Entre o Inferno e o Céu
23 Epílogo
Notas iniciais
E claro, meus agradecimentos a todas que leram e comentaram na fic, e agradeço também aos fantasminhas.
Enfim, minha gente terminou a fic. Minha primeira fic esta terminada, depois de muita demora.
Espero que apreciem a leitura.
POV SHEBA
Os corpos quentes e esbeltos transitavam com leveza pela pista de dança. As garotas cintilavam com seus vestidos chamativos, e os garotos estavam impecáveis dentro de seus smokings. Ao som da música lenta, os casais moviam-se de um lado para o outro, quase que em sincronia. E Gabe segurava firme minha cintura, grudando meu corpo ao seu, e fazendo-nos entrar no meio daquela valsa.
As luzes coloridas que iluminavam o salão, não influenciava a maneira como eu estava vendo os olhos dele. Aquele azul anil, que por tanto tempo me hipnotizou, agora tinha efeito certeiro sobre mim. Eu não podia mais fugir, e acima de tudo, eu não queria fugir.
Vários dias já haviam se passado, mas me apertava ver as marcas dolorosas que meus atos deixaram no corpo de Gabriel. Beijei seu queixo que ainda trazia um pequeno roxo, conseqüência da batalha contra minha amável irmã. Girei e deixei minhas costas nuas encostarem-se ao peito atlético e quente de Gabe. E por um momento me permiti observar como aquilo era certo. Ou pelo menos parecia ser o menos complicado.
Um meio anjo, junto de uma meia demônia. Pois após o ocorrido na colina, algumas mudanças misteriosas começaram a acontecer. Porém, em nenhum momento eu quis saber o motivo e por que elas estavam ocorrendo, preferi deixar tudo como estava para não complicar mais as coisas.
Olhei mais atentamente para o mesmo lugar onde tudo teve inicio. O baile de formaturas. Agora Gabe estava se formando e iria progredir com sua vida, era óbvio que eu não sairia do seu lado de jeito nenhum. Afina, ele era um meio anjo, tinha completo e total poder para cima de mim. Mesmo que aquilo já houvesse passado. Eu gostava de pensar que eu pertencia a ele, apenas a ele.
Porém relembrar de tudo que sofremos, de tudo que eu o fiz passar, por minha causa, me levava a pensar se alguma coisa de pior poderia a vir acontecer. Eu sabia que as coisas estavam andando calmamente e o que tivesse que ser, seria. Mas eu não suportaria ver meu anjo protetor outra vez se machucando, eu tinha que ter certeza absoluta que ele estava disposto a passar por todo e qualquer tormento que viesse aparecer.
— Vamos lá, hoje é o baile de formatura, o que eu preciso fazer para tirar essa angustia de você? – ele sussurrou em meu ouvido, seu hálito quente deslizou pelo entorno do meu pescoço, me lembrando como estar nos braços dele remetia uma sensação de estar flutuando.
— Impossível você me conhecer melhor. — me virei, enlaçando meus braços em seu pescoço e esboçando um leve sorriso – Desculpe estar estragando sua noite.
— Eu disse que estava estragando? – ele juntou as sobrancelhas em forma de duvida.
— Não disse, mas eu...
Sua boca me calou com um selinho demorado. Eu não podia negar, a carne era fraca, eu tinha uma queda por anjos.
— Eu já lhe falei para parar com essas suas suposições, nada me deixa mais feliz do que estar ao seu lado. – novamente antes que eu pudesse responder, ele continuou sustentando aquele sorriso arrebatador – Vejamos como andam nossas progressões até agora...?
— Você se formou no colegial, entrou para uma ótima faculdade...
— Estou falando de nossas progressões, não só das minhas.
— Não sei se você percebeu ainda, que eu não me importo em como minha vida esta indo, desde que a sua esteja no caminho certo.
— Primeiro de tudo: estamos vivos. – eu sabia que ele iria me ignorar, Gabe sempre fazia isso quando achava que tinha razão, ou quando achava que eu estava falando besteira – Depois, estamos juntos. Minha família ainda esta em processo de aceitação da minha escolha. Tanto de permanecer na terra, como de ficar com você.
— Sua mãe ainda reluta sobre você ficar comigo. – eu disse com um pouco de desgosto, olhando para o lado para não precisar encarar aqueles malditos olhos que eu tanto amava. Mas novamente eu não podia negar, levaria muitos e muitos para aquela situação ficar estável, tanto para mim como para minha querida sogra.
— É, isso é verdade, mas ela mais do que ninguém sabe que minha decisão já esta tomada, e não mudarei por apenas alguns caprichos de “mãe ciumenta”.
