Entre os Garotos
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Hoje me sinto no direito de contar isso a vocês, ter acordado e saber que tive um sonho maravilhoso. Esse sonho não envolvia dinheiro, muito menos algo fantasioso. Nele haviam duas pessoas casas, e eles tinham um filho. Mas eram dois homens! Especificamente o Thomas e eu! Ok, como se isso não fosse o bastante, eu o beijei. E nosso filho, aquele era nosso filho? Bem, eu o abracei. Eu pude sentir o amor que havia nele. Eu o amava. Era uma noite linda, Thomas tinha saído para trabalhar e eu estava tomando conta do nosso filho. Ele não tinha nome, talvez ele não havia dito para mim. Eu podia sentir a tensão entre nós porque era a primeira vez que eu ficava sozinho com ele. “Thomas” e eu nos casamos recentemente, porém o filho dele me amava. Bem, o sonho foi muito estranho, mas eu acordei e, não sei o porquê, esse sonho me confortou. É como se o destino confirmasse que eu sou gay? Não, bem... O que é ser gay? Amar uma pessoa do mesmo sexo que você, não é ser fã de algo não comum ao seu sexo, como Lady Gaga, Lana Del Rey. Bem, eu não me encaixo em nenhum dos dois, quer dizer que sou hétero? Resolvi sair da cama, vendo que minhas perguntas só aumentariam, cada vez mais e mais.
Me levantei e fui até a sala, deveria ser umas 9 da manhã, porém todos estavam dormindo. Novamente resolvi fazer umas tarefas, lavei os pratos e limpei uma mancha de suco que alguém fez na mesa.
— Ei, o que você está fazendo? — Thomas me perguntou, se aproximando.
— Só estou limpando essa sujeira que alguém deixou. — falei sem manter contato visual com ele.
— Acho que foi o André, ele costuma fazer essas coisas. Quer ajuda? — Tom me perguntou.
— Não, já controlei as coisas aqui. Você pode fazer outras tarefas. — Respondi a ele.
— Ah, bem. Certo, então já vou indo. Irei levar o lixo para fora. — Disse Thomas, indo até a cozinha. Não consegui evitar dar uma última olhada nele enquanto ele andava até o cômodo. Merda, o que está acontecendo comigo?
— Ei, Jean! — Rebeca me deu um pequeno impulso, me fazendo despertar dos pensamentos. Senti um grande susto, ela percebeu. — Foi mal, Jean. Não sabia que você estava tão distraído. — Apesar das desculpas, sua voz não aparentava remorso. Na verdade ela parecia gostar.
— Tenta não fazer isso novamente. — respondi, voltando meu olhar para ela e em seguida para Thomas na cozinha.
— Certo, vou preparar algo pra comer. Estou morrendo de fome. — Ela se despediu e então foi até a cozinha. Thomas passou por ela com um saco cheio.
— Jean, pode descansar. Nós assumimos a partir daqui. — Fernando entrou na sala, pegando uma vassoura. — E com descansar, quero dizer "Se preparar psicologicamente para a noite do lago".
— Depende, se vocês não me doparem, nem precisa de preparo algum. — Falei a ele, me dirigindo até o meu quarto. Faltavam 28 dias para o fim da viagem. E faltava 4 dias para o meu aniversário. Resumindo, já era dia 22. Eu olhei meu celular, mexi nele por um tempo e resolvi me arrumar.
–-xXx--
Já eram 15:00. Por aí. Acho que minha crise acabou, eu não estou mais pensando no Tom. Acho que estou melhor assim. Não estou nem perto de beijar alguém, quem diria ter uma sexualidade. Acho que até agora eu sou apenas "um garoto".
— I'm loving everything you do. Do do do do do do do do do. — André estava cantando na sala, era engraçado porque ele canta bem. Porém, como a sociedade diz, são músicas de gay. Eu acho isso uma grande bobagem. E a melhor parte era as coreografias malfeitas e improvisadas que ele fazia com a vassoura.
— Meu comediante preferido. — Thomas aplaudiu.
— Vai se foder! — Todos rimos e André atirou uma almofada no Thomas.
— Só se for com o J. — Thomas respondeu.
— Só se for comigo? — perguntei, um pouco assustado.
— Naquele dia, eu disse que só iria com você. Então é uma promessa. — ele riu, se aproximando de mim.
