Entre o céu e o inferno
7 Não me mande embora
1
–Albert aqui não é seguro pra você!- Eu disse pela milésima vez tentando convencê-lo a se mudar.
–Essa é a minha casa! E eu não saio daqui!
Eu precisava tira-lo de lá, ou ele se machucaria e a culpa iria ser toda minha, mas como convencê-lo?
–Você vai se mudar sim Albert!- Disse Annelise entrando pela porta- E Andrew vai com você.
–O que!?- Questionei.
–Estão procurando por você também. Vocês tem que ir para uma parte mais movimentada da cidade.
–Só saio daqui morto!- Albert disse cruzando os braços e se sentando na poltrona.
–Acho que não vai ser preciso.
Annelise assoviou, então dois caras altos passaram pela porta e levaram a poltrona pra fora com Albert em cima dela.
–Ei isso é violação dos direitos humanos!- Ele falou pouco antes de bater a cabeça no batente da porta.
–Então Andrew, você vai por bem ou espera eles voltarem?
Sai pela porta... Eu ia ter que mudar junto com Albert. Os dois caras colocaram ele dentro de uma van preta, então Annelise me deu a chave.
–Já tem pra onde ir?- Ela perguntou.
–Sim.
Ela acentiu e então foi embora. Comecei a dirigir, ouvindo os questionamentos de Albert, eu tentava ignorar, mas era difícil me concentrar.
*
Parei o carro em frente a casa, então desci junto de Albert, ele ficou de queixo caído ao ver a casa, realmente ela era grande. Sua pintura era branca, e tinha uma varanda com um tamanho bem amplo.
–Esqueça tudo o que eu disse. Vamos ficar. De quem era essa casa!?- Albert perguntou.
–Era de um anjo... Um que viveu na terra por mais de dez anos, mas hoje em dia está desocupada. Se alguém perguntar, inventamos alguma coisa. -Dei de ombros e entrei.
Ele me acompanhou. A parte de dentro da casa também era muito grande, e estava mobiliada, tudo parecia novo. Mas eu aposto demoraria um tempo até que Albert se sentisse em casa... Ou talvez eu estivesse errado, olhei para o lado e ele já estava deitado no sofá.
–Esse é o sofá mais macio que eu já vi em toda minha vida.
–Eu tenho que ir pra escola. Você cuida da mudança.
–Porque eu!?
–Porque você é humano.
Fechei a porta a minhas costas e então comecei a andar, eu queria encontrar Jade o mais rápido possível.
2
Mais uma vez eu lavei o meu rosto. Eu havia chorado a noite toda, minha mãe ligou para o meu pai, ele viria me buscar no fim de semana, ou até mesmo antes se fosse possível. Mas eu não podia deixar meu irmão para trás... Muito menos Andrew, eu não conseguia aceitar que não o veria mais.
–Jade...- Disse meu irmão batendo na porta gentilmente.
Eu abri ainda limpando o rosto, quando ele me viu pareceu espantado, também podera, meu rosto provavelmente estava inchado.
–Oi... -Eu disse com o tom mais natural que pude.
–A mamãe disse que o papai vai levar você, é verdade?
–Ela acha que eu tentei me matar, que estou perturbada... Não vou ter outra escolha Matt, vou ter que ir.
–Mas você prometeu...- Eu o interrompi.
–Eu sei, me desculpe... Mas, você pode vir comigo.
–Eu posso mesmo!?- Ele demonstrou intusiasmo.
–Não Matt, você não pode!- Minha mãe disse se encostando na parede- Sua irmã provavelmente vai tentar se matar de novo, e eu não quero meus dois filhos convivendo em um ambiente desse tipo.
–Mãe eu já disse, eu só me desequilibrei...
–Matt, vá já pra escola. Tenho que ter uma conversa com a sua irmã.
Matt lançou um último olhar para mim, e em seguida obedeceu minha mãe.
–Olha Jade, eu sei que na sua idade deve ser ruim ter pais separados. Mas isso não justifica... -Eu a interrompi bruscamente.
–Quantas vezes eu vou ter que dizer!? EU ME DESEQUILIBREI! MAS QUE DROGA MÃE! SÓ VOCÊ NÃO VÊ QUE É A ERRADA NESSA HISTÓRIA!
