Com o arco a tiracolo, Muna acariciava o rosto de seu cavalo com carinho preso a baia. Assim como ela, ele também estava ansioso para sair daquelas muralhas. O sol estava quente naquela manhã de céu limpo e de brisa suave; um dia perfeito para cavalgar.

Nos estábulos, a princesa esperava junto a dama de companhia a chegada de Hakuei. A primeira princesa de Kou estava atrasada, mas isso não era problema para Muna. Estar perto dos cavalos era como estar em Olmak de volta, cavalgando pelas planícies até o acampamento nômade mais próximo.

Abraçou o castrado sentindo seu cheiro de feno.

— Ela chegou. — Anunciou Nida ao ver a movimentação na entrada.

Hakuei vinha com seu assistente, Seisyun Ri, em seu encalço.

— Vejo que já estão prontas. — Observou ela, sorrindo. — Demorei porque estava vendo onde meus primos foram.

— Os príncipes Kouen e Koumei?

A princesa aquiesceu.

— Eles estão cavalgando também. Com sorte, podemos encontrá-los.

Ela tirou seu cavalo da baia. Um puro-sangue marrom de crina escura. Selaram os cavalos e saíram, deixando a Cidade Proibida para trás.

Passaram por uma avenida com um dos lados repletos de barracas de feiras. Os vendedores gritavam por clientes e os persuadiam a comprar suas mercadorias. Enquanto Hakuei era reverenciada por seus concidadãos, Muna recebia os olhares curiosos deles.

Sabia que chamava a atenção com seu modo de vesti totalmente diferente do deles, mas isso não incomodava tanto quanto ver as pessoas usando túnicas de cores diferentes.

— Por que separam as pessoas pela cor da roupa? — indagou ela.

Observava uma criança carregando um balde d’agua equilibrado em um dos ombros. Logo atrás vinhas dois adultos, provavelmente seus pais. Seus rostos eram abatidos e cansados. Eles não eram os únicos.

— Os que usam verde são plebeus. — A princesa respondeu. — Cidadãos livres, diferente daqueles que usam marrom. Eles são escravos de guerra. Serão cidadãos livres após cinco anos. É uma escravidão humanitária, entende? Eles não são maltratados. Achei que sabia.

— Só queria saber o porquê. — Respondeu, observando a família mais uma vez. — As crianças já nascem escravas?

— Não necessariamente. — Trotavam lentamente em meio ao mar de pessoas que iam abrindo caminho. — Se a criança nascer depois dos cincos anos de escravidão dos pais, ela será livre. Mas se os pais foram de outro país e vier pra cá com uma criança de colo ou ainda por nascer, será considerado escravo também. É assim em todo império e nos países que colonizamos.

Muna apertou a rédea com força em suas mãos. Imaginar o povo de Olmak sendo escravizado lhe encheu de raiva. Eles eram livres, não eram escravos de seu rei e tampouco seriam de Kou.

O cavalo se remexeu sentido o incomodo de sua amazona. Ela alisou a crina dele e respirou fundo, tomando o controle.

— Vamos — Chamou Hakuei, esporeando o cavalo. — Tem mais coisas que quero para lhe mostrar.

Andaram mais um pouco pela capital, e Muna pôde ver o quão bela a cidade era. Os pagodes altos, os arcos vermelhos minuciosamente detalhados, as mansões e e as arquiteturas das casas simples e estabelecimentos, a variedade de comida e curiosos objetos em venda.

— No festival das Lanternas todas essas ruas são enfeitadas — informou Hakuei. — O palácio também é e costumamos comemorar comendo doce. É uma festa bem legal. Mas acho que até lá você já deve ter voltado para Olmak.

— Uma visita não faria mal algum. — disse Muna. — É claro, se me convidar.

Hakuei sorriu.

— Já está convidada!

Após o passeio por Rakushou, finalmente atravessaram os portões para os campos verdes e estradas que seguiam para outras cidades e o Planalto de Tenzan. Ali ou aqui havia pequenas casas e fazendas com criação de animais e cereais.

Cavalgaram até um lago para que os cavalos descansassem. A região era linda, com montanhas ao fundo, arvores altas e aves que descansavam na água e migravam pelo céu.

Muna respirou fundo absorvendo o ar puro para dentro sí. A natureza era tão acolhedora.

Molhava o rosto da água gélida do lago quando perguntou:

— Será que nesta região tem coelhos? — olhou para os arbustos a procura de movimento. — Ou cervo.

— Uma sopa de coelho seria ótima pra matar a saudade de casa. — Comentou a dama de companhia.

— Vocês sabem caçar? — Indagou Hakuei.

— Sim! — Exclamou a Nida animada. — A princesa Muna é uma ótima caçadora. Ela já conseguiu caçar dois javalis selvagens. Sozinha!

— Não é pra tanto, Nida. — disse a princesa, acanhada. — Mas é uma ótima ideia caçar um pouco.

— Então vão. — Incentivou Hakuei. — Eu e Seisyun Ri vamos procurar Kouen e Koumei. Podemos nos encontrar mais tarde aqui ou se nos acharem, melhor ainda.

— Certeza? — A primeira princesa de Kou aquiesceu e agilmente Muna montou em seu castrado.


