Entre o amor e a guerra - Season II
54 Capítulo 54 - Dias de dor e mudança...
Notas iniciais
Capítulo novo, triste mas a nossa San vai começar a reagir, vocês verão!!:(
PS1: Fiquei com preguiça de procurar na primeira temporada o nome e a idade do sobrinho de Santana, assim redefini aqui na segunda temporada (se não bater lembrem que isso aqui é Glee...nada bate!!kkkkkk)
PS2: A manifestação com caixão pelas ruas foi inspirada em um grupo de mães e familiares de vítimas de violência do ES, que fez algumas manifestações dessas aqui no meu estado...forte, mas necessária para chamar a atenção das autoridades em relação aos grupos de extermínio que tomam conta da cidade na atualidade. (http://www.fenapef.org.br/fenapef/noticia/index/12041)
PS3: Ananda achei aquela frase de sua mãe, que me escreveu por mensagem, tão linda que usei no texto do capítulo...me emocionou!! :)
Boa leitura!! Bjs
Tudo o que era possível fazer para tentar apaziguar a dor e o sofrimento de Santana o bonde fez...organizou todos trâmites legais para o encaminhamento do corpo de sua mãe para o IML, assim como a liberação para velório e sepultamento; logo Marcos e Rodrigo foram acionados e fizeram todos os contatos possíveis para responsabilizar os policiais envolvidos na ação, assim como providenciar todo o suporte necessário à família, que agora se resumia em Santana e em Carlinhos, que tinha apenas quatro anos. Já Puck e Mercedes ficaram responsáveis por fazer a busca das famílias da menina-menino e da outra garota que foi morta no carro, podiam ser inimigas, mas não deixariam que fossem enterradas como indigentes.
Quinn, Rachel e Brittany ficaram com Santana, que muito abalada optou por permanecer no São Jorge com Carlinhos até o sepultamento, na casa onde a mãe morava...queria organizar algumas coisas, embalar os pertences daquela que lhe ensinou tudo sobre a vida. Ainda não sabia como seria dali para frente, Carlinhos só a tinha como referência de mundo e de família, mas a certeza era de que onde quer que ela fosse ele iria junto, agora era mais que um sobrinho, era seu filho. O menino aparentemente não entendia muito bem o que havia acontecido, volta e meia chorava, pedia para ficar no colo da latina ou de Quinn, que já era conhecida dele; Rachel observava a interação da loira com ele e imaginava como seria ter seus próprios filhos, começava a perceber o quanto a esposa tinha jeito e acima de tudo carinho para com o menino, o que começou a fazer com que desejasse em algum momento conversar com a amada sobre isso.
Santana, deitada na cama da mãe, começava a revirar alguns álbuns de fotos envelhecidos pelo tempo, mais guardados com carinho pela senhora Lopez...era o início de um “passeio” triste e doloroso. Eram pelo menos dez pacotes de fotos envelhecidas pela vida, pelo viver intenso, falavam dela e da irmã desde a primeira festinha junina com vestidinhos de quadrilha, quando o bairro ainda não sabia o que era saneamento básico. Santana passava devagarzinho cada foto e via narrada a época vivida por elas, pela pequena família. Era uma saudade tão real, tão intensa que fez com que as meninas que assistiam aquela cena se emocionassem como poucas vezes havia acontecido...as fotos eram diferentes, tinham uma narração tão próxima, tão sofrida de sensação de perda de chão, de vida, que as meninas sentiam-se devastadas e ao mesmo tempo envolvidas...a senhora Lopez era uma senhora magra, de olhar intenso, o rosto abatido pela vida hipnotizava naquelas fotos, já a irmã de Santana era mais alta que ela, mas os cabelos negros e o rosto afilado lembravam muito a latina. Santana simplesmente não parecia aceitar que elas haviam partido para sempre e a deixado sozinha no mundo, e por mais que fosse consciente, precisava crer que elas iriam voltar, que não haviam morrido...doía demais vê-la daquela forma e não conseguir fazer nada, não conseguir compartilhar ou amenizar sua dor. Britt, que a todo o momento estava junto, por vezes sentia que não iria dar conta de segurar aquela onda, sentia que a qualquer momento iria desabar...percebendo a apreensão da amiga Quinn deu uma desculpa e a levou para dar uma volta, precisava ter uma conversa séria com a loira.
