Entre os Garotos
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Mais um dia eu acordei. Pela primeira vez, Thomas tinha acordado mais cedo que eu. André continuava dormindo. A sua boca, um pouco carnuda, estava aberta e dela escorria um fiapo de baba. Nojento.
Olhei o horário e já passava das 12h. Levantei rapidamente e logo saí do quarto. Ao chegar do lado de fora, me lembrei que não havia nada para mim fazer nesse momento. Thomas veio até mim, provavelmente para bater papo.
— Thomas, me ajude com essas coisas. — Rebeca indicou as verduras na cozinha.
— Até, J. — Ele acompanhou Rebeca até a cozinha, me pergunto como ele iria ajudar... ele não sabe nem cortar papel direito.
— Ei, J. Vamos até a cidade mais tarde? Eu você e o Thomas. — André perguntou.
— Como assim? — Perguntei, realmente considerando a proposta.
— Quer dizer, um tempo para os melhores amigos se conhecerem melhor. Eu, você e Thomas. — André sugeriu.
— Acho uma boa ideia. Que horas? — Perguntei, percebendo que Ana acordara.
— Umas 14:00, ok? — Ele dirigiu-se até o lado de fora, acenando em despedida. Acenei em resposta. Resolvi focar um pouco em minha escrita até o almoço ficar pronto. Finalmente cheguei na parte boa, onde ocorre derramamento de sangue em ambos os lados. Melhor impossível.
–-xXx--
Creio que o almoço deu certo, o gosto e o cheiro não estavam ruins. Na verdade, estava até gostoso. Thomas, André e eu estávamos prontos, então saímos em direção à cidade. O caminho foi calmo, mas dessa vez não foi melhor que a outra, pois eu já o conhecia. O clima era algo bom, pois não era muito quente nem frio. Engraçado, eu ainda tinha ansiedade pela cidade. Talvez porque coisas boas podem acontecer lá, coisas que normalmente não acontecem em minha cidade natal.
— Ei, J. Thomas e você não eram bem amigos antigamente, certo? — André me perguntou, ele estava ao meu lado e Thomas empurrava minha cadeira. Todos estávamos na calçada, ainda bem que ela era bem cuidada. Já passei dor de cabeça demais com calçadas e escadas. Talvez, se todos cuidassem melhor do ambiente em que vivem, todos viveríamos melhor.
— Sim, na verdade eu não ia mesmo com a cara dele. Porém eu não o odiava, era algo mais “fica no seu canto que eu fico no meu”. — Falei, Thomas parou de andar.
— Vou comprar um doce nesse mercado, é rápido. — ele entrou com André na loja.
— Ei! — Aquela voz me fez gelar, olhei ao redor e a rua estava quase deserta. Ela estaria totalmente deserta se não fosse pela presença de Wesley.
— Até aqui vocês me seguem? — Perguntei, vendo-o se aproximar rapidamente de mim.
— Na verdade meu pai veio pegar umas coisas na mão do meu tio, mas eu não pude evitar de vir aqui após te ver caminhar com aqueles dois. Seu número de escolta está aumentando, certo? — Wesley perguntou, passando a mão no muro.
— E o seu diminuindo, cadê seu namorado... — Fui interrompido por Wesley, ele me deu um soco no rosto. O soco foi tão forte que me desequilibrei da cadeira de rodas e ele completou com um segundo soco, me derrubando no chão. Ele montou em cima de mim, tentando me socar mais. Eu me defendi com as mãos, porém ele tentava acertar um soco em meu rosto de qualquer jeito. Minhas mãos cederam, ele acertou um soco em meu nariz.
— Seu filho da puta! — André gritou, dando um chute na face de Wesley, derrubando-o no chão. Thomas pulou nele e ficou socando-o várias vezes no rosto. Wesley parecia desnorteado, assim como eu. As marcas de acne que haviam em seu rosto foram ocultadas pelo sangue que saía de seu nariz e era espalhado pelas mãos de Thomas, devido aos socos.
— Você acha que isso é legal, né? Acha que isso é bom? Tenta isso com alguém como eu! — Thomas desferia golpes nele. Thomas o prendia no chão apoiado em seu peito e socando sua face. André o segurou, impedindo-o de continuar. Wesley se levantou, chorando muito. Seu rosto estava ensanguentado, porém a situação não estava crítica. As mãos de Thomas estavam vermelhas e ele tremia. André e Thomas vieram até mim e me ajudaram a sentar na cadeira. Até o caminho de casa nenhuma palavra foi dita. Porém chegamos no sítio e o falatório começou.
— Jean? O que foi isso? — Rebeca perguntou, se abaixando e me vendo melhor.
— Um psicopata retardado mental e alvo de minha lista de morte fez isso. — Thomas entrou na sala. Ele parecia muito estressado.
— Devemos buscar ajuda, Thomas. — Rebeca sugeriu a Thomas, eles pareciam me ignorar agora.
— Não precisa, tenho certeza que o estado dele está muito pior. — Thomas sentou-se no sofá e olhou para mim. Não havia pena em seu olhar, havia raiva.
— Thomas? O que você fez com ele? — Ana perguntou, ela estava parada ao lado de Fernando na porta da cozinha e eu não tinha percebido.
— Apenas o que ele mereceu! — Thomas gritou e foi até o banheiro.
— Jean, passa um gelo... aí. Seu nariz não está quebrado não, certo? — Ana se aproximou, perguntando. Passei a mão em meu nariz para conferir se havia algo de errado, apenas estava sensível. Olhei minha mão e havia sangue nela.
