Notas iniciais
Os capítulos seguintes são bem densos, falam um pouco daquilo que eu acredito e luto, a organização e força dos movimentos sociais. Sei que boa parte de vocês não sabe muito bem como é isso, afinal ainda são bem babys, mas posso dizer que já fui a um julgamento que tem exatamente esse panorama que descrevo no começo do capítulo...e é apaixonante a forma como as pessoas buscam justiça, mesmo sabendo que o dinheiro, o poder e a corrupção vencem quase sempre...sou insistente e acredito nessas pessoas. Acho na verdade que amo a Santana da minha fiction porque ela tem um pouco disso, um pouco de mim em toda a sua história...boa leitura amores!! :)

Seus dias passavam em um ritual marcado: acordar, levantar, andar, pensar, cuidar da pequena filha, esperar. Tudo isso acolhido em um tempo que simplesmente não passava, um tempo fora do relógio, mas dentro da necessidade de ações que a aproximassem de respostas as suas angústias, a sua sede de justiça...respostas que logo viriam, talvez não da forma como a latina imaginava, mas viriam...agora faltava apenas um dia para o julgamento de Emily Fields. Julgamento pela morte de Finn, pela morte de sua mãe, pelas mortes das próprias comparsas da acusada...Santana sabia que ela poderia se safar muito bem daquelas acusações, afinal não fora ela que puxou o gatilho das armas nas mãos daqueles policiais, mas ela certamente era a mandante, gravações indicavam isso, precisava pagar.

O encontro-acontecimento que inicia este capítulo se passa no Fórum Munhoz Freire, no centro da cidade, e fez não só a latina, mas todo o bonde e a comunidade do São Jorge “testemunhas” de uma experiência repleta de intensidades, carregada de um redemoinho de muitas vozes que ora apontavam para um porto seguro, ora direcionavam-nos para um labirinto por onde poderiam se perder: práticas de extermínio e violação de direitos, narrativas de crimes, mandos e desmandos de uma polícia corrupta e vendida, narrativas de um poder do dinheiro que parecia inatingível...assim seria o julgamento de Emily. Em meio às faixas, cartazes e baners preparados pela comunidade, a história não só da mãe de Santana era contada, mas de todos os mortos por conta das ações, desejos, mandos e desmandos de Emily e seus comparsas; estavam presentes as mães da menina-menino e de sua colega de gangue, familiares dos adolescentes e de tantos outros assassinados no São Jorge pelas milícias, familiares de Santana...Marcos, Rodrigo, Brittany e todo o bonde...a intenção era não só julgar e fazer justiça em relação a Emily mas mostrar a força dos movimentos sociais e de direitos humanos das comunidades ditas carentes e criminalizadas por sua pobreza extrema...de forma silenciosa cada um daqueles moradores que tiveram um filho morto, um ente querido retirado de seu convívio pela violência estava ali a espera de que suas histórias pudessem ser retomadas e transmitidas em palavras diferentes, através da justiça que fosse aplicada a uma jovem de classe média alta que acreditava que a impunidade seria perpetuada.

Dias antes a latina já não dormia direito...pesadelos constantes, insônia, medo; sabia que era uma das testemunhas de acusação mais importantes da acusação, afinal ela era uma das pontas do iceberg que fizeram Emily cometer todas aquelas atrocidades; sentia-se mesmo culpada por tudo que acontecera, mas agora tinha dois motivos que a fazia querer esquecer tudo depois daquele julgamento...Brittany e Rocksanny. A neném parecia uma espoletinha de tão acelerada, cópia fiel de Santana...dormia pouco, mexia em tudo e queria porque queria começar a andar bem antes da hora...os dentinhos começavam a aparecer e mordia tudo que via na frente, inclusive já tinha conseguido comer uma parte da pulseira que Brittany havia gravado seu nome quando ainda era um bebê bem pequeno. Santana olhava para as duas de madrugada e não conseguia mais se imaginar sem elas...eram sua vida. Sabia que precisava de segurança para continuar vivendo feliz ao lado das duas, por isso mais que nunca correria o risco de ver Emily solta, inocentada de tudo que havia feito e que ainda poderia fazer contra sua família. Pensando nisso, fez o que nunca imaginaria fazer...decidiu que iria armada até o julgamento...se tudo desse errado ela mesma resolveria o que a justiça poderia não resolver.

MANHÃ DE QUARTA-FEIRA, QUATRO HORAS ANTES DO JULGAMENTO...

Amanhecia naquela quarta-feira chuvosa, parecia inicialmente um dia como todos os outros...Rocksanny já gritava “mama” do berço, Rachel e Quinn pareciam dois zumbis tomando café na sala com as gêmeas no colo...gritando, enquanto Brittany e Carlinhos haviam dormido tranqüilos no quartinho das empregadas...tinham sido salvos pelas senhoras que cuidavam da loira desde pequena, acolhidos escondido naquela noite, afinal Britt queria estar firme naquela quarta-feira, assim carregou seu caçula e simplesmente fugiu da sinfonia macabra das três monstrinhas.