– Como você está diante disso tudo Britt?! Parece que um rolo compressor passou por cima da gente, sem pedir licença nos massacrou...e agora só nos resta nos recompor e ajudar a latina da melhor forma possível. Disse Quinn, tentando puxar assunto com a amiga.
– Ainda não consegui aterrissar Quinn, parece que isso tudo é um pesadelo, que vamos acordar e tudo terá voltado ao normal. A pouco chegávamos felizes de viagem, eu e a San fazíamos planos para o futuro, agora nos preparamos para um enterro...a vida parece um filme de mal gosto, parece brincar com a gente. Eu não sei como segurar a onda dela, não sei como tirá-la daquela bolha de sofrimento e dor. Respondeu Brittany, com os olhos cheios de lágrimas, estava com medo de não dar conta de ser forte para ajudar Santana.
– Sei bem como se sente, mas estamos aqui para te ajudar, para ajudar ela a sair desse momento de dor, ela precisa...sei que parece que o mundo desabou na cabeça dela, e ela só tem você, por isso acho que mais que nunca você precisa se fortalecer, se tornar um rochedo na vida dela...e agora do Carlinhos. Já parou para pensar que agora além de uma latina você tem um latininho sapeca e bagunceiro?! Disse Quinn, dando um sorriso ao lembrar que Carlinhos tinha perguntado a ela quem era aquela loira tímida que quase não brincava com ele.
– Quinn...eu olho para ele e fico imaginando como vai ser o quarto dele, fico pensando que vamos precisar de uma casa com quintal, com uma babá para cuidar dele...sei que é um momento de tristeza, de dor e perda, mas hoje já me peguei várias vezes querendo me aproximar, saber das coisas que ele gosta, se já está na escolinha...nunca falei sobre isso com você, mas fui filha única e nunca tive com quem compartilhar nada, depois que cresci ficava imaginando que se tivesse um filho seria como poder resgatar coisas que não fiz...vendo o Carlinhos já imaginei tudo cara, esse moleque vai ser nosso sabe....eu vou ser mãe...tô pirando com isso!!! Disse Britt, toda empolgada, embolando as palavras, parecendo criança diante de um sonho realizado.
– Isso me alivia muito...ver que mesmo parecendo uma retardada você está de braços abertos para receber esse moleque. Porque tipo assim...quando a mãe dele morreu a San ficou meio como referência de mãe para ele, com o tempo e com as loucuras da vida e das guerras no morro a avó assumiu um pouco esse lugar, mas agora ele só tem vocês duas no mundo...a vida de vocês vai mudar radicalmente entende?! Tipo....começa a se aproximar, ele precisa saber que pode contar com você agora, pois a Santana está aérea, triste, dopada...começa a assumir esse papel de “pãe” já sacou?! Disse Quinn rindo do que acabara de dizer..."pãe" era a mistura de pai e mãe...e era o que Britt acabaria sendo para Carlinhos dali em diante.
A loira entendeu o recado, e voltando para a residência deixou Rachel e Quinn com Santana organizando algumas coisas e tratou de chamar Carlinhos para jogar bola no quintal. No começo o menino ficou meio boladinho afinal era marrentinho e desconfiado igual à latina, mas logo se soltou e brincou à valer com a loira no quintal, esquecendo por alguns momentos todo o desespero e o trauma que havia acabado de passar. Vez ou outra Santana os olhava na janela, via a interação e tentava esboçar um pequeno sorriso, Britt parecia entender que agora a vida dela não era mais a duas, mas sim a três.
As horas passaram como um relógio adiantado e implacável...já eram quase dez da noite quando o corpo foi liberado para o velório, que como de todos os moradores do São Jorge, seria realizado no Centro Comunitário. O pai de Britt ainda tentou fazer em uma capela, mas Santana preferiu que fosse ali, junto aos amigos da comunidade, afinal foi onde cresceram e viveram suas vidas com companheirismo e afeto dos vizinhos. Carlinhos ficou na casa de uma senhora com os filhos dela vendo TV até dormir, preferiam que ele não passasse a noite participando daquele momento triste, enquanto o bonde e todos os amigos da família compareceram em massa ao local, dando todo o apoio e carinho necessários...Santana permanecia quieta, calada durante todo o tempo, parecia em um transe quase que contínuo; em sua cabeça, como em uma película antiga, sua história de família era lembrada e relembrada, recontada, reatualizada e revivida. Por vezes a menina olhava na direção da porta de madeira surrada do Centro Comunitário, volta e meia via a mãe entrando por ali, volta e meia imagina o que não fez, o que poderia ser diferente entre elas...o transe da dor a fazia por vezes delirar. Britt observava que ela não estava bem, mas em silêncio, mantinha-se firme ao seu lado...não a deixaria um único minuto sequer, afinal sabia bem o que era perder uma mãe.
