Entre o Céu e o Mar.
11 "Na vera o que despreza é o que se dá valor"
Notas iniciais
Regina devia estar enlouquecendo, não havia outra explicação para o que ela havia feito na noite anterior e agora de manhã. No hospital ela fez um discurso sobre como não me amava, e como eu havia confundido as coisas, e ontem lá estava ela me chupando, me marcando e, basicamente, dizendo que eu pertencia a ela. Hoje pelo mesmo modo, só que não aguentei. Não aguentei mesmo, quem ela pensa que é? Só por que eu sou apaixonada por ela, não quer dizer que ela tenha o direito de fazer o que bem entender comigo.
Estou animada para a viagem a Salvador. Nunca fui lá, mas sei que a cidade transpira história. Como diz a música, a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem, e eu, mesmo não estando lá, sei que o lugar se diferencia e se faz notar de um jeito ou de outro.
Tudo de bom tem seu lado ruim, certo? Certo. A monitora do meu grupo na viagem seria ninguém mais, ninguém menos, que Regina Mills. A mulher que me amava sem querer admitir ou me odiava a ponto de não querer me ver mais feliz com mulher nenhuma.
– SQ –
Eu já falei que odeio altura? Estávamos nós, mais de 100 adolescentes tagarelas, com nossos 3 professores, 3 monitores e a mala sem alça da Fiona que resolveu vir junto, dentro do avião fretado exclusivamente para nos levar até Salvador, e eu, na cadeira entre Ruby e Lily, me tremendo de medo.
A cada sacudida que o avião dava meu coração chegava na garganta. Desisti de ficar sentada e levantei para ir ao banheiro lavar o rosto. O banheiro ficava no fundo do avião e eu estava sentada pelo meio, então tive que levantar e andar até lá. No exato momento em que eu estava passando pela fileira de Regina, o avião meneou para a esquerda e eu caí por cima dela. Não somente por cima dela, como por cima de Zelena e Killian também. Ótimo, Emma, pensei comigo mesma. Caí de forma que eu estava no colo de Regina, e meu tronco estava para trás, deixando minhas costas em cima de Killian e minha cabeça nas pernas de Zelena.
Fiquei por uns dois segundos assimilando a minha situação e encarei os três professores que, claramente, se seguravam para não rir da minha cara. Ergui meu tronco e permaneci sentada no colo de Regina, que se retesou toda. Ainda sentada no colo dela, perguntei para meus professores:
– Vocês nunca viram uma aluna cair dentro do avião não?
Eles me olhavam com divertimento, menos Regina, que parecia nem respirar debaixo de mim. Resolvi provocar e me movimentar em cima do colo dela, me virando de frente para o professor de história e a professora de matemática.
– Na verdade... – Killian começou – não.
E então eles explodiram na gargalhada. Regina forçou uma risada, mas seu desconforto era evidente. Me recostei no seu corpo e percebi que ela conteve a vontade de abraçar minha cintura. Aquilo estava estranho demais, antes que a aeromoça pudesse reclamar, levantei, pedi desculpa aos professores, que ainda riam, e me dirigi ao banheiro.
Entrei sem me preocupar em trancar a porta e lavei o rosto. Ouvi a porta sendo aberta e nem tive tempo de me virar e ver quem era, fui rapidamente empurrada na pequena “parede” que havia ali e senti as mãos de Lily percorrerem o meu corpo.
– Senti sua falta. – Ela disse no meu ouvido.
– Mas a gente se viu não tem nem cinco minutos. – Respondi, já cansada da melosidade anormal que ela tinha.
– Eu sei, mas... – Ela deu um sorriso torto. – Eu não consigo ficar longe de você.
Ela umedeceu os lábios para me beijar novamente, e eu já estava pronta para me esquivar, quando a porta foi aberta outra vez, droga.
Regina tinha chegado no pior momento.
Aquele banheiro já era apertado o suficiente para uma pessoa, que dirá para três.
