Entre o Antes e o Depois

3 Quando os Príncipes Viram Vilões


A apresentação de Pedro deixou Marina com uma pulga atrás da orelha.

Uma pulga insistente, que ora sussurrava que tinha algo errado, ora pulava em nuvens cor-de-rosa dentro da cabeça dela, soprando: “É isso, Marina, ele se apaixonou à primeira vista.”

Ela podia jurar que os olhos dele tinham brilhado.

Brilhado de verdade, não daquele jeito normal de reflexo da luz, mas como em histórias de amor, quando a câmera foca no casal principal e o mundo inteiro some.

Enquanto voltava para a mesa, ajeitando os papéis só para parecer ocupada, Marina suspirava. Será que já comecei minha história de amor?

Claro, havia a parte estranha também. O sorriso dele sumiu rápido, substituído por algo sério, até frio. Mas na mente fértil de Marina, isso só podia significar uma coisa: homens misteriosos sempre escondem sentimentos profundos.

Era a lei número um das novelas coreanas.

Pedro, do outro lado da sala, ouvia a fala do gerente e mantinha o semblante impecável. Estava ciente de cada movimento, cada olhar furtivo na direção dele. Não sorriu, não reagiu, apenas observou. Marina parecia a mesma: atrapalhada, falante, com aquele brilho caótico que sempre o deixou dividido entre rir e se derreter.

Mas agora era diferente.

Ele não era mais o menino da cartinha.

Marina, distraída, voltou a suspirar. Se dependesse dela, já estava quase comprando vestidos imaginários para o casamento.

— Marina… — Patrícia a cutucou, rindo baixinho. — Tá viajando de novo?

Ela corou, ajeitando o monitor.

— Só tô… pensando no relatório.

Patrícia arqueou a sobrancelha.

— Relatório com olhos verdes, né?

Engasgou, mas não conseguiu negar.

Ainda estava perdida em seus pensamentos — entre olhos verdes, nuvens cor-de-rosa e possíveis finais felizes — quando o gerente bateu palmas, chamando todos para a sala de reunião.

Ela suspirou, pegou o bloco de anotações (onde metade das folhas estava rabiscada com corações e frases que só faziam sentido na cabeça dela) e seguiu junto dos colegas. A sala estava cheia, mas não havia como ignorar: Pedro estava ali, sentado do outro lado da mesa, impecável, com a postura ereta e o olhar atento.

Não olha, Marina. Não olha.

Dois segundos depois, ela já estava olhando.

“Ele é maravilhoso”, pensou, quase suspirando.

O gerente começou a falar sobre a estratégia de negócios, exibindo gráficos no projetor. Marina tentava acompanhar, mas metade da mente já criava uma narrativa paralela: Pedro olhando para ela, Pedro sorrindo de leve, Pedro claramente reconhecendo que eles estavam destinados um ao outro.

Até que o gerente chamou seu nome.

— Marina, fale sobre o modelo de negócios para o cliente da Caster & Co.

Ela pigarreou, ajeitou a blusa e começou a falar, orgulhosa do material que tinha preparado. Explicou o fluxo, apontou soluções criativas, até arriscou um humor leve:

— Se tudo der certo, o cliente vai ficar mais satisfeito que nutricionista em churrascaria.

Alguns riram. Ela relaxou. Estava indo bem.

Foi então que Pedro entrou no assunto.

— Interessante… — disse, com a voz baixa e firme, prendendo a atenção de todos. — Mas não sei se “interessante” basta para o cliente da Caster.

Marina piscou, surpresa. Ele vai complementar, vai me apoiar.

Mas ele não apoiou.

— O modelo apresentado por ela carece de precisão em três pontos fundamentais: custos de logística, prazo de entrega e análise de fornecedores secundários. Se entregarmos exatamente isso, não vamos perder só a conta, vamos perder credibilidade.

Silêncio. A sala inteira olhou para Marina.

Ela congelou.

O quê? Ele tá… me desmentindo?

O gerente franziu o cenho, curioso.

— Pode detalhar, Pedro?

E ele detalhou. Um a um, desmontou os argumentos de Marina, apontando falhas que ela nem tinha considerado, sempre com aquele tom educado, mas afiado, como um espinho escondido em veludo.

A cada frase dele, Marina sentia o estômago despencar.

Esse não é o príncipe de dorama. Esse é o vilão, o Queridinho das Trevas, que entra sorrindo e rouba a cena.

Ela respirou fundo.

