Entre os mundos
2 Tudo que sobe
Notas iniciais
A geada que cobria moscou era linda e fria.
Tremi de frio em baixo do casaco de pele de raposa, que combinava perfeitamente com as botas e as luvas de couro que eu usava, pisei com cuidado no degrau da escada do jato.
– senhorita Sulivan – uma mulher loura e alta correu na minha direção acenando freneticamente – oh meu deus, não acredito que você está aqui na minha frente.
– e você é? – franzi a testa.
– Ah...eu, bem... – ela se atrapalhou falando com sotaque Russo acentuado – sou Vivian koslovisck, a representante da interprise films na Rússia, estou aqui para leva-la até o hotel.
– ótimo – desci as escadas correndo, ignorando-a – meninas vamos.
Logo atrás de mim vieram minhas amigas-bajuladoras-assistentes, Vick, kate e lauren, que basicamente tinham o trabalho de me manter entretida
– nossa pra mim é uma honra conhecer a famosa mikaella Sulivan – Vivian se sentou bem a minha frente na limusine – sabe eu já vi todos os seus filmes e...
– quer saber colega? – kate notou meu tédio – nós não estávamos muito afim de saber, mas valeu a intenção.
Depois disso ela calou a boca.
Eu não sou a atriz mais famosa de Hollywood por minha paciência, mas por ser boa no que eu faço, já ganhei 3 Oscas e fui indicada a mais dois. Atualmente estou filmando um filme chamado “Treinada para matar” em que eu atuo como uma espiã adolescente, mesmo já tendo 19 anos. Minha personagem está perseguindo o vilão, e como 90% de todos os vilões são Russos, aqui estamos.
Quando o carro parou, olhei para a estrutura do hotel em que ficaria, o hotel Ukraina era de uma arquitetura incrivelmente exótica e sofisticada, segundo Vivian era o melhor que moscou tinha a oferecer, fui levada até a frente do hotel e respirei fundo algumas vezes antes de abrir um sorriso encantador e entrar onde minhas fãs aguardavam ansiosamente gritando meu nome e agitando cartazes. Eu fui simpática, sorri, tirei fotos e dei autógrafos, até os seguranças finalmente virem me resgatar em meio a toda aquela bagunça me levando a área Vip, sinceramente eu odeio ter que ficar dando satisfação da minha vida a essa gente, parece chiclete.
Toda a cobertura havia sido reservada para o pessoal da produção, e na suíte máster estava a estrela, ou seja, eu.
– nossa Mika – Vick comentou maravilhada assim que fomos deixadas a sós– seu quarto é sempre o mais bonito.
– isso querida – tirei o casaco jogando-o na cama – é por que eu sou a estrela.
– Você e o Ben – kate se jogou na cama.
Revirei os olhos, Ben Tomas fazia meu namorado no filme, e consequentemente meu namorado na vida real, tudo só um golpe de publicitário, as pessoas amavam saber que nós dois estávamos juntos, não me leve a mal ele é um cara lindo e super simpático, mas não gostava dele, e isso atrapalhava um pouco, na realidade ele tinha uma namorada verdadeira, que ficava com ele as escondidas da mídia é claro, para não manchar nossa imagem de casal feliz.
– ele disse que o avião dele atrasou – comecei a me olhar no espelho – isso que dá não querer vir comigo.
Ajeitei meu cabelo vermelho de forma que ele caísse em camadas, na realidade sempre pensei que era isso que me destacava tanto, as atrizes Hollywoodianas geralmente ou são loiras oxigenadas ou morenas sem graças. Mas uma ruiva natural, de cabelos verdadeiramente vermelhos e não alaranjados de olhos azuis vibrantes, sem uma única sarda ou imperfeição no rosto e de manequim 36, me fazia a pessoa perfeita para basicamente tudo.
– Mikaella – kate chamou da porta – o pessoal da maquiagem e figurino chegou, mando entrar?
– claro – sorri.
Adorava aquele povo, eles era minha vida, literalmente, se consistiam em Cristian, o cara que fazia a mágica acontecer no meu cabelo, Susan e Beca, que cuidavam das unhas, Cindy que me deixava com as maquiagens mais chocantes, e esteve que era o melhor dermatologista do mundo, e eram eles que me deixavam verdadeiramente de tirar o folego, ficamos as 5 horas seguintes me produzindo para a seção de autógrafos que terias e a divulgação do filme, Ben e eu deveríamos estar perfeitos.
Quando fui olhar o resultado final, sorri abertamente para minha imagem, meu cabelo estava solto em cachos definidos caindo elegantemente sobre minhas costas, minha maquiagem estava leve, a única coisa que chamava atenção eram meus lábios rubros e o tubinho verde oliva em que me puseram estava realmente incrível ele era apertado até a cocha e depois se abria em calda de sereia, não posso comentar sobre o Chanel de saltos agulhas que estavam sobre meus pés pois eles eram indescritíveis.