– Eu sabia que vocês duas não mereciam um voto de confiança. – Merda! A voz dela era puro ódio. Lily tentou falar, mas Regina interveio. – Acho que dessa vez eu terei que avisar a Fiona.
Sem dar tempo de nós duas falarmos, ela se virou e saiu, tempestuosa.
– Ótimo, Lily. – Disse, me esquivando dela. – Agora, provavelmente, a gente vai ficar de castigo pelo resto da viagem. Isso, é claro, se a Fiona não resolver mandar a gente para casa.
Saí do banheiro e voltei pro meu lugar, disposta a não olhar para Lily pelo resto da viagem.
– SQ –
Aquele incidente com Lily me rendeu um castigo de dois dias, dois dias a menos para curtir Salvador. Fui obrigada a ficar sozinha no quarto do Hotel, enquanto todas as meninas, menos Lily, iam para a praia ou almoçar em algum lugar diferente.
O castigo não me impedia de sair do quarto, apenas de sair do hotel. Estávamos num hotel luxuoso, o Pestana, localizado no Rio Vermelho. O que mais me dava raiva era saber que eu estava presa em um hotel localizado no bairro mais boêmio da cidade.
Uma batida na porta me tirou do meu transe, rezei para que não fosse Lily, não estava com paciência. Levantei para abrir a porta e, para minha surpresa, lá estava Regina. Ela usava um short jeans desfiado nas pontas, uma blusa folgadinha, mas que se ela levantasse os braços deixava sua barriga definida à mostra, e sandálias havaianas. Simples, porém linda.
– Posso entrar? – Me perguntou meio acanhada.
– Pode. – Respondi seca e dei passagem a ela. Ela se jogou na cama de Ruby e deu um longo suspiro, parecia estar decidindo como falar algo.
– Eu queria saber se você queria descer para jantar comigo. – Seu tom era vacilante, parecia arrependida de ter me dedurado. – Pra você não ficar sozinha aqui, enquanto suas amigas se divertem.
– Acho que você deveria ter pensado nisso antes, não acha? – Falei, ríspida. Ela revirou os olhos.
– Emma, eu estava apenas cumprindo meu trabalho. Deixei de sair com as meninas hoje apenas para ficar com você, se você não quiser descer para jantar, eu posso muito bem trocar de roupa e encontrar com o pessoal no Mercado Modelo.
Respirei fundo e pensei, rapidamente, nos prós e contras de descer para jantar com a minha professora. Escolhi ir com ela, afinal, não estava a fim de ficar enfurnada naquele quarto.
– Tá bom, eu vou. – Regina esboçou um sorriso, e eu fiquei genuinamente feliz por ver a felicidade dela. – Espera só eu tomar um banho.
Fiquei envergonhada, ainda não tinha percebido que estava apenas de pijama, sem sutiã, sem calcinha, sem nada.
Corri para o banheiro e tomei um banho rápido. Me perguntei se Lily estava sozinha também, e se ela não iria querer companhia para jantar. Ah, foda-se Lily, ela merece ficar sozinha mesmo. Coloquei um vestidinho básico folgado e saí, encontrando Regina no mesmo lugar que ela tinha ficado.
– Pronta? – Me perguntou, sorrindo.
– Pronta.
– SQ –
– Isso aqui é muito bom! – Disse, comendo outra garfada de mariscada. Honestamente, a melhor coisa que eu já comi na minha vida! – Que pena que você é alérgica a camarão, Regina, você tá perdendo.
Ela riu, a risada dela era um som maravilhoso de se ouvir.
– Não tem problema, já me acostumei a perder o melhor da vida por causa dessa maldita alergia. – Regina comia sua sobremesa, enquanto eu repetia o segundo prato da tal moqueca. Primeira lição sobre a Bahia: Dendê é bom demais!
– Eu terminei aqui. Vou ali pagar a conta e já volto. – Disse pegando a comanda dela e levantando, não antes de ouvir ela reclamar e dizer que eu não precisava pagar nada.
