Entre o Céu e a Terra
2 Capítulo 2
Ela amava cavalos desde a infância e nunca tinha se cansado de montar, até aquele momento. Estava exausta de cavalgar por um terreno íngreme e pouco saudável para os castrados. O sol estava a pino quando tiveram o primeiro vislumbre de Nargabad, e ficaram pasmos.
Mesmo de longe, o local não transparecia segurança ou respeito; era lúgubre e desagradável. A erosão causada pela mineração era enorme, havia cratera de diversos tamanhos, com escadas e tuneis ligando uma à outra.
Assim que apearam, o movimento na mina parou. Todos os prisioneiros pararam para observá-los e Muna também. Todos vestiam túnicas e calções cinzas. O porte físico era variado, embora a maioria fosse musculosa. Mas outra parte era magra e enferma.
Muna desviou o olhar.
Chatai os levou a um palanque alto feito de madeira. No local elevado conseguia ter todos em seu campo de visão. O chefe da mina ergue a mão direita e o silêncio predominou.
— Se curvem diante de suas altezas reais! — Chatai gritou
Sacos de pedra foram depositados no chão quando os prisioneiros se curvaram em profunda reverência
— A partir de agora — continuou Chatai. — Eles serão responsáveis pelas minas de Nargabad. Sua alteza Tamujin e Muna. Sintam-se honrados por tê-los presentes neste local, prontos para ajudar a todos. Deem devida atenção a sua alteza Tamujin Saihin, filho do nosso mais que amado rei.
O silêncio prosseguiu com apalpável ar de tensão, mas Tamujin ignorou e, sorridente, disse:
— Fui escolhido, acompanhado de minha irmã, por nosso adorável rei para administrar e trazer melhorias a Nargabad. As mudanças serão graduais. Com o tempo Nargabad se tornara um lugar valorizado e vocês também, não importa que crimes tenham cometidos. Vocês trabalham para o reino e, acima de tudo, ao rei. Nosso mais que idolatrado soberano deseja que a produção de mineração aumente e que todos tenham uma boa saúde.
Os semblantes indiferentes e carrancudos fitavam Tamujin com desinteresse, alguns até forçando um bocejo. Chatai foi o único que bateu palmas quando o príncipe encerrou seu discurso.
— Ótimo discurso, vossa alteza — disse ele entre as palmas. Então gritou em plenos pulmões. — Volte para seus trabalhos!
Imediatamente, os mineradores passaram a se mexer, carregando seus sacos e carrinhos de pedra pela mina.
— O que acharam daqui vossa alteza? — indagou Chatai.
— Bem diferente do que imaginei, confesso — Tamujin respondeu olhando ao redor. O vento que soprava ali era frio e carregado, fazendo com Tamujin se encolhesse em sua vestimenta. Contudo, as roupas dos mineradores eram fina para que se aquecessem. — Como eles sobrevivem ao frio?
Chatai deu de ombros.
— O frio não é nada para eles, talvez apenas mais um dos castigos pelos crimes que cometeram. Venham, eu os mostrarei onde ficarão abrigados.
A casa a que dividiram com o diretor era idêntica à da vila. Feita de pedra, com dois andares e diversos cômodos. Os moveis eram poucos e modestos, os quartos dos príncipes eram separados, mas continha a mesma mobília. A cama de catre, uma cômoda e um suporte de vela. O primeiro andar era dedicado a área administrativa das minas e o segundo, como residência.
A única vista que Muna tinha da janela era dos montes distante e do sol. Dali era possível ouvir os sons das picaretas contra as rochas e os gritos ensurdecedores de ordens.
Muna retirou o gorro da cabeça, passou a mão pelos cabelos negros e deu um profundo suspiro. Aquele lugar lhe desagradava.
— Doí imaginar que nossos irmãos estão melhores que nos — comentou Tamujin mal-humorado ao entrar no quarto da irmã. — Teria sido melhor ficar na aldeia.
— Você fez um discurso tão motivador e agora resmunga — ela deu um sorriso debochado. — Deixe nosso pai saber disso.
Tamujin deu de ombros, olhou para o catre tosco e frágil e se sentou.
— É mais fácil ficarmos doentes aqui do que ajudá-los. Por acaso viu o banheiro? Sinceramente, lamento por você irmãzinha.
Muna cruzou os braços e o encarou.
— Pense no lado bom de tudo isso, Mujin. Agora estamos perto da dungeon.
— Mas na boca do leão. — Resmungou ele. — Me pergunto por que recusei ir com o pai, Ganbaatar e Batbayar para Kou.
— Talvez porque você insistiu que já estava na hora de ganhar responsabilidade. — Ela deu um sorriso e soergueu uma das sobrancelhas. — Dê o seu melhor agora.
— Não se esqueça que você também tem responsabilidade aqui e com o rei, maninha!
Muna deu de ombros.
— Minha única responsabilidade é volta para Olmak com um djinn. O resto deixo com você.
