Entre o céu e o inferno
14 Lúcifer
1
Tudo era escuro ao meu redor, eu estava atormentada por algum motivo, e de alguma forma sentia que alguém me observava. Avistei uma luz ao final da escuridão, corri até ela sabendo que minha vida dependia daquilo. E de repente tudo estava claro, eu estava em uma sala branca, não havia ninguém. Olhei para trás e a escuridão havia sumido.
–Jade... -Ouvi alguém me chamando e me virei, era Volare, ele estava ali com a mesma classe de sempre me encarando.
–Me deixa em paz! -Eu gritei.
–Quando vai me deixar conversar com você?
–Nunca! Me deixa em paz!
Ele se aproximou, eu estava apavorada, não me importava o que ele tinha a dizer. Ele era um demônio, a última coisa de que eu precisava era ter contato com ele.
–Já é a quinta vez que tento falar com você! -Ele havia se irritado -Faz ideia de como é difícil!?
–É só um sonho! -Fechei meus olhos, esperando que ele tivesse ido embora quando eu os abrisse. Mas ele não havia ido, e estava mais perto.
–É um sonho, mas ainda assim pode matar alguém. -Ele sorriu -Espero que da próxima você me escute... Tudo aqui é real, mesmo que você esteja dormindo. Vou te dar uma prova.
Ele segurou o meu pulso, eu acordei gritando.
–Andrew! Andrew! -Andrew acordou, se virou para mim.
–Desculpe desapontá-la. -Era Volare. E estava ao meu lado, novamente eu gritei. Então despertei, levantando minhas costas da cama. Minha respiração estava completamente acelerada, meu coração parecia querer saltar do meu peito.
–Jade, o que foi? -Olhei para o lado e Andrew estava lá, meu medo foi controlado, eu o abracei.
–Eu tive um pesadelo.
–O mesmo?
–Sim... Mas dessa vez foi mais real, era como se eu realmente estivesse lá.
Me lembrei que ele havia me tocado desta vez, acendi o abajur e lá estava a marca de sua mão em meu pulso. Mostrei a Andrew, ele segurou meu braço.
–Ele fez isso?
–Fez... Mas... Como é possível? Se eu estava sonhando ele não podia ter me tocado, podia?
Ele olhou pra mim, seus olhos azuis estavam confusos, ele estava sério, preocupado. Eu não sabia o que ele iria fazer.
–Não foi um sonho.
–O que?
Ele colocou a mão sobre a marca em meu pulso, em seguida a tirou, franziu as sobrancelhas e novamente me encarou.
–O que foi, Andrew?
–Ele te levou para um outro plano enquanto você dormia. Seu corpo permaneceu aqui, mas ele ainda pôde ferir sua alma.
–Como uma viagem astral?
–Sim. Por isso não posso te curar, ele a feriu fundo demais.
–Tem como parar isso?
–Eu não sei, nunca vi nada como isso.
–Talvez eu devesse ouvi-lo... -As palavras saíram da minha boca lentamente, eu me arrependi de ter dito, ouvir um demônio? Fala sério!
–Não. De qualquer forma ele não quer o seu bem. Não ouça ele, vamos dar um jeito nisso...
–Acha que ele quer me levar até Lúcifer assim como os outros?
–E porque ele iria querer outra coisa? Eles são todos iguais.
Eu assenti... Tentando disfarçar o medo, mas Andrew percebeu, ele me abraçou ainda mais forte, seus braços eram aconchegantes.
–Acha que eu devia tentar desenhar?
–Não tente forçar nada.
–É que... As vezes me sinto imprestável aqui. Sou a única que não tem uma função.
–Não pense assim. Você pode prever o futuro... Só ainda não aprendeu bem como fazer isso.
–Tem razão. Eu vou conseguir... Andrew...
–O que foi? -Sua voz era doce.
–Posso ajudar Luke a fazer a ronda hoje?
–Jade... -Eu o interrompi.
–Eu sei, você vai dizer que é perigoso, mas eu prometo que eu vou obedecê-lo, vou enlouquecer se continuar aqui sem fazer nada. -Ele me encarou -Por favor! -Eu disse com minha voz mais manhosa.