Voltei e vi Regina de cara fechada, ainda por eu ter pago a conta. Ela me fez prometer que deixaria ela pagar no dia seguinte, o que me deixou a duvida se a gente jantaria juntas novamente. Fomos andar por perto da piscina para gastar tempo e conversamos sobre diversas coisas. Regina é, realmente, uma mulher muito inteligente.
– A cidade é intensa, né? – Ela disse, se apoiando na amurada que dava vista para o mar, de onde era possível ver a extensão completa entre o Rio Vermelho e o Farol da Barra. As luzes iluminavam o mar de forma que, do alto, parecia um presépio.
– De longe um presépio. – disse, ouvindo um murmúrio de concordância. – de perto, uma presepada.
Ela riu com o ditado. Queria fazer o máximo que eu pudesse para arrancar risadas dela.
– Eu queria ir lá embaixo, sentir a cidade, sabe? – Perguntei e ela assentiu. – Da mesma forma que corre sangue pelas minhas veias, corre história por essas ruas.
– Uau, filósofa. – Ela disse. – Domingo a gente vai assistir um show no Teatro Castro Alves, acho que até lá você já terá saído do castigo.
– Um show no TCA? – Perguntei, animada. Era um dos maiores teatros do Brasil.
– Aham. – Ela fez que sim com a cabeça. – Agora, vamos subir porque já são quase dez da noite. – O lado responsável dela falou mais alto e ela assumiu seu papel de monitora. – Amanhã tem mais, vem. – Ela me puxou pela mão e fomos até o elevador, de mãos dadas.
Ao invés de apertar o andar em que eu estava, apertou o superior. O andar dela.
– Eu pensei da gente esticar um pouco a noite lá no meu quarto. – Disse, e eu não consegui notar nenhuma segunda intenção no seu tom de voz, então não me opus. – A gente pode pedir pipoca na recepção do hotel, sei lá, e assistir um filme na TV.
– Pode ser. –Respondi animada, e feliz por estar retomando minha amizade com ela. Seu polegar fazia pequenos círculos na minha mão, e eu comecei a pensar em como eu poderia me acostumar a isso todos os dias na minha vida.
– SQ –
– Bora assistir esse! – Eu apontava na Netflix que tinha no quarto. – É sobre Salvador.
– Você nunca assistiu Ó paí, Ó? – Ela me olhava incrédula. – Como assim você nunca assistiu esse filme?
– Eu não. – falei, envergonhada por nunca ter assistido o tal filme. Sempre tinham me falado que era muito bom. – Ah, vai, para de me olhar assim. – Eu disse e me inclinei sobre Regina, que estava sentada com as pernas esticadas e o tronco apoiado na cabeceira da cama de casal. Os professores, sortudos, tinham o quarto só para eles.
No que eu me inclinei sobre ela, Regina esticou o corpo para frente, deixando nossos rostos a poucos centímetros um do outro.
“Por favor, me beija.” Minha cabeça pedia, implorava. Eu senti sua mão alcançar meu pescoço e vi sua língua umedecer seus lábios. Sua cabeça percorreu metade do caminho para nossos lábios se encontrarem e eu, prontamente, completei e os uni num beijo calmo. Sua mão que estava no meu pescoço subiu para os meus cabelos e me puxou para a cama, logo após eu senti seu corpo moldar ao meu e, levemente, o roçar de suas boca no meu pescoço.
Suas mãos, e as minhas também, percorriam todos os lugares. Coxas, cintura, peitos, pescoço, cabelos. Minhas mãos que antes estavam em sua cintura desceram para sua bunda perfeitamente. Ela abriu suas pernas entre as minhas, de forma que eu pude sentir seu joelho acariciar minha intimidade.
Bruscamente ela interrompeu o beijo e apoiou as mãos uma de cada lado da minha cabeça, pairando sobre mim.
– Tem certeza disso, Emma?
– Tenho. – Respondi com toda a convicção do mundo.
"Eu cavo um elogio, isso nem te ocorre
A indiferença escorre fria a me ferir
Será por que você não me suporta
Ou dentro dessa porta tem mais coisa ai?"
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