Princesa e dama de companhia cavalgaram pelas planícies a procura de caça. Em um ponto elevado, Muna ficou em pé sobre o lombo de seu cavalo e forçou a visão para enxergar mais além. Nada.

Sentou e incitou seu cavalo ir mais rápido. O vento batia em seu rosto com violência. Seu gorro voou, soltando sua trança.

Em um momento, enquanto corria velozmente percebeu algo em sua visão periférica. Entre os campos verdejantes e montanhas, algo brilhava como uma chama.

Apeou seu cavalo bruscamente.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Nida, galopando atrás dela. Ela olhou na mesma direção que a princesa olhava. — Acho que são os príncipes. Que ir até lá?

Muna negaceou. Esporeou seu cavalo e voltou a cavalgar. Sabia que tinha que arrumar um meio de se aproxima deles, de poder conversar e, quem sabe, firmar uma aliança para a proteção de Olmak.

Enquanto cavalgava algo branco e peludo saiu da floresta e corria aos pulos. Muna sinalizou para que Nida permanecesse em seu lugar.

Esporeou o castrado e perseguiu o animal. Era pequeno e gordo. Sabia que quanto mais jovem, melhor a carne. Soltou as rédeas e arrumou seu arco. Seu tiro foi certeiro, dando uma morte rápida e limpa ao animal.

Muna pegou ele pelas patas e o amarrou na sela.

Amarrou as rédeas de seu castrado no tronco de uma árvore e adentrou na floresta. Um não era suficiente. A mata era fechada e com o mato denso, mesmo dando passos cautelosos pisava numa folha seca ou em galho, causando barulho. Pôs o arco nas costas e subiu numa árvore, ficando na ponta de seus galhos. Era como está em Olmak.

Lambeu os lábios com a ponta da língua ao escutar o ressoar de algumas folhas. Preparou seu arco e ficou imóvel, esperando o animal sair. Não era maior que o anterior, mas serviria. Fechou seu olho não dominante e atirou!

**

— Agora precisamos encontrar a princesa Hakuei. — Disse Nida ao vê-la de volta. — A caça foi boa?

— Ela não deve estar muito longe. — observou Muna. — Ela pode estar com Kouen e Koumei agora. — Muna bateu na anca do equino exibindo os coelhos. — Vão dar uma ótima sopa.

Cavalgaram até o local onde avistaram os príncipes e Muna estava certa, Hakuei e Seisyun Ri estava com eles. Estavam sentados na grama preguiçosamente com seus cavalos pastando.

— Muna! — chamou Hakuei ao vê-la. Pôs-se de pé e foi até ela. —Você demorou tanto! Achei que estava tinha se perdido.

Ela desmontou do cavalo e exibiu o resultado de sua caça.

— Conseguir pegar esses três! Eles vão dar um ótimo ensopado.

Hakuei deu um sorriso modesto.

— A cozinha ficara feliz em poder prepará-los pra você.

— A cozinha? — arqueou as sobrancelhas. — Ah, não! Eu mesma quero fazer.

Hakuei olhou-a surpresa.

— A senhorita Muna é uma ótima cozinheira, alteza — informou Nida. — Sabe fazer ótimos pratos.

— Oh, é mesmo? — perguntou ela, surpresa. — Amo cozinhar! Nós duas poderíamos fazer o mesmo prato e ver qual o melhor. O que acha Seisyun Ri?

O assistente estava ao lado da princesa e olhava de uma à outra, indeciso. Ele coçou a cabeça e de um sorriso nervoso.

— ... A senhorita é quem sabe, alteza. Hum, por que não chamar os príncipes também?

A garota se empolgou com a ideia e se dirigiu aos primos, contando que pretendiam fazer.

Koumei não pareceu empolgando e perguntou:

— Tem certeza de que quer fazer isso?

— É claro! A noite vocês não vão estar ocupados, o que é ótimo! Vão poder ver se comida de Olmak é boa ou não.

Koumei levou o leque a boca e sussurrou para o irmão:

— Na verdade, minha preocupação não é o gosto da comida de Olmak.

Kouen esboçou um leve sorriso.

— Iremos.

Hakuei virou-se e agitou as mãos, dizendo:

— Muna, temos um jantar pra fazer!

Ela aquiesceu e deu um largo sorriso.

Após o breve descanso, todos montaram e cavalgaram de volta para a capital. Muna ia acompanhada por sua dama de companhia quando Koumei trotou até seu lado.

— Princesa Muna – chamou ele fazendo um maneio com a cabeça.

— Príncipe Koumei — respondeu.

— Acho que devo pedir desculpas. Tínhamos que luta ou algo do tipo, não era? Eu fiquei cansado e tinha tantas coisas pra fazer que preferir desistir. Podemos lutar outro dia se quiser. Espero que eu não a tenha ofendido.

— Oh! não. Claro que não! — Ironizou. —Vou deixar de lutar com você para cozinha pra você. — Revirou os olhos.

Koumei sorriu.

— Se quiser, um dia posso cozinhar pra você.

— Fico lisonjeada, mas prefiro um duelo.

— Se assim quer, então faremos. — Deu uma piscadela.