— Admiro sua força de vontade, mas…
— Vossa alteza. — Ambos olharam surpreso em direção a voz. Um de seus soldados estava parado na porta. — O administrador da mina estão os esperando.
— Obrigado. Diga que já vamos descer. — disse Tamujin.
Ele lançou um olhar para a irmã e suspirou
— Sinceramente achei que íamos descansar o dia inteiro. — Ele levou as mãos as costas —Minhas costas estão doloridas.
**
O ar era rarefeito e a poeira, alta. O som da marreta contra as paredes era incessante e insuportável, pois não havia ritmo e isso irritava Muna. Carrinhos passava de lá para cá e homens arrastavam os pés com pesos nas costas. Um soldado da mina ficava para supervisioná-los e gritava toda vez que, em sua opinião, o ritmo desacelerava.
— Eles trabalham por quantas horas? —indagou Tamujin.
— O dia todo, por exigência do rei. — respondeu. — Eles comem bastante. Por exigência de vossa majestade o café da manhã aqui é farto, enquanto o jantar é uma leve refeição.
— Isso é pra todos? — perguntou Muna. — Sei que há trabalhadores aqui. Quanto eles recebem e por que eles não voltam para a aldeia?
Chatai deu um suspiro e olhou para Muna. Suas mãos atrás das costas faziam o transparecer imponente.
— Sim, isso é pra todos. No passado aqui era uma prisão horrível. Era certeza que se um homem fosse enviado pra cá, na semana seguinte estaria morto. De repente, quando ouro e metais preciosos passou a ser extraído em abundância, pessoas de diversas áreas se ofereceram para trabalhar aqui. Nosso mais que amável rei decidiu criar uma lei; homens justos poderiam trabalhar aqui e receber por isso. — Ele encolheu os ombros e estendeu os braços. — Mas Nargabad é distante de qualquer lugar, e esses homens não tinham como ir e volta sempre.
— Por isso fizeram a aldeia? — perguntou Muna arqueando as sobrancelhas.
— Para diferenciar esses homens dos prisioneiros, era necessário que eles passassem a noite fora das minas e voltassem no dia seguinte para o trabalho. O antigo chefe da administração achou necessário construir casas para eles, mas não podíamos usar o dinheiro que recebíamos de sua majestade. Então eles mesmo construíram e, aos poucos, suas famílias também vieram pra cá na esperança de que sairiam daqui enriquecidos.
— Mas aquela aldeia é miserável. Por acaso eles não recebem os salários? — indagou Tamujin.
— Os trabalhadores quase não saem daqui para ver suas famílias. De qualquer jeito, aquele lugar não era para ser uma aldeia, mas não podemos controlar o fluxo de pessoas vindo pra cá. — Chatai empertigou as costas. — Sinceramente, espero que consigam resolver a situação da aldeia. Se minha opinião valer de alguma coisa, é melhor tirar aquelas pessoas de lá. Nargabad não é segura.
Chatai os levou para conhecer outras áreas igualmente insalubres e perigosas. Distante dos locais onde se concentrava o trabalho de extração de minérios, ficava a enfermaria. Eram dois prédios pequenos feitos de pedras e portas de madeira podre.
— Há médicos que trabalham aqui? — quis saber Muna. Os enfermos se deitavam em catre e eram cobertos por um fino lençol branco.
A enfermaria não havia janela, sequer luz artificial.
— Antigamente, sim. Não temos muito dinheiro para pagar sempre um médico. Cada trabalhador da mina cuidar do outro. É assim que eles fazem para sobreviverem. A poeira daqui é um dos motivos das enfermidades desses homens.
Um dos enfermos tossiu e se encolheu no catre.
**
— Por quais crimes essas pessoas estão aqui. — Estavam de volta ao prédio da administração. Após a visita em todas as áreas de Nargabad, Chatai os convidara para um chá.
— Diversos, vossa alteza — respondeu Chatai. — Ladrões, criminosos e injuriadores.
— Injuriadores? — Muna soergueu a sobrancelha.
—Há severas consequências para quem espalha calúnias sobre o rei ou a rainha pela cidade. Acredito que vocês sabiam disso.
— A meu ver, injuria não deveria ser considerado crime — falou Tamujin. — Sua majestade é uma figura pública e pouco se importar com que falam dele. Afinal, maldizeres é muito comum.
Chatai aquiesceu e bebericou um pouco do chá.
— Sua majestade, o rei, realmente não se importar. Contudo, a rainha leva muito a sério que espalham sobre sua pessoa. Muitos dos injuriados foram mandados pra cá por vontade dela.
Tamujin lançou um breve olhar a Muna e suspirou.
— Talvez devêssemos considerar dar perdão a essas pessoas…
— Conhece bem sua mãe, Tamujin, o perdão para ela não existe — disse Muna. — Ou é castigo, ou morte. Se sua majestade foi incapaz de impedir que esses homens fossem mandados pra cá, imagine nós tentando colocá-los de volta a sociedade.
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