O primeiro dia de aula. Perfeito. Eu havia desenhado a noite toda, fui dormir as três e quarenta e cinco. O despertador estava tocando há exatos dez minutos.

–Jade! Eu nem preciso falar, se não se arrumar logo vai perder hora! -Minha mãe dizia histérica batendo na porta do quarto.

O motivo desse estresse eu já sabia. Ela com certeza tinha discutido com Henry e ele novamente fez seu joguinho de "Vou te deixar sozinha pra ver se você me da valor". Ainda não sei como ela pode errar tanto nas escolhas, primeiro o papai, um jornalista mesquinho e egoísta. E agora Henry, um ex militar bêbado que vive de sua pensão.

–Ta eu já estou indo! -Respondi me levantando da cama.

Eu confesso. Não estava nem um pouco afim de voltar a escola, ver as mesmas pessoas, os mesmos rostos de sempre... Claro que eu vou adorar ver Susan de novo, desde que a minha mãe se separou e mudamos pra Lockerwood ela tem sido minha única amiga... As garotas desta escola são completamente diferentes de nós duas, são do tipo que amam rosa e são conhecidas por todo mundo. Já nós duas somos exatamente o contrário... Mas sim, ela também mudou bastante depois que conheceu Arthur. Ela até costuma dizer que eles são almas gêmeas... De qualquer forma eles sempre estão juntos, ou seja, passo a maior parte do tempo sozinha, desenhando.

Este era o primeiro dia do meu ultimo ano na escola... De certo modo pensar nisso me fez ficar anciosa. Então abri meu guarda roupa, peguei minha calça jeans azulada, e minha blusa cinza. Calcei meu tênis preto, e fui até o banheiro. Girei a massaneta, a porta estava fechada.

–Matt saia logo dai! -Era irritante como meu irmão conseguia demorar tanto apenas para escovar o dente.

–Está com pressa? -Ele perguntou sarcástico.

–É claro que estou com pressa!

–Então espere sentada.

Ele sempre fazia de tudo pra me irritar. Minha mãe vinha pelo corredor as pressas, eu a interrompi dizendo.

–Mãe o Matt não quer... -Antes que eu terminasse a frase ela me interrompeu.

–Não quero nem saber, tenho uma entrevista de emprego oito e meia, você viu meu cachecol preto?

–Não... -Eu disse, até que pensei melhor -Sim, ele estava em cima da sua penteadeira.

Ela foi para o quarto, Matt saiu do banheiro em seguida, me encarando com deboche, revirei os olhos e fui escovar os dentes. Quando terminei penteei meu cabelo com uma escova quaquer que estava em cima da pia. Depois voltei ao meu quarto, peguei meus desenhos, e coloquei em minha bolsa. Então desci as escadas, coloquei a bolsa no sofá e fui até a cozinha.

–Estou de saída! -Minha mãe disse olhando pra mim e pro meu irmão -Jade. Não se esqueça que tem que falar com o senhor Phill sobre suas notas!

Acenti com a cabeça enquanto via minha mãe saindo pela porta. Logo depois tomei café, quando eu estava indo pra sala meu irmão disse.

–Então, você ouviu?

–Ouvi o que?

–A Mamãe discutindo com o Henry pelo telefone hoje cedo.

–Não, o que aconteceu?

–O mesmo de sempre... Não quero mais saber de você, nunca mais me procure e etcetera... Eu estava pensando, a gente podia voltar a morar com o papai.

–Fala sério Matt, os dois são iguais! Não faz diferença com qual moramos... Mas esse ano faço dezoito. Vou tirar a gente daqui. Eu prometo.

Por mais que eu amasse minha mãe eu sabia que ela não largaria Henry. Desde que se separou do papai os dois estão juntos, e mesmo nesse vai e vem eu ainda sei que ela o ama e não vai desistir de ser feliz com ele... Sendo assim não me vejo no direito de atrapalhar.

–Então porque não fugimos de casa? -Disse meu irmão entusiasmado.

–E ir pra onde?

–Tem razão... -Ele parou e pensou -Eu vou nessa, vou pegar uma carona com o Jackson.

Jackson era o melhor amigo do meu irmão, ele era um menino de ouro. Por conta disso meu irmão também havia se tornado um. De certa forma eu era grata a ele.

Assim que meu irmão saiu eu peguei minha bolsa no sofá, então caminhei até a porta e coloquei minha jaqueta preta que estava em cima de uma mesa com uma luminária antiga.

