Entre suas asas

11 Compras? Lá vamos nós!


–Ai!- Vee exclamou ao repousar a boca na xícara que segurava com as duas mãos. Seu rosto ficou vermelho e ela deixou o recipiente em cima da mesa e cruzou os braços.-Nem quero mais essa porcaria.

Sorri para ela.

–Você é muito ansiosa, sabia que estava quente, porque não esperou um pouquinho?

Vee pôs seus óculos escuros, recostando-se na cadeira do Enzo's.

–Não gosto de esperar — murmurou.

Revirei os olhos.

–Está nublado, frio e estamos dentro de um local fechado -falei.

Beberiquei a beiradinha da xícara. O chocolate quente do Enzo's era uma delícia. Lambi os lábios.

Ela deu de ombros, a expressão mostrava impaciência.

–Então posso saber o motivo dos óculos escuros?- Concluí.

Ponderou por alguns segundos e abriu um sorriso cheio de dentes branquissimos.

–Baby, eu já sou linda sem óculos escuros, mas com eles...eu sou um arraso.

Sabe, às vezes eu gostaria de ter pelo menos um terço da autoestima de minha melhor amiga.

–Nossa, você andou com Marcie Millar por acaso?- Debochei.

Vee me fuzilou com os olhos e jogou seus cabelos finos e louros para trás.

–Nem vem! Não me faça parecer uma egocêntrica, que se acha. Apenas me valorizo, coisa que você não faz.

Soprei o líquido marrom escuro de dentro da xícara e observei por um instante as minimas ondas que formaram. Suspirei e a encarei.

–Ótimo, está dizendo que não tenho autoestima?

Minha testa e lábios estavam franzidos. Ela ergueu as mãos até a altura dos ombros, dando a entender que não tinha dito nada demais.

–Quando foi que você comprou alguma roupa ousada? Quando foi que você não reclamou do seu cabelo?- Vee apontou para o meu sueter- Olhe pra isso! Parece que herdou isso da sua avó!

Meu instinto natural era negar até a morte. Arranjar argumentos, discordar de suas palavras e brigar com ela. Mas a verdade é que talvez Vee tenha razão. Dei de ombros e me rescostei na cadeira vermelho sangue bruscamente, fazendo com que os pés de madeira dela fossem arrastados minimamente para trás.

Ficamos em silêncio por um momento.

–E fique você sabendo que este sueter é da minha mãe, e não da minha avó- soltei por fim.

Ela começou a rir. Tentei bancar a durona e tal, ficar encarando-a e fingir indiferença, mas não deu nem cinco segundos e eu já estava rindo também.

–Hoje iremos fazer compras — avisou assim que ergueu um pouco seus óculos de marca e limpou as lágrimas abaixo dos olhos com a ponta do seu polegar.

Ergui uma sobrancelha.

–Estou sem dinheiro, gastei a minha mesada comprando um celular novo, se lembra?

Vee deu-se um tapinha estalado na testa.

–Droga. Mas e sua mãe?

–Mamãe vive reclamando que está sem dinheiro. E também nós brigamos ontem, não quero pedir nada para ela.

Vee pegou novamente sua xícara e com todo o cuidado do mundo, tomou um gole do seu chocolate quente. Depois de se certificar que não ficaria com nenhuma queimadura mais grave na língua, envergou-a e bebeu rapidamente tudo.

–Às vezes te acho um pouco estranha.

–Você é mais estranha que eu.

–Também acho- disse, então imitei o seu gesto, terminando com o meu chocolate tão rapidamente quanto ela.

–Mas me conte o que aconteceu com você e sua mãe- pediu. Ela inclinou-se sobre a mesa, apoiando os cotovelos sobre o tampo forrado de vermelho (do mesmo tom das cadeiras) e o queixo nas mãos.

Respirei fundo e falei:

–Mamãe e Hugo vão se casar.

–Babe...seu pai já morreu há um anos e pouco e...

