Entre o Inferno e o Céu

21 Descobrindo a verdade


- Do que você esta falando?


Ouvir minha mãe, me pedir se eu acreditava no diabo, parou todos os meus pensamentos.


Eu não sabia se dava risada, se ia embora, ou se voltava para o sofá.


- Gabriel, acho melhor você se sentar! – meu pai apontou para o acento vazio, ao lado de minha mãe. Que me fitava receosa.


- OK! – sentei-me – Mas se isso for uma brincadeira de mau gosto. Ficarei muito decepcionado com vocês.


- Não é meu anjo.


- Mãe, a senhora poderia parar de me chamar de anjo? Eu ainda não me acostumei com essa idéia.


- Tudo bem querido. – ela disse passando a mão em meus cabelos.


- Obrigado. Acho que já pode continuar. – autorizei a prosseguirão do assunto.


- Venho novamente lhe pedir, você acredita no Diabo?


Imagens de sua fisionomia, e de quando eu era pequeno, e sentia medo dele, apareceu bem à frente dos meus olhos. Como se eu tivesse olhando na tela de uma Tv.


- Eu... Eu não sei mãe. Já esta sendo difícil demais, acreditar que sou um ser quase divino.


- Eu compreendo, mas apenas me diga sim ou não. – ela deu de ombros.


- Sim. – um pequeno sorriso surgiu em sua face – Quer dizer, eu acho que sim. Afinal, os humanos não seriam capazes de fazerem todas essas maldades, por livre e espontânea vontade.


- Você esta certo. E eles não fazem. São induzidos.


- Por quem?


- Seguidores, comensais e, filhos do Diabo.


- O diabo tem filhos? Como isso é possível?


- Existem muitas histórias de como tudo isso surgiu. – meu pai comentou.


- Nem mesmo, nós, seres divinos. Sabemos como tudo aconteceu.


Ela levantou-se, e foi até a janela que pegava toda a extensão da parede. Lá fora, pingos grossos começaram a cair, estragando o reflexo de minha bela mãe no vidro. E assim escurecendo o céu azulado.


- Mãe, me desculpe por lhe interromper. Mas as coisas estão ficando confusas. A senhora poderia ser mais clara?


- Claro. – assentiu – Lúcifer é um anjo caído. Muitos dizem que o verdadeiro diabo é Judas, mas isso é impossível. – ela riu baixinho – Judas era apenas um humano influenciável, que não sabia onde estava se metendo.


- OK! – eu ri do modo que ela disse aquilo.


- Outros já dizem que Lúcifer, — ela virou para nós e cruzou os braços – era irmão de Deus. E revoltou-se ao perceber como o irmão era mais “poderoso”!


- E a verdade é...? – perguntei curioso com a resposta.


- Que eu não sei as coisas nunca foram claramente esclarecidas. Pode haver revoltas. Se você me entende. – olhou-me sugestivamente.


Era claro que poderia haver revoltas, se o diabo era um anjo caído. Deduzi que ninguém saberia realmente quem era esse tal anjo caído, a não ser Deus e o próprio anjo. Evitar guerras era o melhor a se fazer, e se isso implicava entre esconder a verdadeira identidade do mal, eu era a favor.


- Agora que você já sabe de quase tudo, irei lhe contar o motivo de ainda estar sentado, aqui nesta sala.


Assenti com a cabeça. O que ela iria me contar? Que meu pai era um duende, ou que meu vizinho era endiabrado. Eu esperava que não.


- Como eu já te disse, o diabo possui filhos. Sabe quando falam “somos todos filhos de Deus?”, é porque realmente somos filhos Dele. E Lúcifer também conseguiu expandir sua prole. Enquanto Deus, achava maneiras de procriar seus filhos no céu e no paraíso, Lúcifer se auto-procriou no inferno, ou seja, como Deus não possui mulher, ele criou Adão e Eva. Após milênios e mais milênios, os humanos começaram a surgir. E Lúcifer encontrou a saída perfeita. Tirou da terra uma humana fértil, e a engravidou. Dali nasceu o primeiro filho do diabo. Conforme os séculos iam passando, Lúcifer e seu próprio filho começaram a aterrorizar a terra. Então veio Jesus, o salvador do mundo. Você conhece muito bem a história dele.


- Sim, papai me contava sempre.