–Como posso negar a você...? -Ele suspirou -Mas por favor, volte inteira.
–Aaah obrigado! -Disse com alegria e beijei todo o seu rosto -Eu te amo!
–Eu também.
Nós nos vestimos, eu coloquei minha regata preta, minha calça jeans azulada e minhas botas marrons. Andrew estava deslumbrante em sua camiseta branca e jeans. Descemos as escadas, Andrew orientou todos sobre o que deviam fazer, eu segui Luke até a o galpão, onde ele pegou umas três armas. Eu esperava que ele me desse uma... Mas ele me ignorou.
Começamos a andar, ele era muito calado. Não havia nem me dado bom dia, talvez apenas estivesse confuso sobre os últimos acontecimentos... Estávamos cada vez mais longe do acampamento, eu me sentia feliz e entediada ao mesmo tempo. Não sabia se devia ou não tentar puxar assunto, eu tinha receio de parecer idiota.
2
Sempre achei os humanos muito complexos. O mundo deles poderia ser destruído em um instante, só que mesmo assim eles se empenham em construir coisas, como casas, edifícios... Isso parece algo extremamente idiota. Eu estava sentado em um banco de praça... Ao menos deve ter sido uma praça, agora era apenas um lugar destruído. Olhei para os lados, nem sinal de Annelise. Eu precisava dizer a ela para que parasse de me procurar... Já que eu não ia matá-la, não queria que outro fizesse.
–Jonathan...
Me levantei e olhei pra trás. Ela estava lá me encarando, era impossível descrever seu olhar. Demorei um tempo para responder, de alguma forma me perdi em seus olhos. Chacoalhei a cabeça e abaixei os olhos.
–Porque me chamou aqui? Você... Mudou de ideia? -Eu vi a esperança aparecer em seus olhos.
–Não. Eu chamei você pra...
Parei de falar, dois demônios seguraram os braços dela, franzi as sobrancelhas... Não fazia ideia do que estava acontecendo. Ela tentava se soltar, mas era em vão.
–Você me deu sua palavra! -Ela deixou sair enquanto tentava se soltar. Dei um passo a frente, pronto para acabar com aquela palhaçada.
–Se eu fosse você ficaria bem quietinho, Jonathan. Tenho ordens claras para matar a anjinha e qualquer um que entrar no meu caminho.
–Jezabel? Claro! Só podia ser você. O que pensa que está fazendo!?
–Nosso pai sabia que você iria falhar... Sendo assim, mandou alguém competente pra cuidar do serviço.
Ela se virou, fui rapidamente até ela, estava disposto a matá-la, mas antes que conseguisse tocá-la fui arremessado no chão.
–Acho que esqueci de mencionar... Agora eu mando nessa porra! Eu mando e você obedece!
Annelise soltou uma das mãos, ela tirou sua faca e matou o demônio que ainda a segurava, então foi direto a Jezabel. Quase a acertou, mas antes que o fizesse teve sua mão segurada. Jezabel a chutou, e a golpeou em seu rosto. Elas começaram uma briga. Me levantei do chão, fui até Jezabel. Mas a vadia me pegou pelo pescoço.
–Quem é mais forte agora!? -Ela gritou e acertou a faca de Annelise em minha barriga. Aquilo devia ser letal pra demônios, eu caí no chão, estava morrendo? Era difícil dizer.
Vi Annelise a empurrar e derrubá-la, depois a chutou enquanto estava caída, então ela tirou suas asas. Eram... Magníficas. Brancas, com partes douradas. Ela voou, me senti aliviado por saber que ela conseguiria fugir... Mas lá estava Jezabel. Com uma pequena espada em mãos, o menor corte daquilo era capaz de matar um anjo.
Ela arremessou, sua mira sempre foi certeira... Talvez por um impulso... Eu não sabia direito. Mas usei a força que ainda me restava para levantar, eu saltei e tirei minhas asas... Elas eram negras, queimadas... Era isso que se ganhava por abandonar o céu. Empurrei Annelise para o lado, evitando que ela fosse atingida, ela voltou a voar e eu fiz o mesmo. Dei o maior impulso que podia e voei um pouco.
