sim” e começou a agir como se estivessem juntos.
E ela, cansada, deixou por isso mesmo.
Naquela noite, sentou-se na cama, o novo caderno sobre o colo.
Ficou mordiscando a ponta da caneta azul, pensando no que escrever.
Frases? Histórias? Sonhos? Poemas?
Até que uma ideia brilhou em sua mente:
> “Escreva um diário.”
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