–ERRADA!? EU SEMPRE FIZ TUDO POR VOCÊ, SUA INGRATA!
–TUDO O QUE!? O QUE VOCÊ FEZ ALÉM DE COLOCAR UM BÊBADO DENTRO DE CASA!?
–CALA A BOCA GAROTA! OLHE PRA VOCÊ, OLHE PARA O QUE VOCÊ SE TORNOU! SÓ OUTRA ADOLESCENTE REBELDE! VÁ JÁ PRA ESCOLA ANTES QUE EU PERCA A PACIÊNCIA!
–É EU VOU MESMO! ESSA CASA JÁ ESTÁ CHEIRANDO HÁ UM BAR!
Me virei e desci as escadas o mais rápido possível, então corri pela rua. Pensei em desabafar, era disso que eu precisava... Mas não havia ninguém que pudesse me ouvir.
Eu não podia ir pra escola... Não podia aturar as provocações de Lucy, ao menos não hoje, tudo que ela me dissesse só me afetaria mais. Continuei correndo e entrei na floresta.
Passei pela escultura de anjo, eu a ignorei, ela não era importante naquele momento. Andei mais um pouco e joguei minha bolsa no chão. Então me sentei encostada em uma árvore.
Quando vi já estava chorando. Podia ser hoje o dia que eu voltaria para Nova York, voltaria para aquela vida sem sentido e monótona que eu levava, eu nunca mais veria Andrew... Talvez ele e Lucy ficassem juntos, garotas como ela sempre conseguiam o que queriam.
Continuei chorando, eu chorava mais e mais alto a cada instante. Me senti competente sozinha. O que eu havia feito para todos se afastarem de mim?
–Você esta bem?- Ouvi alguém dizer ao meu lado esquerdo. Era uma voz feminina, uma voz convidativa mas ao mesmo tempo misteriosa.
Me virei, então vi seu rosto. Ela tinha olhos verdes escuros e o cabelo vermelho, a cor era tão intensa que lembrava o fogo, ela usava um vestido preto sem nenhum detalhe, que tinha comprimento um pouco abaixo do joelho, olhei para seus pés, ela estava descalça. Franzi o rosto, de onde ela havia vindo?
–Você ouviu a pergunta?- Ela voltou a falar.
–Sim, desculpe... Eu estou bem.
–Porque estava chorando?
–Por nada... Mas, o que você faz andando sozinha pela floresta?
–Eu poderia perguntar o mesmo a você... Mas enfim, você é a Jade não é?
–Quem te disse o meu nome?
–Longa história.- Ela olhou profundamente nos meus olhos, como se me odiasse- Eu acabei de voltar pra cá, me chamo Jezabel.
Ela estendeu a mão, eu dei um sorriso frustrado e a segurei, quando o fiz um calafrio correu pelo meu corpo, foi como se eu pudesse ver o que havia acontecido com aquela garota... Mas como aquilo aconteceria? Me lembrei do homem no carro, era como se aquela garota tivesse passado pelo mesmo lugar que ele. A cada segundo aquilo ficava mais forte, era como se aquele lugar estivesse ficando real.
Soltei a mão dela, só então percebi que ela me encarava. Quando nossos olhares se encontraram ela deu um sorriso maléfico que fez com que eu abaixasse os olhos.
–Eu... Eu tenho que ir...
Me virei e ia correr para a saída da floresta. Mas ela segurou meu braço.
–Foi um prazer ter conhecido você.
Eu acenti um tanto oscilante, então comecei a correr. Me dei conta de que estava com medo, mas porque? Olhei para trás e Jezabel não estava mais lá. Corri ainda mais rápido, então sai da floresta, me virei para atravessar a rua, então esbarrei em alguém, batendo meu queixo com força em seu peito.
Senti meus pés ficarem vacilantes no chão, mas então recuperei o equilíbrio e levantei meus olhos para pedir desculpas.
–Andrew!?- Eu disse.
–Nos esbarrarmos já esta virando um hábito, não é?- Ele sorriu- Mas porque estava correndo?
