Entre o Soco e o Beijo (Johnlock Warner)
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A chuva castigava Londres como se tentasse lavar os pecados da cidade, mas as ruas estreitas de Baker Street permaneciam escuras e cheias de segredos. O número 221B estava iluminado, mas a luz que escapava pelas cortinas desalinhadas não transmitia exatamente conforto — parecia o convite para mais um desastre.
Dr. John Watson subiu as escadas duas de cada vez, o sobretudo encharcado pingando no carpete e o chapéu preso de qualquer jeito na cabeça. Estava molhado, cansado e… furioso. A carta que recebera mais cedo ainda queimava no bolso: Holmes havia, mais uma vez, colocado a própria vida em risco por um caso absurdo, sem pedir ajuda, sem avisar, e terminara com um corte no lábio e o vaso favorito da Sra. Hudson em pedaços.
Ao abrir a porta, encontrou exatamente o que esperava — e ainda assim ficou ainda mais irritado.
Sherlock Holmes estava de pé no centro da sala, camisa parcialmente desabotoada, colete sujo de lama e sangue seco, segurando um copo de conhaque como se fosse a coisa mais natural do mundo. Um leve sorriso curvou seus lábios, e aquele maldito corte tornava o sorriso ainda mais insolente.
— Boa noite, Watson. — O tom era preguiçoso, como se o médico tivesse acabado de voltar de um passeio agradável.
Watson bateu a porta atrás de si.
— Boa noite? É isso que tem a dizer? Você poderia ter morrido hoje!
Holmes girou o copo na mão, observando o líquido âmbar.
— Poderia. Mas não morri.
— Não me provoque, Holmes. — Watson deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Você se meteu em um beco, sozinho, com dois homens armados. E por quê? Por um relógio roubado!
Holmes arqueou uma sobrancelha, a expressão quase divertida.
— Era um relógio muito interessante…
Watson atravessou a sala em dois passos, a mão agarrando o colarinho sujo de Holmes.
— Você acha isso engraçado?
O detetive o olhou de cima a baixo, os olhos brilhando com algo que Watson conhecia bem: não era medo. Era excitação.
— Acho… fascinante — murmurou Holmes, a voz baixa demais para não soar provocação.
Watson o empurrou contra a mesa, derrubando papéis, frascos e um maço de cartas. O impacto fez o conhaque respingar sobre o colete.
— Maldito seja, Holmes!
Holmes apenas riu, o som rouco e carregado de ironia.
— Você fica tão… encantador quando está irritado, meu caro doutor.
O sangue de Watson ferveu.
— Encantador?! — Ele o puxou mais para perto, o rosto a centímetros do outro. — Sabe o que você é? Um imprudente arrogante que não pensa nas consequências.
Holmes inclinou a cabeça, como se analisasse cada traço da raiva de Watson.
— E mesmo assim, você sempre volta correndo.
Antes que pudesse responder, Watson sentiu aquela mão magra subir pelo seu braço, os dedos deslizando até tocar seu pescoço. O contato foi leve, mas incendiou algo que ele tentava ignorar há tempo demais.
— Está me testando… — rosnou Watson.
— Sempre. — O sorriso de Holmes se alargou. — E você sempre passa.
Foi Watson quem o puxou de vez, a boca colidindo com a dele de forma nada delicada. O beijo foi como a briga — áspero, urgente, quase doloroso. Holmes respondeu com igual intensidade, os dedos se enroscando no cabelo úmido de Watson, puxando-o mais.
A mesa gemeu sob o peso dos dois quando Watson o empurrou ainda mais, derrubando um tinteiro que se espalhou pelo chão. Holmes não se importou — riu entre os beijos, aquele riso irritante que só o deixava mais desejável.
— Sempre tão… violento, doutor — provocou, antes de morder levemente o lábio de Watson.
Watson respondeu com um aperto firme no casaco do outro, trazendo-o para si como se quisesse fundi-los.
