Encheram a banheira de água quente e despiram a princesa. As criadas acostumadas a pele delicada da rainha e suas exigências higiênicas, ficaram embasbacadas com as feridas no corpo de Muna. A do ombro cicatrizava rápido graças à ajuda de Yunan, mas a marca ficaria por um bom tempo.

Enrolaram-na numa toalha e a vestiram. Desta vez Muna não fez objeção pela roupa embora não fosse nem um pouco de seu agrado. A pedido da rainha, as criadas haviam separado um sarafan de brocado vermelho.

Estava sentada na penteadeira do quarto, tendo seus cabelos arrumados, quando Nida entrou e anunciou que o jantar estava pronto e que esperavam por ela.

— Até que o vestido combinou com você, alteza. — disse Nida, olhando o reflexo da princesa.

Muna agradeceu e virou-se do assento para que ficasse de frente a dama de companhia.

— Você sabe sobre alguma coisa que meu pai queira contar?

— Além da carta, nada. — Respondeu.

— E sobre esse jantar?

— Que é apenas pra celebrar a sua volta e a do príncipe Tamujin.

Muna apertou os dedos das mãos, pensativa.

— Tabor falou de jeito como se fosse outra coisa....

— Talvez ele só quisesse deixá-la nervosa. — disse e abriu a porta do quarto. — Esse jantar vem sendo preparado desde quando o rei decidiu que já estava na hora de vocês voltarem. Venha, não pode se atrasar.

(...)

Muna ficou surpresa ao ver que o jantar seria servido num aposento ornamentado, mas pequeno. Não havia convidados e nem música. A mesa pequena e redonda estava posta com louças de prata e pratos tradicionais.

Nida acompanhou Muna até seu lugar a mesa, ao lado do de Tamujin. O rei sentava-se de costas para parede junto a rainha. Os filhos mais velhos, Ganbaatar e Batbayar, ao lado direito; Tabor, Tamujin e Muna, ao lado esquerdo.

Do ponto de vista de Muna era apenas um jantar simples, e não algo que fosse feito para se comemorar.

—E então — começou Faizel, o rei, chamando a atenção de todos. — O que acharam de Nargabad?

Os mais novos se olharam e deram um breve sorriso.

— Queria ter ficado um pouco mais lá — disse Muna. — Eu gostei de trabalhar lá.

— Foi legal. — Foi a vez de Tamujin. — Mas prefiro estar em casa.

— Está na cara quem fez mais o serviço. — Caçoou Ganbaatar. Os irmãos mais velhos riram.

Ganbaatar era o príncipe herdeiro. De compleição séria, ele era alto, de ombros largos e robusto, com pequenos olhos castanho-escuros.

— Como se saíram na dungeon? — perguntou ele.

— Foi algo inexplicável — disse Tamujin, mordendo um pedaço de cervo. — Precisava estar lá pra ver. O mais impressionante era que não estamos sozinhos.

— Não? — o rei soergueu uma das sobrancelhas. — Quem mais estava com vocês?

— Os príncipes de Kou. — Muna respondeu.

Ganbaatar arqueou as sobrancelhas.

— Sério? Isso explicar muita coisa. — disse. — Em Kou, tivemos que nos contentar com os filhos mais novos do imperador. Ninguém quis me dizer onde estava Ren Kouen e Koumei. Eu queria realmente vê-los.

Muna o olhou com um sorriso debochado.

— Queria vê-los ou desafiá-los?

O irmão mais velho deu um sorriso cumplice. Tamujin virou-se para o rei.

— E como foi lá, pai?

— Estressante, como sempre. — respondeu, mordiscando sua comida. — A corte não parecia enlutada pelo falecimento do imperador. E agora o nosso vizinho tem uma imperatriz.

— Regente? — indagou Tamujin.

Faizel negaceou.

— Não me explicaram direito ou eu não quis entender tal absurdo, mas escolheram Gyokuen. A meu ver, o mais velho tinha que ser imperador.

— Isso causa muita confusão — comentou Batbayar. — Quando ela se for, quem reinara? Kouen, Hakuei ou Hakuryuu?

Batbayar era o segundo filho. Era bonito, com cabelos curtos, olhos castanhos e de barba e cavanhaque preto.

