Entre os Garotos
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Acordei com um sorriso bobo ao ver Thomas totalmente apagado na cama ao lado. Estamos no dia 24, faltando... perdi a conta da viagem. Se eu estava aqui desde 21, então faltam 27 dias. Sei lá! Esfreguei a mão esquerda em meu rosto numa tentativa de me despertar. Fui até o banheiro e lavei meu rosto.
— Você quer comer algo? — Ana perguntou detrás de mim. Senti um arrepio devido a cena inesperada.
— Sim, adoraria. Qualquer coisa. — falei, saindo do banheiro e ficando mais próximo dela.
— Certo, então vou fazer algo. — ela sorriu para mim, indo até a cozinha. Peguei meu celular do bolso e pude ver o horário, eram 9 da manhã. Lembrei de Thomas dizendo que gosta de ficar ao meu lado, novamente aquele sorriso bobo. Estou demente, só pode. Ele é meu melhor amigo, e por acaso pode melhores amigos do mesmo sexo de apaixonarem? Ao menos de um lado isso está acontecendo.
Resolvi não pensar muito nisso e então fui até o lado de fora da casa. Senti o vento frio matutino e o sol fraco em minha pele. Minha mãe dizia que, no tempo dela, o sol era mais fraco que hoje. E o meu professor confirmou que isso é culpa dos buracos da camada de ozônio.
Peguei meu celular do bolso e escrevi mais um pouco. Essa paisagem me deu uma inspiração extra para terminar o que eu já tinha começado antes. Eu me vi perdido na hora em que o casal deveria se beijar, eu deveria citar a sensação disso. Talvez o sentimento que isso dá. Porém eu não sei como prosseguir, já que eu nunca beijei ninguém.
Voltei para dentro da casa, percebendo que maioria já tinha acordado. Uns totalmente ativos, outros largados pelo sofá, parecendo uns zumbis. Em minha casa, temos o hábito de acordar cedo, eu até gosto porque dá pra viver um pouco mais do dia. Tem um jogo chamado Life is Strange, nele ouvi a frase “Eu gosto de acordar cedo e ver a natureza acordar junto comigo”. Acho que é por aí, não sou tão naturalista, mas é bem por aí.
— Então o que acha de passar uma noite na montanha? — Rebeca colocou a mão em meu ombro, fazendo-me tomar um susto. — Estava pensando em coisa errada?
— Eu? Não! Apenas não tenho o costume de ter pessoas me dando atenção... não uma atenção positiva. — Tentei me explicar.
— Certo, então. Vai ou não? — ela perguntou, dando uma de impaciente.
— Depende, lá é... — Ia perguntar, porém ela interrompeu.
— Claro, tudo por aqui é "ajeitadinho". — ela piscou para mim.
— Então não tenho como negar, talvez eu vá. — Sorri para ela. Rebeca sorriu de volta e acenou para mim. Novamente voltei a me distrair, observando as árvores balançando e ouvindo o farfalhar das folhas contra o vento.
— Oi, Jean. — Disse um Thomas com a voz rouca, olhei para trás e vi que ele estava doente. Acho que ele pegou um resfriado. Seus olhos de verdes agora estavam avermelhados e ele possuía olheiras mais forte que o normal.
— Não bastou o corte e você pega um resfriado? A sorte está mesmo ao seu favor. — debochei dele.
— Nem me fale, mas eu já estava gripando desde ontem à noite.
— Então, você... eita merda. Thomas, você está doente? — Rebeca se aproximou. Ao perceber que ele não poderia ir na programação, se chateou. — E agora? — ela perguntou.
— Eu fico aqui com o Thomas, vocês vão. — sugeri a ela.
— Mas por quê? — ela perguntou.
— J é um pouco tímido, ele não ia ficar muito bem lá. — A voz de Thomas estava muito diferente.
— Ok, então. Conto com vocês na próxima. — ela sorriu e entrou novamente na casa.