Ergui um ombro só.

–Eu sei, mas ainda acho um pouco recente. Sei que no fundo sou eu que estou errada, mas preciso desse momento de rebeldia para cair finalmente a ficha de que papai nunca mais irá voltar.

Vee pegou a minha mão que estava em cima da mesa e apertou com força.

–Sinto muito, muito mesmo, Nora.

Sorri sem mostrar os dentes.

–Mas sabe qual é o lado bom?- Seu rostou se iluminou- Hugo é podre de rico.

Arqueei as sobrancelhas.

–Toda a cidade sabe.

–Então...?

Franzi o cenho.

–Ainda não entendi- confessei.

–Hello! Você é muito burra.

Revirei os olhos. De novo.

–Você que fica se comunicando com meias palavras e a culpa é minha por não entender seu dialeto?????

Ela bufou.

–O que seria de você sem mim, Nora. Sério. Digo e repito, eu sou a luz da sua vida.

–Desenvolve por favor.

–Você pode pegar o cartão de créditos sem limites de Hugo.

–Ah.

Foi só o que consegui pronunciar. Ponderei sobre aquilo. Hugo? Cartão de crédito?

–Acho melhor não....ele nem vai querer me emprestar na verdade.

Vee fez um sinal para a garçonete. Pediu uma torrada com bastante maionese e queijo. Observamos enquanto a pequenina mulher se afastava de nós.

–Bom, voltando ao assunto. Óbvio que ele vai te emprestar, você é filha da sua mãe!

–Ava.

Ela sorriu.

–Sério, Nora, ele vai fazer de tudo pra te agradar agora.

–Vou pensar no seu caso.

Vee fez uma careta.

–E você e Scott?- Perguntei de repente, ansiosa por mudar de assunto antes que ela falasse novamente sobre Hugo e o seu reluzente cartão de crédito.

Vee bufou.

–Acho que ele é gay ou virgem.

–Por...?

–Ele nem sequer me dá bola! Esses dias o convidei para ir até a praça, estava calorzinho ainda. Fui com um short lindo demais da conta, mostrando minhas pernas grossas. Tu acha que ele sequer olhou para elas?

–Talvez você tenha que ser mais óbvia...

Ela soltou uma risada alta, mas sem tanto humor assim.

–Se eu for mais óbvia do que venho sendo, então é melhor agarra-lo em um beco escuro. Na verdade, essa não seria uma má ideia...

–Acho que ele curte mais aquele lance de beleza interior- o defendi.

–Sério? Nora, você não existe.

45 minutos mais tarde, Vee estacionava seu Neon na frente da casa de fazenda. A moto de Hugo estava encostada na lateral do casarão, e a ideia de vê-lo lá dentro me embrulhou o estômago.

Calma, Nora. Sua mãe não vai esquecer seu pai, mas a vida segue. Você precisa seguir também. Nunca ninguém irá substituir seu pai. Nunca. Meus pensamentos se agitavam dentro da minha cabeça, numa confusão que com certeza seria difícil compreender.

–Aquela é a moto do noivo da sua mãe?- Perguntou-me Vee. Fiz que sim coma cabeça.- Certo, essa é a oportunidade perfeita pra...

Ergui a mão para interrompe-la.

–Nem morta. Não quero pedir nada para ele, e mamãe também não iria gostar da ideia.

–Criatura sem graça- resmungou.

Andamos em silêncio até a entrada. Hugo estava sentado no sofá, em frente à lareira. Nas mãos se encontrava um prato cheio de cookies.

–Oi, Nora. Oi, Vee. Como foi a aula hoje?- Ele perguntou. Estava pretendendo responder qualquer coisa e subir direto para o meu quarto, mas Vee me puxou pelo o braço até que estivessemos uma sentada ao lado da outra no sofá, quase de frente para Hugo.

–Foi ótimo! Aprendemos sobre aquele negócio...sabe...aquele que tem números. Nossa, esqueci o nome agora.

