Entre o Inferno e o Céu
18 A carta
Notas iniciais
SHEBA
Levantei quando não agüentava mais escutar o barulho do liquidificador ligado. Desde quando Jezebel havia aprendido a usar aquilo? Ela mal sabia usar o interfone.
Levantei e me dei de cara com o espelho. Minha aparência já era de uma humana normal, cabelos desgrenhados, maquiagem manchada e corpo suado por causa das enormes cobertas. Sem contar na enorme dor de cabeça. Então me lembrei da noite passada, da sensação que Jeez havia me proporcionado. Meu corpo queimando, arrepios e fumaça.
Tomei um banho rápido, prendi meus cabelos num coque ainda molhados e coloque uma calça jeans escura, uma blusinha estilo regata solta branca e uma sandália vermelha.
- Bom dia maninha! – Jezebel disse quando cheguei à cozinha. Peguei um copo e o enchi de café. – Porque esta de óculos? – ela me pediu sentando-se a minha frente e tomando água fervendo.
- Você não perde mesmo os hábitos não é Jezebel? Da onde que já se viu tomar água fervendo? – falei pra ela enquanto tirava os óculos e lhe mostrava minhas enormes olheiras.
- É essas simples coisas que fazem me sentir mais perto de casa.
- Como o que você fez ontem comigo?
- Sim. Mas com você surtiu mais efeito. Acho que você se odeia mais que eu me odeio. – possivelmente isso era verdade. Eu me odiava profundamente por estar fazendo Gabe sofrer. E era só por esse motivo. – Eu vou até o vizinho gostoso do primeiro andar pegar sal.
- Pra que sal? Aqui está cheio de sal.
- Eu sei. só que eu gosto da pipoca BEM salgada. Irei assistir filme de terror de tarde.
- Não vá se assustar com os monstros.
- Não se preocupe. – ela me olhou colocando a mão na chaleira quente – Eu sou pior que eles.
- Vou fingir que acredito.
Sai da cozinha a deixando sozinha. Fui até meu banheiro olhar nos remédios para ver se eu encontrava algo para dor de cabeça. Remexi em tudo e nada.
Olhei na cozinha, no banheiro social, no quartinho de hóspedes, no bar e nada.
- Só me resta o quarto de Jezebel. Alguma coisa essa bicha tem que ter.
Seu quarto estava um bafo só. Quente e com as cortinas fechadas. Totalmente escuro, liguei as luzes e abri algumas janelas deixando um pouco de ar entrar. Revirei em suas bolsas, roupas, no seu banheiro, embaixo da cama, nas caixas de sapato em tudo e não achei nada. Minha cabeça latejava muito, e eu já começava a ficar tonta. Provavelmente a minha “viagem” de ontem até o portão do inferno havia desgastado toda minha energia. Eu nunca havia entrado no quarto de Jeez, ele era todo roxo e cheio de travesseiros e almofadas como o meu. Percebi que não havia olhado no seu closet ainda, como já era de se esperar, estava uma bagunça. Roupa, sapato, perfume, acessórios espalhados por todo lugar. Algumas caixas caindo e outras com estilo velho. Olhei nas gavetas, nas roupas e nada de novo. Rodeei o closet e avistei uma caixa pequena com uma cruz vermelha na frente, peguei um banquinho e subi até conseguir alcançar a bendita caixa. Quando a puxei com muita dificuldade uma outra caixa menor ainda caiu no chão espalhando as coisas que continha dentro no chão.
Fui até a cozinha tomei o comprimido e voltei para seu quarto ajeitar a bagunça que eu havia feito.
- Jezebel e suas arapucas. Não sei por que esconder as coisas assim.
Sentei no chão e comecei a recolher as coisas e coloca-las dentro da caixa. A curiosidade bateu mais forte quando enxerguei uma foto sua muito antiga. Era provavelmente dos anos 40, havia varias fotos sua, mas a que mais me chamou a atenção foi uma que estava com uma parte queimada. Era ela, de cabelo crespo, com roupas de época, abraçada a um homem e por incrível que pareça, ela estava sorrindo. O homem tinha suas mão ao redor de sua cintura, enquanto ela parecia que pulava em seu pescoço. Ele usava aquele uniforme de guerra, com varias medalhas. Tinha uma cicatriz que ia do pescoço até a orelha. Era um homem bonito, marcante, mas com um semblante triste. A parte que estava queimada era do homem, era uma foto preta e branca, mas muito bonita. Atrás, bem no canto direito estava escrito:
“Nada mais importa a não ser eu...”.
