Entre os Garotos
14 Capítulo 14
Notas iniciais
O clarão matinal me despertou do sono, o sonho não passava de imagens e coisas sem sentido. Não me lembrava de nada sobre ele, apenas algumas cenas rápidas. Alguém abriu as cortinas, não sei o motivo. Thomas já tinha levantado faz tempo, sua cama até estava arrumada. Até André já se levantou. Eles estão armando alguma surpresa. Tenho certeza.
Depois de um tempo, abri a porta e saí do quarto. Observei todos os cômodos com atenção, eles saíram? A falta de preparo na hora de fazer uma surpresa é gritante. Talvez seria melhor acabar com isso logo. Abri a boca para falar, mas Thomas me abraçou por trás e me deu um beijo na bochecha.
— O que foi isso? Abra o jogo! — Falei, observando Thomas e passando a mão no meu rosto, percebendo que os hematomas da briga com Wesley não doíam mais. Thomas olhou para mim e sorriu. Foi ao quarto e voltou com as mãos nas costas.
— Hoje vai ser um dia legal. — Ele falou, mostrando um embrulho de presente que estava em suas costas. Era realmente pequeno, mas quase tudo nesse mundo moderno é pequeno, ficou difícil adivinhar.
— Não precisava, Thomas. Por que me deu isso? — Falei, desembrulhando e percebendo uma caixinha, dentro dela havia umas coisas que ocultavam o presente.
— Então, percebi que nunca oficializamos isso. — Thomas sorriu enquanto falava.
— Um anel? Uma aliança? — Falei, bastante surpreso com a cena. — Como assim oficializar?
— Jean, quer namorar comigo? — Thomas se aproximou de mim e segurou a minha mão, ficando com o rosto próximo ao meu.
— Claro que sim, seu... — Thomas me beijou, impedindo-me de terminar a frase. Não foi um beijo inocente, muito menos delicado. Foi algo como uma explosão de emoção que havia nos sobrecarregado. Passei minhas mãos por suas costas, sentindo-as com vontade.
— Eu te amo, Jean. — Ele me disse, parando de me beijar e se encostando na parede, deslizando de costas até o chão.
— Eu também te amo. Quer dizer que agora somos namorados, hein? — Falei, sorrindo e olhando para o anel. Ficou um pouco folgado, mas não era algo desconfortável.
— Sim, somos. — Thomas confirmou, olhando para mim com um brilho no olhar que eu nunca vi antes. Acho que ele finalmente parou de colocar a família a cima dele mesmo. Finalmente ele se viu livre de toda essa expectativa, mas ainda havia um problema. A ideia de como os pais dele pode reagir a isso era assustadora.
Resolvi parar de destruir o momento com esses pensamentos, focar nele.
— Tom, onde estão os outros? — Perguntei, depois de uns minutos de conversa jogada fora.
— Foram até o mercado comprar mantimentos. — Ele respondeu.
— Ah ta. Então era isso. — Falei, sentindo-me um idiota.
— Que cara é essa? — Thomas perguntou, sorrindo.
— Como assim? Minha cara, eu hein. — Perguntei, tentando mudar o assunto, sem êxito.
— Essa cara de desapontamento misturada com vergonha. — Ele respondeu, apontando para mim.
— Feliz 'atrasadário', J! — Fernando entrou com um bolo.
— Que porra de trocadilho é esse? — Thomas perguntou, olhando-o estranho.
— Não acredito que ele fez merda de novo. — Disse Rebeca, entrando em seguida.
— Fernando, você poderia ter ficado calado. — André entrou na sala, falando.
— Onde está Ana? — Perguntei, procurando por ela em meio aos três.
— Ela foi ver o cachorro, o estado dele, etc. — Rebeca explicou.
— Antes de partirmos o bolo, eu quero ver o cachorro. — Falei, olhando Rebeca.
— Tudo bem, André te leva lá. — Ela falou, sorrindo para mim.
— Por que eu tenho que levar ele? — André perguntou, franzindo o cenho.
— Além dele não saber o caminho, você quer tomar aquele sorvete ainda, não quer? — Rebeca falou com um tom ameaçador na voz, colocando dinheiro em sua mão.
— Tem razão, vamos Jean. — Ele colocou o dinheiro no bolso e sorriu para Rebeca, então caminhou até a porta e me esperou lá.