- Judas, foi influenciado pelo diabo, criando uma legião de seguidores. Quando todos esses morreram, o único lugar que lhes restou foi o inferno. E a partir daquele tempo, é que surgiram os demônios, e espíritos do mal. Eles acharam uma maneira de vir a terra e converter mentes fracas.


- Levando para o inferno mulheres inofensivas, e assim aumentando o exercito do mal. – conclui pelas explicações de minha mãe.


- Exato. Um demônio demora cresce igual a um humano normal, sua fisionomia é igual. Diferente dos anjos, que contem as características físicas todas parecidas. Os demônios são todos diferentes. Mas eles não deixam enganar, a maioria possui cabelos escuros, alguns olhos escuros, e outros raramente olhos claros. Durante sua fase de crescimento, eles estudam, aprendem, até serem finalmente designados para seus respectivos postos. A política do inferno e do céu é bem parecida, a única diferença é que um anjo, quando designado, será sempre aquilo.


- A não ser que renuncie. – meu pai falou.


- É. Já os demônios, suas “profissões” vêem de acordo com sua idade e principalmente nível de maldade. Existem muitos níveis e tipos, dos mais baixos aos mais altos. Por exemplo, existem aqueles que apenas ficam vagando e enlouquecendo as pessoas pelos sonhos, com aparições, conseguem controlar objetos, e assim vai. São os chamados espíritos. Outros mais fortes são os “invisíveis”, esses podem matar uma pessoa. E há aqueles que vivem por séculos na terra, em forma humana, nunca envelhecendo. Controlando a mente das pessoas...


Sua voz foi sumindo, parecia que alguém tinha apertado no botão “mudo”. Eu olhava para meus pais que apenas gesticulavam com a boca. Eu não entendia nada que eles diziam, e muito menos escutava. Eu só conseguia pensar em Sheba, era por ela que eu ainda estava sentado ali, recebendo bomba, encima de bomba. Tudo que passamos juntos, a partir do momento em que eu a toquei no baile até o nosso termino de namoro, começaram a fazer sentido. Os sumiços misteriosos, as mudanças drásticas de humos, o calor de sua pele, a forma como ela sempre conseguia irritar todo mundo. E a inexplicável necessidade que eu sentia por ajudá-la.


- Mãe fala logo! – explodi, quando todas as peças fizeram sentido. Quando eu finalmente consegui abrir meus olhos após de tanto tempo. Eu só precisava de uma confirmação.


- Sheba é um demônio.


Sua resposta foi fria. Não vi nenhum olhar significativo no seu rosto, muito menos rugas de algum tipo. Ela estava apenas ali. Parada, encostada na janela, com os braços cruzados. E sua frieza nesse instante intransponível. Eu sabia que quando o assunto era Sheba ela se transformava naquela rocha.


Se fosse qualquer pessoa a me contar, eu iria rir. Riria tanto, que até choraria. Mas não. Era ela, minha mãe, a pessoa que eu mais confiava no mundo. Por mais que a pequena voz gritava no meu ouvido agora, dissesse para sair da li. Eu tinha completa certeza que aquilo era à pura verdade.


- Você não ira falar nada Gabriel? – olhei sem vontade alguma para meu pai. Que me perguntava receoso. A mesma expressão que habitava a face de minha mãe no momento.


- Não. Eu acredito em vocês. – fiz uma pausa para pensar o que dizer – Eu só queria saber, por quê?


- Como assim, por quê?


- Porque comigo. Justo eu, que a amo tanto. Que chega doer à distância que tenho dela agora. É tão estranho ouvir isso, é estranho perceber que eu sabia. O tempo todo. O que ela era. Eu sentia o perigo que ela representava, mas não o resto, mas sim para si mesma. Deve ter sido isso, que me prendeu a ela.


Levantei do sofá e comecei a andar pela sala, enquanto sentia meu corpo começar a dor e meus olhos ficarem embaçados. Fui até a janela e deixei minhas lágrimas que refletiam no vidro se misturarem com a chuva.


- Aquele baile, foi o meu fim, e o dela. Eu sabia, eu SENTIA que ela precisava de mim. E eu mais do que qualquer outra coisa que eu já quis, eu queria ela para mim. Isso não soa clichê? Um anjo se apaixonar por um demônio! Deveria ser coisa de livro ou filme.


- E como você sabe que ela não lhe ama? – escutei a voz falha de meu pai.


- Porque ela nunca falou.


- Só porque ela não disse, não significa que ela não lhe ame.