— Vai ter que beijar! — senti algo horrível, não... na verdade era bom. Mas era tão estranho que chegava a ser ruim. Como se meu estômago estivesse embrulhando. Ana e Fernando seguraram Thomas, o forçando até mim. Tentei sair do local mas André e Rebeca me impediram de sair. Fui forçado a ficar parado, esperando Thomas me dar um beijo forçado. Ele se aproximou de mim, Ana e Fernando forçando ele até mim. Quando nossas faces estavam próximas, ele deu um pequeno impulso para cima, seus lábios foram direto em meu olho esquerdo. A sensação? Horrível, parece que minha pálpebra foi envolvida por uma coisa molhada, e de fato era quase isso. Todos começaram a rir, porém eu não achei nada engraçado. Pensei que o meu primeiro beijo seria forçado. Pelo visto nem Thomas achou isso engraçado, ele ria de nervoso.
— Vocês são mesmo idiotas. — resmunguei, indo até o quarto que eu estava usando, vou começar a chamar de Meu quarto, ao menos até acabar essas férias.
— Jean, nos desculpe. — Fernando tentou me acompanhar até o quarto.
— Por favor, estou irritado. Mais tarde a gente se fala, ok? — perguntei a ele, fechando a porta. Na verdade eu não esperava resposta alguma. Fiquei sozinho no quarto. Fui até a janela que havia entre a cama de André e a minha, acima da cama de Thomas. Lá fiquei, pensando em tudo o que se passava dentro de mim. Eu estou confuso, normalmente nos sentimos assim com melhores amigos, certo?
— J, posso entrar? — Tom perguntou.
— Certo. — fui até ele e abri a porta. Pude vê-los de relance, todos olhavam para mim. Thomas entrou no quarto, fechou porta e sentou-se na cama.
— Eles estão preocupados com você, eles pensam que você está tendo uma crise ou algo do tipo. — ele disse, obviamente tentando puxar conversa.
— Bem, estou um pouco indignado com eles. Você sabe muito bem que... — Baixei o tom de voz nas últimas palavras. — Eu sou bv. Eu me senti mal naquela hora, eu não quero qualquer beijo para me iniciar! — Falei em baixo tom.
— Então, se você pensa assim... ouvi comentários. Acho que Ana gosta de você, mas ela tem uma coisa chamada "Orgulho excessivo" e esperará você até dar o primeiro passo. Ou talvez ela disse como amigo. — ele olhou para mim. — Acho que é o segundo, como amigo.
— E o motivo? O quê? Você está me confundindo cada vez mais. — perguntei a ele.
— Ela nunca conheceu um cadeirante antes, ela acha que você é feito de vidro. — ele revirou os olhos. — Você está mal comigo? — ele me perguntou.
— Não. Definitivamente não, eu só achei estranho, primeiramente eu te vejo no banheiro e em seguida você... faz isso. Eles te forçaram a fazer isso. — Falei, abrindo a porta. — Vamos?
— Esse é meu garoto! — Thomas saiu do quarto, acompanhado por mim. Todos estavam me olhando, eu pedi desculpas para eles, porém Fernando disse que eles não deviam ter feito aquilo, acho que isso foi como uma desculpa. Que bom que não passou disso, quer dizer, as coisas ainda estavam amigáveis e leves.
–-xXx--
Novamente saímos da casa e, mais uma vez, Thomas estava empurrando minha cadeira. O engraçado é que dessa vez eu não estava sentindo algo ruim. Eu apenas sentia conforto ao saber que ele estava ali e eu podia contar com ele. Contar para qualquer coisa, quer dizer, quase tudo.
Ao chegar no lago, percebi que todo aquele papo de antes realmente não era exagero. Toda aquela água refletia a grande montanha que havia após o lago. A montanha era tão grande que dava para ver do alojamento. Sua superfície era coberta de árvores e plantas menores. O céu contrastava o verde da montanha com o seu azul brilhante. Por um momento eu pude aproveitar a visão do ambiente, André passou correndo ao meu lado e então saltou de umas pedras direto na água, dava a altura de uns 3m. Nós resolvemos descer normalmente, ao invés de André. A descida para o lago era bem suave. Ao chegar lá, todos pularam no lago, com a exceção de Thomas. Nós nos mantínhamos vestidos, apenas vendo-os no lago.