–-xXx--
O ar fresco era revigorante, sentir o sol na pele acordava meu corpo e me fazia feliz. A cidade estava um pouco movimentada nesse dia. André empurrava minha cadeira enquanto conversava sobre os filmes que poderíamos assistir durante a noite. Eu adorava assistir filmes com os outros e ver a reação deles em conjunto, é como uma forma de reviver os filmes e estar próximo de quem você gosta ao mesmo tempo.
O clima nesse dia estava agradável. As brisas refrescavam-me e traziam o aroma do verão. A cidade estava pouco barulhenta, maioria das pessoas estavam passeando ou então descansando em suas casas.
— Jean, eu te tratei errado esses primeiros dias que passei com você, me desculpa? — André perguntou, com um jeito distante.
— Tudo bem, o que importa é que somos amigos agora, certo? Talvez sejamos ótimos amigos, não se preocupe com nada. — Falei, sorrindo e observando os carros.
— Você tem razão, mas eu sinto que falei algo. Te trarei como inferior algumas vezes. — Ele falou.
— Culpa da sociedade. Pelo menos você voltou atrás. Você é legal, André. — Eu disse, voltando a focar no caminho.
— Jean, por que você está aliviando para mim? — ele perguntou.
— Como assim?
— Você sempre é tão legal. — A voz de André se tornou mais feliz agora.
— Fui educado para ser assim. — Olhei para um estabelecimento, Ana estava na frente. Ela sorria enquanto falava com um cara. Acho que ele era o veterinário. Tentei cumprimentá-lo, mas a timidez venceu e eu apenas entrei, seguido de Ana e André. O ambiente era bem calmo e muito limpo, a organização era excelente. Haviam algumas cadeiras de espera e várias portas, paredes verdes e um chão branco.
— Ainda bem que é uma clínica plana — comentei.
— Acho que ficaria difícil subir escadas ou esperar elevadores com os animais feridos e tal. — Ana complementou, observando a decoração da sala. Havia uns quadros na parede, pintura clássica, eu acho.
— O cachorro está aqui. — Disse o doutor nos guiando até uma sala. Dentro dela, o cachorro repousava junto com outros. O ambiente era tão limpo quanto o da outra sala, talvez ainda melhor.
— Ele vai ficar bem quando? — Perguntei a ele, observando o cachorro. Sua pelagem era preta ele tinha manchas brancas, vira-lata.
— Antes do Natal. O impacto não foi forte, ele já está se recuperando muito bem. — Ele falou, olhando o cachorro. — Com quem ele vai ficar?
— Acho que comigo. Preciso falar com minha mãe primeiro — expliquei. O animal parecia tão dócil e fofo, foi paixão instantânea. Claro, era um cachorro, como não se apaixonar?
–-xXx--
Terminamos de comer o bolo, ele estava realmente bom. Não sei explicar, sou leigo quando se trata disso, apenas sei dizer se está ou não bom. Todos estávamos felizes. Nessa hora, eu percebi que posso contar com eles. Eles são meus amigos. Isso foi muito bom, fez-me sorrir.
— Hora dos presentes. — Disse Rebeca, sorrindo maliciosamente.
— Rebeca, você está tramando algo, não é? — Fernando perguntou, olhando-a apreensivamente.
— Como assim? Apenas sei que tenho o melhor presente. — respondeu ela.
— Era pra dar presentes? Meu Deus... — Disse Ana, levantando do sofá.
— Tudo bem, menina. Estou fazendo isso porque quero. — Rebeca explicou, sorrindo para ela.
— Ah, certo.
— Não precisa, gente. — Falei, bastante surpreso.
— Como assim? Claro que precisa! A Rebeca deu a ideia de juntarmos dinheiro e comprar isso aqui. — Disse André, retirando um anel do bolso. Por incrível que pareça, ele era semelhante ao de Thomas. Ele me encarou e começou a sorrir de embaraço.
— Nossa... Adorei. Obrigado, mas não precisa. Sério. — Falei com um jeito sem graça, sorrindo e pegando o presente da mão de André.
— Você tem um parecido. Que engraçado. — Rebeca disse, rindo diante da cena.
— Sim — falei, rindo baixo —, mas eu adorei o presente, sério.
— Tudo bem, não estamos chateados. Agora você tem dois anéis. — André falou.
— E vocês, trouxas? Não tem nada em mãos? — Rebeca falou sarcasticamente.
