Entre o Dever e o Desejo
30 O Prenúncio de uma Nova Era
O sol da manhã entrava pelas grandes janelas da sala de desjejum real, iluminando a mesa farta de frutas, pães frescos e uma seleção de queijos artesanais de Astúria. A paz que reinava entre os quatro era visível no modo como conversavam, longe das intrigas que um dia os assombraram.
Gaspar cortava um pedaço de queijo brie quando o aroma forte do laticínio se espalhou pela mesa. Claire, que estava prestes a levar uma uva à boca, empalideceu instantaneamente. Ela levou a mão à boca, seus olhos se arregalaram e, sem dizer uma palavra, levantou-se bruscamente, correndo em direção aos sanitários anexos.
Gaspar largou a faca, preocupado.
— Claire? O que houve? Será que o vinho de ontem estava estragado?
Ele fez menção de se levantar, mas Katrina colocou a mão suavemente sobre o braço do rei, mantendo um sorriso enigmático e sereno no rosto.
— Fique calmo, Gaspar — disse Katrina, os olhos brilhando. — O vinho estava perfeito.
Richard observou a esposa, percebendo o brilho diferente no olhar dela.
— Katrina, você sabe de algo que não estamos vendo?
Katrina riu baixinho, uma risada doce que preencheu a sala.
— Eu sou filha de ervas e curas, Richard. Conheço os sinais antes mesmo que o corpo os admita. O nojo de Claire não é doença. É a vida reclamando seu espaço.
Gaspar franziu o cenho, o coração começando a acelerar.
— Você está dizendo que...?
— Estou dizendo — interrompeu Katrina, olhando de Gaspar para Richard — que em breve este reino não terá apenas um herdeiro, mas dois. Porque eu também senti esse mesmo enjoo ao amanhecer, mas consegui disfarçar até sentarmos à mesa.
O silêncio que se seguiu foi de puro choque, quebrado apenas pelo som de Claire retornando à sala, limpando o rosto com um lenço de seda, ainda um pouco pálida.
— Peço perdão... — Claire começou, com a voz trêmula. — Eu não sei o que deu em mim, o cheiro daquele queijo me pareceu insuportável...
Gaspar não a deixou terminar. Ele atravessou a sala em dois passos e a agarrou pela cintura, tirando-a do chão em um abraço impetuoso.
— Um herdeiro, Claire! — Gaspar exclamou, beijando o rosto dela com uma alegria selvagem. — Você ouviu o que a nossa Duquesa disse? Você vai me dar o filho que Roma disse que nunca teríamos!
Claire arregalou os olhos, olhando para Katrina, que assentiu com um sorriso cúmplice. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da rainha, mas desta vez eram de pura felicidade.
— Um filho, Gaspar... o nosso filho.
Richard, ainda processando a notícia dupla, virou-se para Katrina. Ele segurou as mãos dela, os olhos marejados de uma emoção que ele raramente demonstrava.
— E você, minha querida... — Richard sussurrou, a voz falhando. — Você também?
— Sim, meu Príncipe — Katrina respondeu, puxando-o para perto. — Nossa pequena cabana na ilha terá que se transformar em um quarto de brincadeiras aqui no castelo.
Richard a puxou para um beijo profundo e carregado de promessas, enquanto Gaspar, ainda segurando Claire, girava-a pelo salão, rindo alto.
— Que o clero se prepare! — Gaspar gritou para as paredes de pedra. — Eles queriam um herdeiro para salvar o reino, e nós daremos dois para transformá-lo!
Ali, naquela manhã ensolarada, a maldição da esterilidade e do dever havia sido enterrada para sempre. O amor, que havia sobrevivido ao exílio e à dor, florescia agora de forma mais concreta do que qualquer coroa ou título. Astúria não pertencia mais ao passado; pertencia às crianças que estavam por vir.
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