— Estou na merda. — Thomas ia falar novamente, porém tossiu.
— Desse jeito vou acabar pegando o resfriado também! — reclamei.
— Do jeito que você é, nem resfriado. — Thomas brincava comigo.
— Não é culpa minha eu ser tímido ou inseguro. — dei de ombros.
— J, você é BV? — Rebeca perguntou, se inclinando sobre mim e apoiando os braços em meu ombro. Eu a olhei e não soube responder, o que eles pensariam de mim?
— É que... — fui interrompido por Thomas.
— Sim, ele é. Mas você não vê nada demais, certo Rebeca? — ele a fitou, esperando o rosto dela demonstrar algo além do óbvio.
–xXx--
Então finalmente anoiteceu. Thomas e eu estávamos dentro de casa, largados na casa. Todos estavam quase prontos para saírem, porém Thomas e eu não iríamos. Ele estava doente e eu me sentiria deslocado lá na montanha, sem ele. Resolvi escrever minha ficção, fazia um um tempo que eu não a atualizava. Acho que devemos escrever ao menos um pedaço de vez em quando. E, caso vocês se perguntem qual o enredo dela, gira em torno de uma assassina que compromete o código da organização porque não matou o alvo. Talvez seja clichê, mas eu gostei muito da personagem e do enredo. Sinto como se essas ficções escritas fizessem parte de mim, ou retirassem algo de mim. Bom ou ruim.
— Ei! Já estamos indo. — Ana se aproximou de mim, colocou a mão em meu ombro e deu um beijo em minha bochecha.
— O que foi isso? — Perguntei, sorrindo para ela.
— Nada demais. — ela sorriu de volta. — Até mais tarde.
Desliguei meu notebook e resolvi participar da despedida. Fui recebido com vários abraços de todos eles e então, depois de uns “tchau” eles saíram. Thomas e eu nos olhamos, resolvi voltar para o notebook e ele voltou para a TV. Tudo o que eu conseguia pensar era nele, naquele chuveiro. Novamente comecei a sentir algo diferente dentro de mim.
“Não, Jean. Agora não.” — repetia mentalmente para mim mesmo, toda hora. Eu o olhava e ele olhava de volta a mim.
— Ei, como anda aí? — Thomas perguntou, se aproximado de mim. Ele parecia não querer me contaminar, pois estava numa distância considerável. Tentei parar de pensar nele daquela forma.
— Normal, cheguei na parte que ela descobre que ele é uma pessoa legal. Então ela resolve salvar ele em vez de matar. Não quero que eles namorem. — Expliquei, Thomas se aproximou e se apoiou na mesa, ao meu lado.
— Tem gente que não gosta mesmo de romance. — Falou Thomas.
— Porém tem aqueles que gostam. — Voltei a escrever, tentando tirar Thomas de minha cabeça.
— Eu prefiro quando tem algo com que os personagens se importem, seja material ou imaterial. Como o amor, ou o dinheiro. — Thomas explicou. Indo até a janela, ele tossiu um pouco.
— Bem, com quem você mais se importa? Não vale família. — Perguntei a Thomas.
— Com você, é claro! Você e Ana, mas eu tenho um vínculo maior com você. — Senti uma vergonha diferente, estou começando a me acostumar a ela.
— Você gosta da Ana? — Perguntei, pela primeira vez eu senti receio da resposta.
— Não, ela é minha melhor amiga. — ele respondeu como se eu tivesse falado uma coisa absurda.
— Ah, que bom... digo... Acho que... — Minha voz travou, eu queria falar que eu gosto dele, porém a palavra não chegava na minha língua.
— Acha o quê, J? — ele se aproximou de mim.
— Então, eu acho que eu gosto dela. — Menti para ele, evitei contanto visual com ele porque Thomas poderia ver que eu estava mentindo. Eu saí de perto da mesa, eu me sentia quase enjoado de tão nervoso.
