Entre o amor e o ódio

2 Capítulo 1: Primeiro Passo


Notas iniciais
Espero que gostem.

O céu, em tons de vermelho, anunciava o amanhecer. O sol surgia no horizonte, calmo, iluminando toda a cidade e invadindo as cortinas da suíte do Royal Hotel, em Chicago. Pessoas apressavam-se para os seus respectivos trabalhos, para iniciarem mais um dia. Havia tanta vida naqueles minúsculos pontinhos, alguns coloridos, outros não. Tantas mentes querendo ser ouvidas, querendo mostrar suas ideias e suas realidades. Todas sendo meticulosamente vigiadas por uma belíssima mulher e seus olhos verdes, opacos pelas maldades do mundo.

O sol banhava o corpo feminino com os seu calor. Os cabelos dourados brilhavam, contrastando com a camisola de seda verde claro e o tom pálido da pele. Seus olhos fecharam lentamente, deliciando-se com o aconchego e o calor oferecido. Por milésimos de segundos, o mundo lhe pareceu mais calmo, em paz, sua mente permitiu-se descansar de todos os planos e objetivos. A tranquilidade tomava sua consciência e corpo quando foi interrompida por um toque insistente que vinha de dentro da suíte.

Caminhou até a cabeceira da cama King size e apanhou o celular que vibrava com o som eletrizante do toque. Na tela, uma foto de duas mulheres muito belas e sorridentes que faziam poses para a câmera, e um apelido “Madd-bobona”, brilhavam em sintonia. Sorriu com a recordação que surgiu com a foto. Naquele dia, ela e Madyson haviam saído para uma festa, longe de qualquer publicidade ou quaisquer paparazzi. A festa estava horrível, mas o barman e o Dj chamaram a atenção do público feminino, principalmente a atenção delas. No fim, saíram da festa, acompanhadas (é claro) e se divertiram por conta própria.

Suspirou. Não queria atendê-la, mas já a ignorara por toda a noite. Mas, caso atendesse, o que diria? Saíra apressada da empresa no dia anterior, se sentia tão pressionada, tão irritada. Tão desgastada. Acabara se sufocando com o trabalho, coisa que não acontecia. Talvez não fosse o trabalho, mas seus pensamentos. Especificamente, um homem. Quando as mulheres não conseguem realizar suas capacidades normais, entenda: sempre há um homem por trás disso. E no seu caso não era diferente. Parecia pior. E o nome de todos os seus problemas era: So...

Braços masculinos rodearam-na e roubaram seu telefone de suas mãos, interrompendo seus pensamentos. Virou-se para encarar o dono daqueles braços. Sentado à suas costas, encontrava-se um homem no auge dos seus vinte e nove anos. Cabelos e olhos castanhos, corpo malhado, e uma sede insaciável por aventuras. Bom, até que seu guarda-costas/melhor amigo não era de “se jogar” fora. Um sorriso travesso brotou em seus lábios. Quem dormia com o melhor amigo nesse mundo?! “Pois é, eu dormia”, pensou. Mason era um homem maravilhoso, lhe tratava super bem, era seu psicólogo particular e havia salvado sua vida (várias vezes). Devia tudo a ele e a Madyson. Eles haviam lhe dado uma nova vida, um recomeço, e era eternamente grata a eles. Pelo menos, Mason estava sendo bem recompensado. “Isso soou como uma prostituta”, soltou uma risada frouxa com o pensamento. Seus olhos, que encaravam o colchão, acabaram encontrando os de Mason que lhe encaravam, sorrindo.

— Você fica linda com esse sorriso. – a voz rouca de Mason arrepiou-lhe a pele. “Como ele conseguia ser tão sexy com apenas uma colcha de seda nos quadris?”, revirou os olhos, “Acho que isso é meio óbvio...” – Por que seus olhos não conseguem ficar quietos?

— O que? – “Mas, que pergunta...”

— Não param de me encarar um segundo, ficam passeando pelo meu corpo. Me analisando. – sorriu sacana. – Curiosa, Srta. Blake? Eu posso lhe mostrar, caso a senhorita seja boazinha...

— Não cansa de ser idiota, Sr. Night? Lembre-se que o senhor ainda é o meu guarda-costas. – tentei intimidá-lo, mas não tive muito sucesso, pois Mason estava sorrindo.