— Falando assim, você faz parecer que ela é o demônio e não eu. – fui repreendida com aquele olhar, que eu recebia toda vez que me chamava de “capeta”, “criatura do inferno”, “demônio”, entre outros – Gabriel, você tem que encarar os fatos, posso não possuir mais meus tais dons e poderes de antes, mas continuo sendo um ser do submundo.
— Isso é outra verdade. Já perdi a conta de quantas vezes você me queimou na cama. – suas mãos deslizavam pelas minhas costas nuas, e logo sua boca depositava beijos pelo meu pescoço exposto.
Por mais que ele tentasse-me distrair com carinhos e chamegos, eu não conseguia parar de pensar em como as coisas realmente haviam mudado. Após a batalha, fomos para o apartamento dos pais de Gabriel, onde meio a contragosto, eles me acolheram até algumas das minhas piores feridas serem saradas. Naquela mesma noite eu já comecei a sentir as mudanças ocorrendo. A cidade parecia mais calma, como se uma enorme guerra houvesse desaparecido, o barulho dos carros, das sirenes, das pessoas gritando, de coisas sendo quebradas, os barulhos de uma enorme cidade haviam sido apaziguados. Os pais de Gabe estavam calmos de saberem que o filho estava bem, que ele estava feliz. O rosto de Gabe poderia estar um pouco machucado, mas ele não deixava de sorrir um minuto sequer. E bem, Angie estava mais do que satisfeita de saber que seu irmão e sua amiga de balada ainda continuavam juntos, mesmo que quase quebrados ao meio. Naquela noite, nós quatro sentamos no sofá e explicamos tudo o que havia acontecido dês do principio para Angie. Sua reação não surpreendeu o nenhum de nós. Sabíamos da genialidade fértil dela, por isso aceitou numa boa. E até chegou a pedir para Gabe conseguir telefones de alguns anjos para ela. De preferência que fossem bonitos. Porém logo depois quando todos saíram, ela me garantiu que os bonzinhos nunca haviam lhe chamado a atenção, e que era para eu conseguir o telefone de algum demônio. Pois o que ela queria era diversão mesmo. Incrível como eu cheguei um dia a pensar que Angelique era normal.
Contamos para os pais dele o que havia realmente acontecido na colina, e eles entenderam. A mãe de Gabe até chegou a dizer que não imaginava que a força do amor era tão forte. Foi então a partir deste momento que ela entendeu que estávamos juntos, e que apenas forças maiores iriam nos separar. Isso se, conseguissem.
Após alguns dias, já estávamos firmes e fortes para voltar com a nossa vida normal. Voltamos para a escola,dando a desculpa de termos feito uma viagem e no percurso de volta, sofremos um acidente de carro. Felizmente ninguém desconfiou de nada.
Além dessas mudanças, a percepção de Gabe para a “aflição” que antes era direcionada para mim, voltou-se para todas as pessoas. E aos poucos ele foi percebendo suas dores, suas emoções, e volta e meia estava aconselhando alguém ou tentando ajudar. Ainda não havia decidido qual carreira seguir, mas estava certo que seria no ramo da saúde. Incrivelmente ele já conseguia distinguir um ser humano, de um anjo. Não tentou ter contado com nenhum deles, pois me falou que pretendia seguir sua vida no mais normal estilo possível, sempre me protegendo. O estilo humano. Todavia, o peguei acenando com a cabeça para um homem loiro de olhos verdes, vestia roupas claras, que caminhava ao lado de uma garotinha. Ali, eu entendi porque ele querer viver uma vida normal. Pois era isso que todos os anjos ou meio anjos que residiam na terra estavam fazendo. Protegendo.
Quanto a mim, foi que ocorreram as mudanças mais complexas e estranhas. Eu não possuía mais nenhum poder de invocação, nem de persuasão. Meus machucados que antes saravam rapidamente, agora demoravam o tempo normal de um humano. Numa das conversas entre eu e a mãe de Gabe, ela me falou que não conhecia muito sobre minha espécie, mas que pelo que estava acontecendo comigo, podia entender que aos poucos eu estava me tornando uma humana.
Eu estava aberta a resfriados, contaminações, entre outras doenças infecciosas. Toda noite eu tinha um sonho diferente, na maioria das vezes eles eram agradáveis, porém quando não eram meu corpo ardia em febre, eu acordava completamente suada e com os músculos todos contraídos. Eu sabia que já não possuía mais meu fogo interior, mas quando sonhei que Gabe estava sendo levado para o inferno, e eu não podia fazer nada para impedir; minha raiva, desespero, medo de perdê-lo foi tão grande que explodi. Gabe me acordou aos gritos, um pouco desorientada devido ao sonho, apenas vi que ele estava ao meu lado e me atirei em seus braços. O escutei reprimir um gemido e não senti seus braços se fecharem ao meu redor, foi quando o olhei e ele estava me olhando assustado, e checando o corpo. Senti um cheiro de queimado e olhei para baixo, o lençol aos poucos começava a queimar e então eu percebi que quem estava queimando era eu. Eu estava em chamas. Minhas mãos, braços, pernas, cabelos. Tudo estava pegando fogo. E inexplicavelmente eu não sentia nada. Ainda atordoada pelo sonho e por estar em chamar, olhei para Gabe que visivelmente sentia minha angustia. Seus braços rodearam-me e seus lábios grudaram urgentes sobre os meus. Instantes depois tanto a cama como nós dois estávamos em chamas.
