Entre o céu e o inferno

15 Capítulo 15 - Orfãos (Charlie Seth Clair)


O dia já estava terminando e a empregada que Tyler havia contratado para nos ajudar tinha acabado de sair. A casa estava impecável. Me sentei no sofá e liguei a televisão. Aos domingos sempre passava um programa de esportes que eu gostava de ver. E Miguel estava na cozinha fazendo sei lá o que pra gente comer. Então a campainha tocou. Me levantei do sofá e fui até a porta.

Abri a porta, tinha três policiais. Acho que tinham dado falta da Suzana.

— Você é Charlie Seth Clair?

— Sou eu. _ Disse rápido.

— Dois caçadores encontraram o corpo dos seus pais na floresta.

— O corpo? _ Miguel se aproximou da porta

— Eles foram mortos com uma facada no coração e parte do corpo está queimado. _ Minha cabeça ficou pesada e minha respiração ficou fraca.

— Como assim? _ Miguel perguntou

— Seus pais estão mortos _ E os policiais responderam rápidamente.

— Preciso que vocês nos acompanhe até a delegacia para prestar depoimento e dar queixa. Foi claramente um homicídio.

Esse foi literalmente o pior aniversario que poderíamos ter. Uma garota tentou me matar, eu matei uma garota e agora alguém matou meus pais. E e o Miguel não estávamos na nossa melhor condição. Estávamos atordoados, com medo. E era inevitável não chorar a cada segundo. Eles nos amavam e nos protegeram tanto.

Fomos até a delegacia, os minutos ali pareciam ser horas. Depois precisamos reconhecer o corpo e fomos ao hospital. Eles estavam expostos em uma mesa de metal fria e gelada, eram eles, para o desgosto meu e do meu irmão eram eles.

Estávamos sentados na varanda de casa, os corpos estavam sendo preparados para serem cremados, como eles deixaram seu desejo de serem cremados pôs morte. O meu celular tocou.

* Alô.

* Charlie Seth Clair?

* Sou eu.

* Sou o Dr. Antony, advogado dos teus pais.

* A, como posso ajudar?

* Me desculpem estar ligando nesse momento, mas foi noticiado a mim a morte de ambos. Deixaram um testamento pra vocês. Mas não se preocupem com isso agora. Vivam o luto de vocês, depois me procure. Vou te passar o endereço daqui por mensagem. Meus pêsames.

* Obrigado

Desliguei o telefone, a última coisa que queria agora era pensar no testamento que meus pais haviam deixado.

O funeral dos meus pais terminou na segunda as 15:40hrs da tarde. Foram dois dias que passaram se arrastando. Eu e Miguel estávamos acabados. No funeral deu poucos pessoas. Apenas eu e o Miguel, os funcionários da fazenda e uns dois amigos dos nossos pais. A morte deles não foi noticiada na cidade por pedido nosso. As coisas estavam começando a ficar estranhas de mais por aqui e eu estava com medo.

— Senhor Charlie. _ Olhei para o lado, o funcionário estava na porteira me olhando. _ Escutou o que eu te disse?

— Não, desculpa.

— Eu sou o administrador da fazenda. O que vamos fazer agora, sem seu pai? _ Olhei para os lados. Eu já tinha trabalhado com meu pai nessa fazenda enorme que ele construiu com os anos. Não deveria ser tão dificil cuidar disso agora.

— Ah, qual o seu nome?

— Márcio senhor.

— Márcio, meu nome é Charlie. Eu sei que está sendo educado me chamando de Senhor. Mas você chamava meu pai assim e agora ele não está aqui.

— Tudo bem.

— Sabe do meu irmão?

— Não o vi desde cedo.

— Tá, é... Você é o administrador. A fazenda e a colheita ai continuar. Você toma conta de tudo agora ok? Vou aumentar seu salário. Se precisar aumentar números de funcionários e gastos é só falar comigo. Não tenho o mesmo tempo que meu pai tinha e eu não estou com a cabeça boa. Mas se precisar pode me chamar, por favor.

— Tudo bem. Obrigado pela confiança.

Balancei a cabeça positivamente. Sai andando atravessando o pasto onde ficava o gado. Peguei meu celular e liguei para o Miguel.

* Onde está?

* Não te interessa.

* Eu entendo que está chateado mas precisamos ir em um lugar.

* Não vou em lugar nenhum com você

* Porque está me tratando assim Miguel, o que fiz com você?

* Desde que aquela sua amiga veio pra cá, só temm acontecido merda em nossas vidas. Se a culpa não é sua eu não sei de quem é.

* Tá Miguel, me culpe o quanto quiser, mas precisamos resolver o assunto do testamento.

* Que testamento.

* Nossos pais tinham um advogado fora da cidade e um testamento. Precisamos ir lá hoje resolver isso ok? Estou te esperando em meia hora. Se não chegar em casa vou resolver isso sozinho. _ Desliguei o telefone.

Miguel estava assim comigo desde o funeral dos nossos pais. Ele realmente estava me culpando. Não pela morte, mas por todo o resto.

Entrei em casa e tomei um banho para tirar o cheiro de gado do meu corpo.

Tomei banho e vesti uma camiseta branca e uma calça jeans e um tênis vermelho, coloquei uma jaqueta jeans por cima e desci. Logo Miguel apareceu. Eu não sabia onde ele tinha estado a noite anterior e essa manhã. E eu também não me importava porque passei a manhã resolvendo coisas da fazenda e agora não tínhamos mais nossos pais. Deveríamos aprender a lidar com as coisas sozinhos. Tínhamos uma casa, uma fazenda e muitos funcionários para cuidar. Ele chegou e entrou no Jeep e fomos para a cidade vizinha que era triplamente maior que essa. Chegamos onde o endereço que o advogado nos passou. Era uma casa e não um escritório. Uma casa velha e enorme. Daquelas que pareciam abandonadas por pessoas, por Deus e esquecida pelo tempo.