— Sou seu guarda-costas sim, mas também sou seu melhor amigo e agora, posso ser adicionado à lista “algo mais” das mulheres.

— Lista “algo mais”? – gargalhei. Não era sempre que eu sorria. Na verdade, era poucas vezes que me permitia a felicidade. Conseguia ser eu mesma apenas com Mason e Madyson, e por isso, eram eles que mais me conheciam. Já eu, não podia falar que os conhecia muito. Madd não era de compartilhar seu passado, mesmo comigo, sua amiga. E Mason? Sabia poucas coisas. Mas, não eram nada demais. Pelo que me contou, ele vivia no sul dos Estados Unidos com a avó que havia o criado desde novo. Seus pais haviam morrido em um acidente poucos anos depois que nasceu. Seus anos durante o colegial foram agitados, houve fases de rebeldia, de desapego (“Namoradas”), de muito trabalho e de muitas vitórias (Lutador de boxe e jiu-jítsu – “Isso explica os músculos”). Mason Night não passava de um simples rapaz sem mistérios, e era por isso que gostava tanto dele. Todos nós tínhamos seus segredos...

O toque do telefone, agora entre os travesseiros, nos tirou daquela atmosfera descontraída. Fechei os olhos, tentando conter os meus sentimentos, toda aquela dor que transbordava do meu coração, todo aquele ódio. Afinal, o tão esperado dia havia chegado e por isso não podia me acovardar, não agora. Oito anos haviam se passado, anos de trevas, de planejamentos, mas, tudo isso acabaria enfim. Faltava muito pouco.

— Chris? – Mason me chamou, preocupado. Seu timbre era calmo, firme, me fazendo crer que tudo ficaria bem. Apesar de não admitir muito, mas Mason havia se tornado mais que um simples amigo; talvez “meu porto seguro”? Eu ainda não sabia, e deixaria assim. Seu último relacionamento sério, não fora o que esperara e não cometeria outro erro.

Abriu os olhos, determinada. Toda a chama que existia a oito anos em seus olhos, havia se extinguido, e o que sobrara eram apenas cinzas, que agora, mais uma vez, se transformava em chamas, crepitantes, vorazes por vingança. Com gestos firmes, pegara o celular e atendera a ligação, fria.

— Christine Blake.

— Chris?! – Madd exclamou furiosa e aliviada por ouvir a voz da tão querida amiga. – Onde você estava?! Eu estou tentando falar com você à horas! Onde você estava com a cabeça de sair daquele jeito da empresa? E, por acaso, você sabe que dia é hoje?!

— Como eu poderia esquecer, Madyson? – respondeu calmamente à amiga. Compreendia a preocupação da amiga, mas ela deveria entender a sua situação. Suspirou, focando-se em Mason, que agora, de pé, caminhava em direção ao banheiro para fazer sua higiene matinal. Seu corpo era marcado por inúmeras tatuagens, mas em suas costas largas, algo definitivamente lhe chamava muita atenção: elas eram marcadas por um dragão tribal mediano que começava um pouco abaixo do quadril e terminava na nuca. “Como adorava aquela tatuagem!”, sorriu de lado com o pensamento. Não deixara de notar também as marcas de unha que marcavam as costas masculinas. “Isso não vinha ao caso... Concentre-se, Christine!”, gritou consigo.

— Tudo bem, amiga. – Madd suspirou com o silêncio do outro lado da linha. – Esteja na empresa às 9:00h, nós precisamos repassar as procurações novamente e discutir sobre alguns detalhes do acordo. Você sabe como sou perfeccionista, não é mesmo? – disse um pouco mais alegre. — Eles chegarão às 10:00h para a reunião. Lembre-se que precisamos do comando desta área, então, arrase, ouviu?

— Sim, senhora! Até mais, Madd.

— Ah, Chris! Espere! Mais uma coisa. – Madyson disse lembrando-se. – Peça ao Mason para passar no meu apartamento e buscar a pasta alaranjada em cima da minha mesa, no escritório. – pausou enquanto ouvia a amiga balbuciar perguntas. — Espero que você não se importe em passar no meu apartamento primeiro, Chris. E sei que você não gosta de mudar o percurso. – gargalhou do outro lado da linha. – Até! Não se atrasem! Depois eu quero saber tudo, hein? – e desligou o telefone.