Devo ter ficado apenas quatro segundos no ar, em seguida não me restaram forças, eu caí... Não sabia onde, sentia o vento me cortar, logo sentia a copa das árvores e depois o chão de terra. Abri os olhos, eu estava ao lado de um riacho, me levantei e subi o barranco... Não dava mais pra andar, me sentei encostado em uma árvore.
O corte em minha barriga sangrava cada vez mais, minha visão estava borrada, eu nem podia guardar minhas asas.
–Jonathan!
Annelise pousou em minha frente, ela guardou suas asas e me encarou. Eu nem sequer podia falar.
–Droga! Aquela vaca quase te matou...
Ela rasgou minha camiseta, então pegou sua faca nas mãos. Ela a abriu a parte de baixo, havia um líquido dentro, que sem dizer nada despejou no ferimento.
–Vem eu vou tirar você daqui.
–Não! -Disse por impulso quando ela tentou me levantar.
–Se não sair daqui Jezabel pode te encontrar.
–Você não entende? Eu estou tentando deixar você viva! -Quase gritei.
–Droga, tem como deixar de ser idiota por um minuto!? Venha comigo!
–Não! -Gritei desta vez. Se eu continuasse com ela, isso resultaria em sua morte.
–Droga Jonathan, qual é o seu problema!? -Ela também gritou. Eu me levantei, esperava amedrontá-la, já que era muito maior que ela, e talvez tivesse um aspecto obscuro com aquelas asas.
–Vai embora. -Disse bravo.
–Acha que eu tenho medo de você? -Ela perguntou, parecendo ler meus pensamentos. -Você não é como os outros, você pode ser salvo. Vem comigo!
–Eu fiz coisas horríveis.
–Todos fizeram...
–Ainda faço coisas horríveis, Annelise.
–Tudo pode ter um fim. Sou quem pode te salvar da escuridão na qual tem vivido. Basta querer sair dela.
Fechei os olhos. Quando ela entenderia que as coisas não eram tão simples? Abri meus olhos, pronto pra fazer o que devia ser feito.
–Não me procure mais. Eu não quero sua ajuda.
–Vou respeitar sua escolha. -Ela passou por mim, e falou novamente quando estava perto da minha orelha -Só não se esqueça que não é como eles...
Eu pude ouvi-la voando. Me virei mas ela já tinha ido... Ouvi um som atrás de mim, palmas, novamente me virei, era Lúcifer.
–Bom trabalho, deixou ela escapar...
–Eu... -Ele me interrompeu.
–Shh. -Ele torceu os lábios e voltou a falar -Quem diria, o meu melhor soldado descumprindo uma ordem minha. Alguns te chamariam de corajoso... Mas a coragem e a burrice sempre andam juntas.
–Diga logo o que vai fazer comigo. Odeio papo furado.
–Pensei em matá-lo, mas não... Um tempo no inferno já basta. Enquanto isso, vou seguir Annelise até o acampamento. -Ele chutou uma pedra -Eu mesmo vou matar Andrew e levar Jade...
Lúcifer desapareceu. Me deixando parado como um tolo, eu precisava impedi-lo... Mas não conseguiria, fui arrastado de volta para o inferno.
3
Luke e eu estávamos parados em um monte, era alto suficiente para vermos boa parte da floresta. Até agora não tínhamos conversado, decidi que era a hora de puxar assunto.
–Então... De onde você é?
–Sério? -Ele me encarou, tinha um olhar de colegial descolado naquele momento.
–O que?
–Quer mesmo jogar conversa fora? -Abaixei os olhos, ele suspirou -Sou de uma cidade pequena, não fica tão longe de Lockerwood.
–E sua família?
–Bom, na infância meus pais eram ausentes, na adolescência me mandaram para uma escola militar. Não vejo eles desde que completei dezoito.
Eu o encarei, sentia pena. De alguma forma ele leu meus pensamentos.
–Não precisa ficar comovida. Isso não importa mais.
–E... Você nunca quis ter filhos?
–Quis. E tive, dois meninos... Peter e Thomas.
–E onde eles estão!? -Disse com um meio sorriso.
–Eles morreram em um incêndio, com a minha esposa.
–Eu... Sinto muito.