— Até lá isso vai demorar bastante. — disse Faizel. Ele pousou os talhares ao lado do prato e pigarreou — Vamos ao que realmente importar; quem se tornou o terceiro candidato a rei?

A sala ficou em silencio e todos olharam ansiosos para os mais novos. Muna sentia que a expectativa era maior para com Tamujin e compreendia até. Os dois filhos mais velho do rei havia adquirido seus próprios djinn e agora faltava só o caçula, já que o do meio havia seguido seu próprio caminho. Ninguém pensaria em Muna.

Tamujin pigarreou. Nervoso.

— Ahn… bem, lá dentro foi bem arriscado, sabe… Muna me ajudou muito e se feriu muito também. — Cotovelou a irmã. — Conte pra eles, Muna.

Muna suspirou olhando para todos os presentes.

— Era uma dungeon cheia de armadilhas... Pra saber a verdade, eu cair em várias. — Riu nervosa. — E o djinn criava ilusões. Passamos por várias coisas.

— Muna se feriu bem feio, mostre pra eles!

A rainha Saada bufou impaciente

— Mostre-nos seu djinn, Tamu. Mais tarde ouviremos sua história.

Tamujin deu um profundo suspiro e disse, com pesar:

— Foi Muna que capturou...

A princesa esperava ao menos receber parabenizações de seus irmãos, mas a sala mergulhou num silêncio e em expressões curiosas. O único som veio das palmas de Tabor.

— Que inesperado! — exclamou ele, batendo palmas. — A mais nova conseguiu um djinn. Você pode tentar na próxima vez, Tamujin.

Saada franziu ainda mais os lábios e dardejou um olhar a Muna.

— Como conseguiu? — perguntou ríspida. — Era pra ser Tamujin!

Faizel pôs a mão sobre a da mulher.

— Acalme-se, Saada. — disse. — O djinn é quem escolheu, isso já nos foi explicado.

Ela deu de ombros e bufou.

— Bom, — começou Tamujin. — Pelo menos foi um de nós que conseguiu. Os príncipes de Kou estavam lá e o próprio djinn da Muna os chamou de “acumuladores de djinn”.

— Mesmo assim era pra ser você, Tamujin! — Virou-se para Muna irritada. — Por que não insistiu que Tamujin fosse escolhido, sua palerma!

— Mãe — chamou Ganbaatar de modo tranquilizador. — Muna mereceu. Tamujin pode tentar uma outra vez e, além do mais, isso nos ajuda e fortalece politicamente.

Isso não convenceu a mulher que, irritada, levantou-se da mesa e saiu farfalhando seu sarafan. Ela já não morria de amores por Muna, e a princesa imaginava que a animosidade ficaria maior.

— Ah, como é boa a nossa adorável mãe — cantarolou Tabor observando-a sair. — Por que não nos conta sobre sua aventura na dungeon, Muna.

— Eu não quero. — disse obstinada.

A sala estava em um clima tenso, e Muna se sentia horrível por isso. Era apenas um djinn, nada mais. Que mal faria Tamujin conquistar outro? Que mal tinha aquele ser dela?

— Muna, — chamou Batbayar. — O que acha de amanhã treinarmos com seu djinn? — ele deu uma piscadela.

(...)

Os pratos foram levados após o jantar e ainda assim Faizel não deixou que seus filhos deixassem a mesa.

— Muna, querida — chamou ele, depois de um pigarreou. — Eu fico feliz por ter conquistado a dungeon, por ter feito um ótimo trabalho em Nargabad – você também, Tamujin. — Porém, Saada estava certa em uma coisa; tínhamos esperança de que fosse Tamujin o candidato a rei.

— Eu? — indagou o príncipe, surpreso. — Por quê? Achava que qualquer um dos dois valia.

— E valia. — respondeu. — Mas quando vocês estavam em Nargabad, Kou nos enviou uma missiva.

A carta, pensou Muna.

— E o que ela dizia? — perguntou ela com o cenho franzido.

— Para resumi tudo, eles diziam que a dungeon conquistada por você foi erguida pelo magi deles, a fim de que um dos príncipes obtivesse um a mais.

