Entre o Céu e a Terra
17 Efeito do Alcool
No palácio, Muna deixou que uma criada levasse seus coelhos para cozinha, enquanto ela ia tomar um banho. O dia fora ótimo e sentia vontade de escrever para sua família sobre aquilo, mas perguntava-se se eles se alegrariam com aquela informação quando deveria estar reportando-os sobre seu avanço.
Tirou sua roupa pesada e desfez as tranças do cabelo. A água quente preparada pelas criadas estava na temperatura exata, deixando Muna extasiada. Lavou seus cabelos negros revelando as formas onduladas deles.
Terminado seu banho, vestiu uma túnica mais leve e rumou para cozinha com Nida. Lá, ambas princesas, Muna e Hakuei, preparam o ensopado de coelho. Muna seguiu sua tradicional receita, ignorando qualquer opinião ou sugestão das cozinheiras.
Ao finalizar, a princesa soltou um suspiro satisfeita com a aparência e o cheiro de sua comida.
—Você realmente caprichou, Muna! — exclamou Hakuei olhando por sobre o ombro da princesa. — Parece ótimo.
A princesa sorriu.
— Obrigada. Logo mais poderá comer. Deixe-me ver o seu.
Hakuei tirou a tampa da travessa com animação e orgulho, mas Muna olhou o ensopado com dúvida.
— Tem certeza de que o coelho não está cru? — Franziu o cenho.
— Ei! — repreendeu Hakuei. — Eu não reclamei da aparência do seu. além de que é assim que fazemos em Kou. — Muna nada disse e quando os criados apareceram para levar aos pratos, Hakuei agarrou sua mão. — Vamos. Kouen e Koumei estão nos esperando. Também chamei Hakuryuu e Kougyoku. Infelizmente, Kouha ainda não voltou.
O jantar seria dado no quarto de Hakuei. Uma grande e redonda mesa estava no meio do quarto já com alguns pratos de pães, arroz e bebidas. Kouen, Koumei e Kougyoku já estavam sentados, mas não havia sinal da presença de Hakuryuu.
— Talvez ele esteja ocupado com alguma coisa — comentou Hakuei cabisbaixa.
Se sentaram. Hakuei ao lado de Koumei e Kouen e Muna ao lado de Kougyoku. Os criados deixaram a travessa na mesa e abriram a tampas deixando o cheiro exalar pelo quarto.
— Quem fez esse? — Apontou Kougyoku. — Parece ótimo. Posso pegar?
— Fique à vontade, Kougyoku. — disse Muna, contente. — Bom, acho que vou ter que comer o da Hakuei.
Enquanto ela enchia sua cumbuca do ensopado, Koumei levou o leque ao rosto e disse:
— Devo avisá-la, Muna, que a culinária da princesa Hakuei é bem conhecida por seu... gosto excêntrico.
— Koumei! — A princesa deu uma cotovela em sua costela. — Não se preocupe Muna, é assim que comemos em Kou.
A princesa suspirou. Pela aparência podia julgar que o gosto não fosse tão bom, ou poderia se surpreender por julgar errado. Enquanto levava a colher a boca sentia que todos a olhavam com expectativas.
Engoliu em seco.
Pôs na boca e, assim que encostou na língua, quis vomitar.
O quer que isso! Que gosto horrível, pensou enquanto forçava a garganta a engolir aquilo. O gosto era horrendo e sentia que o coelho ainda estava cru. Quis chorar pelo pobre animal que abateu e sequer pôde virar um bom prato.
Pegou uma taça cheia que estava na mesa e virou.
Os príncipes deram risadas discretas, enquanto Hakuei e Kougyoku estavam preocupas.
— Está tudo bem, Muna? — Hakuei perguntou. — A sopa está ruim?
Ela limpou a boca com a costa da mão e forçou um sorriso.
— É a primeira vez que como isso.
Koumei tentou segurar, mas não conseguiu controlar e riu.
Hakuei colocou um pouco de sua própria sopa e comeu.
— Oh, Muna, me desculpe — disse ela. — Eu me esqueci do sal.
Nesse momento, Koumei chorava de rir e Kouen acompanhava o irmão mais novo. O gosto ruim não havia sumido mesmo com a bebida amarga e pensava que nem mesmo sal poderia ter salvado aquela sopa.
— Está tudo bem, Hakuei... — disse com esforço, acalmando a mulher. — Bom, acho que agora você pode experimentar o meu.
Com suas cumbucas, todos colocaram um pouco da sopa feita por Muna e jantaram. A princesa de Olmak preferiu não comer nada e se serviu apenas da bebida. No final, ficou agradecida por sua comida ter sido elogiada por todos.
— Que contraste incrível — disse Koumei, rindo –— O mesmo coelho só que este aqui...