Ele assentiu, e por mais que não demonstrasse, ele havia entristecido. Eu estava pronta para deixá-lo em paz e não perguntar mais nada, agora eu sabia como ele se sentia e achava que era melhor não espícula-lo com minhas perguntas.
–E você? -Ele perguntou se levantando e arrumando as coisas para irmos embora.
–Eu o que?
–Quer filhos?
–Sim, deve ser perfeito. -Respondi com sinceridade.
Ele sorriu. Nunca tinha o visto sorrir. Começamos a descer o monte, chegamos ao lago e continuamos andando. Comecei a pensar se devia ou não perguntar alguma coisa.
Um vento forte soltou o meu cabelo, as folhas no chão se remexiam, pensei que fosse vir uma tempestade, olhei para cima, o céu estava completamente azul... Parei de andar. Luke fez o mesmo e me observou.
–O que foi? -Ele perguntou franzindo as sobrancelhas.
–Não está achando isso estranho?
–Um pouco. Vamos.
Ele acelerou o passo e continuamos andando, mas eu sabia que tinha algo errado, não era apenas um pressentimento, era como uma certeza. Passamos o lago, corremos um pouco.
–Fique perto de mim! -Disse ele.
Continuamos correndo, havia algumas folhas aglomeradas, minha perna foi para frente, eu deslizei sobre elas e cai no chão. Droga! Luke parou na mesma hora, ele veio até mim e segurou minha mão.
–Vamos!
Ele acabou de falar e uma sombra negra passou sobre nós. Nós a acompanhamos com os olhos, ela desceu e quando chegou no chão se transformou em um homem. Um homem alto, de terno preto, seu cabelo era castanho claro... Ele aparentava classe.
–Quem é você? -Luke praticamente gritou, ele passou a minha frente, me protegendo.
O homem levantou as sobrancelhas, em deboche. Ele levantou a mão, depois a abriu e em seguida a fechou novamente. Quando fez isso Luke caiu no chão.
–Luke! -Fui até ele, tentando ver se estava vivo. Mas antes que o fizesse fui interrompida.
–Jade. Não sabe o quanto eu esperei por isso. -A voz dele era grossa, rouca, cheia de classe.
–Quem é você!?
–Sou Lúcifer.
Dei um passo para trás, todos os meus pensamentos me mandavam correr. Mas não adiantaria, ele ia me alcançar, eu estava com medo, muito medo.
–Sabe... Eu tenho observado você há muito tempo. -Ele veio até mim, parou na minha frente, e não desviava os olhos dos meus -Quando digo muito tempo, quero dizer desde o seu nascimento... Eu devia ter pego você na maternidade. Mas fui impedido... Você sabia que as leis divinas, impedem um humano de entrar no inferno se o anjo que o protege ainda está vivo? ... Foi aí que tudo começou, eu mandei que matassem o primeiro anjo que te protegia... -Ele suspirou -Só que como você sabe, depois dele veio outro. E depois outro, e outro... Até que deram a missão de te proteger a Andrew... -Ele riu brevemente -Um anjo, que se apaixona por uma humana. E ainda pior, a humana que ele deve proteger. Parece uma piada... -Eu não conseguia responder, estava paralisada com o medo, ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha -Mas eu devo agradecê-lo, agora quando eu matá-lo, o caminho vai estar livre pra que eu possa levar você.
–Por favor, não faça nada a Andrew! -Eu disse entre lágrimas.
–Você não entende? -Ele respondeu calmamente e segurou minha cabeça nas mãos -Sem você, o meu apocalipse e apenas um mero apocalipse na terra. Eu o quero no céu também! -Havia um brilho em seus olhos.
Ele segurou o braço de Luke e começou a arrastá-lo, em seguida me segurou e nos levou montanha acima, na direção do acampamento.
*
Chegamos na entrada do acampamento, onde estavam todos os símbolos de proteção. Lúcifer jogou Luke para dentro, e continuou segurando meu braço.
–Chame o seu namorado. -Ele ssussurou no meu ouvido.
–Andrew! -Gritei chorando.
Logo ele apareceu, assim como todos os outros, ele olhou para mim e em seguida para Lúcifer, com raiva, se aproximou dos símbolos sozinho, deixando todos para trás, seguros. Annelise olhava incrédula.