Depois sai de casa, lá fora fazia frio. O que não era novidade, aquela era a cidade mais fria do estado. De certa forma eu gostava. Andei umas três ruas, então cheguei ao cruzamento, não era um cruzamento, apenas eu o chamava assim. Eu o nomeei assim pois era um lugar que de um lado tinha a rua pela qual eu seguia para a escola e do outro a rua que levava a floresta.

Desde que me mudei a floresta têm sido meu lugar preferido, sempre que quero ficar sozinha com meus pensamentos é pra lá que eu vou, me sento encostada em alguma árvore ou até mesmo me deito na grama. Passo horas lá apenas tentando fugir da realidade. O problema é que sempre que tento fugir da realidade ela consegue me encontrar fazendo-me lembrar de quão vazia é a minha vida.

Não, eu não ia pra floresta, decidi enfrentar meu primeiro dia o mais rápido possível. Caminhei até a escola. Assim que cheguei vi as mesmas pessoas de sempre, as mesmas tolices. O mesmo gramado, as mesmas janelas... Como era possível? Tudo estava no mesmo lugar.

Segui andando até a entrada, os garotos do time de futebol quase me acertaram. Revirei os olhos, continuei andando.

–Não acredito! Que saudade! -Disse Susan me abraçando como se eu fosse a última pessoa do mundo.

–Oi Susan...

–Por onde andou? Quer dizer, você não respondeu nenhum dos meus telefonemas.

–Eu... -Comecei pensar na melhor desculpa possível -Eu viajei e acabei esquecendo o celular aqui em Lockerwood...

Arthur chegou abraçando Susan, ele me encarou, por um instante me pareceu que ele olhava com deboche. Eu não confiava nele... Pra mim ele não gostava de Susan.

–Eu vou nessa. -Falei com um pequeno sorriso dirigido a Susan.

Depois entrei na escola, os corredores estavam como sempre, meio vazios, passei por todos rapidamente. Segui até a sala do diretor, pensei por um momento em como estaria sua aparência, provavelmente o mesmo topete desarrumado do ano passado, ri mentalmente quando pensei nisso.

Passei pelo último corredor até a sala do diretor, respirei fundo, já estava esperando a bronca que iria levar. Continuei andando, quando já estava em frente a porta ouvi um barulho fora da escola, olhei pela janela o mais rápido que pude, provavelmente era uma briga qualquer. O que eu não esperava era que alguém sairia da sala do diretor bem naquele momento.

Tomei um susto quando o garoto esbarrou em mim, ele tentou segurar meu braço para evitar minha queda, mas atrapalhada como sempre acabei por puro reflexo conseguindo me soltar. Caí em cheio no chão, minha bolsa voou para alguns centímetros longe de mim. Meus desenhos se espalharam pelo chão. Fui tomada pela raiva, olhei para cima na direção do garoto pronta para chinga-lo de todos os palavrões que eu conhecia.

Mas quando abri a boca fiquei estática olhando pra ele, seu cabelo era preto, chegava a ser um tanto grande, não que se destacasse em tamanho, o penteado sim fazia diferença, era um tanto bagunçado e arrepiado, os olhos dele eram azuis muito mais claros que os meus, sua boca tinha um tom rosado. Chegava a ser convidativa. Ele me olhava de um jeito um tanto estranho, parecia que já me conhecia.

Depois voltei a realidade, minhas bochechas coraram quando vi que ele estava com a mão estendida pra me ajudar a levantar há quase um minuto. Me segurei na mão dele. Sua pele era macia e estava um tanto fria. Ele usava uma calça jeans, e uma jaqueta de couro. Quando olhei a jaqueta percebi que ele usava um colar. Uma cruz pra ser mais especifica. Era de prata, tinha várias escrições em uma lingua que eu nunca havia visto antes.

Quando me levantei percebi que ele era mais alto do que eu pensei, eu chegava apenas até seu peito. Olhei para ele novamente, aqueles olhos me hipnotizavam. Percebi que ele desviou o olhar, parecia ter ficado com vergonha.

–Desculpe. -Ele disse timidamente- Eu não vi você. Te machuquei?

–N-Não -Gaguejei -Eu sou desastrada mesmo.

Ele não esboçou reação, apenas permaneceu olhando para mim. Sorri envergonhada e me abaixei pra pegar meus desenhos e minha bolsa. Em seguida vi que ele estava me ajudando. Não demorou para que tudo estivesse organizado.

