Entre suas asas

8 O que é mais um pingo de água pra quem já está totalmente ensopado?


Notas iniciais
Hello!

Patch arqueou as sobrancelhas. Olhei para todos os lados, menos para o seu rosto.

–Vai ficar aí na rua?-Perguntou, com um sorrisinho querendo surgir no seu rosto. Funguei e coloquei uma mexa de cabelo atrás da orelha.

–Não preciso entrar pra falar sobre isso- disse, mas pareci tão insegura que me odiei por dentro. Pigarreei.- Tipo, é jogo rápido e tal.

–E Isso seria o quê, Nora?

–Sobre o trabalho...acho que não precisamos mais...

Ele ergueu as mãos por um momento, fazendo com que eu perdesse a linha de raciocinio. Seu sorriso se abrira ainda mais e um brilho estranho cintilava em seus olhos escuros.

–Você tem medo de meninos?- Perguntou.

Senti a pele do meu rosto queimar feito brasa. O quê? Medo? Sério?

–Claro que não!- Resmunguei ao cruzar os braços. Uma brisa fria soprou alguns fios do meu cabelo para frente. Sacudi a cabeça para que eles voltassem para o lugar.

–Então por quê você não entra? — Indagou, divertido com a situação.

Tá. Certo. Qual seria o problema, afinal? Eu já estava aqui mesmo.

–Só um pouquinho- eu disse ao passar por ele bruscamente, andando rapidamente pelo o curto corredor e chegando até uma bela e aconchegante sala. Tudo ali tinha um ar rústico, com pinturas que pelo o que eu conhecia de arte, deveriam custar muito, mas muito dinheiro.

Não tinha nada a ver com a pessoa de Patch. Se não fosse ele próprio que tivesse me entregue o endereço, provavelmente eu teria duvidado de que se tratava de sua casa.

–Gostou?- Questionou ele, me pegando a observar um quadro pintado a óleo -eu acho. Havia três figuras na pintura. Um anjo de asas negras em cima de uma lápide, uma menina ao seu lado e um homem um pouco afastado, fitando-os com os olhos vermelhos.

Artisticamente falando, era uma obra muito bonita. Mas não consegui bloquear o arrepio que atravessou meu corpo.

Assenti com a cabeça.

–Mas não imaginava que sua casa seria assim.

Patch riu.

–Pensou que encontraria paredes negras e pichadas com nome de gangues?

O fitei de esguelha.

–Tipo isso.

Ele passou por mim e atravessou um balcão de mármore, onde, pelo o que eu podia ver, era uma cozinha de muito bom gosto. Caminhei até o balcão, deixando-o entre nós. Percebi tarde demais de que ainda mantinha os braços cruzados, então disfarçadamente soltei os braços ao lado do corpo. Eu me sentia estranha, como um robô ou uma boneca de pano, todos os meus movimentos pareciam tensos e rígidos.

E isso com certeza não passaria despercebido por Patch. Respirei fundo e tentei relaxar meus músculos.

–Minha mãe está me esperando em casa- menti.

Patch ergueu os olhos do que estava preparando e deu-me um olhar que dizia: E...?

–Então não posso demorar...

–Nora, desevolve, por favor.- Pediu ele, sorrindo.

Corei um pouquinho.

–Como o professor vai se afastar da escola por um tempo, acredito que não precisamos mais nos encontrar para fazer o trabalho- falei num jato. Meu estomago se contorcia de um jeito desagradavel, e tudo o que eu queria era ir embora. Patch escorou-se na bancada descuidadamente, inclinando-se para frente e repousando os cotovelos no mármore gélido.

–Acho que você ainda quer me encontar- murmurou, me deu uma piscadela e então virou de costas, indo em direção aos armários.

Franzi a testa. Meu Deus, como ele podia se achar tanto assim?

Ele voltou com uma lata prateada e depositou um pó escuro dentro de uma xícara.

–Pois está muito enganado!

–Aé? — Indagou, arqueando as sobrancelhas.

–Óbvio.

–Então porque preferiu vir aqui, pessoalmente, se eu lhe deixei meu número de telefone e apenas uma ligação bastaria para você manifestar o seu desejo?

Eu corei. Abaixei meus olhos para os pés, observei meus tênis surrados enquanto exigia que minha mente me desse uma reposta para essa situação rídicula e embaraçosa.

Em alguma parte dentro de mim, eu sabia que Patch tinha razão. Eu tinha o número dele, porque simplesmente não ligara?

–Gosto de resoolver as coisas pessoalmente- falei, depois que alguns segundos constrangedores de hesitação.