No dia seguinte, quando meu momento “tocha humana” havia passado, lhe perguntei como agüentou ficar comigo e ainda estar inteiro, sem nenhuma queimadura. A explicação foi simples, no primeiro momento em que me atirei em seus braços, ele sentiu o calor quente e um pouco de ardência. Mas depois que sentiu meu desespero não conseguiu manter-se longe de mim. E a partir daquele momento o fogo deixou de existir, ele não sentia nada. Sabia que pegava fogo junto comigo, mas acreditava que o amor que eu sentia por ele era tão grande e inconsciente que era impossível eu machucá-lo. Nunca mais voltou a acontecer, não com os sonhos, porém numa noite em que estávamos transando, eu explodi outra vez. Novamente ele me garantiu que nem sequer chegou a sentir o calor do fogo. Garanti-lhe que até que aquilo estivesse resolvido, não nos tocaríamos mais. Mas era praticamente impossível resistir a qualquer coisa que ele fazia, então toda vez que ocorria sexo, eu explodia. De certa forma, aquilo me deixava preocupada, até que Gabe falou que aos poucos o nível de chamas que saia de mim ia diminuindo. E que achava que dentro de alguns meses eu já saberia controlar melhor aquilo. Não procurei saber de onde aquilo tudo havia surgido e nem porque, pois realmente eu já estava conseguindo me controlar melhor.
— Então quer dizer que o senhor mentiu para mim? – cruzei os braços e olhei acusadoramente para ele.
— Você entendeu errado meu amor. As chamas que saem de você, é como se fosse sua essência. Eu não me importo nenhum pouco com elas. Aliás, você fica incrivelmente sexy quando pega fogo.
— Promete que o dia em que eu lhe machucar, você vai me falar? – fiz biquinho.
— É claro que sim. Mas não se preocupe você não me machucou em nada até agora. – e então sorriu. Senhor, realmente era impossível não desmanchar toda vez que eu via aquele sorriso. Era tranqüilizante, sereno, eu me sentia tão bem.
— Sabia que eu amo quando sorri? Você me deixa calma. – falei igual uma apaixonada abobalhada.
— Eu sei você não cansa de falar isso. Falando em calma. Você não acha que a noite esta calma demais? – olhou por cima da minha cabeça, averiguando o lugar instintivamente – Estranho, não sinto ninguém precisando de ajuda.
— Será que ela resolveu ir embora? – perguntei estranhando o lugar estar realmente como deveria estar. Um simples Baile de formatura.
— Eu não sei, mas pode ser que sim. – beijou minha testa.
— Não sei não Gabe. Jezebel é traiçoeira, aposto que esta no banheiro tentando fazer seu fogo interior funcionar. – ele riu, e larguei seus braços direcionando-me ao banheiro feminino.
Durante o pequeno percurso, varias pessoas me cumprimentaram; ente elas Bryan, o primo de Gabe, que agora estava no mesmo dilema que o primo havia passado. Continuar na terra ou virar um anjo e receber uma missão. Mas enquanto esse momento não chegava que, seria apenas no próximo ano, ele aproveitava a vida da melhor maneira possível. Comendo, bebendo, festejando e namorando.
— Olha só, se não é a mulher do anjinho. – colocou no rosto um sorriso travesso – Me diga Sheba, se um dia se cansar de meu primo, pode me procurar, eu não fico bravo.
— É claro que lhe procurarei. Mas receio que isso acontecerá numa outra encarnação. Pois nesta, Gabriel é a única coisa que me importa.
— Pois é, mais uma que me chuta! – Bryan enfiou as mãos nos bolsos, e ficou olhando ao redor.
— Não se preocupe tanto com isso, nosso destino já está traçado dês do momento em que passamos a existir. Você saberá quando achar a “certa”.