— Estou bem, vou tomar banho. — Respondi.
–-xXx--
Tudo estava escuro, e eu estava sozinho. Irônico, eu odeio ficar sozinho, porém nessa hora eu me sinto tão... confortável com o vazio. Mas estou me sentindo fraco, eu sou incapaz e ninguém pode mudar isso. É como se eu não soubesse me defender deles, e realmente não sei. A cada dia que passa, a vida me prova que sou incapaz.
Passei a mão no rosto, ocultando as lágrimas que saia de meus olhos, estar no lado de fora da casa realmente ajuda. Era tarde, talvez eles já estivessem dormindo. Talvez eu deveria estar dormindo, eu sou inútil!
— J, você está chorando? — Thomas perguntou, colocando a mão em meu ombro. Ele estava atrás de mim e não o vi chegar.
— Não. — Tentei mentir, porém minha voz estava alterada demais para convencer.
— J... não fique assim. — Thomas veio até minha frente e se abaixou, segurando minha mão. Tentei esconder o rosto, mas era tarde demais.
— Você não entende! Eu sou inútil! Você não entende que nunca é fácil para mim! Todos estão me julgando e me rebaixando, porém nem me deixam provar que sou capaz, talvez eles estejam certos, eu não sou capaz. — Falei, as lágrimas pareciam se intensificar.
— Não. Você é capaz, e isso os irrita. Pense que eles não conseguem ser felizes e você não precisa ser perfeito para isso. Jean, você sorri e isso é real. E... seu sorriso é um dos poucos motivos que me fazem acreditar no... — Thomas parou de falar, largando minha mão.
— No...? Thomas, apenas você é assim. Você e os outros. Eu sou grato por te conhecer. Você me deu um motivo para sorrir. Eu te amo. — Falei, limpando as lágrimas.
— Isso mesmo, engole o choro. Sorria! — Ele sorriu alegremente, porém, lágrimas escorriam de seus olhos. — Odeio ver alguém chorando, eu choro junto.
— Thomas, você me deixou curioso. O que meu sorriso te fez acreditar no quê? — Perguntei, ansioso pela resposta.
— Jean, seu sorriso me fez... — Thomas se aproximou de mim, se levantando, igual da outra vez, quando ele me beijou, porém mais lentamente agora. Meu coração não disparou muito, nem minha respiração acelerou, eu apenas estava feliz. Ele sorriu, me olhando por um momento. Ele encostou sua testa na minha, sua boca estava muito próxima da minha. Dessa vez eu tomei o primeiro passo, me inclinei mais para frente. Seus lábios tocaram nos meus, meu coração ia explodir agora. Ele passou as mãos sobre meus ombros e me abraçou enquanto seus lábios estavam juntos aos meus. Ele então parou o beijo e olhou em meus olhos. Seus olhos verdes estavam mais intensos que nunca, e eu podia jurar que ele ainda chorava.
— Jean, seu sorriso me fez acreditar no amor. Entenda como quiser. Eu te amo como amigo, e recentemente descobri que te amo como namorado. — Ele sorriu, Thomas ainda me mantinha envolvido em seus braços.
— Namorados gays. — Falei, rindo um pouco.
— Que bom que você não está triste, não mais. — Ele colocou a cabeça sobre meu ombro, aproximando seu corpo com o meu.
— Eu te amo, e isso vale pelos 9 anos de amizade. — Falei, apertando o abraço. Eu o soltei, Thomas olhou ao redor, para ver se alguém nos espiava.
— Acho que meu pai vai me matar... — Thomas colocou a mão na cabeça, parecia desesperado.
— Como assim? — Perguntei, me assustando.
— Cara, eu cresci tendo o ensinamento de que ser gay é errado e doentio. E por um momento eu corcordei com meu pai. Porém agora vejo que nunca fui tão errado. Eu te amo e isso e lindo, porém ele vai me matar. Eu tenho certeza que ele vai. — Thomas andava de um lado ao outro.
— Que se dane, eles vão ter que conviver conosco. — Falei, segurando sua mão quando ele passou próximo de mim.
— Me desculpe por ter te beijado daquele jeito antes. — ele falou, se acalmando e sentando-se no chão, ao meu lado.
— Você estava com medo, eu também estava. Mas agora não tenho mais. Eu sei que quero isso. — Falei a ele.
— Idem, só tenho medo de minha família. — Ele falou, me olhando.
— Eu nunca conversei sobre isso com minha família. — Disse, olhando para ele.
— Acho que você tem sorte. Sua família não deve ligar muito para isso. — Ele falou.
— Ou talvez não. — Essa constatação provocou um arrepio em minhas costas.
— Vamos entrar. — Ele falou, o tempo estava começando a esfriar. Entramos e, dessa vez, ele não empurrou minha cadeira até o quarto. Ele se deitou em sua cama e eu me deitei na minha. Olhei para ele, e ele me olhava. Ele sorriu. Thomas parecia tão sorridente de repente, e seu sorriso me fazia feliz.
— Te amo. — ele sussurrou.
— Também te amo. — Sussurrei de volta. Peguei meu celular e enviei uma mensagem para minha mãe, avisando que tudo estava bem. Fechei meus olhos vendo Thomas dormir em minha frente. Logo eu vi, Thomas era a pessoa certe para mim. Espero ser a pessoa certa para ele.
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