Entre o Antes e o Depois
2 Um Príncipe? Talvez não
Era mais um dia comum na vida de Marina Nogueira.
Escondida atrás da tela do computador, ela fingia estar totalmente mergulhada nos relatórios. Só que, se alguém se aproximasse, perceberia que sua atenção estava dividida: metade da tela exibia números e planilhas, a outra metade… um dorama coreano cheio de diálogos melosos, música dramática e beijos de fazer suspirar.
Essa era sua vida secreta: uma dorameira enrustida.
Marina amava romances. Em livros, em séries, em músicas… até no TikTok, onde ficava assistindo aos vídeos de casais abraçados com legendas como “a vida é melhor com você”. Tudo isso fazia seu coração disparar, mesmo que, na vida real, sua própria história amorosa fosse um fracasso completo.
Seu último encontro, por exemplo, ainda a fazia rir de nervoso.
O rapaz parecia interessante, estavam conversando sobre trabalho quando Marina, no auge da empolgação, soltara uma de suas observações aleatórias:
— Você sabia que abacaxi é uma fruta cítrica porque ele tem cílios?
O homem piscou, confuso, mas sorriu educado. Logo em seguida, levantou-se dizendo que ia ao banheiro… e nunca mais voltou.
Marina ficou esperando, paciente, acreditando piamente que ele estava passando mal. “Um piriri não perdoa ninguém”, pensou na época. Mas quando o relógio marcou 22h55 e os garçons começaram a empilhar as cadeiras, percebeu que a emergência dele tinha sido outra.
As mensagens dela nunca mais foram respondidas. A foto de perfil dele desapareceu. Marina ainda comentava com as amigas que os homens eram dramáticos demais — afinal, todo mundo já teve dor de barriga. Não precisava sumir assim.
— Marinaaaa! — a voz de Patrícia, sua colega de mesa, a trouxe de volta ao presente.
Ela clicou rápido em “alt+tab”, escondendo o dorama atrás da planilha.
— Oi, Paty. Claro, tô focada aqui, produtividade a mil!
Patrícia riu.
— Sei… “produtividade”, né? Bom, deixa eu te contar a novidade. Hoje chega o novo analista.
Marina ergueu as sobrancelhas.
— Ah, é?
— Sim! Dizem que ele foi eleito o melhor analista comercial da filial de Guarulhos. Ganhou até prêmio.
Marina se recostou na cadeira, assobiando.
— Uau… enquanto eu comemoro quando consigo mandar um relatório sem erro de digitação.
Patrícia gargalhou.
— Não fala assim! Você é ótima, só falta organização.
— Só falta isso mesmo — Marina brincou, apontando para a própria mesa coberta de papéis amassados, uma caneca com café esquecido há dois dias e post-its coloridos colados ao redor do monitor.
Patrícia puxou a cadeira para mais perto, animada como quem tinha o maior segredo do mundo.
— A Sabrina de lá me contou que ele é sério. Alto, cabelos loiros escuros, olhos verdes.
Marina fez uma careta e balançou a cabeça.
— Loiro? Não, não… eu queria um moreno sarcástico, com aquele olhar de quem te tira do sério e depois te arranca um beijo proibido.
Patrícia caiu na gargalhada.
— Mari, o que cair na rede é peixe. Olha só isso. — pegou o celular e colocou a tela bem na frente do rosto da amiga.
Marina arregalou os olhos.
— Uau!!! — exclamou, virando-se para Patrícia. — Que pedaço de mal caminho! Olha só esse rosto. Ele parece até de capa de revista. Ele é novo, né? Quantos anos?
— O suficiente pra ser legal, Mari. — Patrícia respondeu com um sorriso malicioso.
Marina gargalhou alto, chamando atenção de duas mesas próximas.
— Pedro Ferraro! Esse nome parece até de gente que vai ser importante… soa como uma Ferrari amarela!
Patrícia quase engasgou de rir.
— Que horror, Mari! Ninguém nem gosta de carro amarelo.
— Ah, diga isso para o Camaro Amarelo, que bombou uma geração inteira. — Marina rebateu, piscando.
Ela voltou os olhos para as fotos. E quanto mais passava, mais a imaginação fervilhava.
Na mente dela, já havia um enredo: Pedro entraria pela porta do escritório, os olhos verdes brilhariam quando encontrassem os dela. O mundo ficaria em câmera lenta. Ele se apaixonaria à primeira vista, e o destino cuidaria do resto.
Rolando mais o perfil, Marina encontrou fotos dele marcado em corridas.
Ela franziu o nariz. Detesto exercício físico. Mas logo ajeitou a fantasia: estaria na chegada, esperando por ele. A multidão vibrando, o champanhe estourando, e eles se beijariam bem ali, com gosto de vitória e adrenalina.