Dei-lhe um abraço e continuei caminhando até o banheiro, encontrei com Logan e Lilly e lhes felicitei pelo casamento, que havia sido uma semana antes do Baile de Formatura. Por fim, consegui entrar no banheiro, o cheiro de enxofre era quase inexistente, apenas eu que já havia convivido tanto com ele, sabia de quem era. Esperei todas as meninas que estava no banheiro, saírem para eu poder trancá-lo. Fui até a pia e me olhei no espelho, quem diria que um dia eu viria a usar uma roupa clara, um vestido verde água, que combinava perfeitamente com minha pele e meus cabelos e olhos negros. Lavei as mãos e esperei.
— Eu não vou falar com você. – escutei sua voz de dentro de uma das cabines – Não adianta insistir.
Continuei calada, pois eu sabia o que ela estava passando não era nada fácil. Deixar de ser um demônio homicida para se tornar (novamente) um simples demônio destruidor de festas era como comprar uma viagem para a Hawaii e ir para o Iraque por engano.
Entrei na cabine ao lado e sentei-me no vaso, lhe passando minha pequena bolsa pela fresta que havia embaixo das repartições. O silencio era predominante no banheiro, apenas escutei ela assuar o nariz e abrindo a bolsa para pegar as maquiagens que havia trazido. Depois daquele dia, em que lhe soquei a cara, Jezebel ficou desaparecida por dias. Não me preocupei com ela, eu sabia que estava bem, pois voltamos à colina e ela já não estava mais lá, apenas os vestígios da batalha que acontecerá.
Cheguei a pensar que nunca mais nos veríamos, até que num domingo ao entardecer a campainha do meu apartamento toca, e quando vejo quem era meu coração da uma pequena vacilada. Jezebel estava do outro lado da porta, com o rosto inchado de tanto chorar, o corpo tremia constantemente devido ao frio que passava, e as roupas pareciam se aderir ao seu corpo de tão sujas e rasgadas. Instantaneamente abri a porta, a maior parte de mim era partir-lhe a cara outra vez ao meio, mas a outra parte, a menor, rapidamente me predominou. Era a parte que me lembrava que ela era minha irmã, e que apesar de tudo eu a amava. Ela era a única que me ligava ao passado, aos meus pais. E vê-la daquele estado na minha frente, me fez repudiar a vontade de lhe socar. Seus olhos azuis já não brilhavam mais, e sua pele parecia ter ficado mais clara. Não havia expressão alguma em sua face, apenas lagrimas que escorriam por suas bochechas. Sem nem ao menos pensar, lhe envolvi em meus braços. Senhor, ela estava realmente gelada. Por alguns momentos, ela ficou imóvel, talvez estivesse em choque, até que me agarrou com todas as forças que tinha e desabou no chão chorando.
Depois de estar deitada na cama quentinha e ter comido alguma coisa, ela me contou tudo.
Sabia dês do principio que eu necessitaria da sua ajuda, pois foi assim que aconteceu com ela. Aquela história de que havia se apaixonado por um humano e depois que ele descobriu o que ela era ele a repudiou, era invenção. A verdade toda era que havia realmente se apaixonado por um humano, e que aos poucos percebeu que se continuasse daquele jeito, iria negar ser um demônio, e viveria como humano. Havia pego tanto nojo dos humanos e estava tão cega de ódio que não conseguia se imaginar sendo uma. Foi então que chamou Lilith, sua ajuda. Pediu que Lilith a guiasse para o caminho certo. E assim ela fez, ajudou Jezebel até o ultimo momento. Mas o que a matou mesmo por dentro, foi saber que Lilith havia armado para cima dela, tentando lhe destruiu. Pregou peças no homem em que Jezz era apaixonada e a mesma acabou achando que os dois estavam tendo um caso. Mordida de ciúmes, ódio e nojo, matou seu amor e brigou feio com Lilith. No fim, descobriu que tudo era uma armação e se arrependeu de tudo. Como ela queria voltar no tempo, e ter feito a escolha certa.
Foi ali que eu entendi o ódio mortal que ela tinha por Lilith, e porque ela aceitou me ajudar. Estava com inveja, de saber que eu, sua irmãzinha menor estava conseguindo o que ela nunca conseguiu. Jezzebel nunca fora muito fácil de lidar, e sempre teve um nível alto de sentimentos negativos dentro de si. Muito mais alto que vários demônios cruéis. Por fim, ela resolveu armar pra cima de mim, para ver minha destruição, não agüentaria me ver feliz no final das contas. Porém falou para si mesma que não usaria a mesma tática que Lilith, de me virar contra Gabriel. Faria ele se virar contra mim. Todavia, recebeu uma mensagem de seus superiores falando que se fizesse apenas mais uma grande maldade passaria para o próximo nível. Diante daquilo viu a chance perfeita, já não se importava comigo e minha situação, estava cega por saber que poderia subir de nível, então viu que matar um semi-anjo, não a passaria apenas um nível acima, mas como vários. E que demônio não queria aquilo? Quanto mais poder, melhor.
