Entre suas asas
17 Ok, ok. Será que a minha mãe era uma Fada do Dente?
Notas iniciais
Fechei a porta, seguindo-as até o interior da sala. Olhei ao redor, mas Patch parecia não estava mais ali, pelo menos aparentemente.
–O que houve?
Vee estava nervosa, mordia de dois em dois segundos seu lábio interno. Bonnie postou-se ao seu lado. Algo se remexeu no meu estômago. Cruzei os dedos atrás das costas.
Só esperava que não fosse nenhuma outra notícia ruim.
–Precisamos conversar, Nora...uma conversa...tipo, você vai achar que eu sou louca, mas...
Ah tá, era só o que me faltava. Meu coração começou a bater forte.
–Espere- pediu Bonnie, a expressão muito séria. Ela usava uma corrente com pingente de lua crescente. Voltou-se para mim, analisando-me, desconfiada.- Está sozinha, Nora?
Vee olhava furtivamente entre mim e Bonnie.
Dei de ombros.
–Sim.
Ela olhou ao seu redor, focando seus olhos no alto da escada, para depois fitar-me novamente.
–Tem certeza?
Será que Patch não fora embora?
–Sério, o que está acontecendo?- Perguntei, olhando diretamente para Vee, mudando de assunto. Ela pigarreou.
–Não tem uma coisinha, um lanchinho aí pra eu comer? Tô com o estomago vazio- disse.
–Você comeu um cachorro inteiro antes de vir pra cá- murmurou Bonnie, fitando-a com as sobrancelhas erguidas.
–Desculpa, quando tô nervosa fico com fome.
E quando está feliz, triste, normal, enraivecida também. Essa era a minha melhor amiga.
Ela respirou fundo e continuou:
–Nora, lembra quando éramos crianças e eu te assustava dizendo que vampiros e bruxas iriam te pegar se você não me fizesse algum favor?
Jesus.
Balancei a cabeça, sentindo minhas mãos começarem a suar.
Já tinha entendido. Ela sabia. Mas por quê? Será que tinham tentado alguma coisa contra ela por minha causa? Não poderia suportar se a machucassem! Será que mamãe também corria riscos tão imediatos dessa forma?
–Então...ao que me parece eles realmente existem- disse ela, com os olhos bem abertos e a boca franzida.
Fortes sensações de frustração e alívio tomaram conta de mim. Não precisaria mentir para ela sobre tudo o que estava acontecendo na minha vida mas, por outro lado, agora ela estava envolvida em uma história em que o ideal seria se manter a muitos e muitos quilometros de distância.
Apontei o dedo para Bonnie, tentando ao máximo não trême-lo e denunciar a covarde que sou.
–O que você é?-Perguntei, a voz convicta e firme, mas fui incapaz de controlar o leve balançar do meu queixo, afinal, eu a convidara para entrar. Agora, seja lá o que ela fosse, tinha acesso irrestrito à minha casa.
Bonnie cruzou os braços.
–Uma bruxa- murmurou, seu rosto não demonstrava nenhum tipo de sentimento.
–Que ótimo!- Exclamei.
–Você...está bem? Você não ficou surpresa nem nada?- Perguntou-me Vee, a expressão de espanto e surpresa estampada na cara.
Dei de ombros.
–Longa história- eu disse.
–Ela já sabia, tem um anjo aqui dentro- explicou Bonnie. No mesmo instante, Patch desceu as escadas, os olhos fixos na Bennet. Senti um alívio sem tamanho ao vê-lo ali, sabia que sempre e quando estivesse com ele, estaria protegida. Ao menos, era o que eu queria acreditar.
Vee virou-se para trás, dando de frente com um Patch extremamente sério, de mandíbula cerrada.
–O que quer aqui?- Perguntou para Bonnie, olhando-a de cima.
Percebi que Vee afastou-se de Patch, sua postura corporal mudou completamente, tensionou os músculos. Estava na defensiva. Seus olhos praticamente arregalados iam dele até mim sem parar.
Bonnie deu de ombros.
–O pai dela...foi ver minha família antes de morrer, pediu para protegê-la e contar tudo o que precisava saber- ela focou o olhar no braço de Patch que acabara de repousar no meu ombro, puxando-me para ele num gesto protetor.- Você é o anjo que vi nas minhas visões- disse, tentando disfarçar a surpresa, mas sem sucesso.