— Com licença… — interrompeu, com a voz doce, mas firme. — Se me permite, Pedro, o que você chamou de “falhas” são, na verdade, estratégias de adaptação. O cliente da Caster busca agilidade e custo-benefício. Se formos pelo caminho que você sugeriu, vamos entregar atraso, custo alto e, pior, frustração.

Alguns colegas assentiram discretamente. Ela sentiu a confiança voltar.

Boa, Marina. Mostra pra ele que você não é só rostinho bonito.

Pedro sustentou o olhar, um meio sorriso nos lábios.

— Estratégia de adaptação… ou improviso mal planejado? — retrucou, com a calma de quem sabia exatamente onde cutucar.

A sala murmurou.

Marina engoliu seco, mas não recuou.

— Improviso mal planejado é contratar alguém de fora e achar que ele entende a realidade daqui em duas horas. — disparou, arrancando um “uuuuh” abafado de um colega ao fundo.

Por um segundo, ela jurou que viu os olhos verdes dele faiscarem. Não era brilho apaixonado. Era outra coisa. Desafio.

E foi aí que a ilusão caiu de vez.

Não havia príncipe. Não havia final feliz instantâneo.

Havia um homem perigoso e inteligente, que parecia ter escolhido justamente ela para medir forças.

Ajeitou a caneta na mão, erguendo o queixo.

Tudo bem, Ferraro. Se é guerra que você quer, vai ter.

Marina se recostou na cadeira, respirando fundo, tentando manter o controle. O calor subia pelo pescoço, e ela sabia: seu rosto provavelmente já estava corado.

Pedro, do outro lado, parecia feito de gelo.

— Com todo respeito, Marina — disse, a voz calma, quase suave, mas com a firmeza de um juiz na suprema corte. — Eu entendo a sua visão. De verdade. Mas não podemos basear nossa estratégia em otimismo. Precisamos de números. Precisão. O mercado não perdoa improviso.

Marina ergueu o queixo, estreitando os olhos.

— E com todo respeito, Pedro, o mercado também não perdoa arrogância. Já vi muitos números perfeitos que falharam porque não entenderam a realidade do cliente.

Um murmúrio correu pela mesa. Alguns disfarçaram o sorriso.

Pedro manteve o olhar fixo nela.

— Então o que você chama de realidade é… correr riscos desnecessários? — perguntou, inclinando-se um pouco para frente, como se quisesse fitar cada reação dela.

Marina sentiu a provocação como uma fisgada.

Ele está me testando. Quer me expor. Não vai conseguir.

Ela respirou fundo e respondeu, carregando cada palavra com a calma que não sentia:

— Não, eu chamo de realidade ouvir o cliente. Saber o que ele precisa, e não apenas o que fica bonito em um relatório.

Pedro sorriu de lado. Não um sorriso simpático. Era o sorriso de quem encontrou um adversário.

— Curioso. Foi exatamente isso que me fez ganhar o prêmio de melhor analista da rede. — rebateu e foi certeiro. — Saber o que o cliente precisa.

Marina gelou. Sentiu como se ele tivesse subido no palco e as luzes estivessem todas acesas para ele.

“Prêmio de melhor da rede”. Ela não tinha nada parecido no currículo.

Não cede, Marina. Não deixa ele vencer.

— Prêmios são ótimos. — respondeu, inclinando-se também, para não ficar por baixo. — Mas manter clientes satisfeitos… é isso que garante que a gente continue tendo com quem negociar.

O embate se alongava, uma troca de farpas elegante e venenosa. A tensão na sala era palpável. Alguns colegas olhavam de um para outro como se estivessem assistindo a uma partida de tênis.

Foi quando o gerente ergueu as mãos.

— Ok, ok. — interrompeu, com um sorriso cansado. — Eu entendo a empolgação. Muito bom ver esse nível de engajamento da equipe. É disso que precisamos.

Marina se recostou, mordendo o lábio, engolindo a vontade de responder mais. Por dentro, gritava. Engajamento? Ele está me humilhando! Isso não é engajamento, é uma guerra.

O gerente prosseguiu:

— Já que o senhor Ferraro trouxe pontos importantes… quero ver como ele adapta isso à nossa realidade. Pedro, prepare um modelo de negócios para o cliente da Caster & Co. Quero sua versão na mesa até a próxima reunião.

Marina quase deixou escapar um gemido audível. Não, não, não! Isso era meu cliente, minha ideia, meu trabalho!

Mas manteve o sorriso congelado.

Pedro ajeitou a gravata, sem pressa.

— Será um prazer. — disse, sem tirar os olhos dela. — Pelo o que ouvi até agora, parece que eu sou o mais qualificado para essa operação.