Quando não conseguiu destruir Gabriel, entrou em desespero. Sabia que coisa boa não a esperava, e assim foi. Logo depois que fomos embora da colina, Jezebel voltou ao inferno. Disse-me que seus superiores lhe jogaram na cara que nunca sentiram tanta vergonha de um demônio como sentiram dela. Que ela não merecia ser um demônio, que deveria definhar na terra como humana. Mas parece que diante das suas sofridas suplicas e choros, eles resolveram o que iriam fazer com ela.
— Já fazia muito tempo que eu não me sentia assim. – novamente escutei sua voz chorosa do outro lado.
— Assim como?
— Vazia. – ela fungou, e abriu a porta do banheiro. Sai do meu e fiquei fitando-a enquanto se arrumava na frente do espelho.
— Você sabe que não é o fim do mundo isso.
— Isso porque você conseguiu seu fogo interior de volta. A diferença é que não esta usando ele para o mal. Eu mal consigo sentir o meu.
— Já esqueceu o que seus superiores falaram? Que recuperaria aos poucos as coisas que tinha, principalmente seu fogo. Você tem que fazer por merecer.
— Isso é tão humano, é nojento.
— Você logo, logo acostuma. – permiti sorrir.
— Você esta feliz, não esta? – ela perguntou pela primeira vez desde que foi morar lá em casa.
— Muito, mais do que eu deveria.
— Isso é bom, isso é muito bom. – ela abaixou a cabeça e ficou mexendo nervosamente na bolsa.
— Isso que estou vendo é vestígio de sentimentos bons por mim.
— É maninha, depois de tudo que passamos, seria impossível eu ainda querer seu mal. – comentou exausta. Começamos a ouvir batidos incansáveis na porta do banheiro, e alguns gritinhos irritantes.
— Que bom Jezz, quem sabe que não mude de lado também.
— DEUS ME LIVRE! ESTÁ PARA NASCER DEMÔNIO, ANJO, EXTRATERRESTRE, COELHO DA PÁSCOA, PAPAI NOEL, ENFIM, TÁ PRA NASCER HOMEM QUE ME FAÇA MUDAR DE IDÉIA. – foi até mim, e ajeitou alguns cachos que pendiam sobre meus ombros – E, por favor, quando ele nascer me avise, para eu poder manter distância.
— Pode deixar que eu avisarei. – esfreguei seus ombros – Esta melhor?
— Nada que uma “choradeira” não melhore, não é? Agora vamos que eu tenho uma formatura para estragar.
— Desde que você não se meta comigo e com meus amigos, o salão é todo seu!
— Com você eu não me meto nem pra jogar mais carta, se duvidar ainda levo outro soco. — Rimos, e ela foi até a porta que estava quase sendo arrombada. Abriu-a bruscamente e encarou com escárnio a loira que estava a sua frente. – SERÁ QUE VOCÊ NÃO PERCEBEU QUE EU ESTAVA TENDO UMA CRISE EXISTENCIAL?
E passou batido pela porta, deixando as moças que estavam querendo usar o banheiro de olhos arregalados. Realmente Jezebel não mudaria, apenas aparentava ser menos perigosa agora que tinha que achar seu fogo interior outra vez. A vi se afastar de mim, e por onde passava pequenas coisas aconteciam, como alguém esbarrar e um vestido acabar sujo, ou uma unha quebrar, o cara ter uma crise de ciúmes.
Música (Goo Goo Dolls – Black Balloon)
Logo eu estava nos braços de Gabe, e ele já nos rodopiava pela pista de dança. Beijei seus doces lábios demoradamente.
— Como ela está? – ele perguntou beijando o lóbulo da minha orelha.
— Nervosa, temperamental, emotiva, e com vontade de socar alguém.
— Então ela esta normal. – falou como se aquilo fosse à coisa mais normal do mundo.
— Exato.
— Fale Sheba, você esta nesta angustia há alguns dias, e nem sequer me falou nada.
— Pensei que pudesse lhe esconder algo, mas já vi que não. – tentei sorrir, mas Gabe apenas me encarava receoso. – Eu tenho medo. Medo de que as coisas venham se complicar. Não somos humanos completos, você tem seu anjo interior e eu tenho meu demônio. Nós mais do que ninguém sabemos que tal união não é permitida. Se um dia vierem a descobrirem que estamos juntos, podem tentar nos separar. Sabemos que os dois mundos têm artimanhas incríveis. Não quero lhe perder, te amo muito mais do que consigo, mas não posso suportar te ver sofrendo outra vez, se machucando novamente por mim. Sou egoísta demais para não lhe deixar viver sua vida em paz, quero você comigo. E sei que sozinha não conseguirei, mas se você não me quiser mais, acho que será melhor,eu entenderei...