Outra foto mostrava um gato laranja, gorducho e adorável.
— Cheetos. — Marina leu em voz baixa, encantada. — Até o gato dele é perfeito!
Já se imaginava no sofá, Pedro de um lado, Cheetos no colo dela, enquanto assistiam “O Verão que Mudou a Minha Vida”. Seria perfeito.
Pedro parecia ser low profile, discreto, nada daquele tipo exibido das redes sociais. E isso era ótimo. Mas, na cabeça dela, era óbvio: o celular dele estaria lotado de fotos dela, sorrindo de surpresa, dormindo com a cara amassada, ou rindo das próprias piadas ruins.
— Terra para Marina! — Patrícia balançou seu ombro, rindo. — Sai do devaneio, amiga!
— Paty, você tá me atrapalhando! — Marina respondeu, sonhadora.
Foi quando uma colega que estava próxima a janela vigiando, gritou.
— Ele tá chegando!!!
E então o escritório inteiro entrou em polvorosa. As mesas estavam quase todas vazias. Deixando apenas os colegas mais velhos. As mulheres sumiam, uma a uma, em direção ao banheiro. Até as colegas casadas.
Marina e Patrícia se entreolharam, levantaram num pulo e foram atrás.
Ao entrarem, o banheiro parecia um campo de batalha. Mulheres se empurravam para alcançar o espelho, retocando batom às pressas, borrifando perfume, ajeitando camisas para destacar o que podiam. Marina olhava a cena em choque — mas aquela guerra já tinha uma vencedora definida. E seria ela.
Se espremeu entre cotovelos e bolsas, abaixou-se até encontrar um pedaço minúsculo de espelho livre no canto. Ali, num espaço que mal cabia seu reflexo, abriu a bolsa, passou batom com cuidado, ajeitou o cabelo do jeito que deu, espalhou um pouco de creme no rosto para disfarçar as linhas teimosas que insistiam em aparecer.
Olhou-se uma última vez. Não era uma mulher extraordinária. Era comum. Comum demais.
Mas Marina sabia que até pessoas comuns mereciam momentos extraordinários. E, naquele dia, seria o dela.
Se encarou com determinação.
Não importa as concorrentes. Quem vai ganhar hoje sou eu.
O caos do banheiro tinha ficado para trás. Marina saiu espremida entre as colegas, ajeitando a camisa com a pressa de quem sabia que estava prestes a participar de um evento histórico. O corredor parecia vibrar com o burburinho de vozes femininas, os saltos marcando o chão como uma marcha sincronizada. Até os homens do setor resmungavam, debochando:
— Parece até que o Brad Pitt vai entrar aqui.
O burburinho do escritório foi morrendo aos poucos, como se todos esperassem o mesmo instante. Marina ajeitou a blusa, tentou disfarçar o nervosismo com um sorriso de canto e se escondeu atrás da tela do computador, mas por dentro seu coração já batia como tambor.
A porta se abriu.
E ele entrou.
Pedro Ferraro.
Marina viu primeiro o perfil — a postura ereta, o terno azul-marinho impecável. Depois, o detalhe que a deixou sem ar: o sorriso. Não era largo, nem forçado. Era aquele sorriso contido, charmoso, que surgia enquanto ele falava baixo com o gerente. Um sorriso seguro, de quem sabia exatamente quem era e o que estava fazendo ali.
Os olhos dela correram pelo rosto dele como se precisassem memorizar cada detalhe. O cabelo loiro escuro parecia ter sido feito para brilharem como um segundo sol, e os olhos verdes, quando se erguiam do diálogo, tinham um charme carregado como uma floresta em um dia nublado. Marina sentiu o estômago dar um salto, e as borboletas que sempre povoaram suas novelas favoritas resolveram ganhar vida dentro dela.
Não era só beleza. Era o jeito como ele inclinava levemente a cabeça ao ouvir o gerente, a forma calma com que mantinha o contato visual, como se desse importância até as pausas das frases. Tinha algo nele que transmitia confiança e, ao mesmo tempo, mistério.
E foi nesse instante que aconteceu: por um segundo, os olhos dele percorreram a sala e quase — quase — encontraram os dela. Marina gelou. O corpo inteiro ficou em alerta, como se tivesse sido pega no meio de um sonho.
É isso. É isso que eu sempre imaginei.
O mundo poderia estar desabando lá fora, mas para Marina havia só aquele homem e o jeito que ele sorria de canto enquanto falava. Pela primeira vez em muito tempo, ela acreditou que talvez, só talvez, estivesse prestes a viver um daqueles romances que até então só existiam em livros e doramas.