— J. — Thomas me chamou, eu paralisei imediatamente. Ele veio até mim e se inclinou sobre meu corpo, seu rosto estava muito próximo do meu. O que deu nele? Então seus lábios tocaram o meu, isso foi bom. Meu coração acelerou e meu rosto corou, aquela vergonha nauseante pareceu intensificar. Eu juro que tudo estava girando, eu ia acabar desmaiando de nervosismo. Thomas colocou a mão no centro de meu peito e deslizou levemente para cima. O beijo estava se prolongando demais, ele estava gostando? Coloquei a minha mão sobre a dele e então a apertei.
— Porra, o que foi que eu fiz? — Thomas parou subitamente e caminhou depressa até o quarto. Coloquei a mão na cabeça, todo o prazer e a alegria que eu sentia naquela hora se transformou em frustração. Senti vontade de gritar, porém seria muito estranho. Me contive para não bater em algo que estava próximo.
–-xXx--
Acordei com a garganta ferrada e o nariz entupido. Droga, como se não bastasse ele ter me deixado sozinho, acordei doente. O universo é o vilão de nossas vidas. Talvez tudo isso melhore com o tempo, ou apenas afunde de vez. As vezes eu penso que ocorre uma reunião entre o destino, a sorte e o universo. Nessa reunião eles buscam um método de me ferrar verdadeiramente. Abri os olhos e vi Thomas desacordado deitado na cama. Fui até a sala e comecei a espirrar, coloquei a mão em meu nariz para evitar que os respingos voassem. Nojento.
— Jean, você pegou o resfriado também? — Ana perguntou, era tão obvio que eu achei que erra retórico.
— Sim, preciso limpar minha mão. Um minuto. — Fui até o banheiro e lavei as mãos e o rosto. Tentei não pensar no Thomas, porém, depois de ontem, só consigo amá-lo mais e mais. Acho que consigo responder sobre minha sexualidade agora, tenho certeza que sou gay. Eu quero apenas o Thomas. Voltei para a sala e me sentei no sofá, liguei a Tv e lá fiquei por um bom tempo.
— Jean, você está bem? — André sentou ao meu lado.
— Por que eu não estaria? — perguntei, alternando o olhar entre o televisor e ele.
— Bem, você está aqui sozinho e não falou com a gente hoje. — ele parecia querer saber o que me incomodava, acho que os amigos do Thomas realmente são legais.
— Bem, é apenas uma coisa... pessoal. Realmente pessoal. — falei, passando a mão no rosto. Acho que eu poderia me resumir com a palavra ‘frustração’.
— Certo, se quiser me contar ou apenas desabafar... estou aqui. — ele deu um tapinha amigável em meu ombro e foi até o lado de fora da casa. Thomas passou ao meu lado, hesitou na porta e então voltou até mim.
— Você precisa esquecer isso. — ele sentou ao meu lado.
— É um trabalho em progresso. — Eu tentava a todo custo evitar contato visual com ele. Talvez olhá-lo nos olhos me fizesse sentir pior.
— Se você ficar triste por isso, ou caso você não tenha gostado... eu entendo. Eu não quero causar nada de ruim para você. — Ele se explicou, Ana se aproximou. Eu olhei para ele com uma expressão de “ela sabe?”. Thomas acenou negativamente, quase implorando para eu não falar nada com ela. Ela me impediu de me explicar a ele. Explicar que eu gosto dele. Mas eu prometi que nunca o beijaria novamente. E se tem uma coisa que eu aprendi, é não quebrar uma promessa. Apesar dela doer em meu peito.
— Jean, não tolero ver você largado aí. Sozinho! — Ana veio até mim e parou na frente da televisão.
— Mas o Thomas estava aqui! — tentei dar um motivo para ela sair de minha frente.
— Mas agora não está mais! Vem logo. — ela indicou a cozinha com a cabeça. Thomas ainda me olhava de um jeito preocupado, achando que eu iria contar para algum deles.
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