— Cale a boca, Holmes.
Holmes obedeceu, mas apenas porque estava ocupado explorando sua boca de volta, mãos deslizando pela cintura de Watson, sentindo a respiração quente contra a própria pele. O cheiro de chuva, pólvora e conhaque se misturava, e tudo nele gritava que aquilo era um erro… e que não pararia por nada no mundo.
Holmes recuou apenas o suficiente para soltar uma risada curta e debochada, o olhar cravado em Watson como se já tivesse vencido uma disputa silenciosa.
— Você está todo molhado, doutor. — O tom de voz estava carregado de malícia. — E não é só pela chuva.
Watson apertou o maxilar, tentando decidir se o socava ou o beijava outra vez. Optou por ambas as coisas — deu-lhe um empurrão no ombro, que o fez cambalear, e logo depois agarrou seu rosto para um beijo ainda mais brutal.
Holmes deixou-se levar, mas, como sempre, tinha que provocar. Segurou Watson pela nuca e mordeu seu lábio inferior, puxando até sentir o suspiro raivoso escapar.
— Está zangado comigo? — perguntou, com falsa inocência.
— Zangado? — Watson o prensou contra a parede, uma mão firme no peito do detetive. — Você quase morreu! Eu encontrei seu colete com um buraco de bala, Holmes!
— Ah, mas foi de raspão… — respondeu, como se falasse do tempo.
Watson respirou fundo, e a respiração saía quente demais para ser só raiva. Empurrou-o mais contra a parede, sentindo o calor do corpo do outro através das roupas encharcadas.
— Você é impossível. — A voz dele era um misto de ameaça e desejo.
— E você é previsível. — Holmes sorriu de canto. — Sempre vem me salvar. Sempre volta.
Watson fechou a mão no colarinho dele, puxando-o de volta para um beijo, dessa vez mais lento, mas carregado de possessividade. Holmes correspondeu com uma fome quase animalesca, a língua explorando, mãos viajando pelas costas largas do médico.
Sem romper o contato, Holmes girou o corpo, invertendo as posições e prendendo Watson contra a parede.
— Sua vez de ficar encurralado, doutor. — O sussurro veio junto com o roçar dos lábios na mandíbula de Watson.
Watson soltou um riso curto, quase incrédulo, antes de segurar o rosto do outro entre as mãos e voltar a beijá-lo como se estivesse prestes a perder a guerra — e talvez estivesse.
Holmes aproveitou a vantagem, colando o corpo ao dele, pressionando com força. As mãos exploravam sem hesitar: ombros, braços, descendo até o quadril, apertando como se quisesse gravar o formato na memória.
O ar entre eles estava quente demais para aquela noite fria. O som da chuva batendo contra a janela se misturava à respiração pesada dos dois.
Watson quebrou o beijo apenas para falar, a voz rouca:
— Eu devia te dar um soco agora.
Holmes arqueou uma sobrancelha, um sorriso preguiçoso se formando.
— Faça isso.
Watson encarou-o por um segundo, então fechou o punho e o acertou de leve no ombro — só o suficiente para arrancar outra risada insolente. Holmes segurou a mão dele logo depois, entrelaçando os dedos e puxando-o de volta para si.
— Melhor. — murmurou, antes de beijá-lo de novo, dessa vez com uma urgência quase desesperada.
Eles tropeçaram juntos até o sofá, derrubando mais papéis e um livro que caiu aberto no chão. Holmes empurrou Watson para se sentar e imediatamente se posicionou entre suas pernas, puxando-o pela gravata para outro beijo.
Watson agarrou sua cintura, puxando-o com força, e a fricção fez ambos soltarem um gemido abafado. Holmes quebrou o beijo só para falar, a respiração acelerada:
— Já te disse como fica adorável quando perde o controle?
— Já te disse como fica insuportável quando abre a boca? — retrucou Watson, antes de puxá-lo de volta.