–Gostei desse -Ele disse com uma folha nas mãos. Me aproximei e vi que era o meu anjo, novamente fiquei corada, aquele era meu pior desenho.

–É só um esboço. -Eu disse pegando o desenho da mão dele.

–Pra mim parece bom... -Ele não sorriu, era difícil saber o que ele estava sentindo.

–Meu nome é Jade. -Eu disse com o sorriso mais sincero que podia dar.

–Andrew. -Ele disse com um sorriso tímido e eatendendo a mão logo em seguida para me cumprimentar.

Respondi ao comprimento. Eu não queria deixar o assunto entre nós dois acabar. Então perguntei.

–Você é novo aqui?

Claro que era novo, se eu nunca tinha o visto aqui antes. Me senti uma idiota, meu coração disparou esperando que ele tivesse a pior impressão de mim.

–Sim, pra falar a verdade acabei de me mudar. -Ele respondeu naturalmente. -Você desenha bem. Com quem aprendeu?

–Não sei, desenho assim desde criança. -Sorri -Eu gostei da sua cruz... É de família?

Ele ficou um tanto nervoso, como se eu tivesse descobrido seu ponto fraco.

–Não. É só uma coisa que tenho há bastante tempo... Se não se importa tenho que ir, ainda não encontrei minha sala. Foi um prazer conhecer você Jade.

–Foi um prazer conhecer você também Andrew... -Eu disse baixinho enquanto o olhava andar pelo corredor.

O que tinha sido aquilo, me perguntei enquanto estava parada na frente da sala do diretor. Um garoto lindo me ajudando a pegar meus desenhos do chão? Isso não fazia parte do meu cotidiano. De qualquer forma não conseguia parar de pensar naqueles olhos, naquela boca, tudo nele era pra ser relembrado.

Bati na porta, o diretor abriu com sua cara de sono de sempre, nesse momento eu já sabia que aquela não seria um conversa agradável.

*

Minhas orelhas ainda queimavam, Phill nunca tinha me dado bronca tão grande como aquela, sai da sala dele e voltei ao corredor, faltavam dois minutos para a primeira aula, corri como uma louca pelos corredores até que achei o banheiro, eu precisava me olhar no espelho antes que o encontrasse de novo. Uma parte de mim não sabia o porque da certeza que o veria de novo.

Mesmo assim fui para o banheiro. Penteei o cabelo com a mão. Então percebi que ele estava realmente grande, chegando a minha cintura. Suas pontas eram um tanto enroladas, a cor loira fazia com que meus olhos azuis se destacassem. Retoquei o meu batom e corri para sala de aula.

–Porque demorou tanto? -Disse Susan.

–Longa história -Eu respondi me sentando ao lado dela.

–Fala sério, essa escola está precisando de caras bonitos. -Eu ouvi Lucy Winks dizer logo a minha frente.

Ela era insuportável, morena, olhos verdes, magra como a Barbie. Ela estava usando uma calça extremamente apertada, que deixava seu corpo inteiramente definido, usava também um casaco rosa e uma blusa branca por baixo. Revirei os olhos quando ela jogou o cabelo e riu com suas amigas.

–Todos quietos! Vou apresentar os alunos novos. -Disse Bobby, o professor de História.

Vários alunos entraram, entre eles uma me chamou atenção, ela usava uma calça preta, e uma blusa vermelha por baixo da jaqueta de couro preta. Estava mascando um chiclete e olhava para todos na sala, parecia procurar alguém, quando o olhar dela cruzou o meu, senti que ela se assustou. Quando chegou sua vez ela se apresentou como Annelise Destler.

–Nossa, de onde você veio? Outro planeta? -Disse Lucy fazendo a maioria da sala dar risada. Eu revirei os olhos novamente. Ela era do tipo que fazia os outros ficarem mal pra se sentir bem.

Annelise estourou uma bola de chiclete na boca, e permaneceu séria, parecia estar tentando "mata-la" com o olhar.

–Que engraçado! -Ela disse fazendo a sala ficar em silêncio. -Acho que você errou a escola, o fundamental fica do outro lado da rua.

Lucy levantou uma das sobrancelhas e abaixou a cabeça sem graça com um ar de quem queria vingança.

–Tudo bem, agora pode se sentar Annelise. -O professor disse mostrando um lugar no fundo da sala na frente de Jonathan.