Marina gritou por dentro.

Arrogante! Petulante! Insolente! Como alguém consegue ser tão insuportável e ao mesmo tempo tão… lindo? Não, não! Nada de lindo!

O gerente acenou, satisfeito.

— Excelente. Quero isso bem estruturado. Marina, depois você revisa e complementa se necessário. Trabalho em equipe, certo?

Ela forçou o melhor sorriso corporativo que conseguiu.

— Claro, gerente. Trabalho em equipe.

Pedro, no entanto, apenas sustentava o olhar, e ela podia jurar que ele se divertia em vê-la engolir as palavras.

A reunião se arrastou com gráficos, prazos e cronogramas. Mas, para Marina, tudo já estava decidido: aquele homem era seu inimigo declarado.

E se havia uma coisa que ela sabia, era como transformar uma derrota em uma boa vitória.

Tudo bem, Ferraro. Você pode ter vencido essa rodada. Mas ainda não conhece minhas armas secretas.

Enquanto todos se dispersavam, Marina fez questão de se levantar primeiro e seguir para fora. Sentia o olhar dele acompanhá-la. E não resistiu: antes de sair, lançou um meio sorriso provocativo, como quem dizia não acabou.

Pedro inclinou o rosto, quase imperceptível. E um pequeno sorriso se formou em seus lábios.

Já em sua mesa, ela ainda estava absorvendo a humilhação velada da reunião quando percebeu o movimento: Pedro se levantava. Postura impecável, passos firmes, olhar fixo como se já soubesse exatamente para onde ia.

Para a mesa dela.

Marina se encolheu na cadeira por um instante, mas logo endireitou a postura. Não mostra fraqueza, Marina. Ele é só mais um colega. Um colega lindo, cheiroso e com olhos verdes capazes de derreter até pedra vulcânica, mas ainda assim só um colega.

O coração, porém, não colaborava. Quanto mais ele se aproximava, mais acelerava, e foi impossível ignorar quando o perfume dele preencheu o ar. Amadeirado, intenso e sofisticado, o famoso 212. Aquele tipo de cheiro que ficava preso na memória e dava vontade de levar o homem para casa.

Pedro parou diante dela, inclinando-se levemente sobre a mesa. Os olhos verdes brilharam, mas não de ternura, de desafio.

— Preciso de uma cópia do seu modelo de negócios da Caster & Co. — disse, a voz baixa, firme, polida como sempre.

Marina piscou, confusa por um segundo. Depois ergueu o queixo, tentando recuperar terreno.

— Ah, claro. Porque você vai precisar de inspiração, né?

Ele arqueou uma sobrancelha, sem sorrir.

— Inspiração, não. Referência. Quero entender como chegou a um plano tão… criativo.

“Criativo.” O jeito como ele disse a palavra soou como uma ofensa.

Marina estreitou os olhos.

— Criativo ou funcional? Porque, pelo que eu sei, criatividade é justamente o que segura cliente difícil.

Pedro inclinou-se um pouco mais. A distância entre eles era curta demais para ser confortável, e Marina sentiu o corpo inteiro em alerta.

— Criatividade sem precisão é só adivinhação. — rebateu. — E eu não costumo jogar dados com clientes.

O sangue subiu à cabeça dela.

— Bom saber. — respondeu, com um sorriso forçado. — Porque eu costumo ganhar jogando dados.

Por um segundo, achou que ele fosse rir. Mas Pedro apenas a fitou em silêncio, como se estivesse dissecando cada reação dela. Então, com a calma de quem sabia ter a última palavra, pegou a pasta do modelo de negócios em cima da mesa.

— Obrigado. — disse simplesmente. — Tenho certeza de que isso vai ser… esclarecedor.

E se afastou, o perfume dele ainda pairando como lembrança torturante.

De volta à própria mesa, Pedro abriu o documento dela com a mesma precisão de um cirurgião. Os olhos percorriam cada linha, cada número, cada anotação marginal. Ele não subestimava. Muito pelo contrário. Queria entender cada detalhe — e desmontar, peça por peça, diante de todos.

Marina, por outro lado, sentou-se ereta como se fosse erguer voo. O coração ainda martelava por causa da proximidade dele, mas agora havia algo mais forte pulsando: determinação.

Você vai ver, Ferraro. Esse modelo não é só bom, é melhor que qualquer um que você trouxer. E eu vou provar.

Com a caneta em mãos e os olhos faiscando, Marina se jogou sobre os papéis. Cada detalhe, cada margem, cada estratégia seria revisada. Ela não era apenas mais uma analista comum. Não seria a escada para ele brilhar.