Ele deu O sorriso, atravessou a pedra polida que nos separava e me entregou uma xícara de achocolatado quente. Vários cheiros me envolviam...baunilha, chocolate, marshmallow...

–O que você colocou aqui? Veneno?- Falei, debochada, inspirando lentamente o doce aroma que saia da xícara.

Patch revirou os olhos.

–Você parecia com frio quando chegou, quis ser gentil- falou, um pouco ríspido. Puxou o recipiente da minha mão, e fez com que algumas gotas de chocolate quente manchassem o carpete branco do chão.

Pus as mãos na cintura.

–Não se tira as coisas da mão dos outros dessa forma!- Acusei-o.

–Por que você tem dificuldade de agradecer?- Perguntou, irritado.

Dei de ombros.

–Me dê a xícara, vou tomar.

–Não.

Ergui as sobrancelhas e estendi a mão.

–Me dá a porcaria da xícara, Patch.

Ele sorriu presunçoso.

–Me agradeça, e eu pensarei no seu caso!

Normalmente, eu era educada. Os professores sempre gostaram de mim, e a maioria dos adultos apartir de trinta anos também.

Mas com Patch é diferente, eu não consigo. Uma vozinha minima no fundo da minha cabeça me dizia "vamos Nora, agradeça, não é díficil..."

–Obrigada- falei entre os dentes cerrados.

Patch quase riu, tapou a boca com a mão para não sair o som. Bufei.

–Já chega, vou ir embora.

Virei as costas, momentaneamente perdida. Onde ficava o corredor mesmo? Demorei alguns segundos antes do meu cerebro pegar no tranco e eu me lembrar de virar a esquerda, no corredor.

Eu estava prestes a girar a maçaneta quando a sua voz chegou até mim.

–Nora, quando você vai admitir que se sente atraída por mim? Por que seus sentimentos a assustam tanto a ponto de negar a si mesma de senti-los?- Questionou ele, sua voz mantinha um humor contido.

–Não estou escondendo nada. Não estou negando nada- retruquei, olhando no fundo dos seus olhos, mas apesar da convicção em minhas palavras, algo dentro mim balançou.

Franzi o cenho.

Ele sorriu de forma preguiçosa e aproximou-se de mim lentamente, ficando a poucos centímetros de distância. Retraí a mandíbula e prendi a respiração. De repente a cena do nosso quase beijo aflorou na minha memória. Enrijeci os músculos automaticamente.

–Você se controla demais- sussurrou ele, fechando os olhos.- Você não se permite, vive se reprimindo. Qual a graça de passar uma existência inteira sem experimentar o que ela tem para oferecer, Srt. Grey?

Eu pigarreei. Olhei em volta, procurando em vão por alguma coisa que pudesse me livrar dessa conversa desagradável. Mas não havia nada ali. Apenas nós dois. Patch e eu, com pouquissimos centimetros afastando nossos corpos.

–Você acha que sabe tudo de todo mundo, mas a verdade é que você mal me conhece, Patch.- Dei um sorrinho de lado para dar ênfase ao que acabara de dizer.
Patch emitiu um som. Algo parecido com uma risada.

–Sei mais sobre você do que seus próprios amigos, Nora.

Senti um arrepio varrer minha espinha.

–Não sabe- teimei. Mas no fundo não duvidava inteiramente de suas palavras. Tudo o que ele dissera até agora era a mais pura verdade. Mas ele não precisava saber, ou melhor, de confirmação.

Mas, no fim, a quem eu estava tentando enganar? Eu ansiava por aquele beijo desde o dia em que nos conhecemos. Eu estava envergonhada, não sabia muito bem a como reagir...geralmente usava da minha facilidade para ficar irritada como escudo, mas agora...do que adiantaria?

O que adiantaria me negar de beija-lo neste exato momento?

Deslizei as mãos suadas atrás da calça jeans.

Até aquele momento não tinha percebido que estava de cabeça baixa. Senti seu dedo erguer o meu rosto. Naquele instante minha cabeça era uma amontoado de confusão de sentimentos, pensamentos, desejos. Patch abaixou-se um pouco, empurrando-me contra a parede. Suas mãos eram habilidosas, e não demorou nada para termos cada centimetros de nossos corpos em contato um com o outro.

Foi então que aconteceu. Seus lábios eram tão quentes, sua língua explorava minha boca de um jeito que ninguém nunca tinha feito. Eu já não pensava mais, apenas queria beija-lo até que minha boca ficasse dormente. Exagero? Não. Não quando se está beijando Patch.