Ele tinha olhos verdes, seu cabelo era castanho escuro, lábios provavelmente irresistíveis pra todas as garotas, mas tinha uma cara de safado que não era difícil perceber. Percebi a troca de olhares entre ele e Annelise e posso afirmar que não foi nada boa.

Me virei pra frente, vi Andrew, meu coração acelerou. Ele falava em um tom baixo com o professor. Até que pouco tempo depois acentiu com a cabeça. Lucy e suas amigas cochichavam olhando para ele. Estranhamente senti um imenso ciúme, era como se de alguma forma ele me pertencesse.

–E este é... -Disse Bobby um tanto confuso olhando para ele.

–Andrew. -Ele respondeu completando a frase.

–E de onde você é Andrew? -Lucy perguntou com os olhos vidrados nele e se inclinando para frente.

–Sou... Sou daqui mesmo. -Ele disse parecendo confuso.

–Nunca te vi por aqui.

–Acabei de voltar... Eu tinha me mudado...

–Então, seja bem vindo! -Lucy completou dando uma piscada para ele.

Respirei fundo controlando munha raiva. Andrew sentou-se duas fileiras ao meu lado, quase na penúltima carteira. Uma parte de mim ficou feliz por ele não ter sentado do lado de Lucy.

–Agora que todo mundo se conhece, vamos a aula. Começaremos revisando o ultimo tema do ano passado quem pode... -Nesse momento olhei por cima do meu ombro.

Andrew estava prestando atenção em tudo que o professor dizia. Por um instante me senti burra, ano passado tirei várias notas vermelhas em meu boletim, quase repeti de ano, se isso tivesse acontecido eu teria perdido a chance de conhece-lo. Era estranho, eu conhecia ele há apenas algumas horas e já sentia um afeto grande por ele.

–Não ta ouvindo garota? -Disse Lucy olhando pra traz me fazendo recuperar os sentidos -O professor fez uma pergunta.

Olhei para o professor, ele me encarava com deboche, já o resto da sala me olhavam apreensivos. Sem saber o que fazer decidi apenas encara-lo. Mas não deu muito certo, ele olhou pra mim frio como gelo e disse.

–Então Jade? Não vai nos dar a honra de sua resposta.

–Desculpe... Mas qual é a pergunta?

–Você tem problemas auditivos ou apenas mentais?

Minhas bochechas coraram, a maioria da sala riu de mim. Abaixei a cabeça enquanto ele prosseguiu com a aula. Copiei todo o texto do quadro, em seguida fechei meu caderno e peguei um dos meus esboços, o que Andrew havia gostado.

Provavelmente ele não sabia, mas aquele era meu pior desenho, isso porque por mais que eu tente não consigo desenha-lo corretamente, mas claro, vou continuar tentando. Pensar nisso me deu uma idéia, vou até a floresta hoje pra ver o anjo. Sim meu esboço é a cópia de uma escultura que fica em frente de uma casa... Ao menos era uma casa, hoje em dia está em ruínas.

*

O recreio havia chegado. Susan não dirigiu nenhuma palavra a mim, ela apenas saiu da sala com um sorriso no rosto e beijou Arthur que há esperava na porta. Me senti mal por não ter ninguém pra andar no recreio. Tentei parar de pensar nisso, fui até o meu armário e deixei um dos meus cadernos. Em seguida fui até o refeitório.

Peguei uma bandeja e fui até a fila, não estava tão grande. Procurei Andrew por todas as mesas, era como se ele tivesse desaparecido, eu não entendia direito o que estava acontecendo comigo, mas desde que nos esbarramos no corredor eu não conseguia parar de pensar nele.

Peguei minha ccomida, então andei procurando uma mesa, pensei em me sentar com Susan e Arthur, mas foi só um pensamento. Me sentei em uma mesa ao lado da janela. Coloquei a bandeja em cima da mesa, em seguida olhei para o lado, Annelise vinha na mesma direção.

–Oi. Meu nome é... -Disse Joseph parando ela no meio do caminho. Porém antes que ele conseguisse se apresentar ela desviou e continuou sei caminho.

–Se importa? -Ela disse parando em frente a minha mesa.

–Não, não tudo bem. -Eu estava feliz por ter companhia.

–Nossa como fazer tanto frio? -Ela disse simpática.

–Me perguntava isso todos os dias quando me mudei. -Sorri -Mas agora me acostumei.