– meu deus – john, meu empresário me pegou pela mão, fazendo dar um leve giro – você está tão divina que eu acho que tem um anjo no céu com inveja.
Ele era a versão gay de um homem realmente gato.
– só um? – provoquei – acho que é um esquadrão inteiro.
– tem razão querida – Ben entrou lindamente num smoking completo – você está linda.
Ele estava lindo, parecia que havia acabado de sair do banho, com o cabelo penteado para traz de forma elegante e o sorriso perpetuo no rosto.
Ele me pegou pela cintura e fomos juntos até a limusine, que nos levaria em direção ao local da festa, passamos uma hora no carro, sim eu acho isso uma falta de organização, deveriam ter feito a festa num local mais perto do hotel e como o chato do meu namorado-falso não gostava do meu jato, pois ele dizia que era ostentação de dinheiro, fomos de carro.
Assim que chegamos as luzes nos cercaram, holofordes apontados para nós, os fleches.
Sorri de forma sensual para Ben, como se tivéssemos um segredo particular e íntimo, para matar os repórteres do coração.
– beija ele Mikaella – um repórter atrevido pediu.
Olhei o homem ao meu lado e deixei meus lábios tocarem os deles por alguns segundos enquanto ao luzes piscavam freneticamente.
– vamos – ele sussurrou me puxando.
Aquela noite passou loucamente.
Escrevi até meus dedos implorarem por arrego e dar cãibra na palma das minha mão, tirei centenas, não, milhares de fotos com Ben, com os fãs que não entendiam uma única palavra minha, a escritora do livro, os produtores, os atores secundários, quando finalmente pude voltar para o hotel estava quase morta, e com cãibra na cara de tanto sorrir.
– você vai comigo? – me virei em direção a Ben, que conversava distraidamente com uma mulher – eu já estou indo para o hotel.
– não querida – ele sorriu de modo amável para mim – vou ficar até mais tarde hoje, pode ir.
– não me deixaria ir sozinha – tentei não demonstrar minha irritação – vamos.
– eu prefiro ir de carro depois – ele pegou minhas mãos e as beijou – vá no seu jato como queria, eu o chamei pra você.
Jato. Eu amo meu jato.
– tudo bem – beijei seus lábios de leve e me afastei – até mais tarde.
Coloquei meu sobretudo e me despedi elegantemente de todos, assim que sai do salão notei que o vento estava muito forte, corri para dentro os jato correndo.
– você voltou rápido – o piloto comentou – não terminei algumas checagens ainda.
– não estou me importando – me encolhi com o ar frio – vamos embora.
– desculpe senhorita, mas...
– olha só garoto – sibilei irritada – eu te pago para fazer a merda que eu mandar, então coloca essa jato pra voar, ou vou colocar ele no ar e te jogo lá de cima.
Ele ligou os motores e minutos depois, estávamos no ar, moscou era realmente uma bela visão, fiquei admirada com a cidade, as luzes e as cores. Estávamos sobrevoando a parte mais costeira numa coisa que quase me pareceu uma floresta.
Senti uma turbulência, com certeza por causa da chuva ou nevasca que estava por vir.
Olhei meu telefone distraidamente, já havia fotos minhas e de Ben na festa, dizendo como estávamos apaixonados e Bla,Bla,Bla...
Era engraçado, passei uma hora e vinte para chegar e em menos de cinco minutos estaria em casa, ou no hotel, que seja.
Uma pequena luz vermelha começou a piscar na cabine chamando minha atenção de repente.
– o que foi?
– uma pequena turbulência senhorita não se preocupe – o piloto tentou me acalmar mas seu tom de voz só me deixou mais nervosa – Base, aqui é fênix 227, estamos enfrentando uma turbulência, cambio.
Outro tremor, só que dessa vez mais forte, fez com que eu me agarrasse ao banco.
Um barulho tomou conta da cabine e aquilo me apavorou.
– Base, aqui é fênix 227, estamos com problemas devido ao vento forte cambio.
– Fênix 227, aqui é base – uma voz saiu do sistema de comunicação – você fez o procedimento de checagem completo? Parece que sua aeronave está enfrentando alguns problemas, cambio.
O jato deu vários solavancos fortes.
– o que foi isso? – senti meu corpo ser repuxado para baixo com violência.
– base aqui é fênix 227, não, repito, não fiz a checagem completa – a voz do piloto estava estranha – algum problema base.
Tive a sensação de estar caindo, como num sonho, ou pesadelo, era algo horrível de se sentir.
– mei dei, mei dei – o piloto começou a falar freneticamente – estamos tendo um pane, responda base.
–O que está acontecendo? – me ouvi perguntar de novo.
– estamos tendo uma pane grave senhorita.
– e o que quer dizer? – gritei apavorada.
– quer dizer que estamos caindo.
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