E se Pedro queria guerra, ela estava pronta.

O expediente chegava ao fim, e Marina recolheu suas coisas com a pressa costumeira. Jogou papéis na bolsa, derrubou uma caneta, pegou outra de volta, quase levou junto o carregador de Patrícia sem perceber. Organização nunca foi meu forte, pensou, sorrindo sozinha.

Antes de sair, não resistiu: lançou um olhar rápido de lado.

Pedro ainda estava lá.

Postura impecável, os olhos grudados nas folhas do modelo que ela havia entregue. A concentração dele era quase intimidadora, os ombros flexionados, a mão firme segurando o papel, a linha do maxilar dura como mármore.

“Arrogante”, Marina bufou em pensamento. “Nem percebe que eu existo, tão ocupado em desmontar meu trabalho.”

Determinada, ajeitou a bolsa no ombro e decidiu: não iria se despedir. Que ficasse lá, enterrado em seus relatórios. Ela o deixaria no vácuo.

Nesse instante, os colegas começaram a levantar.

— Boa noite, Mari! — uma das meninas a abraçou.

— Até amanhã, lindona! — outra deu um beijinho no rosto.

Marina sorriu, devolvendo os gestos. Patrícia surgiu por último, mexendo no celular.

— Hoje não vou contigo, amiga. Minha mãe tá me esperando no shopping.

— Tudo bem, vai lá. — respondeu, disfarçando um fio de decepção. Ter Patrícia por perto sempre era um escudo.

Quando voltou a erguer os olhos, sentiu.

Pedro a observava.

Não da forma casual que colegas se olham, mas com aquele peso que fazia cada nervo do corpo dela despertar. Ele segurava as folhas, o rosto inclinado para baixo, mas os olhos verdes erguidos na direção dela. Havia algo terrivelmente… perigoso naquele olhar.

Sexy? Talvez.

Maléfico? Com certeza.

Marina parou no meio do caminho, ainda com o corpo apontado para a porta, mas incapaz de dar o próximo passo. Sentiu o suor frio descer pela nuca, o coração descompassado.

Fala alguma coisa, Marina. Qualquer coisa.

— Tchau, gente! — disse alto, para o restante do setor, fingindo naturalidade. Depois, virou-se para ele. — E você… não vai se despedir de mim?

Pedro ergueu uma sobrancelha, sem pressa, como quem decide se vale a pena responder.

— Boa noite, Marina. — disse por fim, seco, como se cada letra fosse medida.

Ela estreitou os olhos.

— Não é assim que se despede de um colega de trabalho.

Ele não respondeu, apenas sustentou o olhar.

Marina bufou, cruzou os braços e disparou, num tom carregado de sarcasmo:

— Tá bom, “rei da maldade”. Até amanhã.

E saiu pisando pesado, o salto ecoando pelo corredor como marteladas.

Pedro ficou em silêncio por alguns segundos, ainda olhando para a porta pela qual ela havia desaparecido. O canto da boca ameaçou se curvar, mas ele conteve o gesto.

Apoiou-se no encosto da cadeira, levou a mão ao queixo e refletiu.

“Rei da maldade.”

Não era um título ruim.

Na verdade, era perfeito.

Porque se havia alguém que merecia o pior de sua maldade, esse alguém era ela.

E Pedro Ferraro estava mais do que disposto a ser exatamente isso.

Ser o rei da maldade para Marina Nogueira.

Mas… aquilo seria difícil.

O olhar dela o atingiu como a luz do sol no planeta terra, e o corpo reagiu antes que a mente pudesse se proteger.

Um frio correu pelo estômago, súbito, quase infantil — como se o tempo não tivesse passado, como se ainda fosse o garoto bobo que a olhava de longe.

As mãos ficaram inquietas, o peito pesado demais para sustentar a indiferença.

Vinte anos não tinham apagado nada.

Apenas enterrado, fundo o bastante para que ele acreditasse estar a salvo.

E, ainda assim, bastou um olhar dela para quase desmoronar tudo de novo. Ele teria que tomar cuidado.

Ela desceu do metrô bufando, cada passo ecoando sua fúria. Nem o vendedor de brigadeiro na escada rolante, que normalmente arrancaria um sorriso dela, conseguiu quebrar o mau humor. Subiu a rua de cabeça baixa até parar diante do prédio pequeno, de fachada antiga.

A chave emperrou na fechadura, como sempre, e Marina entrou já chutando o tapete.

Um tapete azul-marinho, desbotado, onde se lia em letras douradas: USP.