Ela sorriu, seus dentes eram perfeitos. Olhei para o lado tirando algo da minha jaqueta. Quando o fiz vi Andrew, ele estava na fila. Parecia confuso com aquilo, coloquei o cotovelo na mesa e passei a encara-lo, não demorou até que Annelise me fizesse voltar em mim.

–Seu namorado?

–Não. -Eu disse envergonhada. -Eu só... Só gostei da... Só gostei da jaqueta dele.

Aquela havia sido minha pior mentira em anos, e o pior, estava na cara que eu nem ligava opra jaqueta dele.

–Me parece uma jaqueta comum.

Tentei mudar de assunto.

–Então, já fez um amigo? -Disse indicando Jonathan com a cabeça.

–Não. Pra falar a verdade eu não fui com a cara dele. Nem delas. -Ela sinalizou a mesa ao nosso lado. Quem estava nela era Lucy e suas amigas.

–Então temos algo em comum -Sorrimos.

Comecei a comer, pouco tempo depois olhei novamente para a fila, não vi Andrew, procurei pelo refeitório, nada.

–Tenho que ir. Posso levar sua bandeja? -Disse Annelise gentilmente.

Acenti com a cabeça, Annelise se levantou, me levantei logo em seguida e segui até o corredor, chegando lá fui para o banheiro a próxima aula era educação física, prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. Sai do banheiro e voltei a andar pelo corredor. Ouvi o sinal para a próxima aula, virei para o último corredor antes do ginásio de esportes. Quase esbarrei em Andrew, ele parou em minha frente e sorriu.

–Desculpe... Acho que acabei me perdendo. -Ele disse timidamente.

–O ginásio é pro outro lado. -Respondi sorrindo. -Vamos, eu já estava indo pra lá mesmo.

Ele acentiu com a cabeça, andamos pelo corredor sem dizer se quer uma palavra, ele parecia estar escolhendo-as, me senti envergonhada. Talvez ele não quisesse falar comigo, pensar nisso me fez abaixar a cabeça.

–Você é uma das líderes de torcida? -Ele perguntou me encarando.

Tentei segurar, mas não consegui, comecei a rir quase incontrolávelmente, me imaginei vestindo aquele uniforme e dançando com elas, com certeza não fazia meu estilo. Andrew sorriu e passou a me olhar confuso.

–Desculpe. -Eu disse parando de rir -É que ser uma líder de torcida... Bem, não tem nada a ver comigo.

–Não, com certeza não tem -Olhei pra ele esperando um fora -Você é muito mais original.

Essas palavras fizeram meu coração se derreter, eu sorri enquanto ele me encara sério. Já estávamos em frente a porta do ginásio, eu a abri, então entramos, todos já estavam lá. Eu vi a raiva no olhar de Lucy ao me ver entrando com Andrew.

–FILA! -Disse a treinadora.

Fiquei logo atrás de Susan na fila das meninas, e Andrew foi pra fila dos meninos a esquerda. A treinadora andava de um lado para o outro observando os alunos.

–Onde você estava? -Susan perguntou discretamente -Não vi você no refeitório.

–Eu... -Fomos interrompidas por Lucy.

–Da pra calarem a boca? Estão atrapalhando minha linha de raciocínio. -Eu não aguentava mais aquela garota estupida, me virei pra traz e encarei duramente.

–Não sabia que você tinha uma!

–Awn -Ela disse irônica. -Você fala, ainda não tinha percebido.

Enchi o peito e estava pronta pra joga-la no chão e arrasta-la pelo cabelo por todo o ginásio. Mas antes que o fizesse a treinadora soprou o apito me fazendo virar pra frente.

–É pedir demais um pouco de atenção? -Ela voltou a andar. -Hoje todos vão jogar queimada... Preciso de dois alunos para serem os líderes de cada time.

–Eu! -Levantei a mão e me arrependi no mesmo instante.

–Ótimo, e pro time adversário?

Lucy deu um passo a frente com seu olhar soberano. Revirei os olhos, a treinadora mandou montarmos nosso time.

–Eu quero Andrew. -Disse Lucy o encarando como se fosse o último garoto do planeta.

Quando ele foi pro outro lado do campo senti vontade de ir até lá e puxa-lo pelo braço, eu podia sentir a contentação no olhar de Lucy. Aquilo me dava ódio fechei minha mão fortemente.