–É que tinha um garota na floresta... E ela apareceu, ai depois ela... Eu não sei ela parecia...- Eu parei de falar quando pensei que estava parecendo patética- Esquece... O que estava fazendo por aqui?
–Eu fui pra escola, mas não encontrei você, ai pensei que se não estava na escola... Só poderia estar aqui.
Eu sorri, ele havia chegado há tão pouco tempo e já me conhecia como ninguém.
–Você queria falar comigo?
–Sim. Queria ver como estava.
Eu não sabia como responder aquela pergunta. Qualquer resposta referente a sim seria mentira. Mas eu não queria parecer um pobre coitada implorando pela ajuda dele.
–Eu estou bem. -Respondi finalmente.
–Então se recuperou bem da queda? — Claro... Ele estava querendo saber se eu não havia me machucado. Afinal ele nem sabia sobre Nova York.
–Ah, claro... Eu nem me machuquei muito.
–E a outra coisa?
–Que outra coisa?
Ele me encarou, de alguma forma eu soube que ele sabia o que eu estava sentindo. Ele parecia me entender mesmo quando eu não dizia nenhuma palavra.
–Você esta triste. O que aconteceu?
–Como sabe que estou triste?
–Basta olhar pra você e isto esta claro.
–Não é claro pra maioria...- Ele permaneceu me encarando- Mas... Você não se parece com a maioria, você é diferente.
–E isso é bom?-Ele perguntou, eu sorri, então acenti e ele voltou a falar- O que acha... De eu levar você há um lugar legal?
–Que lugar?
–Hum... Você confia em mim?
–Quase completamente. -Respondi sorrindo.
–Então vamos. -Ele estendeu a mão, então nossos olhares se encontraram. Mordi meu lábio, por um momento eu não soube se devia ir. Mas era com ele que meus problemas pareciam ir embora, e tudo o que eu queria era isso.
Sorri, e segurei a mão dele. Ele sorriu novamente, então começamos andar na direção da saída da cidade.
3
–Como assim você falou com ela!?- Dizia meu superior ao telefone.
–Eu sei que estas não foram as ordens. Mas eu não entendo porque não a levamos de uma vez!
–Você não tem que entender Jezabel! Você tem que obedecer. Pra pegarmos Jade temos que matar Andrew primeiro.
Revirei os olhos, tudo aquilo era patético, eu não queria que nada de ruim acontecesse a Andrew, eu ainda o amava. Um dia ele se apaixonaria por mim, pensei. Mas antes eu tinha que me livrar de Jade, mesmo que isso custasse desobedecer o plano.
–Tudo bem. -Eu disse- A partir de agora vou tentar não falar com ela.
Ele desligou o telefone, desde sempre ele havia sido metido. Talvez no lugar dele eu também me comportaria assim, ele era o braço direito de Lúcifer. O segundo maior "cargo" no inferno.
–Desculpe senhorita. -Disse uma freira ao esbarrar em mim, ela tinha uma voz doce que chegou a me dar nojo.
Olhei para o lado, havia uma igreja. Todos já estavam saindo, provavelmente a cerimônia havia acabado. Eu entrei, e me sentei em um dos bancos. O padre não me viu, ele fechou a porta, então se virou.
Seu olhar caiu sobre mim, então ele veio em minha direção.
–Olá filha.- Sua voz era calma, e chegava a embrulhar o meu estômago.
–Olá padre... Eu vim até aqui, porque quero fazer uma pergunta.
–Então faça.
–Você acha que todos podem ser salvos?
Ele me olhou como se sentisse compaixão, me segurei para não rir, mesmo sendo muito difícil.
–Eu não acho. Tenho a mais pura certeza. Você só precisa pedir perdão.
–Até mesmo eu? -Eu disse tornando meus olhos vermelhos, instantaneamente vi o pavor nos olhos dele. Então tirei minha faca e a passei pela garganta dele com um só movimento, ele caiu no chão.
Eu sorri enquanto limpava o sangue da faca. Então olhei para ele novamente, a vida já não lhe pertencia.
–Me perdoe padre, mas eu pequei. -Eu disse passando por ele e saindo da igreja pela porta dos fundos.
Como a humanidade era patética, pensei.