Holmes riu contra os lábios dele, mas logo cedeu, entregando-se ao beijo até perder a noção do tempo. As mãos de Watson exploravam, apertavam, puxavam, como se quisessem marcar território. Holmes retribuía com mordidas sutis, toques firmes e aquele olhar maldito que parecia ler cada pensamento proibido do outro.
Quando finalmente se separaram, ambos ofegantes, Holmes apoiou a testa na de Watson, o sorriso ainda brincando nos lábios.
— Então… vai embora amanhã? — perguntou, como se não estivesse quase tremendo de desejo.
Watson ficou em silêncio por alguns segundos, observando-o, sentindo ainda o gosto de conhaque e provocação.
— Ainda não decidi.
Holmes apenas sorriu, satisfeito, e o puxou para mais um beijo, dessa vez mais lento, como se já soubesse que a batalha estava vencida.
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Na manhã seguinte, a luz pálida atravessava a cortina mal fechada, iluminando a bagunça espalhada pela sala. Havia uma gravata sobre o abajur, dois copos de conhaque no chão e a camisa de Holmes jogada por cima do sofá como se tivesse sido arrancada às pressas — o que, de fato, acontecera.
Watson estava sentado na poltrona, o jornal aberto à sua frente. O cabelo ainda estava um pouco desalinhado, e a gravata mal ajustada denunciava que aquela manhã não fora exatamente tranquila.
Holmes, de pernas cruzadas na poltrona oposta, fumava seu cachimbo com um ar de satisfação preguiçosa. O colete estava abotoado de forma errada, e o corte no lábio agora era acompanhado por uma discreta marca roxa na base do pescoço.
— Dormiu bem, doutor? — perguntou Holmes, soltando uma nuvem de fumaça e um sorriso enviesado.
Watson virou a página do jornal sem sequer olhá-lo.
— Não me lembro de ter dormido.
— Ah, sim… — Holmes inclinou-se para acender o cachimbo novamente, o olhar brilhando de malícia. — É que esteve… ocupado demais, se não me engano.
Watson ergueu os olhos apenas o suficiente para encará-lo com aquela expressão típica de quem sabia exatamente onde aquilo ia dar.
— Ocupado em garantir que você aprendesse a lição de não se meter em becos sozinho.
— Lições muito… práticas — murmurou Holmes, soltando a fumaça lentamente. — Ainda não decidi se estou mais exausto ou… impressionado.
Watson sorriu de leve por trás do jornal, mas manteve o tom sério.
— Pelo menos está quieto. Imagino que seja difícil deduzir qualquer coisa quando se está dolorido.
Holmes ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Está se gabando, doutor?
— Apenas constatando fatos. — Watson baixou o jornal, revelando um sorriso quase imperceptível, mas cheio de autossatisfação. — E pelo que vejo no seu estado… creio que fui bastante eficiente.
Holmes inclinou-se para a frente, apoiando o cotovelo no braço da poltrona, estudando-o como se fosse um caso fascinante.
— Não vou negar. — Ele deu outra tragada no cachimbo. — Mas, por pura honestidade científica, acho que precisaremos repetir o experimento. Por segurança, claro.
Watson soltou um suspiro teatral, dobrando o jornal.
— Você não tem cura, Holmes.
— E, felizmente, você não parece querer me curar. — O sorriso do detetive era puro desafio.
Watson o encarou por um momento, depois voltou a abrir o jornal.
— Veremos se amanhã você ainda tem forças para provocações.
Holmes riu baixinho, reclinando-se na poltrona com o cachimbo entre os dedos, satisfeito como um homem que sabia exatamente que tipo de vitória havia conquistado naquela noite.
Lá fora, Londres despertava sob a névoa, mas dentro do 221B o ar ainda carregava o calor da noite anterior — e a promessa de que nenhuma tempestade, fosse de chuva ou de desejo, manteria aqueles dois longe um do outro por muito tempo.
Fim
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