Então escolhi meu time, em seguida ouvi o apito, o jogo havia começado, a bola estava em minha mão, consegui queimar um jogador adversário com apenas um movimento. Todos do meu time comemoraram, Lucy cruzou os braços e passou a me encarar.

Em seguida ela estava com a bola nas mãos, ela jogou forte e conseguiu queimar Susan. Eu estava morrendo de raiva, a bola novamente parou em minhas mãos, joguei com toda a força que eu tinha, Andrew a segurou nas mãos e sorriu em minha direção.

Lucy tirou a bola das mãos dele e a jogou em minha direção, eu já até podia senti-la em meu estomago, mas antes que acontecesse consegui bater nela com a mão fechada.

No instante seguinte houve uma correria, eu não entendi muito bem até que me aproximei e vi Lucy caída no chão com a mão na cabeça. Foi ai que caiu minha ficha, eu tinha conseguido acerta-la, todos passaram a me encarar friamente, segurei com todas as minhas forças o riso.

–Sua vadia! -Disse Lucy se levantando.

–A culpa não foi minha, eu só me defendi. Sinto muito.

–Claro que a culpa foi sua! -Lucy olhou para a treinadora. -Você não vai fazer nada?

–Já para a sala do diretor! -A treinadora disse.

–Mas... -Tentei me explicar, só que antes que acontecesse a treinadora me segurou pelo braço e praticamente me arrastou pelos corredores.

–De novo você Jade? — Disse o diretor quando me viu, então ele dirigiu o olhar para a treinadora. -O que ela fez dessa vez?

–Ela acertou uma bola na cara da colega de classe.

–A culpa não foi minha, eu só...

–Silêncio garota! -Disse o diretor enquanto a treinadora saia da sala. Encolhi os ombros, ele suspirou e começou a falar calmamente -Jade, eu quero que saiba que entendo você, pai divorciados, não é? Bom, isso torna a vida difícil eu sei. Mas tem que encontrar uma forma saudável de descontar sua raiva. Não pode acertar as pessoas com uma bola toda vez que estiver estressada.

–Mas eu já disse a culpa não foi minha, eu só me defendi!

–Seu comportamento me preocupa. Vou te dar um dia de folga pra você esfriar a cabeça.

–Folga? -Eu disse inconformada -Você quer dizer suspensão não é?

–Já terminamos nossa conversa. Pode ir pra casa.

Me levantei furiosa, tudo isso por culpa daquela insuportável, devia ser um plano pra conquistar Andrew, mas eu não podia deixar que isso acontecesse. No segundo seguinte cai na real, o que eu estava pensando? Nem conhecia ele direito... Mas bem que queria uma parte profunda dizia em meu coração.

–Pais divorciados? -Disse Lucy parando em minha frente no corredor.

–Estava ouvindo?- Perguntei com raiva. Ela sorriu com um ar desafiador. -Fala sério, você devia arranjar alguma coisa pra fazer...

–Ah é, como o que? Desenhar feito uma idiota?

–Não. -Eu disse pronta para uma discussão- Algo que tenha mais a sua cara, como mecher em caldeirões, voar de vassoura, andar em encruzilhadas a meia-noite... Posso te dar uma lista se quiser.

Ela ri como se eu fosse um inseto, e então volta seu olhar superior para mim.

–Você se acha muito especial não é? Mas vamos ver, o que tem em você? Roupas comuns de uma garota qualquer, desenhos mal acabados. Um pai que nunca está presente, uma mãe que coloca um bêbado agressivo em casa, um irmão com problemas pra controlar a raiva... É Jade, acho que não tem nada pra apreciar em você. Problemas com sua personalidade é a única coisa que você tem a oferecer. Sabe como garotas como você acabam? Em um bordel qualquer...

Pensei em algo a dizer sobre ela, nada, o diretor estava vindo no corredor.

–Jade, mandei você ir embora!

Sai correndo de lá antes que alguém visse minhas lágrimas. Naquele momento desejei não existir. Aquelas palavras me feriram, eu quis voltar pra casa, mas não podia. Se minha mãe soubesse da suspensão eu seria obrigada voltar a morar com meu pai.

Pensei bem e fui até a floresta, me sentei encostada em uma árvore, continuei chorando, não conseguia parar, eu sabia que não devia ligar para aquelas palavras mas simplesmente não conseguia.

Tentei pensar em algo bom para parar de chorar, mas nada vinha em minha mente... Então permaneci ali, sentada como se meu mundo não existisse...