Não pude ler o resto da frase, pois estava queimada. Meu coração apertou ao perceber o quanto minha irmã havia sofrido. E era certo que eu iria sofrer como ela, se duvidasse muito mais. Guardei as outras fotos, todas muito bonitas, eu não podia negar minha irmã tinha uma beleza inconfundível. Todas as fotos em que ela estava com aquele homem estavam queimadas, justo na parte dele. Tinha alguns papeis velhos, todos com o nome de Jezebel. Eu estava escolhendo uma para ler quando uma carta em especial chamou minha atenção. Peguei no ato, rasgando todo seu envelope e começando a ler. Porque eu havia me interessado tanto nela? Pois era direcionada a mim.
Querida Sheba.
Quando você estiver lendo essa carta, eu e seu pai já estaremos mortos.Nunca pense que não amamos você, pois você foi nosso maior tesouro e sempre será. Eu imagino que você não esteja entendendo nada, pois então eu irei lhe explicar tudo.
Você nunca imaginou porque você é diferente dos outros demônios? Como você ama incondicionalmente as coisas? Mesmo sendo ruins? Demônios são maus, não possuem amor próprio e odeiam tudo e todos. Afinal vocês viviam no inferno e demônios não possuem nenhum tipo de carinho.
Devo imaginar novamente que não esta entendendo nada. Calma tudo será devidamente explicado.
Nos primórdios de tudo,quando a terra ainda não existia, o bem e o mal sempre travavam guerras. Eu e seu pai nos conhecemos numa guerra dessas. Eu sei que você já se perguntou por que eu nunca estive com você, mas não foi porque eu não quis, pois era o que eu mais queria. Mas sim porque não me permitiam. Eu sou um anjo meu bem e seu pai um demônio. Você já deve saber que quando um anjo toca em um demônio, ele passa a possuir ele. E o demônio só consegue se livrar se é mandado para o inferno pelo anjo.
Eu e seu pai acabamos nos apaixonando. Encontrávamos-nos escondidos, passamos décadas fazendo isso, até a terra ser criada e podermos nos esconder nela. Você mesma deve saber que anjos e demônios são totalmente os opostos, e possuem regras estritamente rigorosa sobre relacionamentos com seres de outros mundos.
Sem prever eu acabei engravidando. Os deuses do bem e do mal descobriram tudo e travaram mais guerras, pois nem eu e muito menos seu pai queríamos nos separar. Ele não podia vir para o céu e eu não podia ir para o inferno, no final os deuses supremos do bem e do mal chegaram a um acordo de que a criança seria destruída e que nunca mais nos veríamos.
Eu podia viver eternamente sem ele, mas não podia matar você. Meu maior sonho e amor, minha vida. Quando você nasceu eu consegui arranjar um jeito de te mandar para o inferno, aqui você não seria bem vinda, mas lá se não apresentasse nenhum perigo você ficaria bem. Foi a ultima vez que eu encontrei com seu pai. No dia em que eu entreguei um bem mais precioso para o inferno. Você.
Ele lhe criou da melhor maneira possível, não queria que você fosse um demônio. Mas nada podia fazer, pois vocês estavam no inferno. Os anos foram passando e você estava com apenas três anos quando tudo começou a acontecer. Ele não conseguia mais fazer nada de ruim e eu não suportava mais o céu. Eu queria estar com vocês e todos os direitos eram-me negados. Eu não podia ir para a terra e nem vocês. Seu pai faleceu antes de mim, me tirando todo o resto de vitalidade que eu tinha. Quando eu percebi que estava prestes a partir resolvi lhe escrever esta carta e mandei entregar a Jezebel sua meia — irmã.
Não a culpe pelas maldades que ira cometer, ela é um demônio puro. Apenas tente lhe mostrar a vida de uma maneira diferente.
Eu não sei o que o destino lhe oferece nem o que a espera, só quero que saiba que lhe amo mais que a Deus, e que sempre, NÃO IMPORTA ONDE, eu estarei olhando por ti.
Com amor, sua mãe.
Obs.: Escolha com o coração. A escolha é sempre sua.
Notas finais
(capbosta)
Comeeentem, mesmo se ele estiver ruim :S
Beiijos e UM FELIZ ANO NOVO PARA TODOS *.*
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