–Então você é Andrew? Pensei que desse mais medo. -Andrew continuou sério -Agora porque não desmancha os símbolos para que eu possa entrar e acabar logo com isso?
–Então deixe ela ir.
–Isso está fora de cogitação. Mas, se você me deixar entrar agora, eu mato você rápido e longe dela.
–Acha mesmo que tenho medo de você? -Andrew riu, ele estava diferente naquele momento, de uma forma que eu não sabia explicar -Solta ela! -Ele quase soletrou enquanto gritava.
Lúcifer havia se irritado, eu podia sentir, ele fechou os olhos, o chão tremeu onde estávamos, em seguida, rachou, fazendo os símbolos se desmancharem. Lúcifer soltou meu braço e eu fui até Andrew.
–Fique com os outros. -Ele me disse sem olhar pra mim. Eu obedeci com o coração apertado.
Corri até Albert e os outros.
–Vamos, eu vou tirar você daqui, Jade. -Disse Albert.
–O que!? Não vou deixar Andrew.
Enquanto discutiamos, um barulho veio da floresta, logo atrás de nós. Nos viramos e de lá saíram várias criaturas... Pareciam, gárgulas, só que tinham olhos vermelhos e eram bem maiores.
Nós corremos para dentro de casa e fizemos uma barreira na porta com os móveis. Meu coração se apertou, Andrew e Annelise estavam sozinhos lá fora lutando contra o rei dos demônios, tudo o que eu queria era ajudar. Algo batia na porta, olhei para Matt, ele sinalizou para que eu o acompanhasse, então o segui. Nós nos escondemos no banheiro, Albert e Victória provavelmente estavam na sala ainda, cuidando para que aquelas criaturas não entrassem.
–O que são essas coisas!? -Perguntei a Matt. Mas ele não respondeu, um estrondo veio da sala. Eu sabia que as criaturas haviam entrado. Matt me fez sentar no chão ao lado dele, quando já estávamos sentados ele me encarou.
–Não faça nenhum barulho. Fique parada! -Ele sussurou.
Simplesmente o obedeci. Logo começaram a soar algumas batidas na porta, eles iriam entrar, meu coração estava acelerado, Matt também estava com medo, mas parecia se controlar mais do que eu.
A porta foi aberta, fechei os olhos, podia ouvir os passos no banheiro e um cheiro horrível, como se algo estivesse podre. Abri meus olhos, me deparando com um olhar sombrio a minha frente, aquela criatura tinha o crânio mais alongado, dentes pontudos, e chifres. Seu corpo era inteiro preto, haviam poucos pelos, não era possível definir se ele já havia sido humano um dia. Ele respirou, forte suficiente para mecher o meu cabelo, como não me fez nada? Era como se eu e Matt não estivéssemos lá. Depois de alguns segundos a criatura saiu pela porta, Matt e eu aproveitamos e saímos correndo.
–Porquê não nos atacaram?
–São cegas, eu li sobre elas em um dos livros.
Quando estávamos do lado de fora, percebemos que não havia ninguém. Tentamos entrar na floresta, mas vários homens começaram a caminhar na nossa direção, eles andavam lado a lado fazendo com que nós nos aproximassemos da casa novamente. Eu e Matt tentamos voltar, mas mais daqueles homens nos impediram.
–Ta tudo bem rapazes. A humana vai se comportar... -Eu ouvi uma voz feminina ao meu lado.
Me virei e lá estava Jezabel, ela tinha um sorriso sarcástico no rosto. Se aproximou lentamente de mim, eu dei um passo para trás em minha proteção.
–Fica longe de mim!
–Que falta de modos, fala sério garota. Vai ter que se acostumar comigo agora que vamos morar no mesmo lugar.
Matt correu puxando o meu braço, desta vez conseguimos entrar na floresta. Corremos por cinco minutos e olhamos para trás, um completo vazio.
–O que eles fizeram com Andrew!? -Pensei alto, Matt me encarou, ele iria falar, mas Jezabel o golpeou nas costas, ele caiu no chão desmaiado.
–Finalmente a sós. -Ela disse me encarando. -Onde pensou que ia? -Ela riu.