— Maldito tapete metido a acadêmico… — resmungou, tropeçando quase por vingança dele.

A kitnet era do tamanho do pensamento “Tem leite na geladeira?”, mas cheia de sinais de quem morava ali. Estantes improvisadas abarrotadas de livros médicos com títulos complicados — “Oncologia Radioterápica”, “Atlas de Anatomia Humana”, “Física das Radiações” — disputavam espaço com canecas vazias e post-its coloridos cheios de rabiscos apressados por todo o local.

Uma cortina branca com o logo desbotado de “Medicina USP” separava o canto da cama do resto do ambiente. Marina a encarou com desgosto.

— Essa cortina cafona ainda existe… Já falei que odeio.

Jogou a bolsa no sofá pequeno e murcho, suspirando alto.

— Argh, que homem insuportável!

Do canto da mesa, Laura ergueu os olhos do notebook, os fones ainda nos ouvidos. Ela estava cercada por mais livros abertos, marca-textos espalhados, e um copo de café pela metade.

— Marina! — ralhou, tirando os fones com irritação. — Eu estou estudando!

Marina apertou os olhos, quase teatral.

— Você já é médica, Laura. Pra quê mais livro? Vai logo atender gente e ganhar uma grana preta.

Laura fechou o notebook com um estalo.

— Não é assim que funciona! — retrucou, séria. — E o que você está fazendo aqui? Vai pra sua casa.

Ignorando a irmã, Marina foi até a cozinha minúscula e abriu o armário, caçando algo para beliscar enquanto observava os post-its com uma letra indecifrável, Laura era realmente uma médica . Achou um pacote de pão de forma quase vazio. Puxou de qualquer jeito, o prendedor voou sabe-se lá pra onde. Ela procurou ao redor, deu de ombros e, sem pensar duas vezes, virou o saco de ponta-cabeça, enfiando a parte aberta pra baixo.

— Problema resolvido. — murmurou, satisfeita.

Por sorte, Laura não viu. Se tivesse visto, viria sermão.

Marina colocou duas fatias de pão na torradeira velha e abriu a geladeira.

— Ei, cadê a manteiga?

— Não comprei ainda. — respondeu Laura, voltando a abrir o notebook.

Marina arregalou os olhos, ofendida.

— Como assim, você vive sem manteiga? Vai comer pão seco?

— Eu como no hospital.

A cara de nojo de Marina foi imediata.

— Argh, comida de hospital é horrível! Como você aguenta?

Laura apenas ergueu os olhos, cansada, e suspirou.

— A gente se acostuma. E nem é ruim.

Marina cruzou os braços, bufando.

— Eu, hein. Você se acostuma com comida de hospital, mas eu não consigo me acostumar com o Pedro Ferraro me atormentando. Esse homem é um demônio fantasiado de príncipe.

Laura ergueu uma sobrancelha, intrigada.

— Quem?

— O novo analista. — Marina jogou-se no sofá, o pão na mão, sem manteiga. — Alto, loiro, cheiroso… e um inferno na Terra.

Laura suspirou fundo, girando a cadeira gamer onde estava afundada, até ficar de frente para a irmã. O estalo das rodinhas no piso ecoou no silêncio da kitnet.

— Outro amor de escritório, Marina? — provocou, arqueando a sobrancelha.

Marina engasgou com o pedaço de pão seco, ficando vermelha na hora.

— Não é um amor! — rebateu, indignada. — Ele só é… um pouco bonito. Tá, muito bonito. Mas também é um tormento! Vai transformar a minha vida num inferno, você vai ver!

Laura cruzou os braços, semicerrando os olhos de forma calculada.

— Marina, pelo amor… você devia parar de ver novela e começar a estudar. Fazer uma faculdade, se especializar. Aí não ficaria refém desses dramas imaginários de escritório.

— Já vem você, a viciada em livros, com esse papo chato. — Marina revirou os olhos e apontou para a pilha de apostilas na mesa. — Vou te internar nos Estudantes Anônimos. “Oi, eu sou a Laura e não consigo parar de ler sobre doenças terminais”.

— Engraçadinha. — Laura suspirou, sem paciência. — O mercado tá mudando, Marina. Você precisa se destacar. Não pode depender só do improviso e do seu bom humor. Deu sorte de conseguir esse emprego.

— Lá vem a chata. — Marina resmungou, levantando do sofá para jogar a mochila de Laura num canto qualquer.

— Não é chatice, é realidade. — rebateu Laura, firme. — Enquanto você fica suspirando por loiros que te infernizam, tem gente se matando de estudar pra chegar onde você chegou.