O gerente pigarreou, pedindo atenção.
— Pessoal, em pé, por favor. — disse, com aquele tom formal que Marina sempre achava mais chato que reunião de segunda-feira.
Todos se levantaram, e ela foi junto, ajeitando a barra da blusa com pressa pela milésima vez.
— Esta é a equipe comercial. Como vocês sabem, nossos números andaram um pouco abaixo do esperado. — o gerente lançou um olhar severo para o grupo. — Por isso trouxemos um reforço de peso. Ele vem da filial de Guarulhos, premiado como melhor analista de compras da rede por três anos seguidos. O gênio que vai nos ajudar a dar um up: Pedro.
Pedro cumprimentou com um aceno elegante, aquele sorriso discreto de antes ainda pairando no rosto. Marina sentiu o coração se apertar. É ele. O príncipe corporativo que o universo resolveu mandar para mim.
O gerente começou a apresentar os funcionários um a um. Cada nome era seguido por um gesto rápido de Pedro — ora um aperto de mão, ora um leve aceno. Marina mal ouvia. Por dentro, já construía a cena perfeita: quando chegasse sua vez, ele a olharia, o mundo se calaria, e os olhos verdes dele brilhariam como nos romances que ela assistia escondida na tela dividida. Ele sorriria, talvez até um segundo a mais, e em silêncio reconheceria nela algo diferente. O destino.
Finalmente, o gerente terminou de apresentar Patrícia, agora seria ela.
— E aqui… Marina. — disse, sem mais comentários, como se fosse apenas mais uma na lista. O que realmente ela era.
Marina ergueu o rosto, os olhos ansiosos buscando os dele.
E então, aconteceu.
O olhar de Pedro encontrou o dela.
Por um instante, foi tudo o que ela havia sonhado: os olhos verdes brilharam, quase acenderam, como se a vissem pela primeira vez. Marina sentiu as borboletas subirem até a garganta, a respiração falhar, o coração disparar tão alto que ela teve medo de que todos ouvissem.
É isso. É a cena. O início da nossa história.
Mas antes que pudesse sorrir, algo mudou.
A expressão dele vacilou. O brilho nos olhos apagou devagar, substituído por uma seriedade fria, quase cortante. O maxilar se contraiu, o sorriso desapareceu. O homem que, um segundo antes, parecia um príncipe de dorama… em um piscar de olhos, transformou-se em um vilão, daqueles que te mandam varrer o chão enquanto os farelos da rosquinha estão caindo no chão. Uma fortaleza inalcançável.
Marina piscou, confusa.
Alguma coisa errada não está certa. Por que ele me olha assim?
Pedro, por sua vez, sustentava o olhar com a serenidade impecável de um funcionário disciplinado. A postura era firme, o semblante controlado — como se fosse apenas mais uma apresentação formal. Mas por dentro, cada músculo estava em guerra.
Ele já sabia que a encontraria ali. Dias antes, ao aceitar a transferência, fez o que sempre fazia: pesquisou tudo. E, ao deslizar pelo LinkedIn da nova filial, uma foto do setor comercial surgiu em sua tela. Bastou um segundo para reconhecê-la. Marina.
O choque daquela lembrança antiga voltou dolorosamente. A humilhação que sofreu na infância — a gargalhada dela ecoando, o gosto amargo de ser ridicularizado pelo primeiro amor — encheu novamente seu coração. E foi ali, diante da tela, que decidiu: devolveria na mesma moeda. Ela sentiria na pele o que era se abrir e ser rejeitada.
Mas nada, absolutamente nada, o preparou para o impacto de vê-la de verdade.
Ela estava como ele lembrava. Não — estava mais.
O primeiro amor da sua vida, a jovem mais linda que seus olhos infantis já haviam visto… agora era a mulher mais linda que já tinha visto como homem.
Por um instante, fraquejou. Uma onda de lembranças o atingiu como maré: o riso dela, a leveza, a forma despretensiosa com que falava. Quis saber de tudo. Como tinham sido aqueles anos? O que ela havia feito? Quais sonhos buscava? Do que gostava agora? O coração dele queria ouvir da boca dela.
Mas o coração, rápido em se abrir, foi esmagado pelo orgulho.
Sim, ele se preparou. Estudou a vida dela, sua rotina, cada detalhe que podia encontrar. Não para amá-la de novo — mas para transformar aquela ferida antiga em algo irreversível.
Agora seria diferente.
Agora, Marina jamais riria dele novamente.
No íntimo, Pedro Ferraro decidiu, com frieza:
Eu vou me vingar. E, quando isso acontecer… será a minha vez de rir.
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