O cenário era digno de uma pintura: um gazebo de ferro forjado coberto por trepadeiras de jasmim, com vista para as fontes de águas cristalinas da mansão. A mesa de mármore estava posta com o melhor jogo de chá da coroa, repleto de finas iguarias, bolinhos de chuva com açúcar e canela, e sanduíches de pepino cortados com precisão milimétrica.

​O Rei Dhorwack saboreava um pedaço de torta, enquanto a Rainha Elowen servia o chá com a elegância de quem nasceu para o trono. Marcus, por outro lado, parecia estar tentando desarmar uma bomba enquanto segurava a minúscula xícara de porcelana com seus dedos calejados.

​Claire, sentada à frente dele, observava cada movimento com um sorriso predatório.

​— Por favor, General, não aperte tanto a xícara — disse Claire, a voz suave carregada de sarcasmo. — Seria uma tragédia nacional se o "Leão de Lâfrer" fosse derrotado por uma peça de porcelana Ming. Embora eu entenda... para quem está acostumado a beber água em crânios de inimigos ou canecas de ferro amassadas, isso deve ser um desafio hercúleo.

​Marcus respirou fundo, o vapor do chá subindo pelo seu nariz. Ele pousou a xícara com um clique seco.

​— Eu não bebo em crânios, senhorita Mackenzie. Isso é falta de higiene e de logística. Mas confesso que prefiro a honestidade de uma caneca de ferro ao teatro de uma mesa onde as pessoas usam três talheres diferentes para comer uma única uva.

​— É chamado de civilização, Sinclair — rebateu ela, pegando um pequeno garfo de prata com uma delicadeza exagerada. — Algo que protege as pessoas de se tornarem bárbaros que rosnam em vez de conversar. Mas imagino que, na sua "mansão", o senhor pretenda trocar esses tapetes de seda por palha seca para se sentir mais em casa, não é?

​O Rei Dhorwack soltou uma risada abafada, tentando esconder o rosto atrás da sua própria xícara. A Rainha deu um leve chute por baixo da mesa no marido, mas até ela tinha um brilho de diversão nos olhos.

​— A casa é magnífica, Majestade — Marcus disse, ignorando Claire por um segundo. — Mas temo que seja grande demais para um homem só.

​— Ah! — Claire interveio imediatamente, limpando o canto da boca com um guardanapo de linho. — Finalmente uma admissão de derrota! O General admite que não tem alma suficiente para preencher um espaço tão nobre. Realmente, uma biblioteca inteira seria um desperdício para alguém que só lê mapas de invasão e relatórios de baixas.

​Marcus inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços na mesa, invadindo o espaço dela.

​— Eu leio o suficiente para saber quando uma pessoa está usando a arrogância para esconder a própria futilidade, senhorita. A senhorita critica minha falta de modos, mas passa o dia escolhendo a cor das fitas da Rainha. Quem de nós dois realmente contribui para que este reino continue de pé para tomarmos este chá?

​Claire sentiu o rosto esquentar. Ela não recuou.

​— Eu mantenho a moral e a etiqueta que impedem que este palácio se transforme em um quartel fedorento! — rebateu ela, a voz subindo um tom. — E se eu escolho fitas, é porque a beleza e a ordem são o que nos diferencia dos animais que o senhor caça nas fronteiras. Mas claro, um homem que tem o tato de um porrete de guerra nunca entenderia o valor de um detalhe.

​— Detalhes não vencem guerras, Mackenzie.

​— Mas impedem que a paz seja insuportável, Sinclair!

​O Rei Dhorwack finalmente não aguentou. Ele bateu com a mão na mesa, rindo abertamente.

​— Por Deus, Elowen! — exclamou o Rei. — Eu deveria nomear Claire como minha estrategista de defesa. Ela conseguiu encurralar o General Sinclair em menos de dez minutos com apenas um sanduíche de pepino e muita audácia!

​A Rainha Elowen sorriu, observando Claire e Marcus, que ainda se encaravam como se estivessem prestes a desembainhar espadas (ou lançar bules de chá).

​— Receio que o General tenha encontrado uma adversária à altura, Dhorwack — disse a Rainha calmamente. — Marcus, você deve admitir: Claire é a primeira pessoa em anos que não tem medo da sua cara de poucos amigos.

​Marcus olhou para a Rainha e depois para Claire, que exibia um sorriso vitorioso e insolente.

​— Medo? — Marcus murmurou, voltando a pegar sua xícara. — Ela não tem medo porque é inconsciente do perigo. É como um pássaro barulhento bicando o nariz de um urso.

​— O urso que se cuide — Claire retrucou, piscando para ele antes de morder um doce. — Pássaros barulhentos podem ser muito irritantes quando decidem não parar.