Pus minha mão na sua nuca, puxando-o mais para mim. Meus dedos se enrolaram no seu cabelo, parecia que todos os meus movimentos e suspiros saiam sem a minha permissão, como se eu tivesse me entregue a ele de vez.

Sem mais, para a minha grande tristeza, o meu celular tocou exigente e estridente. Patch desceu seus lábios para o meu pescoço e um arrepio que nunca senti na vida atravessou o meu corpo como uma onda de calor.

–Patch...o telefone...-falei baixinho.

–Quer que eu pare?- Perguntou ele com o hálito quente contra a minha pele.

–Não- sussurrei. Ele riu e eu corei.

Foi quando dei uma olhada no identificador de chamadas é que minha mente clareou, como se alguém tivesse me jogado um balde de água gelada e gritado: ACORDA!

Empurrei Patch e pude vê-lo desapontado e frustrado. Gostei disso. Pois é.

Atendi o pequeno aparelho na minha mão.

–Oi, mãe!- Cumprimentei, um pouco animada demais. Torci mentalmente para que ela não percebesse a minha falta de ar.

–Onde você estava que não me atendeu antes?-Indagou, parecendo levemente irritada.

–Ah...eu estava na sala...e o meu celular...estava no quarto, daí demorei um pouco pra achar e atender- menti.

Houve um momento de pausa.

–E porque está euforica e aparentemente com falta de ar?

Pigarreei. Patch abriu aquele sorriso cafajeste. Sua expressão me dizia "uau, eu sou realmente bom nisso".

Revirei os olhos, mas mantinha um sorriso bobo nos lábios.

–Por conta da subida mãe...faz tempo que não corro tão rápido...

–Sei. Estou chegando em casa, briguei com o Hugo. Você fez a janta?

Pus a mão na testa.

–O quê? Por quê? Não...não gosto de jantar sozinha, você sabe.

–Bom, vamos fazer nós duasentão! Há tempos que não cozinhamos juntas...lembra quando preparávamos o café da manhã para o seu pai?

Lembro. Meu coração apertou.

–Sim. Vou te esperar então!

Mamãe se despediu e desligou. Por um momento fiquei um pouco atordoada com a lembrança de papai.

–Você precisa ir?- Chutou ele.

Concordei com a cabeça.

–Te vejo amanhã na aula?- Perguntei, mordendo o lábio inferior. Agora já era tarde para me arrepender, o que é mais um pingo de água pra quem já está totalmente ensopado?

E e daí que ele só quisesse se divertir comigo?

Eu também, só queria diversão!

Bom...é...diversão, claro.

Patch escorou-se na perede de forma despreocupada. Retirou do bolso da sua calça jeans uma correntinha de prata com um pingente de coração. Me puxou para mais perto dele. Senti seu toque na minha pele enquanto ele colocava o colar em volta do meu pescoço.

–O que é isso?- Indaguei.

Patch me olhou como que diz "sério, Nora?"

–Você é cega?

Fechei a cara.

–Porque está me dando isso?- Quis saber. Me senti estranhamente emocionada com o gesto...e confusa.

Ele deu de ombros.

–Dá sorte...vai te proteger.

Arqueei uma sobrancelha e sorri.

–Acredita nisso?

–Você não?

Franzi o nariz.

–Não muito...

Ele sorriu, parecia curtir uma piada particular.

–Vai por mim...e você fica muito bonita com ele.

Eu sorri.

–Obrigada.

–Vai chover!!!!!!!!- Zombou. Eu meio que ri e lhe dei um tapa de leve no ombro.

–Idiota.

Pus a mão mais uma vez naquela noite na maçaneta, mas antes de abrir a porta e partir, insisti:

–Você vai ir a aula amanhã?

–Não pretendo mais voltar.

Franzi o cenho.

–Por quê?- Minha voz soara alta demais. Patch sorriu, mas alguma coisa no fundo de seus olhos mudou. Seria preocupação? Tristeza? Quando se tratava de se esconder atrás de parenteses e controlar emoções, ele era muito bom.

–Ainda vamos nos falar.

Aé? E porque parecia que ele estava mentindo?

–Não acredito.

Ele sorriu.

–Isso não me parece novidade.

Meu telefone tocou novamente. Era mamãe, mais uma vez.

–Até...então- falei, indo correndo até o Fiat, mas sem antes me dar ao trabalho de me virar pra trás para fita-lo. Mas ele já tinha entrado. Algo dentro de mim me dizia que ele pretendia nunca mais me ver.

Liguei o motor e respirei fundo.

Deve ser só impressão, Nora, pensei.

Notas finais
Bye! Qual parte mais gostou??