Já eram quase oito horas da manhã quando fizeram a última oração para uma das moradoras mais antigas daquela comunidade...a mãe de Santana ajudara a fundar o centro comunitário, participou das lutas diárias por vida mais digna para todos do São Jorge, era uma referência de dignidade e respeito para todos, a morte violenta e prematura era algo que simplesmente não dava para aceitar calados. Antes que seguissem para o cemitério um grupo de moradoras chamou a menina em um canto e foram enfáticas...
– Sabemos que é o pior momento de sua vida Santana, mas conhecendo como conhecemos sua mãe sabemos que ela iria querer que a vida e a morte dela não passassem em branco diante de tanta impunidade e desrespeito com as comunidades carentes e marginalizadas. Diante disso queremos sua autorização para seguir em cortejo não em ônibus ou com o carro da funerária, queremos seguir com o caixão em caminhada, como fizemos durante a última guerra do tráfico aqui...queremos que todos saibam da nossa dor e que sejam tomadas providências em relação aos policiais que cometeram essa atrocidade. Temos faixas e cartazes aqui mesmo no centro comunitário, dependemos da sua autorização. Disse uma das moradoras, uma das mais envolvidas no movimento comunitário junto com a mãe da latina. Santana pensou um pouco, sendo observada por Marcos, Rodrigo e Britt, que nunca tinham visto algo assim em seu mundo burguês da zona sul...poderia deixar sua dor tomar conta de sua vida, se mortificar e se enlutar para sempre, mas não era isso que aprendera com aquela coroa teimosa que lhe ensinou o que era liderança, o que era ser pobre e ter que lutar dia após dia por seus direitos...
– Acho que era o que ela esperava que eu fizesse se estivesse no meu lugar...vocês tem autorização não para descer em cortejo com o caixão, mas com ela...sei bem o que aquela velha teimosa ali faria se fosse com qualquer outro morador...a luta dela continua sendo a minha luta...depois que você perde uma mãe simplesmente não tem mais medo de perder nada, por isso essa morte não vai ficar impune, ou eu não me chamo Santana Lopez. Disse a latina, levantando-se e começando a mobilizar as pessoas que estavam no velório, assim como as que estavam no entorno do centro comunitário. As nove horas o cortejo saiu do alto do morro considerado um dos mais violentos da cidade, seguiu parando o trânsito, assustando pessoas mais desatentas que viam um caixão sendo carregado por mulheres de preto, de luto não só por uma moradora, mas pela impunidade, que não podia imperar em casos como o da morte dela. Fizeram várias paradas, em frente a Assembléia Legislativa da cidade, depois em frente a delegacia de polícia onde era lotada a equipe que participara da ação que resultou naquelas três mortes...eles precisavam saber que a comunidade não se calaria.
Depois de quase uma hora e meia de caminhada chegaram ao cemitério, onde o enterro aconteceu ao som de muitas palmas e pedidos de justiça...Santana parecia esgotada, mas finalmente havia deixado aquele estado de transe e passado ao estado de guerreira, queria e precisava de justiça. Britt, Marcos, Rodrigo e Rachel estavam em um misto de choque e paixão pelo que acabavam de assistir...mais do que “terra de ninguém”, “lugar de bandidos”, “domínio do tráfico”, as favelas eram lugares de resistência as desigualdades, à violação de direitos; da dor eles tinham tirado mais um motivo para brigar por igualdade, por dignidade e respeito! Estavam felizes por fazer parte não só daquele momento, mas por terem a academia como um lugar onde esses sentimentos poderiam ser trabalhados, potencializados em favor daquelas comunidades muitas vezes esquecidas pelo poder público...fazer parte de algo especial te torna especial...era o sentimento de todos eles naquele momento!
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