Marina virou-se de supetão, indignada, o pão seco ainda na mão.

— Primeiro: eu não estou suspirando, eu estou xingando. Segundo: você não entende, Laura. O Pedro Ferraro… — ela fechou os olhos por um instante, procurando palavras — ele é o tipo de homem que chega numa sala e todo mundo para. Tem aquele sorriso maldito que parece cena de dorama, mas aí, em dois segundos, vira um vilão daqueles que pisam no coração da mocinha. Ele me olha como se já me conhecesse. Como se tivesse lido o manual inteiro da minha vida e agora estivesse decidido a me ferrar.

Laura escutava séria, o que só deixava Marina ainda mais nervosa.

— É disso que eu tô falando! — a mais velha gesticulava, exaltada. — Eu só queria um príncipe encantado no trabalho e, no lugar disso, me mandam o Rei da Maldade de olhos verdes e cara de arrogante.

— Hum. — Laura inclinou o rosto, pensativa. — Parece que ele te incomoda bastante.

— Incomoda? Ele me tira do sério! — Marina largou o pão na mesa, já sem fome. — Hoje, na reunião, ele foi contra tudo o que eu disse, como se estivesse esperando a chance de me desmoralizar. E ainda fez isso sorrindo, como se estivesse se divertindo!

Laura encostou o queixo na mão e sorriu de canto.

— Às vezes, Marina, quando alguém mexe tanto assim com você… não é amor.

— Não começa! — Marina apontou um dedo acusador. — Eu não vou cair nessa. Esse homem pode ter cara de capa de revista, mas por dentro é feito de gelo. Rei da Maldade, lembra? Esse é o título dele.

Laura riu baixo, balançando a cabeça.

— Cuidado, maninha. Vilões costumam ser os que mais conquistam corações nas suas novelas. Mas, só em novelas, na vida real são tóxicos.

Marina bufou, cruzando os braços, mas o estômago deu aquele friozinho traidor só de lembrar dos olhos verdes dele atravessando a sala.

O papo entre as duas irmãs ainda estava quente — Marina defendendo sua cruzada contra o “rei da maldade” do escritório e Laura rebatendo com sua lógica de sempre — quando a campainha soou.

— Ah, não acredito… — Marina levantou-se, bufando, mas já curiosa.

Abriu a porta e o sorriso nasceu sem esforço.

— Biel! — disse animada, vendo Gabriel ali, o contraste da pele escura e dos cabelos crespos bem cuidados realçando ainda mais aquele sorriso dele, mochila nos ombros e uma caixinha de comida japonesa equilibrada nas mãos.

Ele se surpreendeu ao vê-la, mas logo sorriu de volta, aquele sorriso aberto de sempre, largo e cheio de vida.

— Oi, Marina. — ergueu a caixinha. — Trouxe isso aqui pra Laura. Sei que ela vive esquecendo de comer.

Os olhos de Marina brilharam imediatamente para o conteúdo.

— Ahhh, comida japonesa! Você é um anjo disfarçado de pediatra, Biel. Como a Laurinha não se casou ainda com você?!

Gabriel riu, coçando a nuca sem jeito. Antes que respondesse, uma voz firme surgiu atrás de Marina:

— Marina! — Laura apareceu, brava, de cabelo preso em um rabo de cavalo, enfiando o jaleco na mochila. — Eu tenho quarenta minutos pra tomar banho, terminar de decorar a matéria e me preparar pro plantão. E você ainda tá aí me fazendo perder tempo.

Ela tomou a bolsa da irmã, empurrando-a de leve.

— Vai pra sua casa. Agora.

— Ô, calma, general! — Marina resmungou, mas piscou para Gabriel, conspiradora.

Laura finalmente percebeu o rapaz à porta. O olhar dela suavizou no mesmo instante, ainda que tentasse manter a pose.

— Oi, Gabriel.

— Oi, Laura. — ele disse, oferecendo a caixinha. — Trouxe pra você comer antes do plantão.

Por um segundo, o silêncio pesou. Laura pigarreou, as bochechas denunciando um rubor discreto.

— Obrigada. Eu… aceito.

Ela pegou a caixinha, segurando firme como se fosse preciosa demais.

— Preciso entrar. Bom plantão pra mim, né?

— Bom plantão. — Gabriel sorriu, de um jeito que parecia sempre torcer por ela.

Laura deu um breve aceno, murmurou outra vez um “obrigada” e fechou a porta com delicadeza — mas ainda rápida demais, como se temesse que Marina aprontasse mais uma.

