A tensão que parecia insolúvel finalmente encontra um momento de honestidade brutal entre os dois irmãos. O destino de Astúria e Valerion agora depende de uma conversa franca entre o Rei e o Príncipe.


​O sol começava a se pôr, tingindo as montanhas de Astúria com tons de sangue e ouro. Richard estava em seu gabinete, ainda com as botas sujas da cavalgada com Katrina, quando a porta se abriu. Gaspar entrou, mas não havia deboche em seu rosto. Ele parecia um homem que carregava o peso de uma montanha.

​— Richard. Precisamos falar. E não como rei e súdito, mas como sangue do mesmo sangue — Gaspar disse, fechando a porta e trancando-a.

​Richard serviu dois cálices de vinho, entregando um ao irmão. Ele parecia calmo, uma calma que surpreendeu Gaspar.

— Eu sei o que você vai dizer, Gaspar. Eu vi Claire saindo das cavalariças. Ela tinha o mesmo olhar que eu vi em Katrina hoje à tarde.

​Gaspar travou a mandíbula, mas não recuou.

— Ela me ama, Richard. E eu a amo. Passei quatro anos tentando fugir desse sentimento, mas ele é mais forte que qualquer exílio. Se você quiser me mandar para a forca por traição, eu entendo. Mas não vou mais mentir.

​Para a surpresa de Gaspar, Richard soltou uma risada curta e amarga, antes de abrir um sorriso cansado.

— Mandar você para a forca? Eu seria um hipócrita, meu irmão. Eu passaria o resto da minha vida na cela ao lado da sua, porque o meu coração pertence a Katrina Swanson.

​Os dois irmãos se encararam em um silêncio carregado. O segredo que poderia destruí-los estava agora sobre a mesa, compartilhado.

​— Então, o que fazemos? — Gaspar perguntou, sentando-se à frente do irmão. — Claire quer você, mas ama a mim. Você ama a plebeia, mas é casado com a rainha.

​— Precisamos resolver isso — Richard disse, sua expressão tornando-se severa e pragmática. — Mas não é simples. Se eu anular o casamento ou simplesmente assumir Katrina, o Reino de Valerion cairá sobre nós. Dominic e Marissa nunca aceitariam tamanha afronta. Eles viriam buscar Claire à força, e isso significaria guerra.

​Richard levantou-se e começou a andar pelo gabinete, a mente estrategista trabalhando a mil por hora.

— Além disso, há o povo. E há a Igreja. Se eu trocar uma princesa de linhagem pura por uma serva, o conselho nobre e o Vaticano em Roma veriam isso como uma heresia contra a ordem divina. Eles me tirariam do poder em um piscar de olhos para colocar alguém "mais digno" no trono.

​— Você está dizendo que estamos presos? — Gaspar perguntou, a voz sombria.

​— Estou dizendo que precisamos de um plano onde ninguém perca a cabeça, literalmente — Richard olhou profundamente para o irmão. — Eu quero Katrina ao meu lado. Ela é a única que me faz sentir que a coroa não é uma sentença de morte. Mas precisamos ser cautelosos. Se Roma ou Valerion sentirem o cheiro de escândalo, Astúria será reduzida a cinzas.

​Gaspar inclinou-se para a frente, o brilho rebelde voltando aos olhos.

— Então vamos dar a eles um teatro, Richard. Vamos criar uma solução onde Claire saia como a protegida e Katrina como algo que eles não possam contestar. Se vamos pecar contra as leis dos homens, que façamos de forma que eles nunca possam provar.

​Richard assentiu, levantando o cálice em um brinde silencioso. O pacto estava selado: dois irmãos, duas mulheres e um reino por um fio. O amor havia vencido a primeira batalha, mas a guerra contra as tradições de séculos estava apenas começando.