- Todo mundo pronto e preparado para a batalha?! Perguntou Rodrigo, tomando sua xícara de café e acariciando uma das gêmeas, que tentava enfiar o dedo dentro da xícara de Quinn.

- Estamos sim, embora esteja muito ansiosa e com medo. Parece que a impunidade fica martelando na minha cabeça, como se soubesse que ela vai sair livre daquele Fórum hoje. Disse Santana, tirando um pedaço de pão da mão de Rocksanny, que já se achava grandinha o suficiente para largar a amamentação e comer comidas de gente grande.

- Tenha calma, eu preparei vocês como nunca preparei ninguém...treinamos exaustivamente seus depoimentos e vai dar tudo certo, aquela louca vai ser condenada a pena máxima possível, vamos acreditar. Disse o rapaz, dando um pequeno abraço na filha postiça. Entendia bem o medo de Santana, no fundo também tinha o mesmo medo, embora não pudesse falar sobre isso com elas, afinal tinha que deixá-las tranqüilas.

- Sairemos daqui às 11 horas, marcamos com todos os movimentos sociais, mães e familiares de vítimas de violência do São Jorge e de outras comunidades na porta do Fórum. Terão faixas, cartazes, camisas...vamos sacudir aquele lugar para entenderem que o dinheiro de Emily não pode vencer essa guerra. Disse Rachel, totalmente empolgada e envolvida naquela causa, que antes era uma paixão de Santana, mas que já tinha tomado o coração de Berry. Conviver dia após dia na academia, junto com as famílias da comunidade fez a patricinha entender realmente o que era viver no limite da injustiça...entre a vida e a morte eminente 24 horas por dia. Queria não só saber daquela realidade, mas participar ativamente da mudança dela.

- As empregadas vão ficar por conta dos nossos monstrinhos, como todos estarão fora os quatro vão ficar por conta delas. Como são pessoas de confiança que estão conosco desde que Brittany ainda era uma bebê loirinha terrível, podem ficar tranqüilas, pois elas vão ser as cuidadoras do “quarteto fantástico”. Disse Marcos, acalmando o coração das mães corujas...queria que elas estivessem calmas, a batalha seria decisiva. Logo terminaram o café da manhã familiar e foram organizar-se, dar banho nas princesas, arrumar as coisas de Carlinhos, arrumar-se para o julgamento.

MEIO DIA, UMA HORA ANTES DO JULGAMENTO...

Com camisas estampadas com a foto da mãe de Santana e de Finn, o bonde do São Jorge finalmente chegou ao Fórum aonde o julgamento iria se realizar. Foram acolhidos pelo grupo de mães e familiares que estavam em frente às escadarias protestando, assim como por Puck, Mercedes, Blaine, Kurt e todos os funcionários da academia social; a primeira informação que receberam era de que um grupo de policiais já havia os ameaçado, “pedido” que parassem de arruaças e saíssem dali, antes que “algo pior” acontecesse. Logo pegaram cartazes e se juntaram ao grupo, também faziam parte daquela luta...não iriam se intimidar com ameaças.

Logo chegaram ao Fórum os familiares de Emily, aquele que ela chamava de pai, a esposa atual e duas filhas com seus companheiros (as), uma delas era Marley, arrolada como testemunha de defesa da irmã. Santana a viu de longe e ainda não acreditava que depois de tudo que tinha visto Emily fazer ainda assim seria sua testemunha de defesa. Queria ir falar com a menina mas foi impedida por Marcos, que a avisou...

- Tudo que você fizer, falar, pode ser usado contra a gente e a favor de Emily, não podemos correr esse risco. Disse o pai de Britt, segurando a menina pelo braço. Embora soubesse que ele estava certo, Santana queria poder dizer a menina que colocasse a mão na consciência e pensasse no que estava fazendo.

A hora avançou e logo as meninas tiveram que entrar para a sala reservada as testemunhas, mas não sem antes ver Emily chegar ao Fórum, escoltada pela polícia. Estava vestida com o uniforme da prisão, mas o nariz continuava empinado, a arrogância no olhar. Passou por Brittany e Quinn na escadaria antes de subir e fez questão de deixar seu recado...

- Deus está vendo tudo o que vocês estão armando contra mim, tudo porque eu me apaixonei perdidamente por uma mulher da vida, uma puta mulher de traficante. Se você escolheu essa vida de drogados Brittany, eu entendo, mas não pode me culpar por ter me apaixonado e caído nas armadilhas da sua vadia sedutora. Disse a menina, olhando bem dentro dos olhos de Brittany, que sentiu o sangue ferver e precisou ser segura por Quinn para não voar no pescoço da menina. Ficava claro qual seria a estratégia da defesa...transformar o bonde e Britt em um bando de traficantes e Santana em uma puta que seduziu a pobre patricinha da Zona Sul...a batalha havia começado!!

