Entre o Dever e o Desejo
33 Sangue, Chá e Espadas
Cinco anos haviam se passado desde que os gritos de vida ecoaram simultaneamente no castelo. A paz que se seguiu não era apenas política; era uma paz barulhenta, cheia de risos e, como naquele fim de tarde nos jardins reais, de pequenas e adoráveis disputas.
O sol de ouro de Astúria banhava o jardim privado, onde uma pequena mesa de ferro forjado estava posta com xícaras de porcelana minúsculas e vários bonecos de pano sentados em posições rígidas.
— Caelum Heraldrick, eu já mandei você se sentar! — A voz da pequena Aria soou com uma autoridade que faria o Cardeal tremer.
Ela estava com as mãos nos quadris, o vestidinho de seda sujo de grama nas barras e os cachos negros, herança de Gaspar, balançando com a sua indignação.
— Eu não vou sentar aí, Aria! — O pequeno Caelum respondeu, segurando uma espada de madeira e um escudo com o brasão de Valmor. — Eu sou um Duque e um guerreiro! Guerreiros não tomam chá de mentirinha com bonecas de pano. Isso é coisa de mulherzinha!
— Não é "coisa de mulherzinha", seu bobo! — Aria retrucou, os olhos brilhando com a mesma fúria impetuosa de Gaspar. — É uma reunião de conselho! E a Rainha está mandando o Duque tomar o chá de jasmim agora mesmo!
Caelum bufou, cruzando os braços sobre o peito robusto. — Pois a Rainha vai ter que me pegar primeiro!
Ele saiu em disparada pelos arbustos de rosas, rindo alto, enquanto Aria pegava o seu cetro de brinquedo e corria atrás dele, gritando que ele seria colocado na masmorra (de brincadeira) por insubordinação.
À distância, sob a sombra de um carvalho centenário, os quatro adultos observavam a cena com canecas de vinho e sorrisos de puro contentamento.
— Ela tem o seu gênio, Gaspar — Richard comentou, encostando o ombro no do irmão. — Boa sorte para o meu filho quando eles crescerem. Ele não tem a menor chance contra ela.
Gaspar soltou uma risada ruidosa, observando a filha quase alcançar o sobrinho.
— Ele é um Heraldrick, Richard. Vai fingir que resiste só para ver o fogo nos olhos dela, exatamente como nós fazíamos. Mas, no fundo, ele já é o súdito mais fiel que ela terá.
Claire descansava a cabeça no ombro de Gaspar, sentindo a paz que outrora parecia impossível.
— Quem diria que a nossa maior preocupação hoje seria um chá recusado e uma espada de madeira?
Katrina, sentada na grama ao lado deles, observava os pequenos com um olhar sereno. Ela não usava mais as joias pesadas da corte, preferindo a simplicidade que sempre amou.
— É o som da liberdade, Claire. Eles não têm medo. Eles podem ser crianças, podem brigar e podem amar sem que o mundo desabe sobre eles.
Gaspar puxou Claire para mais perto e estendeu a mão para Richard, que a apertou com força. Ali, no jardim de um reino que quase os destruiu, eles haviam construído algo inquebrável.
— Olhem para eles — sussurrou Gaspar, enquanto via Aria finalmente conseguir "capturar" Caelum, e os dois caírem na grama rindo, esquecendo a briga e começando uma nova brincadeira. — O sacrifício valeu a pena. Cada masmorra, cada exílio... cada lágrima.
O sol se pôs no horizonte de Astúria, não sobre um reino de sombras e leis frias, mas sobre uma família que provou que, mesmo quando a coroa pesa e o mundo exige silêncio, o coração sempre encontra o caminho de volta para casa.
FIM
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