Entre o Dever e o Desejo

1 O Som das Trombetas e o Peso do Destino ​O Reino


Valerion era conhecido por suas primaveras eternas e pela rigidez de suas tradições. Claire Mackenzie, no entanto, sentia que o ar do palácio nunca estivera tão denso. Da sacada de seu quarto, ela observava os preparativos nos jardins: estandartes azul e prata — as cores de sua família — eram hasteados ao lado de bandeiras negras e douradas que ela ainda não conhecia bem. Eram as cores da Casa Heraldrick.

​— Claire, você precisa terminar de se vestir.

​A voz da Rainha Marissa era suave, mas carregava a autoridade de quem já havia passado por aquilo. Claire virou-se, vendo a mãe segurar um corpete de seda pesada.

​— Sebastian se casou por amor, mamãe. Selina era sua escolha antes mesmo de ser uma necessidade política — protestou Claire, sentindo os 17 anos pesarem como um século em seus ombros.

​— Seu irmão teve sorte, Claire. Mas ele é o herdeiro. Você é o elo que manterá o Rei Dominic em paz com o Norte. O Rei Richard sofreu muito com a perda dos pais naquele naufrágio; ele busca solidez, não romance.

​Pouco depois, no Salão do Trono, o decreto foi oficializado. Diante de Sebastian, Selina e de toda a corte, o Rei Dominic declarou o destino de sua filha única. O acordo com o Reino de Astúria estava selado. Claire seria a Rainha de um homem que nunca vira, um rei forjado pelo luto e pelo gelo das montanhas do norte.

​Enquanto isso, a quilômetros dali, uma carruagem negra com o brasão da fênix dourada avançava pelas estradas sinuosas que levavam a Valerion. No interior, o silêncio era interrompido apenas pelo ranger das rodas e o trote dos cavalos.

​Richard Heraldrick, o Rei de Astúria, mantinha os olhos fixos em um mapa de rotas comerciais. Sua postura era impecável, os ombros largos pareciam carregar o peso de todo o seu reino. Ao seu lado, jogado de forma muito mais descontraída contra o estofado de couro, estava seu irmão mais novo, Gaspar.

​— Você vai acabar abrindo um buraco nesse pergaminho se continuar encarando-o assim, irmão — disse Gaspar, um sorriso de canto brincando em seus lábios. — Estamos indo para um noivado, não para uma execução.

​Richard não desviou o olhar.

— Para um rei, Gaspar, muitas vezes as duas coisas são parecidas. Preciso dessa aliança. Astúria precisa da frota de Valerion e da agricultura deles. O naufrágio que levou nossos pais não levou apenas vidas, levou nossa segurança.

​— E a princesa? — Gaspar inclinou a cabeça, curioso. — Ouvi dizer que Claire Mackenzie é a joia de Valerion. Dizem que ela tem o espírito do fogo, apesar de viver em um reino de flores.

​— Ela será uma boa rainha — respondeu Richard de forma pragmática. — É jovem, educada e de boa linhagem. O resto é secundário.

​Gaspar soltou uma risada curta, olhando pela janela enquanto as torres de Valerion começavam a surgir no horizonte.

— Você sempre foi o mais sensato, Richard. O dever acima de tudo. Mas tome cuidado... às vezes o que é "secundário" é exatamente o que nos incendeia a alma. Eu, por exemplo, pretendo aproveitar o banquete e a beleza das damas da corte. Alguém nesta família tem que se lembrar de como é estar vivo.

​Richard finalmente fechou o mapa e olhou para o irmão. Seus olhos eram sérios, marcados pelas responsabilidades que herdara cedo demais.

— Comporte-se, Gaspar. Não estamos em uma de suas caçadas. Estamos em solo aliado.

​— Eu sempre me comporto, irmão — mentiu Gaspar, seus olhos brilhando com uma antecipação que nada tinha a ver com política. — Só estou ansioso para ver se a princesa é realmente tudo o que dizem.

​A carruagem atravessou os portões principais. O som das trombetas de Valerion ecoou, anunciando a chegada dos pretendentes. Claire, no topo da escadaria do palácio, sentiu um calafrio. Ela viu a porta da carruagem se abrir.

​Primeiro, desceu o homem que seria seu marido: Richard, sério e imponente. Mas foi o segundo homem, aquele que desceu com um salto ágil e um olhar que parecia ler todos os seus segredos à distância, que fez o coração de Claire errar a batida pela primeira vez em dezessete anos.

​O destino de dois reinos acabara de entrar pelo portão, e Claire percebeu, com um pavor súbito, que o perigo não estava no Rei que a reivindicaria, mas no irmão que apenas a observava.