Patch estreitou os olhos.
–Sério, gente, o que é que tá acontecendo aqui?! Nora, você já sabia? Nora, Patch quer matar você!- Vee quase gritou, estava prestes a ter um ataque.
–Ele não quer mais...- minha voz saiu fininha, fraca. Olhei para ele, que por sua vez apertou-me mais contra si.
–Esse anjo entra e domina o corpo dos nefilins, Nora! Sabe o que é ficar duas semanas inteiras estando consciente dentro do seu corpo, mas sem ter controle algum sobre ele?!
Não estava conseguindo entender o porque dela estar levando para o lado pessoal. Vee não era o tipo de garota que tinha um senso humanitário muito aflorado.
–Vee, a gente tem muito o que conversar e...
Vee apontou sua enorme unha vermelho sangue para Bonnie, que estava quieta, absorvendo tudo o que era dito.
–Ela viu Patch te matando!
Respirei fundo.
–Nunca iria machucar, Nora. A visão falhou, quando tomei a decisão de procurar a cura e fazer qualquer coisa para tê-la, ainda não a conhecia. Minha decisão mudou.
Vee estava vermelha, irritada, ofendida e indignada. Saiu marchando até a cozinha e ouvi quando a porta da geladeira se abriu.
Houve dois segundos de silêncio.
–Por quê meu pai queria que você me protegesse? Você sabe onde está essa maldita Cura?- Minha voz saiu seca e cortante, mas não consegui evitar. Gentileza não combinava com a situação do momento.
Ela balançou a cabeça.
–Poucos dias antes de você completar seis anos de idade, seu pai veio procurar a minha avó. Eles se conheciam há anos, eram muito amigos. Pediu para que perto de você completar 18 anos, ela viesse vê-la, para contar toda a verdade. Seu pai sabia que não iria viver tempo o suficiente para comemorar essa data com você.
Senti vontade de chorar, vontade de gritar, xingar meu pai, xingar todo mundo. Mas me segurei, deixaria para fazer isso quando estivesse sozinha. Toda a dor de quando mamãe e eu ficamos sabendo que o pai tinha morrido, voltou, como se alguém amado que eu esperasse nunca mais ver me desse uma facada dolorida nas costas.
–Seu pai vem de uma longa liguagem de nefilins, Nora.- Continuou ela.
Abri a boca num grande O.
–O quê?- Sussurrei. Pisquei veementemente contra as lágrimas que ameaçavam transbordar.- Isso quer dizer que ...eu sou uma nefilim também?
Eu não conseguia entender, minha cabeça girava tanto que tive que fechar os olhos por alguns segundos antes de poder me concentrar novamente.
–Não, você não.
Patch enrijeceu os músculos, sua respiração se alterou um pouco antes dele voltar ao estado de antes. Olhei para ele, mas Patch me ignorou.
–Isso é bom, eu acho.
Bonnie Fitou Patch com o queixo erguido, depois me olhou nos olhos.
–Muita gente nessa cidade não é o que parece ser.
Um arrepio varreu o meu corpo. Me aconcheguei mais no corpo quente de Patch.
–E a sua avó?
Bonnie desviou o olhar.
–Não pode vir.
–Se você veio por conta de Patch, pode ficar tranquila, ele não vai me machucar.
Bonnie sorriu de lado, mas sem humor algum.
–O perigo está te rondando, Nora. Não foi apenas Patch que eu vi. Você é valiosa.
Eu soltei uma risada de escárnio.
–Se eles soubessem que não faço a minima ideia de onde meu pai escondeu essa tal Cura!
Patch focou os olhos em Bonnie, depois para mim.
–Vou proteger você- disse.
–Eu que vou protegê-la!- Murmurou Vee. Mal tinha reparado que ela havia entrado novamente na sala.
–Vee...isso tudo é muito perigoso, não é como brincar de detetive ou algo do gênero!- Falei. De repente me veio a cabeça a curiosidade de saber por qual motivo Vee estava a par de tudo isso.- Como você se envolveu nessa história, Vee?
Ela trincou a mandíbula, para disfarçar algo.
–Sou uma nefilim.- Disse, a voz soando alta demais.
Ok, ok. Será que minha mãe era uma fada do dente?
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