Logo estavam todos acomodados na imponente sala de julgamentos. Além da família de Emily compareceu ainda um número significativo de pessoas que pareciam de nível social alto, que aparentemente não tinham contato com a traficante, mas com sua família, o que deixou a acusação e o grupo do São Jorge um tanto quanto perdidos antes de entender qual era a real intenção da defesa. Logo ficou claro qual era a tática, mostrar como favela e asfalto eram tão diferentes...pobres e ricos, bandidos e mocinhos, famílias de bem e famílias de traficantes e prostitutas; de um lado da sala uma maioria negra o parda, vestida de forma humilde, roupas em sua maioria compradas em liquidações ou promoções. Do outra lado, bolsas e roupas de marca, peles em sua maioria claras e bem cuidadas, ternos alinhados de senhores donos de grandes empresas do estado...todos cumprimentavam a família de Emily e se solidarializavam com sua causa...era inadmissível que aqueles favelados esperassem por justiça, que justiça?! Pobres não deveriam ter direito a justiça...

Emily, sentada no banco dos réus, não tirava os olhos do público enquanto conversava com uma das suas quatro advogadas. O sorriso era tímido, mas constante embora tentasse passar um ar inocente e alheia a todas aquelas “injustas” acusações. Como Rachel e Marcos não iriam fazer parte do grupo de testemunhas ou advogados de acusação permaneceram na platéia com os moradores da favela, tinham orgulho do lado que estavam e que nunca abandonariam...tinham dinheiro, posses que talvez somados dariam uma vida inteira de trabalho daquelas famílias, mas estavam ao lado deles, e usariam todo o seu dinheiro e influência se fosse preciso para garantir a justiça naquele julgamento, era um marco não só para Santana e Quinn, mas para toda aquela comunidade.

As 13:20 horas o julgamento finalmente começou, com a apresentação das acusações que Emily respondia, seguindo com os depoimentos de defesa. Todos eram pautados em um único argumento, assustador para a acusação: Emily tivera uma criação exemplar em uma família de classe alta da sociedade, envolvera-se em más companhias na juventude, o que a levou a conhecer membros de facções, e logo depois Santana. A latina, usada como ponto principal da defesa de Emily, foi pintada como sedutora, interesseira e prostituta de luxo de Brittany e de seu amigos, sendo que a paixão de Emily por ela foi o que levou a acusada a cometer “alguns erros” em seu percurso de vida...o envolvimento com o tráfico em uma favela, o assassinato de Finn, mas em legítima defesa, uma vez que o rapaz que era contratado para matá-la, a mando de Brittany Pierce e Quinn Fabray!!! A defesa angariou como testemunhas não só “amigos” da família, que contaram toda uma história fantasiosa sobre Emily, mas membros da favela, incluindo Vanessinha “pede pega”, que relatou com detalhes como eram as vidas de orgias na casa de Quinn, regadas a drogas, sexo e bebidas, tudo pago pelo tráfico e por Brittany.

A tese da defesa era simples, mas muito bem embasada...Emily era culpada sim, pela morte de Finn Hudson, mas por conta de uma “suposta” legítima defesa; era culpada sim pelo cárcere privado de Santana Lopez, mas foi uma jovem rica, apaixonada e inocente induzida ao erro por aquela quadrilha formada não só por favelados e prostitutas, mas também por uma patricinha rica e drogada...até provas do envolvimento de Brittany com drogas da época que ainda freqüentava boates com Sam e seus amigos playboys foram usadas para traçar o perfil “macabro” da menina, que nem era uma acusada naquele julgamento. Ao final da primeira parte dos depoimentos e de quase quatro horas de julgamento, Rodrigo já exausto, pediu que o mesmo fosse interrompido para uma pausa...estava claro que as testemunhas de defesa eram muito fortes, colocavam em questão até a conduta de seu próprio assistente de defesa...Sam Evans.

- Vocês dois nunca me disseram que tinham envolvimento com drogas merda!! Perceberam que se continuar assim vamos sair daqui com o rabinho entre as pernas, e se bestar além dela ser inocentada ainda vamos ter que pagar uma indenização para a “pobre menina rica”!!! Gritou o advogado com Britt e Sam, estava irado como nunca ficara antes. A próxima fase era a dos depoimentos das testemunhas de acusação, e embora fosse contundente ouvir Santana falar sobre o que sofreu em cárcere privado e sobre presenciar a morte da mãe, aquilo por si só não daria nada de pena a Emily, ela sairia dali sem algemas e cumpriria em liberdade qualquer que fosse a pena que lhe fosse imputada. Sentada na sala de testemunhas, a morena pensava no que deveria falar quando foi chamada pela policial que fazia a segurança do local...

- Eu vou ser direta e objetiva com você morena linda, e espero que fique caladinha depois que eu terminar...pediram que lhe avisasse que sua neném é linda, adora pãozinho molhado no leite, assim como as outras duas bebês, embora sejam barraqueiras e adorem brinquedos coloridos sob o berço para se acalmarem. Elas e seu filho mais velho ficarão bem, só depende de você e da sua amiga loira, do que vão dizer daqui a pouco naquela sala de julgamento...acho que Emily foi muito boa com você para acusá-la injustamente por coisas que ela fez por amor...estamos entendidas?! Disse a mulher, pegando pelo braço de Santana e a levando de volta a sua cadeira....