–Matemática?- Murmurou ele, sorrindo...mas a fitou como se achasse que ela tivesse algum tipo de atraso mental.

–Não, acho que é fisíca! Tenho memória fraca, deve ser por isso que esqueço da metade das coisas que estudei em dia de prova!- Vee forçou uma expressão frutrada e confusa.- Sabe, a escola irá promover o baile de inverno. Nora disse que não vai porque não tem roupa. Poxa...estamos planejando desde o ínicio do ano ir neste baile, vai ser um acontecimento na escola.

Vee piscou várias vezes com os dois olhos. Seu semblante ficou perfeitamente desapontado e triste. Eu fiquei sem reação. Abri a boca para desmenti-la, mas Hugo foi mais rápido.

–Nossa, Nora! Porque não me pediu?

–Minha mesada não vai ser o suficiente para paga-lo...

–Faz a prestão, oras!- Vee deu a ideia. A esfaqueei com os olhos. Na real estava com vontade de bater a sua cabeça contra a parede pra ver se aquela cabeçona pegava no tranco.

Hugo sorriu e surgiram alguns pés de galinha ao redor de seus olhos verde-musgo.

–Seu aniversário não é daqui alguns dias?- Perguntou.

–Aham, dia 3, daqui duas semanas.

–Então está tudo bem! Vou lhe emprestar meu cartão e você pode comprar a roupa que quiser, sem se importar com o preço! Será o seu presente de aniversário!

Ele levantou-se e vasculhou sua bolsa que estava em cima do criado-mudo. Retirou de sua carteira de couro marrom um cartão dourado e me entregou. Porém, antes que eu pudesse negar, Vee pegou-o da mão de Hugo e guardou dentro do bolso da sua calça jeans.

–Vamos sair e comprar agora! Obrigada Sr. Benssan!- Vee praticamente saiu correndo até o hall. Fui atrás dela.

Mas antes de sair pela a porta, Vee perguntou:

–É ilimitado?

Ele concordou e riu suavemente.

–E Nora pode comprar roupas novas pro seu armário também...não vou me importar. Você também pode comprar alguma coisinha pra você, Vee. Não sendo nenhum carro, casa, ou algo que vá me dar prejuízo, claro.

Ainda bem que ele falou isso, senão Vee apareceria com uma moto reluzente na cidade.

–O-obrigada- disse. Hugo sorriu e acenou pra mim e Vee enquanto saiamos ao encontro do Neon da minha amiga-mais-idiota-do-mundo. Mais uma vez.

Quando estávamos abrigadas dentro do carro e ela deu a partida, a fuzilei com o olhar.

–O que é?- Quis saber, usando um tom inocente.

–Que mentira tosca! Que baile?!

Vee me olhou de lado, dobrou a esquina e entrou na rua principal que conduzia para o centro.

–Nora, amanhã terá o baile de inverno na escola.

De repente a memória me atingiu como uma amondega gigante e cheia de molho. Por toda a escola havia cartazes rosa e verde flourescentes, informando sobre o baile de inverno. Às 20:00, na sexta daquela semana.

–Tinha esquecido- confessei.

–Percebi. Vamos nós duas, e convidaremos Scott. Você pode chamar Patch.

–Nem sei se verei Patch novamente. — Não consegui esconder a notinha de desapontamento que tingiu minha voz. Virei o rosto para a janela, fitando os arbustos que, pouco a pouco, perdiam suas folhas verdinhas.

–Tudo bem, lá nós arranjaremos alguém. — Limitou-se a dizer.

Não queria discutir com ela agora. Entrar mais uma vez no assunto de que eu não precisava de namorado algum e que eu podia perfeitamente ficar sozinha.

Agora que já estavámos nessa situação, iria aproveitar. Hugo queria me agradar? Então eu usaria e abusaria de suas facilidades. Dane-se, já tinha sido contaminada pela a animação de Vee.

Compras? Lá vamos nós!