Eu já estava aos prantos, soluçava sem parar, assim como as lágrimas se tornaram independentes. Gabe pegou meu rosto delicadamente, e me fez fita-lo. Eu estava em tanto desespero, que não havia percebido como também o estava deixando angustiado. Sem falar nada, beijou várias e várias vezes meu rosto, até deixar sua testa encostada na minha.
— Se eu desistir de você, eu desisto de mim. Se lutarmos pela verdade, ficaremos juntos. Mesmo se Deus e a fé que eu tenho, não quisessem me ver aqui, não quisessem me ver com você. Eu não permitiria. Eu posso sentir o sangue correndo em minhas veias,quando ouço a sua voz, me enlouquecendo. Hora após hora, dia após dia. Nós vivemos nossas vidas em lados diferentes, mas continuamos juntos, você e eu. Sim, nós viveremos nossas vidas, levaremos socos todos os dias. Eu sei que encontraremos um jeito. E eu acredito em você Sheba, eu acredito em nós. Mesmo que ninguém entenda. E sabe do que mais? Eu não dou à mínima. Quem se importa com a intervenção divina? Eu quero viver minha vida da minha maneira, eu quero viver com você. Então eu penso que, milhares de outros caras nunca poderiam te alcançar, como eu pude ter sido o escolhido? Estamos juntos por um motivo Sheba, nossos destinos já haviam sidos traçados. Quem me garante que era para não termos nos conhecidos? Quem me garante que tinha que ser assim, como esta sendo? Não temos tempo a perder, não me importo se quando nos conhecemos o mundo se revirou, se os anjos ou os demônios levantaram para nos observar. Não estou ligando se você não me quiser mais, se quiser ser demônio outra vez! Eu não deixarei, eu continuarei te trazendo para mim, quantas vezes for preciso. Lutarei contra anjos e demônios, lutarei contra tudo e todos. Eu sempre vou te trazer para casa, tudo porque eu sou... Tudo porque você se tornou para mim. O céu pode ser azul, mas eu não me importo. Por você eu vou até para o inferno.
Não havia mais o que ser dito. Não precisava. Qualquer outra palavra que eu dissesse não seria capaz de superar o que ele havia dito. NADA seria capaz de mudar o que eu estava sentindo. Que os deuses descessem, que os demônios subissem. Que outra guerra se formasse. Eu lutaria, nós lutaríamos, lado a lado. Sempre.
— O que você me diz? – ele perguntou esboçando o sorriso mais fascinante que ele já havia dado, seus olhos brilhavam de excitação.
-Eu quero uma doce fuga, me leve para o paraíso, me leve para o lugar mais alto, onde eu possa sorrir e sentir que tudo ficara bem. Quero fazer uma viagem sem rumo, pelas rodovias, pelas ferrovias, pelos mares, pelos ares, sem dia marcado para voltar. Quero você e eu, juntos para sempre, numa doce fuga.
Sua mão agarrou forte a minha e me puxou para a porta de saída. As pessoas afastavam-se rapidamente de nós, olhando-nos assustados da maneira maluca que corríamos pelo salão. Finalmente chegamos ao lado de fora, o bafo quente da noite nos atingiu. Rapidamente entramos no carro e corremos estrada a fora. Por onde passávamos olhares nos encaravam. Sim, já estavam nos observando. Há quanto tempo? Eu não fazia a mínima idéia, e pouco me importava.
Apertei a mão de Gabe que ainda segurava a minha, e olhando em seus olhos, vi sua alma. Sua voz macia me deixou mais calma. E vi no seu sorriso todo o meu futuro, uma luz que acende num caminho escuro.
FIM
POV JEZEBEL
Eu estava feliz por Sheba, realmente eu estava feliz. Mas ali não era momento e nem hora para ficar feliz. Eu tinha que estar em fúria, roendo de ódio e nojo. Eu tinha que estar em chamas. Mas pelo visto, nem isso eu era capaz de fazer.
Peguei mais um copo de ponche e entornei, acho que era o décimo quinto copo que eu bebia, e nem mesmo assim eu conseguia esquecer os problemas. Várias caras já haviam chegado em mim e me xavecado, mas minha resposta era sempre a mesma: NÃO! Porém o que eu gostaria mesmo de dizer era: NÃO CHEGA PERTO, QUE DA SUA ESPÉCIE EU JÁ SOU VACINADA.
Era óbvio que eles me chamariam de maluca, de doida, e ainda arruinaria de alguma maneira minha noite. Então eu ficava apenas com o curto e o grosso: NÃO!