- Carlos, você esta encorajando ele a continuar amando um... um... demônio?


Eu não precisava ver o rosto de minha mãe, eu sabia que estava coberta de nojo e ódio.


- Sim! Pela primeira vez, depois de todos esses anos. Eu irei contra você. Nosso filho esta sofrendo, eu consigo ver claramente que a garota também. Não deixarei que isso acabe numa tragédia, não quero ter um filho com o coração quebrado em casa.


- Gabriel, diga para sua mãe, que você não à ama mais. Ela não lhe contou o que era. – minha mãe suplicava.


- Se fosse para odiar, eu odiaria você também mamãe. Afinal você escondeu-me o que era. E acima de tudo o que EU era. POR ANOS! SE VOCÊ TIVESSE ME CONTADO ANTES, EU PODIA TER EVITADO TUDO ISSO.


Eu gritava, olhando fundo nos olhos dela, que agora viravam um mar azul de lágrimas. Eu compreendia que aquelas palavras perfuravam seu coração. Mas era necessário.


- Mas quer saber de uma coisa? Eu só tenho a lhe agradecer mãe.


- O que você esta dizendo? – sua voz estava embargada.


- Se você não mantivesse o segredo para si, eu nunca teria conhecido Sheba. Não teria vivido esse tempo com ela, e percebido como meu coração bate por ela. E só por ela.


Meti a mão no bolso, e tirei meu celular, digitando rápido uma mensagem de texto. E enviando diretamente para o celular de Sheeb.



Preciso conversar com você. Urgente. Encontre-me na colina.


Gabriel.



Corri até minha mãe, beijei sua testa, dei um tchau para meu pai e corri para a saída de casa. Pegando a chave do meu carro no molho de chaves. Escutei passos rápidos de salto alto, virem atrás de mim.


- GABRIEL! VOCÊ ESTÁ LOUCO! O QUE IRÁ FAZER?


Minha mãe se colocou entre mim e a porta, impedindo minha saída.


- Irei resolver tudo.


- Você já resolveu. Terminou com ela. Não há mais nada a resolver. Você só tem que fazer uma escolha sobre sua vida.


- Eu já me decidi.


Tentando ser o mais delicado possível, tirei minha mãe de frente da porta e a abri, saindo e apertando o botão do elevador. Ela ficou encostada na porta me olhando, enquanto eu esperava o elevador chegar.


- E quando foi isso? Quando percebeu que a ama de verdade.


- Quando tudo começou. – o elevador chegou abrindo a porta e se mostrando vazio — Eu só preciso ouvir dela.



_____x_____



Há apenas algumas quadras dali, um celular tocava. Avisando a chegada de uma mensagem. Uma cabeleira preta, que refletia como um espelho abriu a porta do apartamento e apossou-se do celular.


Após ler a pequena mensagem, o espelho correu em direção ao seu quarto, trocando de roupa, pegando uma chave de carro e passando na cozinha para tomar um copo de água. Na porta da geladeira havia um pequeno papel com algumas letras borradas, devido à forma rápida que escrita. Leu o pequeno bilhete, e rindo cinicamente saiu correndo apartamento fora.


O manto negro estava decidido. Corria pelas ruas da cidade numa velocidade não permitida. Levando varias multas, e quase causando alguns acidentes. Chegou à colina em poucos minutos, estacionando o carro de mau jeito e continuando um pequeno caminho a pé. A chuva lhe maltratava o rosto, deixando suas roupas molhadas e fazendo com que o manto negro parece-se um espelho turvo.


Ali, embaixo da chuva, ele esperou pacientemente alguns minutos. Estava mais do que nunca decidido. Iria concertar tudo aquilo.


O ronco macio de um motor surgiu. Sua pele clara formou covinhas, demonstrando o tamanho de sua felicidade. O sorriso extremamente branco era iluminado conforme a luz da lua calmamente aparecia. Queria rir alto, gritar para o mundo inteiro ouvir. Mas isso desmancharia o momento. A felicidade explodia dentro de seu peito. E o espelho negro refletia o seu desejo, sua excitação e sua maior vontade.

Notas finais
N/A: Oláa pessoal! Então o que acharam? eu peço mil perdões por ter demorado TANTO para postar. 'Mas é que eu realmente estava sem inspiração!
este é o penúltimo cap! Espero que gostem dele!
Beiijãooo!