Descemos do carro, conferi o endereço se estávamos no lugar certo mas tudo indicava que sim. Então entramos, só entramos. E aquilo era mesmo uma advocacia. Tinha uma secretaria na sala, bonita, loira com um vestido vermelho decotado. Ela estava debruçada sobre a mesa. Nos sentamos no sofá para esperar. Meu celular começou a tocar. Era Tyler. Ele estava me ligando desde um dia depois que enterramos minha mãe. Mas eu não atendi, muita gente me ligou depois. Dias depois que ficaram sabendo da morte deles. Mas eu não atendi ninguém. E também não fui a aula. Não estava afim de ouvir meus pêsames de mais ninguém. Já bastava o Miguel revoltado comigo e com o mundo.

— Miguel e Charlie Seth Clair? _ A secretária chamou. _ Pode entrar por favor. _ Nos levantamos e a acompanhamos até uma sala da porta branca.

Entramos era um escrtório simples, sem muito luxo. O advogado gordo e velho apareceu atrás de nos.

— Meninos, quanto tempo não vejo vocês. _ Eu o encarei.

— Nós conhecemos?

— Não, vocês não vão se lembrar de mim. Era amigo do seu pai. Lamento muito pela morte deles. _ Miguel andou até o sofá e se jogou nele.

— Então? _ Me sentei na cadeira de frente a mesa dele.

— Aqui _ Ele pegou uma mala grande e colocou em cima da mesa.

— O que é isso? _ Levantei uma sobrancelha.

— São cartas e presentes que seus pais deixaram pra vocês. Mas abram em casa por favor.

— Não podia ter mandado por correio? _ Miguel falou de longe.

— Não. _ Ele respondeu bruto. _ Eram coisas valiosas de mais pra mandar pelo correio. E não se trata de dinheiro ou jóias. Enquanto bens materiais creio que você e seu irmão saberam cuidar disso. Não precisará de um advogado para cuidar disso.

— Vamos sair daqui logo. _ Miguel levantou do sofá e saiu andando.

— É só isso? _ Peguei a mala em cima da mesa.

— Sim, qualquer dúvida pode me ligar.

— Tá. _ Sai da sala dele com a mala grande nas mãos.

Coloquei ela no porta-malas e fomos embora.

Chegamos em casa já estava noite. Miguel desceu e não trocou nenhuma palavra comigo como tinha feito o dia todo. Peguei a mala no porta-malas e entrei.

Miguel estava sentado no sofá assistindo TV. Desliguei a TV, ele fez cara feia mas não falou nada.
— Isso era importante pros nossos pais, será que pelo menos nisso pode largar essa cara que tem ficado desde que eles se foram?

Ele se levantou do sofá e se aproximou da mesinha de centro.

Então eu abri a mala. Tinha algumas fotos dos nossos pais em cima. Dois baús e uma carta. O baú maior estava escrito Miguel Seth Clair. Ele estava trancado mas em um bolso menor da mala tinham chaves. Então entreguei a chave do baú pro Miguel e peguei o baú menor que estava meu nome. Abri o baú e tinha uma corrente, um colar, com uma pedra negra no meio. Miguel abriu e tinha uma pedra azul um pouco maior que a minha.

— Ótimo são belas, obrigado. _ Miguel falou sozinho.

— Cala a boca. _ Falei baixo.

Abri a carta e a primeira frase quase me fez chorar.

"Meus amores..."

Me recuperei e continuei a ler.

" Meus amores, se estão lendo isso é porque já morri.

As coisas que vou dizer agora vão ser difícil de acreditar, mas acredite,t udo que eu dizer aqui é verdade e provavelmente vocês estão correndo um risco de vida.

Filhos, eu e seu pai morávamos no céu. Vivíamos lá. Por eternidade vivemos lá. Até eu conhecer seu pai, eu me apaixonei por ele e ele por mim. Cometemos um pecado diante dos olhos de Gabriel (o anjo de Deus) e ele nos expulsou de lá. Fizeram-nos cair sob terra. Anjos com poderes na terra são caçados por Demônios até serem mortos. E provavelmente essa foi a causa da nossa morte. Sim, vocês precisam ter medo. Vocês são como nos, anjos de Deus. Feito por ele. Vocês tem dons especiais. Eu e seu pai decidimos não contar para vocês quando eram menores porque não iam saber lidar com isso vivendo na terra. As pessoas não entenderiam. Então escondemos isso de vocês. Até mesmo para protege-los. Se assustem, porque tem mais. Vocês tem dons, poderes de verdade. Como aqueles que sempre quiseram ter quando eram pequenos e queriam ser super-heróis. Não como super-heróis, mas como anjos. Tem demônios na terra a caça de vocês. A família Blount Matteo foi mandada pra terra para nos caçar. Não se envolva com eles, são perigosos. São caçadores, perseguidores, são frios como Lilith. Lilith, prefiro não falar sobre ela e espero que nunca se encontre com ela. Eu sinto muito por tudo isso. Sinto muito por ter que deixa-los. Mas eu e seu pai amamos muito vocês e tudo que fizemos foi para protege-los. Me perdoem."

Encarei Miguel que tinha o olhar fixo na carta.