4
Desci do segundo metrô com Andrew, já estávamos duas cidades a frente de Lockerwood. Saímos da estação, aquela cidade era muito bem iluminada, ainda mais naquela noite, pois a lua estava bem próxima.
Nós andamos umas quatro quadras, então vi uma ponte, ela também era muito bem iluminada e brilhante, havia um grande lago embaixo dela. Era uma ponte apenas para pedestres, e naquele momento estava vazia.
–Chegamos. -Andrew disse lançando um sorriso em minha direção.
Eu sorri, e então andamos até o meio da ponte, eu parei e coloquei as mãos sobre o parapeito, então me debrucei para frente. Realmente o lago era lindo. Andrew encostou as costas no parapeito, ficando de costas para o lago, eu fiz o mesmo, então ele olhou para mim, parecia tentar me interpretar.
–Então... Vai me dizer porque estava triste?
Ele olhou profundamente em meus olhos, eu quis desviar o olhar, mas simplesmente não consegui.
–É complicado... A minha mãe, ela acha que eu tenho algum tipo de trauma por ter pais separados... E por isso eu me joguei da escada... Ela acha que eu tentei me matar. E agora ela e o meu pai decidiram que eu tenho que voltar pra Nova York.
–E não é isso o que você quer?
–Não... Não é. Se eu for, meu irmão e minha mãe vão ficar sozinhos com Henry, e... Acho que eu tenho medo do que pode acontecer.
Eu queria dizer que parte da minha oposição sobre me mudar tinha haver com ele... Mas as palavras não saiam.
–Não precisa ter medo. Você não vai se mudar.
–Como sabe?
–Eu... Eu só sei.
–As vezes você parece saber tudo sobre mim.
Ele sorriu. Com um sorriso diferente que parecia conter um mistério. Eu sorri de volta, e só então percebi que realmente o amava, eu o amava com todo o meu coração. Perto dele os maiores problemas se tornavam menores, e o imperfeito virava perfeito. Perto dele eu não me sentia uma estranha.
–No que esta pensando?- Ele perguntou.
Eu sorri.
–Obrigado por aparecer na hora certa. -Aquelas palavras saíram da minha boca tão naturalmente que chegou a ser estranho.
–Por você eu sempre vou aparecer na hora certa. Assim como nas erradas e em todas as outras também...
–E porque?
–Porque eu amo você.
Nossos olhares se encontraram, e eu senti meu coração acelerar quando ouvi aquelas palavras, eu queria dizer que o amava também, mas não consegui.
Nós nos aproximamos um do outro, eu já podia sentir a respiração dele. Olhei uma última vez em seus olhos, então fechei os meus. Senti seus lábios tocando os meus, enquanto sentia também suas mãos em minha cintura.
Minhas mãos passavam suavemente pelo seu cabelo, e a cada segundo eu queria ainda mais que aquele momento não acabasse, a sensação de estar colada em seus lábios era a melhor que eu já havia sentido.
Eu não podia ignorar o que estava diante de mim. Eu o amava e não podia deixa-lo ir. Tudo o que eu podia sentir era aquele beijo doce. Aquele momento era perfeito, não pelo lugar, pelo clima ou pela hora. Era perfeito apenas por ele estar ali.
Aos poucos senti nossos lábios se separando. Abrimos nossos olhos ao mesmo tempo. Eu não disse uma palavra... Não sabia se conseguiria, Andrew me olhava, parecia que aquele olhar se aprofundava no meu coração a cada segundo que se passava. Eu não queria estragar o momento, mas parecia que eu ia explodir se não dissesse aquelas palavras.
–Você realmente me ama?
–Amo desde a primeira vez que te vi.
Eu sorri, o sorriso mais sincero de toda a minha vida, mas então ele se fechou tão rápido como apareceu.
–O que foi?
–Tenho medo que o tempo acabe te afastando de mim...
–Porque?
–Porque... Eu também amo você.
Ele sorriu.
–De apenas um passo por mim... E eu prometo que caminho todo o resto junto com você.
Novamente eu sorri, então acenti enquanto a felicidade me dominava. Levantei meus braços, e então o abracei, quando ele me abraçou de volta percebi que de todos os abraços o dele era o meu preferido.
Fale com o autor