1
Acordei com o despertador, um tanto triste por saber que por culpa de Lucy eu não poderia ir a aula, mas mais ainda por saber que não veria Andrew. Me levantei da cama dominada pelo desânimo. Tirei meus cadernos da bolsa, não ia precisar deles hoje, peguei mais folhas vazias, então troquei de roupa e sai do quarto, o corredor estava vazio. Foi estranho, desde de ontem de manhã não vejo a minha mãe, acabei dormindo antes que ela chegasse.

Fui até o banheiro, arrumei meu cabelo depois de escovar os dentes, desci as escadas e fui até a cozinha. Matt estava lá com as mãos sobre a pia e olhando para baixo. Ao olhar novamente percebi que tinha sangue em suas mãos.

–Matt!? -Eu perguntei apavorada indo até ele.

Ao chegar perto vi que tinha acontecido de novo, um de seus ataques, ele tinha algo que o médico avaliou como... Transtorno explosivo intermitente. Eu não entendia muito bem o que significava, mas sabia o suficiente, não era nem de longe uma coisa boa. Quando ele tinha estes ataques ele falava e fazia coisas que não devia. Agia pela raiva, pela fúria e não conseguia se controlar.

–Eu to bem! -Ele respondeu. Realmente sua voz parecia normal.

–De quem é esse sangue?

–É meu. -Matt me encarou -Eu quebrei uma janela.

–Quer que eu leve você ao hospital?

–Quero que você pare de encher o saco! -Ele disse saindo de casa. Estava indo pra escola.

Olhei para o teto desejando que minha vida acabasse. Em seguida parei com aquele pensamento e fui para a porta. Quando a abri vi minha mãe atravessando a rua. Sai de casa antes que ela me visse, então andei até o "cruzamento", entrei na floresta, fui direto onde ficava a escultura do anjo, me sentei na arvore logo em frente, peguei o esboço dele que eu havia desenhado, encarei bem, depois amassei e joguei para o lado, eu não sabia porque havia feito isso.

Logo depois peguei uma folha em branco e comecei desenha-lo. Quando terminei fiquei surpresa, o desenho estava perfeito, era a cópia exata da escultura.

Fiquei estática olhando para ele, eu nunca havia conseguido desenha-lo, e hoje de uma hora para outra ele saiu perfeito. Claro que isso me deixava feliz, mas ao mesmo tempo fiquei espantada.

Então um pensamento veio a minha cabeça, eu precisava desenhar outra coisa, mas não tinha nenhuma idéia. Sendo assim me levantei, caminhei pra parte mais baixa da montanha e me deitei na grama.

Busquei inspiração... Mas nada vinha a minha cabeça.

2
Eu não conseguia parar de pensar nela, aqueles olhos, o sorriso. Tudo ficava rodeando a minha cabeça, confesso que o encontro no corredor não havia sido planejado. Eu queria poder ler seus pensamentos e saber qual foi a impressão que ela teve de mim.

Talvez eu fosse apenas mais um garoto da escola pra ela, pensar nisso me deu um embrulho no estômago. Mas não, não podia ser apenas isso, ela olhava pra mim de um jeito diferente, mesmo não entendendo muito os humanos eu sabia que aquele olhar significava alguma coisa.

–Porque não foi a escola? -Albert perguntou parado na porta do quarto.

–Porque ela não estaria lá.

–Da pra ao menos fingir que é normal? Fala serio, você não pode ir só quando ela for.

–Você tem razão. Mas o que esta feito esta feito não?

–Claro... E a tal anja que você falou? -Ele sempre falava nos termos errados... Mas mesmo assim não o corrigi.

–O que tem ela?

–Esta na escola?

–Não sei.

Me levantei da cama e coloquei uma camiseta, em seguida desci as escadas. Quando estava abrindo a porta da frente Albert gritou atrás de mim.

–Onde você vai?

–Não sei. Vou dar uma volta.

Eu não sabia pra onde iria, só sabia que não queria ficar naquela casa o dia todo. Senti vontade de encontra-la dizer toda a verdade... Mas foi apenas um pensamento. Continuei caminhando.

3

Sai da sala e fui para o armário, eu estava preocupada com Andrew, não sabia o motivo da ausência dele. Tentei parar de pensar nisso mas não consegui. Fechei o meu armário, assim que o fiz vi o garoto do refeitório. Ele estava parado dois armários longe de mim. Quando percebeu que eu o vi ele veio em minha direção.

–O que você quer? -Eu disse de imediato.

–Depende... Quero muitas coisas, mas no momento, só me apresentar. Meu nome é Jonathan.

–E? -Eu respondi sendo grossa.

–E, você é Annelise não?

–Sou desde que nasci.

–Seu é nome é tão bonito quanto você.

Revirei os olhos, como ele podia ser tão chato?

–Você pode encatar todas as garotas seu papinho idiota, mas garanto que comigo não vai funcionar.

–Não custa tentar.

Eu o ignorei e continuei andando.


4

Eu continuava desenhando, não conseguia parar de desenhar o céu, quando me dei conta já era hora de ir pra casa. Comecei a caminhar, senti um aperto no coração... Era como... Era como um pressentimento ruim. Andei ainda mais rapido. Então logo cheguei em casa.