Foi a deixa para Marina apoiar a mão no ombro de Gabriel, com um ar cúmplice.

— Ela tá quase cedendo. Eu sei. Segue firme, doutor.

Gabriel riu baixo, os olhos brilhando com uma paciência infinita.

— Eu não vou desistir.

Marina abriu um sorriso largo.

— Eu sabia.

Gabriel ajeitou a mochila no ombro e olhou para Marina.

— Quer uma carona até sua casa?

Marina arqueou as sobrancelhas, surpresa.

— Ué… e não vai oferecer carona pra Laura?

Ele riu, balançando a cabeça.

— Por hoje, acho que já avancei bem. Se eu insistir mais, ela me expulsa do prédio junto com você.

Marina gargalhou alto, batendo palmas.

— É isso que eu falo, Biel! Você é muito lento! Não é assim que se conquista uma mulher. Por isso tá desde o início da faculdade apaixonado por ela e ela nem tchun pra você!

Ele abriu um sorriso sereno, mas seus olhos ganharam um brilho sincero.

— É que… a Laura não é qualquer mulher. — a voz dele suavizou, quase reverente. — Ela é esforçada, empenhada, dedicada até o limite. É inteligente de um jeito que impressiona, tem um coração enorme, um senso de responsabilidade que poucos têm. Quando ela fala com um paciente, dá pra ver a confiança que transmite.

Marina ficou piscando, boquiaberta, antes de soltar um assobio.

— Caramba. Nem eu sabia que minha irmã era tudo isso!

Gabriel riu sem jeito, coçando a nuca.

— Ela é. E é justamente por ser tudo isso que eu sei que está ocupada agora, finalizando a residência. Mas… quando ela se sentir pronta, quero que saiba que eu tô aqui. Sempre vou estar.

Marina suspirou, apoiando a cabeça no banco do carro com um sorriso derretido.

— Ai, Biel, se eu fosse você, eu mesma já teria me pedido em casamento. Que coisa mais linda.

Ele riu, sem jeito, mas os olhos ainda brilhavam.

Marina, então, murmurou quase para si mesma:

— Queria ter alguém assim por mim…

Gabriel virou o rosto para ela, curioso.

— E o careca iluminado? Como foi o encontro?

Marina tapou o rosto com as mãos e começou a rir de si mesma.

— Péssimo. Eu achei que tava sendo fofa, mas elogiando a careca dele e comparando com um lustre de sala de estar. — ela balançou a cabeça, entre risos. — Não entendi porque ele não achou engraçado.

Gabriel gargalhou alto, quase perdendo o fôlego.

— Marina, só você mesmo!

— Ei, eu tentei! — ela protestou, ainda rindo. — Mas, fazer o quê? Amor real não me escolhe. Acho que nasci pra torcer pelos outros.

Gabriel apenas sorriu, olhando para a rua adiante. Ele sabia que, enquanto Laura era sua luta silenciosa, Marina ainda estava em busca de alguém que visse além do caos — e talvez fosse isso que tornava as duas tão especiais à sua maneira.

Marina se despediu de Gabriel quando o carro parou em frente ao seu apartamento, dando dois tapinhas no ombro dele.

— Valeu pela carona, Biel. E não esquece: segue firme, ela tá quase cedendo. — piscou, cúmplice.

Ele riu, balançando a cabeça, e esperou até vê-la atravessar o portão do prédio. Marina subiu as escadas correndo, tropeçou no último degrau descolado, praguejou baixinho e finalmente entrou em seu pequeno apartamento.

Marina subiu as escadas do seu pequeno apartamento, jogou a chave sobre a mesinha da entrada e anunciou para o vazio:

— Cheguei em casa!

O silêncio a respondeu, como sempre.

Ela suspirou e pousou o olhar no retrato que ficava logo na entrada: a mãe sorridente, com aquele ar de mulher forte que nunca se deixava abalar. Ao redor, algumas velas aromáticas meio tortas e flores de plástico que já tinham perdido a cor original. Marina nunca conseguia trocar a tempo, e flores naturais sempre murchavam antes de ela se lembrar de comprar outras.

“Ela estaria tão orgulhosa da Laura…” pensou, mordendo o lábio.

A mãe sempre trabalhara dois turnos como enfermeira, sustentando as duas com suor e firmeza. E, no fim, foi o mesmo hospital que a levou. Câncer. Só de pensar, o peito de Marina apertava. Era por isso que Laura havia escolhido a radioterapia — como se, no fundo, tentasse vencer a doença que roubou a mãe delas. Mas, na prática, as duas ainda não sabiam lidar direito com a ausência.