Entornei outro copo e resolvi dar mais uma varrida no local, ver se tinha mais alguma coisa cruel que eu pudesse destruir sem ser notada. Eu estava me sentindo o fantasminha camarada. Nossa Senhora, que de virgem não tem nada, como eu sentia falta do meu fogo interior. Ele era tão quente e excitante, eu me sentia tão bem, tão acolhida quando eu entrava em contato com ele. Sem contar que as malvadezas que eu podia cometer eram muito maiores do que essas realizadas agora. Que eram no mínimo broxantes.
Larguei meu copo encima da mesa, e comecei a andar pelo meio dos casais dançantes. Esbarrei sem querer querendo num cara, que derrubou bebida na acompanhante, pisei num vestido que acabou rasgado, me insinuei para outro cara que levou um tapa, pisei no pé de uma garota. Isso tudo sem querer. Eu era boazinha demais para cometer tais atos. Olhei para um casal que corria até a porta de saída, sorriam iguais a dois abobados, e então notei ser Sheba e Gabriel. Diabos, eles tinham motivos para sorrirem desse jeito.
Novamente fiquei com inveja de minha irmã por estar com alguém. Não que eu quisesse estar com alguém, mas eu era gostosa demais para sair de uma formatura sem um acompanhante. E bem, pegar um humano uma vez só, por apenas uma noite, não iria me causar problema algum. Por fim, acabei decidindo que o primeiro que aparecesse na minha frente, seria minha vitima.
Discretamente olhei a procura de alguém que fosse digno de ser o “primeiro que aparecer na minha frente”. Mas não achava ninguém. Logo o cheiro forte de enxofre atingia minhas narinas, procurei por aquele cheiro e o achei encostado numa parede, com os braços cruzados e me olhando. Era só o que me faltava, terem colocado uma babá para me vigiarem. Mostrei o dedo do meio para o demônio e sai andando, e outro cheiro me atingiu, dessa vez era doce, e até demais. Novamente procurei em volta e achei uma mulher vestida de branco, essa, porém não olhava para mim. Mas consegui distinguir na hora que se tratava de um anjo. Não me importava o que ela estava fazendo desde que, ficasse longe do meu caminho, eu ficaria bem.
Dei um giro de 360 graus e congelei quando vi aqueles olhos. Negros, queimando em ódio. Seu corpo pequeno quase passava despercebido se não fosse pelo vestido de couro de cachorro do inferno que usava. Ou seja, todos os olhares masculinos estavam virados para ela. Lilith. O ser que eu mais odiava na face do universo. Meu sangue congelou e logo borbulhou de raiva. Não me interessava se ela estava ali apenas observando, ou debochando da minha cara. Eu não ligava se ela era mais forte que eu, pelo menos um soco,eu poderia desferir em seu rosto.
Olhei para o demônio que antes me observava e agora e já estava desencostado da parede, com as sobrancelhas juntas, se perguntando certamente o que se passava na minha cabeça. Olhei para o anjo na mesa de bebida, e agora a mesma me encarava curiosamente, mas logo desviou seu olhar mais para frente. Ignorando os dois, trilhei o caminho mais rápido até Lilith. Esbarrei em várias pessoas, porém do nada, costas enormes aparecerem na minha frente, e eu fui com tudo para o chão.
— Me desculpe, eu não vi que você estava atrás de mim. – o garoto falava comigo, mas eu só conseguia prestar atenção para onde Lilith estava. Na verdade onde ela deveria estar. A diaba havia sumido. Desgraçada, iria dormir sem levar um soco. Nervosa por ter perdido meu alvo, olhei para o outro alvo, aquele que eu ia matar.
Minha vontade era de lhe xingar, arrancar sua cabeça. Mas petrifiquei ao olhar em seus olhos. Esmeraldas, do mais puro verde brilhante que eu já havia visto. Seu cabelo loiro escondia levemente aquela mina de esmeraldas. As bochechas rosadas, demonstrando como ele era saudável, e os lábios, cheios, convidativos, da mais pura e doce carne macia, abriam-se num leve sorriso de canto, mostrando seus dentes brancos. A camisa branca estava aberta em alguns botões deixando a mostra seu peito definido e bronzeado, a gravata afrouxada lhe dava um ar descontraído, suas mangas estavam arregaçadas até o antebraço, porém seus músculos não passavam despercebidos, e por fim as calças emoldurando a protuberância no meio de suas pernas. Minha virgem da bicicletinha amarela, era aquele homem que ia para minha cama aquela noite. Nem Lilith, nem o raio que a parta mudaria aquilo.
— Aham. – eu resmunguei meio absorta nos meus pensamentos.
— Aham o que? – ele perguntou, passando a língua nos lábios.
— Aham, eu estou bem! – respondi enquanto eu tentava inutilmente desviar o olhar daqueles olhos.