— Você não gosta de nadar ou de praias ou lagos, certo? — Tom perguntou, se aproximado de mim e sentando ao meu lado, nas rochas.
— Sim, estou bem apenas olhando. Esse André é bem animado, já chegou pulando de vez no lago. — Falei, rindo um pouco.
— Se com “animado” você quer dizer “retardado”. Sim, ele é bastante animado. — Thomas sorriu, observando a galera na água.
— Por que você não vai? — Perguntei a ele.
— Ir? Para o lago? — Disse Thomas, olhando para mim.
— Sim, deve estar legal lá. — Falei, ele olhou para mim com um olhar envergonhado.
— Eu até iria, mas eu gosto de estar aqui com você. — Thomas colocou a mão na cabeça, eu senti algo estranho. Acho que uma vergonha diferente, como se ele fosse algo muito legal para mim. — E tem mais um motivo, isso aqui. — ele apontou para a perna dele, nela havia um corte. Não havia muito sangue, parecia recente. Como eu não percebi isso antes? Ah é, ele estava atrás de mim o tempo todo.
— Onde você fez esse corte? — perguntei.
— Não sei! Mas tá ardendo pra caramba. E lago não é muito legal para feridas abertas. Vai que tem alguma coisa aí. — disse ele.
— Podemos voltar, se você quiser. — Sugeri a ele.
— Não... esse lugar ia perder o brilho sem mim. — Thomas riu.
— Então vai ficar aqui com esse treco em sua perna? — perguntei a ele.
— Talvez, isso aqui não é nada. Acho que vou dar um mergulho. — ele indicou o lago.
— Vou escrever um pouco. — Falei, pegando o celular do bolso.
— Sim, você escreve, certo? Um dia eu vou tirar um tempo para ler. — ele se levantou e eu pude observá-lo melhor. Observar seu corpo, porém, sempre que eu o olhava, apenas conseguia vê-lo despido em minha mente. Definitivamente isso não é normal. Thomas mergulhou no lago, olhando para trás e acenando para mim. Tentei me focar na escrita, apesar de todas as coisas que se passavam ao meu redor. E com "todas as coisas" eu quero dizer "Thomas". As palavras de minha escrita começaram a perder o sentido, então parei de escrever e olhei para o lago. Já era noite, eu passei quanto tempo escrevendo? Uma hora?
— Ei, você praticamente morreu aí. — André se aproximou, totalmente molhado.
— Acho que me empolguei. — respondi, olhando para o lago, vendo todos saírem de lá.
–-xXx--
Todos estávamos deitados num gramado, vendo o céu estrelado. Acho legal ver o céu estrelado, me lembro de coisas do tipo "Quando alguém morre, se transforma em uma estrela". Quando eu morrer, não quero virar uma estrela. Deve ser sozinho e deprimente lá em cima, sem ninguém para conversar.
— Ei, Jean. Seus pais são separados? — André perguntou enquanto olhávamos as estrelas.
— Não. Eles são bem felizes juntos. Ainda bem. — Respondi.
— Ah, deve bom e ruim ao mesmo tempo. Ruim porque você tem que aturar ambos ao mesmo tempo e bom porque você tem o amor dos dois ao mesmo tempo. — Ele respondeu.
— Que papo gay. — Ana falou, rindo um pouco. Era a primeira vez que eu a vi rir, então ri também. Vocês também iriam rir se ouvissem a voz dela.
— Take us back, tack us back! Oh! Take us! Tack us back! — André gritou, sua voz parecia esganiçada. Acho que foi proposital.
— Senhor! O que acabou de acontecer agora? — Rebeca reclamou, tapando o ouvido.
— Acho que o André quebrou. — Disse Thomas, em tom de deboche. Eu tenho certeza que o André bateu nele devido ao som de um tapa que ecoou no ambiente. — Para de me bater!
— Não, eu gosto. — ele falou com uma voz boba. Estava bem escuro, eles não podiam me ver e eu não podia ver eles. Eu sorri, pois eu sei que ainda terei muitas experiências boas por aqui. E eu também fiz boas amizades.
— Então, vamos voltar para casa? — Thomas se levantou, formando uma silhueta negra que cortava o azul do céu. Ele me ajudou a sentar na cadeira de rodas e todos nós partimos em direção ao alojamento.
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