Marina respirou fundo, desviou os olhos e foi direto para o quarto. Tomou um banho rápido, deixando a água escorrer como se pudesse levar embora o peso da saudade e da raiva acumulada do dia. Depois, enrolada na toalha, foi para a cozinha.

A pia estava um caos.

— Quatro dias, parabéns, Marina, recorde mundial — murmurou, revirando os olhos. Porquê ela não lavou a vasilha do omelete antes do ovo grudar na frigideira?

Abriu o celular, colocou um vídeo da Dani Delanos no YouTube e começou a lavar a louça ao som de uma história de romance que tinha dado errado. A cada revelação dramática, ela resmungava como se conversasse com a narradora.

— Claro que deu errado, né, fia? Tava na cara que a vizinha tava pegando ele! Tá vendo? Sempre tem sinais…

Terminada a batalha contra as vasilhas, jogou-se no sofá-cama. Pegou o controle remoto e abriu a Netflix, colocando Casamento às Cegas França. Só o título já arrancava um suspiro sonhador dela.

— Tadinha da Tati. Agora que a Kim roubou o homem dela, vamos ver o que ela vai arrumar. — disse em voz alta, puxando a coberta.

Mas a mente insistia em voltar para o escritório. Para ele.

Pedro Ferraro.

Marina tentou se distrair, mas o rosto dele surgia nítido: o sorriso perfeito, os olhos verdes que faiscavam de confiança. Por um instante, imaginou estar do outro lado daquelas cabines do reality, conversando com ele sem nunca vê-lo. Será que funcionaria? Será que, sem a pose de arrogante, ele poderia ser diferente?

Um frio estranho percorreu seu estômago.

“Para, Marina. Ele é só mais um homem lindo que vai acabar com a sua paciência. Você já tem diploma nisso.”

Ainda assim, enquanto na TV os participantes trocavam declarações apressadas, ela fechou os olhos e deixou escapar um riso nervoso. Porque, de todas as pessoas no mundo, era justamente o homem que a irritava que conseguia roubar tanto espaço na sua cabeça.

A tela da TV iluminava o pequeno apartamento. Casais choravam dentro de cabines, falando de almas gêmeas sem nunca terem se visto. Marina, encolhida no sofá-cama, deixou-se embalar pelo som. O celular ainda vibrava com a voz da Dani Delanos no fone largado ao lado da pia, mas já não fazia diferença.

O peso do dia caiu sobre ela, e as pálpebras foram cedendo.

No instante em que o sono a alcançou, as imagens se embaralharam. Os participantes de Casamento às Cegas sumiram, e quem estava na frente dela, naquelas cabines enfeitadas de flores e luzinhas, era Pedro Ferraro.

Ele sorria. Não o sorriso arrogante da reunião, mas um aberto, tranquilo, quase tímido. O tipo de sorriso que fazia seu estômago se encher de borboletas.

— Eu escolheria você. — a voz dele ecoou suave, grave, quase hipnótica.

Marina, no sonho, corava como uma adolescente. A cortina se abriu, revelando-o em terno escuro impecável, os olhos verdes brilhando como se fossem feitos para enxergá-la sozinha no mundo. Ele estendeu a mão, e ela a segurou sem pensar.

O cenário mudou. Estavam em uma pista de corrida, Pedro erguendo um troféu, os fotógrafos disparando flashes, e ela ali, na beira, com um vestido leve esvoaçante. Ele a puxava para perto, os lábios a milímetros dos dela, e o estourar do champanhe virava o aplauso perfeito para um beijo cinematográfico.

Mas, como sempre acontece em sonhos, o enredo começou a oscilar.

O sorriso dele… apagou. Os olhos, antes cheios de ternura, se tornaram frios. As mãos que a seguravam firme se soltaram, e ele virou o rosto, deixando-a sozinha em meio ao barulho.

Marina tentou chamá-lo, mas a voz não saía. Então, ele voltou a encará-la — agora com aquela mesma expressão séria da reunião. Dura. Inalcançável.

— Quem vai rir por último sou eu. — murmurou, e o eco dessa frase a fez estremecer.

Marina acordou de sobressalto, o coração disparado, a TV ainda mostrando um casal se beijando apaixonado. Passou a mão no rosto, tentando se acalmar.

— Tá vendo? — resmungou para si mesma. — Até nos sonhos, os príncipes viram vilões.

Se jogou de novo no sofá, puxando a manta até o queixo. Mas, no fundo, sabia: aquele par de olhos verdes não sairia tão cedo da sua cabeça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.