–Acha mesmo que eu tenho medo de você?
Ela se aproximou, permaneci imóvel.
–É bom começar a ter. Já que agora não tem mais o seu namoradinho...
A raiva me dominou, pensar que Andrew estava morto e ela gostava disso me fazia querer ela morta. Eu a empurrei e a soquei no rosto. Pensei que fosse conseguir golpeá-la de novo, mas ela me jogou no chão e me chutou. Eu logo me levantei. Pulei em cima dela e comecei a arranha-la, ela era forte, mas minha raiva também era. Eu caí, ela conseguiu subir em mim.
–É só isso!? -Ela riu.
–Cala a boca! -Eu a empurrei para o lado, peguei uma pedra do chão e bati com ela na cabeça de Jezabel. Me levantei, pronta para fugir, mas quando me virei lá estava Lúcifer.
–Belo trabalho, Jade. -Ele disse calmamente.
–Onde... Onde...
–Onde está Andrew? -Ele riu -Morto.
–Não! -Gritei -Ele não pode estar morto!
–Você supera... Agora vamos.
Ele segurou meu braço.
–Me solta! -Tentei empurra-lo, mas era em vão.
–Não ouviu? Ela mandou você solta-la. -Olhei para o lado e lá estava Annelise.
–Ta de brincadeira? -Lúcifer riu -Isso é a proteção dela agora? Sabe... Acho que estou mesmo precisando dar uma lição em você. Você fez o meu melhor soldado descumprir uma ordem.
–Então vem!
Lúcifer me soltou e foi na direção de Annelise, ela tentou bater nele, mas teve sua mão segurada. Ele se preparou para um possível golpe, mas foi arremessado para uma árvore. Olhei para o lado, Andrew! Ele andou calmamente até Lúcifer. Meu coração sentia-se aliviado.
–Isso é impossível, como pode estar vivo!?
–Você não vai ficar para descobrir! -Dito isso Andrew o levantou do chão pelo pescoço, em seguida tirou suas asas e voou. O vento remexeu o meu cabelo, eles deviam estar rápidos, olhei para cima. Lúcifer também estava voando, com asas negras, e alongadas. Os dois batiam um no outro, Andrew... Estava diferente, ele estava ganhando a briga.
Eu não imaginava que ele tivesse tamanha força, Annelise e Jezabel olhavam pra cima, observando aquilo boquiabertas. Segundos depois Lúcifer caiu de lá, de costas no chão. Andrew pousou, com o punho pronto para golpeá-lo, mas Lúcifer desviou, ele pegou uma faca que estava guardada com Jezabel. Então derrubou Andrew.
Os dois se encaravam, Lúcifer estava pronto para matar Andrew. Ele apontou a faca, coloquei as mãos sobre a boca. Não estava pronta para dizer adeus, fechei meus olhos. Segundos depois eu os abri. Lúcifer estava na mesma posição... Mas dessa vez seus olhos estavam arregalados, ele encarava Andrew de um jeito, que parecia estar tendo a maior surpresa de sua vida.
–Não... Não pode ser você! Você caiu! -Disse Lúcifer, ele deu um passo para trás, se virou e em seguida desapareceu. O que estava acontecendo?
Eu corri até Andrew, me sentei ao lado dele no chão e o abracei. Mas ele não me abraçou de volta, estava distante, como se seu consciente estivesse perdido em algum lugar muito longe dali.
–Andrew. -Segurei seu rosto nas mãos. Ele parecia ter voltado em sí, eu o abracei novamente. Mas o soltei logo em seguida. Um sentimento passou por mim quando o toquei... Eu mal sabia explicar, mas era... Era ruim.
–O que foi? -Ele perguntou, olhando para mim.
–Nada. Estou feliz por estar bem. -Desta vez o abracei o mais forte possível. Ele me abraçou de volta, eu não o perdi, eu não o perdi! Repetia isso pra mim mesma mentalmente.
–Temos que sair daqui. Vamos encontrar os outros no alto da montanha. -Disse Annelise. Nós concordamos.
–O que houve? -Disse Matt se levantando.
–Te contamos no caminho... -Respondi. Procurei por Jezabel com meus olhos, mas ela sumiu...
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