Entre o Dever e o Desejo
23 A Carne e a Alma
O quarto real, que deveria ser o santuário da linhagem de Astúria, havia se tornado o cenário de um tormento silencioso. Velas queimavam até o fim enquanto Richard e Claire tentavam cumprir o papel que o mundo esperava deles, mas o corpo se recusava a obedecer a um coração que não lhe pertencia.
As noites eram as mais difíceis. Richard aproximava-se de Claire com a determinação de um soldado cumprindo uma missão suicida. Ele a tocava com gentileza, mas não havia fogo, apenas a obrigação fria de um contrato.
Claire fechava os olhos, tentando imaginar o perfume de sândalo e mar de Gaspar, tentando enganar os próprios sentidos. Mas, quando abria os olhos e via Richard, a realidade a atingia como um soco. Ele não era o homem que ela desejava, e ela via no olhar dele que ela não era a mulher que o fazia perder o fôlego.
Em uma dessas noites, no meio de um beijo sem vida, Richard afastou-se bruscamente, sentando-se na borda da cama com a cabeça entre as mãos. O silêncio que se seguiu foi cortante.
— Eu não consigo, Claire — ele sussurrou, a voz carregada de uma frustração dolorosa. — Por mais que eu tente... a minha mente me leva para outro lugar. Eu sinto que estou traindo a mim mesmo e a você.
Claire puxou os lençóis para cobrir o corpo, sentindo-se mais exposta e humilhada do que se estivesse nua em praça pública.
— Eu me sinto como um lixo, Richard. Como um objeto quebrado que você está tentando consertar à força. Toda vez que paramos no meio, eu sinto que sou o problema, que o meu corpo não é o suficiente para apagar a lembrança de Katrina da sua mente.
— Não diga isso — Richard virou-se para ela, os olhos cheios de culpa. — Você é uma mulher magnífica. O problema não é você, nem sou eu. É este castelo, são estas leis. Estamos tentando plantar vida em um solo que já foi queimado pelo que sentimos por outras pessoas.
Claire sentou-se ao lado dele, as lágrimas escorrendo sem esforço.
— O clero conta cada dia. Já se passaram seis meses, Richard. Metade do nosso prazo se foi. Se não conseguirmos... se não houver um filho, eu serei jogada fora. E você será obrigado a colocar outra mulher nesta cama para fazer o que eu não consigo.
Richard a abraçou, um abraço de dois náufragos que sabem que o bote está furado.
— O sentimento não nos deixa, Claire. Ele é a nossa maior virtude e a nossa maior maldição.
Enquanto isso, a pressão externa aumentava. O Cardeal Malachi agora enviava "médicos da fé" para examinar a rainha, sugerindo poções e rituais de purificação que só serviam para aumentar o sentimento de inutilidade de Claire.
Ela passava os dias vagando pelos corredores, observando o berço vazio que fora preparado anos atrás, sentindo que sua dignidade estava sendo drenada a cada lua cheia que passava sem que seu ventre desse sinais de vida. O amor por Gaspar, que antes era sua força, agora parecia o grilhão que a impedia de salvar a própria vida. Eles tinham o reino, tinham as coroas, mas eram prisioneiros de uma verdade que o ato carnal não conseguia ocultar.
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