A loira estava paralisada, tão constrangida que suas bochechas tornaram-se avermelhadas. Seus olhos estavam arregalados e olhavam para o telefone. “Como ela sabia?!” Jogou-se de costas na cama e escondeu o rosto com um travesseiro. “Por que eu estou tão envergonhada?” Madd sabia da sua atração pelo amigo, então por que se sentia daquela forma? Como se tivesse feito alguma coisa errada?

Levantou-se rápido e caminhou em direção às cortinas do quarto. Segurou-as forte. Não podia negar que se sentia atraída por ele, afinal ele era ótimo (em todos os sentidos). Mas, não nutria nada por ele. “Não mesmo?”, sua mente contra atacou. “Não!”, respondeu. Ou será que...

Suspirou pesadamente. – Eu estou discutindo comigo mesma. De novo. – “Maluca...”

Abriu as cortinas, escancarando-as. O sol banhou o seu corpo e o calor adentrou no cômodo. Olhou para o céu azul. Hoje daria o primeiro passo na sua preciosa vingança, não podia ocupar seus pensamentos com coisas inúteis. Preocupar-se-ia com aquilo mais tarde. “De preferência, muito mais tarde.”

— Não vai se arrumar, Christine? – Mason apareceu na porta do banheiro, já adoravelmente vestido naquele terno preto clássico de trabalho. O sorriso que estava em seus lábios era contagiante. Sorriu em resposta.

— Eu irei imediatamente, sr. Night. – Caminhou em direção a ele com a sua camisola de seda aderindo aos contornos perfeitos de seu copo. Mason a olhava hipnotizado. – Vá com calma, Mason, não podemos nos atrasar. – Pousou sua mão sobre os ombros do rapaz. Olhou com ternura e sorriu. – E, por favor, não babe.

Mason sorriu em resposta, constrangido. Deu-lhe um beijo rápido e já ia se retirar do quarto, quando Chris transmitiu o recado da amiga, pedindo-lhe que fosse logo enquanto se arrumava. Mason consentiu e saiu do cômodo, deixando-a sozinha. Ela retirou a camisola e caminhou para a banheira. Seus pensamentos focados na reunião que teria a algumas horas. O sucesso daquela reunião dependia dela, e faria jus ao nome que lhe fora dado ao longo dos anos: “Christine Blake, a diretora de aço”. Nunca fora derrotada nesse jogo. Aprendera a decapitar cabeças, e era muito boa nisso. Tornara-se a melhor, na verdade.

Passou a mão pelos longos cabelos. Eles haviam crescido muito com o passar do tempo. Na realidade, nunca gostara de cabelos longos, preferiria vê-los curtos, mas ele também preferiria. Há alguns anos, usava maquiagem diariamente. Começara até a se importar com moda... Era tão diferente. Mas, mudara para sobreviver. Mudara para se esconder dele. “Será que ele a reconheceria quando chegasse a hora?” Não tinha como saber, não naquele momento, porém, em breve. Podia até visualizá-lo se fechasse os olhos. E foi o que fez. Cabelos negros espalhados pelo travesseiro e olhos âmbar foi o que viu. E, de amorosos, foram substituídos para agressivos, cruéis.

Abriu os olhos, o ódio transbordava dos olhos verdes. “Ele irá me pagar!”, rancorosa, ela pensou. A vingança estava tão próxima de se realizar que não pode conter o sorriso triunfante que brotou em seus lábios. Ele deveria saber: nunca se meta com uma mulher. Ou, principalmente, jamais a magoe. Senão, meu amigo, ela te destruiria.

Levantou-se da banheira, com aquele pensamento. Enrolou-se em uma toalha branca, felpuda, e saiu do banheiro em direção ao closet. Avistou um terninho social negro, de seda, em meio às outras roupas sofisticadas. Vestiu-o, e quando terminou de maquiar-se, olhou para o espelho. Estava linda! A imagem de uma garota de macacão jeans cobrindo o seu corpo magro e um boné (ambos sujos de óleo) diante os seus olhos, a deixou desnorteada, mas recuperou-se da lembrança dolorosa. Um suspiro escapou dos lábios avermelhados. “Aquele seria um dia bem longo...”, pensou.

Notas finais
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