— Hum, que bom! – ele riu, me fazendo acordar. – Me desculpe mesmo, não vi você atrás de mim. – esticou uma mão para me ajudar levantar.
Olhei para sua mão, e por entre suas pernas, vi duas pessoas andando rapidamente na nossa direção. Uma delas era o demônio baby sister, tentava afastar as pessoas rapidamente do seu caminho, mas parecia missão impossível 4. Seu rosto agora estava em desespero, cheio de ódio e raiva. E a outra pessoa era a tal da anja, tentava afastar as pessoas do seu caminho também, mas sem surtir muito efeito. Sua boca estava uma linha reta, e consegui perceber em seus olhos o mesmo desespero que estampava o rosto da minha babá. E estranhamente os dois olhavam para mim. Se aquela loira aguada achava que ia roubar o garimpeiro de mim, ela estava muito enganada. Eles estavam quase chegando onde estávamos, quando finalmente eu peguei a mão do cara que me derrubou no chão.
O puxão que ele deu foi um pouco forte, e acabei chocando contra seu peito, nossos rostos a apenas alguns centímetros de distância. Inexplicavelmente quando toquei em seu corpo, uma sensação tão boa, tranqüila e serena perpassou pelo meu. Eu já não me sentia mais vazia, ou angustiada, eu estava...sem palavras para descrever.
— Prazer, Bryan.
— É satisfação, prazer é só na cama. — ele sorriu largo, me fazendo sorrir também – Jezebel.
— Gostaria de sair daqui Jezebel?
— Sim, muito.
Antes de lhe dar minha mão outra vez, procurei pelo demônio, e o achei num canto escuro, com os punhos cerrados. Afrouxou a gravata raivosamente e socou uma parede, deixando um pequeno estrago lá, e por fim desaparecendo, fazendo o cheiro de enxofre aumentar. Olhei para a anja e a vi no mesmo lugar, só que com os ombros caídos, a cor parecia haver desaparecido do seu rosto, assim como a mão que lhe tapava a boca parecia impedir-lhe de gritar.
Porque será que eles estavam assim? O que eu tinha feito de errado? Eu sabia que estava sendo observada, mas por que o ser celeste também me observar? A não ser que... NÃO! NÃO! ISSO SÓ PODE SER BRINCADEIRA!
Era óbvio que não era brincadeira. Eu só precisava ligar os fatos, demônio na festa cuidando de demônio, e anjo na festa cuidando de anjo. Que INFELIZMENTE era o mesmo anjo que me segurava em seus braços. Como eu não fui perceber antes? E todos aqueles sinais? Os olhos celestes, a aura branca, a voz doce, a beleza extrema! Isso só podia ser alguma pegadinha da Sheba e do Gabe. Mas eles nem estavam na festa. Melhor aquilo era carma, Lilith estava armando para cima de mim outra vez.
Eu havia caído numa cilada, agora inevitavelmente eu pertencia a ele.
FIM?(ou será que não?)
GOSTOU? QUE TAL RECOMENDAR AGORA??!!?!!(Y)
Notas finais
Mas enfim, pessoal eu quero agradecer do fundo do meu coração pelos reviews lindos que vcs me mandaram, peço minhas sinceras desculpas pelas demoras para postar, por não ter experiencia nenhuma no ramo. Acho que todas puderam perceber que mudei muito a forma de escrever do primeiro cap até o ulimo(se eu pudesse voltaria atras e mudaria mta coisa na fic, por isso vou apenas beta-la melhor), eu mesma confirmo que amadureci muito, mas nada comparado a muitos que tem por ai. ESPERO DO FUNDO DO CORAÇÃO QUE TENHAM GOSTADO. EU AMEI ESCREVER ESSE CAPITULO. AMO ESTÓRIAS DESSE TIPO, QUE ENVOLVEM ROMANCES QUASE IMPOSSIVEIS E BLÁBLÁBLÁ!!!
AGRADEÇO NOVAMENTE A TODOS QUE COMENTARAM, QUE LERAM ATÉ O FINAL, QUE RECOMENDARAM *-*
E UM PEDIDO A VCS LEITORES, COMENTEM NESTE EPÍLOGO, NEM QUE SEJA PARA ME XINGAR. NÃO DEIXEM DE DAR SUA OPINIÃO.
AGORA UMA PERGUNTA IMPORTANTE: QUEM GOSTARIA DE UMA ONE-SHOT DE 5 CAPS CONTANDO A HISTÓRIA DA JEZEBEL E DO BRYAN? EU JA TENHO A IDÉIA FORMADA. SÓ PRECISO SABER SE POSSO CONTAR COM VCS!!
MUITO OBRIGADA NOVAMENTE.
ENORMES BEIJOS.
ISA SARTOR
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