— Parece que atrapalhamos os planos deles — comentou Ganbaatar, intervendo o pai.

— E, bom, — continuou o rei. — Parece que ter vizinhos com três djinn é perigoso e eles querem formar uma outra aliança, além da de comércio. Tínhamos pensado que se Tamujin capturasse poderíamos usá-lo com iscar para a princesa mais nova.

— Queria que eu me casasse com uma princesa de Kou? — indagou ele, enojado.

— Não necessariamente. — disse. — Ela viria pra cá como nossa protegida. Assim, Kou não cometeria nenhum deslize ou nos obrigaria a se unir geograficamente com eles.

— Mas… E agora? — perguntou Muna, receosa. — Isso mudou?

Ganbaatar aquiesceu.

— A possibilidade de você capturar o djinn também era grande e sabíamos disso, mas preferíamos acreditar que seria Tamujin. Mesmo assim pensamos em outro plano como uma viagem diplomática no lugar da princesa.

— E seria eu quem faria essa viagem. — Ela deduziu.

— Não! — Tamujin bateu as mãos sobre mesa. — Muna não precisa ir pra Kou. A princesa pode vir pra cá, de qualquer forma. Se Muna for pra lá ficamos desfalcado com o número de candidatos.

— Sabemos disso — disse Ganbaatar. Ele estava calmo, assim como seus outros dois irmãos. — Por isso Tabor teve uma ideia até que interessante. Muna está longe do trono, mas como mulher e filha de um rei ela se tornar uma candidata perfeita para uma futura rainha de países estrangeiros ou…

— Imperatriz de Kou — murmurou Tamujin, pasmo. — Isso é…

— Incrível, eu sei! — vangloriou Tabor.

Mas Muna não achava isso.

— É horrível — Se espantou, indignada. — Como podem ter pensado em algo assim?

Faizel deu um suspiro pesado.

— Muna, você é uma mulher e um dia terá que se casar. — disse ele. — Contudo, a imperatriz Gyokuen pensou mesma coisa que você e negou.

— Que mulher sensata. — Resmungou ela.

— Mas isso não quer dizer que desistimos — contínuo o rei. — Você vai pra Kou, Muna. Ficara um tempo por lá até que as coisas entre nós estabeleçam. Será nossa ancora.

— Ancora? — Ela indagou, arqueando as sobrancelhas. — Isso é uma moeda de troca! Não quero ir pra Kou, quero ficar no meu reino!

Muna sabia que longe do trono e bastarda, pouca coisa lhe sobraria caso seu pai morresse. Porém, pensava que jamais deveria sair de Olmak. Estava até os ossos conectada com aquele país, com o povo e até chegava imaginar em casar-se com um dos homens do exército, apenas para permanecer.

Batbayar tentou convencê-la:

— Você precisa nos ajudar, Muna. Não se casara com nenhum príncipe de Kou, se não quiser. Mas, ao menos, temos que resolver isso antes que comece um conflito. Você, como todos nós, conhece o império Kou e eles não estão nem aí se temos algum parentesco ou não. Precisamos garantir que nada acontecera com Olmak

Ela ficou em silêncio. Não queria deixar Olmak, não agora que tinha conquistado tanto em Nargabad. Cerrou os punhos e suspirou.

— Eu vou, se o senhor meu pai se agradar disso. — disse. — Mas também quero voltar em dois meses.

Todos olharam para o rei que aquiesceu.

— Se assim desejar. — disse ele.

Ela então se levantou da mesa e voltou para seu quarto acompanhada pela dama de companhia.

Depois de ter tirado seu sarafan e ter ficado sozinha, abriu a janela do quarto. O céu daquela noite estava cheio de nuvens, e a cidade lá embaixo parecia tranquila. Debruçou-se ali e pensou em Yunan perguntando-a se queria ser rainha e na ilusão criada pela dungeon de seu pai. Deu um profundo suspiro, é claro que ela queria ser rainha, mas daquele lugar.

Notas finais
Sarafan são vestidos tradicionais/folclóricos russos. Neste capitulo Muna estava usando um assim: http://slavmoda.com/wp-content/uploads/2016/10/DSC1801-683x1024.jpg