— Você parece uma criançona às vezes. — Disse Ana, sorrindo com o canto da boca.
— Realmente. — Fernando complementou a afirmação de Ana.
Olhei através da janela e vi que estava ventando, acho que choveria amanhã ou de noite. O sol estava se pondo, deixando a casa com uma iluminação alaranjada e quente.
— Vocês são demais. Obrigado. — Falei.
–-xXx--
Já anoiteceu, eu fui até o local que dava para observar a montanha, mas estava muito escuro para vê-la. O tempo tinha esfriado. Eu perguntava-me o que se passava lá em casa. Será que meus pais estavam surtando muito por eu ter quebrado meu celular? Claro que eu enviei uma mensagem explicando que não ia poder falar com ela enquanto não ter um celular novo. Na verdade eu ainda envio um sms ou outro para dar sinal de vida.
Meus pais são super-protetores, mas são legais. A única coisa que me irrita é essa maldita privação de liberdade, parecendo que eu sou tão despreparado para o mundo que não posso nem sair direito.
— Ei! — Thomas apareceu atrás de mim, assustando-me pelas costas. O ambiente estava um pouco escuro devido a noite, mas a iluminação ajuda a muito. Porém eu estava distraído.
— Não faz isso, idiota. — Falei, rindo e me virando.
— Calma, foi só uma ideiazinha besta. — Ele respondeu, sentando no banco.
— Eu te amo. — Falei, indo até ele.
— Você me fez um boquete nesse banco. Claro que eu também te amo. — Ele respondeu, sorrindo maliciosamente.
— Isso era pra soar engraçado ou algo do tipo? — Perguntei, tentando não soar agressivo.
— Realmente não tenho muito humor, mas eu tento. — Thomas suspirou, inclinando-se para trás.
— Você quer me falar algo, tenho certeza. — Olhei em seus olhos, quase implorando para que ele contasse logo.
— É, bem, você tem razão. — Ele falou, suspirando. — J, como você acha que será lá em casa?
— Difícil. Não tenho ideia de como meus pais vão me tratar. — Falei, olhando para as estrelas do céu azulado.
— Os meus vão reagir mal, tenho certeza. — Thomas veio até mim e segurou minha mão. — Estou realmente preocupado, mas isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde.
— Mas não devemos nos preocupar com isso. — Eu disse, olhando seus olhos. Ele sorriu de volta, aquele tipo de sorriso que reconforta. — No final o bem sempre vence.
— Nem sempre.
— Vai teimar com os livros? — Perguntei, voltando a olhar as montanhas.
— Game of Thrones. — Ele respondeu, levantando e passando a mão em meu cabelo.
— Você entendeu, tenho certeza.
–-xXx—
Começou a ficar tarde. Sentamos na sala para assistir um filme, dessa vez era um de terror. Contava a história de um grupo de pessoas que se perde num milharal e é perseguido até a morte por espantalhos possuídos pelo capeta, eu acho. Fernando e Rebeca não estavam na sala, nem preciso pensar no que estavam fazendo. André e Ana conversavam um pouco alto sobre as coisas que aconteciam no filme e Thomas ficou trocando olhares comigo durante todo o filme.
Depois do filme acabar, todos foram para seus quartos, creio que Rebeca não estava mais fazendo algo com Fernando no quarto. Seria muito estranho se estivessem.
— Bem, só faltou a gente. — Thomas sentou do meu lado no sofá.
— Eu juro que a gente só estava conversando. — Rebeca entrou na sala e sentou do lado de Thomas.
— Só conversando, certo. — Thomas sorriu.
— É sério, estávamos batendo um papo muito sério. — Ela disse, se levantando. — Mas deixa pra lá, vamos dormir. ‘Tá tarde, não quero barulho de tevê.
— A gente abaixa o volume. Pode relaxar. — Falei, diminuindo o som com o controle.
— Certo então, boa noite. — Disse Thomas, vendo-a ir até o quarto.
Se passou alguns minutos e então Thomas me deu um beijo e me contornou com um braço, olhando para mim e dando um outro beijo em minha bochecha. Eu sorri para ele e então voltamos a assistir ao filme. Era um pouco arriscado fazer qualquer coisa, mas o barulho da porta abrindo avisaria. O resto da noite foi boa, jogamos conversa fora e então fomos dormir.
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