— Koumei! — chamou Muna com a língua pesada e a voz arrastada. — Que feio! A comida da Hakuei não é ruim... é horrível!
Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou. O aposento mergulhou em silêncio com todos olhando surpresos para ela.
Hakuei segurou seu braço.
— Muna, você está bêbeda? — perguntou.
Ela negaceou várias vezes e refastelou na cadeira com um sorriso bobo.
— Quantos copos você bebeu? — Voltou a perguntar.
Ela deu de ombros.
— Os tantos necessários para tirar o gosto horrível da minha boca! — respondeu, pondo a língua para fora.
Tentou pôr-se de pé e ficou tonta.
— Nossa, fiquei tonta hahaha. — Riu sem graça. — Hum, acho que vou pro quarto.
— Você não pode ir sozinha! — Alarmou Hakuei. — Cadê sua dama de companhia? Algum criado pode acompanhá-la.
Ela fez um gesto com a mão descartando a ideia. Andou cambaleando de um lado por outro até a porta, se virou e fez uma reverencia.
— Boa noite preá vocês, cabelos ruivos!
Hakuei olhou para os primos, preocupada.
— Alguém precisa acompanhá-la!
Kouen pôs-se de pé e saiu com os olhares do irmão e da prima em suas costas.
**
Muna cambaleava pelos corredores iluminados por lanternas. Não havia nenhuma criada ou eunuco para ajudá-la naquele momento, por isso seguia escorada nas paredes.
Queria chegar no quarto logo, não queria que a imperatriz a visse daquele jeito.
Ela tropeçou nos próprios pés e se apoiou na balaustrada da varanda. Ao se levantar, foi ajudada. Uma mão grande segurou seu braço e a ajudou a se firmar de pé. Ela o olhou com os olhos semicerrados e o súbito reconhecimento a fez retirar um punhal escondido dentro da sua roupa.
— Está me seguindo? — Inquiriu, apontando-lhe a arma.
Kouen deu de ombros.
— Você está bêbada. Estou tentando te ajudar.
— Me ajudar? — O olhou enojada. — Impossível! Vocês são cruéis, assassinos, monstros.
Ela disse cada palavra dando um passo para trás e Kouen dando um passo em direção a ela.
— “Vocês”? — repetiu a palavra. Procurava uma brecha para desarmá-la. — Só tem você e eu aqui. Por acaso está tendo alucinações?
— Não! — Gritou. — Se afast...— Ela deu um passo em falso e se desequilibrou, caindo os cinco degraus que levava ao jardim.
Ela caiu sentada e sentiu uma dor pungente em seu pulso.
Ao ver Kouen se aproximando ela pegou o punhal rapidamente do chão e se ergueu.
— Não vou deixar que pegue Olmak. — Apontava a espada. — Não vou deixar que escravize meu povo! Que os controles e ponha medo neles!
Com um simples movimentou o príncipe segurou o pulso dolorido de Muna, a fez solta o punhal e a empurrou de volta ao chão.
— Não sou eu que quero Olmak!
Ela ficou de pé e violentamente investiu contra Kouen, que nem sequer se moveu com seu ataque.
— Mentiroso! Mentiroso! Mentiroso! — Repetia a palavra batendo em seu peito.
Kouen estava decidido a não a atacar, afinal ela estava bêbada, mas paciência tinha limite. Agarrou os braços dela com força e a sacudiu violentamente.
— Para! — Gritou. Ela fitou os olhos escarlates dele assustada. Ele deu um suspiro e passou a falar de modo brando. — Você está alcoolizada.
Muna piscou algumas vezes absorvendo o que acabara de acontecer, até ver uma borboleta preta sobrevoar por detrás de Kouen. Seguiu-a e encontrou o garoto da trança longa.
— O garoto... – sussurrou olhando para ele.
Kouen olhou para direção que ela indicava e revirou os olhos ao ver Judal, o magi de Kou, no telhado. Vendo que Muna estava paralisada o admirando, ele bateu em sua nuca com força.
Antes que caísse no chão ele a pegou no colo.
— O que vai fazer com ela, hein, bode velho? — O magi deu um sorriso debochado.
Kouen dardejou um olhar para Judal e carregou Muna para dentro do palácio. Foi com espanto que Nida abriu a porta do quarto e viu Muna deitada nos braços do primeiro príncipe de Kou. Ela não conseguiu dizer nada e Kouen teve que entrar e pôr a princesa na cama.
— O... que... o.... — Nida tentou falar, mas estava espantada demais para formular uma simples frase.
— Ela está bem — garantiu ele. — Só esta bêbeda.
E saiu do quarto deixando uma dama de companhia embasbacada e uma princesa inconsciente.
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