Ainda era cedo quando uma criada informou a Muna que a imperatriz a convidava para o desjejum daquela manhã.

Por alguns instantes a princesa pensou em recusar, inventar uma repentina dor de cabeça ou mal-estar, pois não queria ter de que ficar a sós com Gyokuen. Não de novo.

— Acho... — começou a dizer falar, mas sua dama de companhia a. interrompeu com um gesto discreto com a cabeça para que aceitasse. A contragosto, Muna seguiu a criada.

Havia se passado uma semana desde a chegada de Muna a Kou, e ainda tentava se ajustar a vida naquele império e, principalmente com Gyokuen demonstrando tanto interesse por ela.

Gyokuen esperava-a em um coreto em frente a um lago de águas calmas, com patos e gansos deslizando. Era um belo jardim colorido com pessegueiros e cerejeiras em flor. Os pássaros voavam de árvore em árvore, cantando em sincronia. Contudo, a presença da imperatriz estranhamente obscurecia o cenário.

A princesa fez uma mesura antes de pôr os pés no coreto.

— Seja bem-vinda, minha querida — saudou Gyokuen com doçura, indicando um assento ao seu lado.

Sobre a mesa havia uma bandeja com bule de chá, xicaras e alguns bolos e doces. Gentilmente, a imperatriz serviu chá para Muna, ignorando os criados que poderiam fazê-lo por ela.

— Começar o dia com um pouco de chá é sempre essencial. — disse ela. — Não concorda?

Muna bebericou a bebida. Desta vez era bem doce.

— Eu não sou muito acostumada com chá, na verdade. —respondeu. — Em Olmak, costumamos tomar algo mais forte no desjejum.

— Ah, sim, o airag. — A imperatriz arqueou as sobrancelhas, um sorriso fino em seus lábios. — Já provei essa bebida.... terrível! Mas, se quiser, posso pedir para trazerem para você.

Muna também achava o chá horrível, mas preferia abster-se.

— Não há necessidade, vossa majestade. Não quero incomodá-la.

Gyokuen sorriu.

— Você jamais seria um incomodo para mim. Já lhe disse que é especial, não disse?

Muna sorriu por gentileza, mas duvidava muito disso.

— Fico lisonjeada. A senhora é gentil comigo.

— E você é uma menina adorável. — Gyokuen se inclinou levemente para frente, sua expressão subitamente ficando séria. — Mas não deve voltar para Olmak sem uma lição importante minha.

— O que quer dizer com isso? — indagou, encarando-a com o cenho franzido.

— Quero dizer que sou uma imperatriz — começou. — E perdi dois filhos e dois maridos. Quando era jovem imaginava que ser uma imperatriz fosse fácil, mas quando se é uma mulher no poder parece que todos lutam contra você. Aparentemente, uma mulher no poder parece inadmissível. — Ela pegou um dos bolinhos de feijão e mordiscou. — Mas cá estou eu. Coma, está uma delícia.

Embora a imperatriz lhe causasse certo medo e apreensão, o que ela tinha a lhe falar era interessante e queria ouvir. Entanto, de pouco adiantaria qualquer lição dada por ela, sabia que não chegaria ao seu nível.

Depois do chá, a imperatriz se levantou e estendeu o braço para Muna, convidando-a para uma caminhada. Relutante, a princesa aceitou, entrelaçando seu braço ao da imperatriz.

Andaram por uma trilha no jardim que passava por pavilhões e outros edifícios afastados do palácio central. De início Muna não havia percebido, mas eram seguidas pelos sacerdotes que, inutilmente, tentavam ser discreto.

— Um conselho valioso, Muna: seja sempre poderosa. Em nenhum momento demonstre dúvida, medo ou preocupação. Não chore em público. Seja fria. Homens não gostam de receber ordens de mulheres, sejam eles camponeses ou nobres. — Gyokuen parou, fixando seu olhar penetrante na princesa. — Por isso, se um dia chegar no topo, seja cruel.

O rosto da imperatriz era bonito e, de certa forma, angelical. Vendo-a assim tão perto, Muna perguntava como podia ter medo de tal mulher, mas entendia agora.

— A senhora é cruel? — perguntou.

— O que você acha? — A imperatriz deu um sorriso debochado. — Um império não se constrói com piedade, mas com determinação. E determinação, minha cara, é confundida com crueldade por aqueles que se opõem a nós.

— Mas certas coisas não são necessárias...

— Tudo é necessário. — Retrucou. — Não tenha medo da fama de má, Muna. Só se alcança a paz e a lealdade com força, e não com bondade. Kou não prosperou com paz.

Ela se afastou lentamente, inclinando a cabeça num gesto que parecia tanto um adeus quanto um aviso.

— Temos muito que conversar. Talvez queira almoçar comigo mais tarde, o que acha?

Muna hesitou, mas forçou um sorriso.

— Adoraria...

— Ótimo. — Os sacerdotes se aproximaram dela, como sombras. — Agora preciso voltar aos meus compromissos. Tenha um bom dia, Muna.

A princesa limitou-se a juntar as mãos e inclinar a cabeça em reverencia. Optou por não voltar para o quarto, mas aproveitar o momento para andar pelo palácio e espairecer a cabeça.

A imperatriz quer me ensinar a ser como ela? Bom, que tente. Estava a fadada a ser a esposa de um príncipe ou um nobre menor. Isso, é claro, se fosse capaz de fazer o império Kou mudar de opinião sobre reivindicar o reino de Olmak.

Mas, no fundo, sabia que seu destino era incerto. Se não conseguisse garantir o reino de Olmak, o que seria dela? E de sua família? Tentou afastar os pensamentos sombrios.