Vi minha mãe sentada no sofá vendo o noticiário... Um avião havia caído não tão longe de Lockerwood, ela estava extremamente séria, meu irmão estava descendo as escadas, mas quando me viu olhou para minha mãe e voltou lá pra cima. Me aproximei do sofá, minha mãe se levantou e me encarou com um olhar frio. Em seguida desligou a televisão.

–Onde você estava Jade!?

–Na escola...

–Jura? Eu falei com o senhor Phill. Ele me contou sobre seu ataque de fúria.

–Ataque de fúria!? -Eu disse inconformada -Até você mãe? Fala sério, todo mundo sabe que a Lucy é uma exagerada, foi ela que encheu a cabeça do diretor.

–Mas é gostosa. -Matt disse descendo as escadas e saindo de casa, ele provavelmente não queria ouvir nossa discussão.

–Jade... -Minha mãe dizia fazendo rodeio -Eu disse a você. Mais um deslize e já era... -Eu a interrompi, estava cansada de ouvir aquilo.

–Mais um erro e eu volto pra Nova York não é? Quer saber, esse erro que você tanto esperava está mais pra uma oportunidade. Você sempre quis se ver livre de mim, sempre me quis longe de você. Então quer saber? Ligue pro papai, diga pra ele vir me buscar o quanto antes...

Subi as escadas, entrei no meu quarto e tranquei a porta, em seguida percebi as lágrimas em meu rosto, fui em direção a cama, me deslizei por ela e sentei no chão. Não conseguia parar de chorar. Eu não podia voltar a morar com o meu pai, da última vez que o ví nós discutimos, eu disse que nunca o veria novamente, meu orgulho sempre fala mais alto quando se tratava da minha família.

5

Me esforcei, podia ouvi-la chorando no quarto, aposto que ela estava tentando parar. Eu queria ir até lá, abraça-la, ajudar, mas não podia, então tentei ignorar, mas também não conseguia. Nunca havia me sentido tão indeciso e inseguro ao mesmo tempo... O que eu estava pensando? Eu tinha que ir até lá. Tinha que fazer suas lágrimas cessarem.

Andei o mais rapido possível... Para humanos, não demorou até que eu chegasse, bati na porta da frente, um menino não tão alto, de olhos azuis e cabelo loiro escuro atendeu a porta.

–Oi... -Ele disse exitante.

–Preciso falar com a Jade.

–É que ela... -Antes que ele terminasse a frase Jade apareceu na porta.

–Tudo bem... -Ela disse olhando para o garoto, ele subiu, então ela voltou os olhos pra mim -Como sabe onde eu moro?

–Eu... -Pensei em uma desculpa -Eu sai procurando.

–Porque? -Ela respondeu pensativa.

–É que... Que não vi você hoje. Ai resolvi passar. -Aquilo não fazia sentido, realmente me senti um adolescente atrapalhado.

Ela sorriu, parecia contente em me ver, eu sorri de volta, ela saiu da casa e fechou a porta.

–Porque não me leva em um lugar legal? -Ela perguntou. -Quero muito sair de casa.

Acenti com a cabeça enquanto sorria. Em seguida começamos a andar.

*

Por fim estavamos do outro lado da cidade. Por mais que tivessemos conversado por todo caminho ela ainda não havia dado nenhum sorriso... Não sincero pelo menos.

–Chegamos. -Eu disse enquanto paravamos de andar.

Já havia escurecido, estavamos em uma espécie de praça, não parecia haver nada de diferente nela.

–É aqui? -Ela perguntou parecendo desapontada.

–Sim.

–E o que tem de especial?

Eu sorri. Em seguida a água começou a subir do chão. Ela se assustou um pouco, então tentou correr. Eu segurei seu braço, nós dois já estavamos completamente molhados, a água não parava. Jade ainda me encarava, até que deu um sorriso extenso, eu sorri de volta.

Ela começou a correr de um lado para o outro, a alegria voltou a tomar conta dela, eu a acompanhei e quando me dei conta nós dois estavamos saltitantes igual duas crianças, ela ria, me fazendo rir também. Em seguida ela começou a girar, jogando mais água em mim.

A segurei pelo braço, tentei sair de toda aquela água, mas quando o fiz ela me segurou, então voltou a sorrir. Parecia me agradecer por fazê-la sorrir. No instante seguinte a água abaixou, a praça tornou-se apenas um praça comum.

Olhei pra baixo, ela ainda segurava meu braço. Mas o soltou logo em seguida, me fazendo ver que estavamos realmente próximos um do outro. Olhei pra sua boca, seus lábios pareciam convidar os meus, me aproximei. Olhei para seus olhos outra vez, ela também olhava os meus, continuei me aproximando, percebi que ela fazia o mesmo.

E então novamente toda aquela água subiu, ela se distanciou e voltou a sorrir, eu fiz o mesmo, voltamos a correr. Ela pulou em minhas costas enquanto ria. Segurou-se colocando as mão no meu peito, eu girei com ela nas costas até que ela levantou os braços e riu mais ainda.

Novamente a água abaixou, ela desceu das minhas costas e me encarou pensativa, mas com um pequeno sorriso no rosto.

–Tenho que voltar.

Acenti com a cabeça, então começamos a caminhar