O som de cascos de cavalo a tirou de seu devaneio. Seguindo o ruído, encontrou uma vasta área de treino. Bonecos de palha e alvos de arquearia pontuavam o espaço. Mais à frente, viu Kin Gaku e dois homens desconhecidos: um era alto, com cabelos que pareciam serpentes vivas; o outro, comum, com barba e cabelos brancos e um tapa-olho.

Eles não pareciam notar sua presença, e Muna decidiu ficar.

Logo, o som dos cascos ficou mais próximo, e o cavaleiro entrou em seu campo de visão: era o príncipe Kouen. Ele era um espetáculo: peito desnudo, arco em mãos, e cada movimento meticulosamente calculado. Quando disparou uma flecha que cravou no centro do alvo, Muna não conseguiu evitar um rubor ao observar sua figura.

Antes que pudesse desviar o olhar, foi abordada por um jovem de cabelos azuis.

— Vossa alteza.

Suprimiu o grito na garganta e olhou espantada em direção a voz. Encontrou um garoto baixo, de cabelos e veste azuis. Ele juntou as mãos e a reverenciou.

— Sou Seisyun Ri, assistente da princesa Hakuei. — Apresentou-se. — A princesa está aqui perto e a viu se aproximando e pediu que viesse chamá-la..

Ela olhou mais uma vez para o treinamento do príncipe Kouen e voltou-se para Seisyun Ri, agradecendo o convite e o seguindo.

Ele a levou a um edifício simples do lado da área de treino. O som que vinha de dentro era alto e Muna logo constatou que era uma sala de arquearia. Ao entrar viu que edifício não tinha nada além dos arcos pendurados na parede, alforjes e flechas. O edifício era fechado, mas havia um grande pátio onde na parede do fundo ficavam os alvos.

Hakuei estava em posição, com o arco esticado e a flecha posicionada. Soltou e a flecha atingiu o terceiro círculo do alvo.

— Você me atrapalhou, Muna — disse a princesa, virando-se com um sorriso. — Trouxe vento pra cá.

A princesa sorriu, pôs as mãos na cintura e inclinou a cabeça.

— Isso não é justificativa pra sua mirar ruim, alteza.

Hakuei riu, abaixando o arco.

— Que bom que aceitou meu convite. — Disse. — Eu a vi e pensei que deveria estar entediada. Quer praticar um pouco? — Estendendo o arco.

— Adoraria!

— Seisyun Ri, separe um arco e um alforje para Muna.

O garoto assentiu e fez o que lhe foi pedido. Ambas se envolveram em uma competição amistosa de tiro ao alvo. Seisyun Ri torcia pela sua princesa, mas não escondia a empolgação com a habilidade de Muna.

Depois de muitas flechas, Hakuei suspirou.

— Qual foi o resultado?

Seisyun Ri olhou de uma para outra e suspirou:

— A senhorita Hakuei ganhou

— Mesmo? — Muna arqueou as sobrancelhas. — Tenho quase a certeza de que acertei mais vezes o alvo do que Hakuei.

— Amanhã podemos competir de novo. — Deu um suspiro.

— Tudo bem... —disse Muna. — Mas amanhã poderíamos fazer algo diferente, é claro, se for possível.

— O que sugere?

— Cavalgar! — Disse empolgada. Queria muito poder sair das muralhas daquele palácio — Eu realmente ia amar poder sair um pouco do palácio, não que eu não esteja gostando daqui, mas porque me faz falta. Em Olmak somos muito apegados aos cavalos.

A princesa sorriu.

— Não precisa se justificar, Muna. Conversarei com o mestre dos cavalos para que possamos sair um pouco. Acredito que você não conheça toda a cidade, não é?

— Vi só um pouco quando cheguei a Kou.

— Então amanhã já temos um compromisso. Me avise com antecedência caso não poder ir.

Muna sorriu grata. Ansiava por seu cavalo que estava nos estábulos do palácio. Aquilo não seria só bom para ela, mas para Nida e para os soldados que tinham vindo junto com ela.

Hakuei saiu da sala alegando cansaço e pediu que a Muna lhe acompanhasse, mas a princesa ficou, pois queria praticar um pouco mais.

— Se fechasse um olho, miraria melhor.

Ela virou-se, surpresa

— Príncipe Kouen! — Fez uma reverencia.

Ele a olhou impassível.

— Tente.

Ela se posicionou, retesou o arco e fechou seu olho não-dominante. A flecha foi disparada e acertou o meio do alvo.

— Com ou sem um olho fechado, não faz diferença para mim.— disse ela, abaixando o arco, orgulhosa de sua habilidade.

— Deveria fazer. Conseguiria enxergar mais do que é capaz de ver.

E saiu, dando-lhe as costas.

O treinamento de arquearia tornara-se silencioso após a saída do príncipe Kouen, mas Muna continuava inquieta. A frase enigmática do príncipe rondava sua mente, insinuando-se em cada pensamento. “Conseguiria enxergar mais do que é capaz de ver.” Era uma provocação? Um alerta?

Depois de alguns disparos, Muna decidiu que era hora de voltar para seus aposentos. Enquanto atravessava os corredores do palácio, a conversa com a imperatriz Gyokuen também lhe vinha à memória. A frieza e a crueldade defendidas por aquela mulher pareciam ecoar de forma estranha na frase dita pelo príncipe.

Seria possível ser forte sem cair na crueldade? Ou isso era inevitável para alguém que desejava conquistar e manter o poder?

Com essas questões ainda pairando em sua mente, Muna se preparou para a noite. Amanhã, a cavalgada com Hakuei seria uma oportunidade para escapar, ainda que brevemente, dos muros sufocantes do palácio.