Entre o Antes e o Depois
1 Promessas de Criança
PRÓLOGO
O relógio digital do McDonald’s piscava 16h05 em vermelho. Para Marina, parecia um alarme em contagem regressiva.
— Pedido trinta e dois: dois Big Macs, sem cebola, com extra de molho! — ela anunciou, tentando equilibrar a bandeja como se fosse um truque de circo.
O cabelo escapava do coque em mechas soltas, a camiseta do uniforme exibia uma mancha teimosa de maionese e, dentro da mochila, tudo estava jogado às pressas — celular, agenda, até o tênis que deveria trocar. O problema era sempre o mesmo: Laura estava esperando.
O gerente gritou de longe:
— Marina, o caixa dois tá travado!
— Travado tipo “precisa de um técnico” ou travado tipo “se apertar com carinho resolve”? — respondeu, já correndo para lá. O cliente riu, mas Marina só pensava no relógio.
Quarenta minutos depois, saiu disparada pelas ruas, com metade do uniforme ainda no corpo e o boné enfiado dentro da mochila. Quando chegou à escola, encontrou exatamente o que mais temia: Laura na porta, com os braços cruzados e a professora ao lado.
— Marina — disse a professora, num tom seco. — Sua irmã não pode ficar esperando tanto tempo.
Marina ajeitou o cabelo desgrenhado e soltou um sorriso nervoso.
— Eu sei, professora… mas o McDonald’s tem esse ritual secreto: sempre que eu preciso ir embora, aparecem dez famílias famintas. Eu tentei, juro.
Antes que a professora pudesse responder, Laura retrucou com a voz firme:
— Isso não é engraçado, Marina. Eu fiquei quarenta minutos olhando todo mundo ir embora.
Marina fez uma careta teatral.
— Quarenta? Uau, isso é quase uma sessão de cinema. Se soubesse, tinha trazido pipoca.
Laura revirou os olhos, impaciente.
— Eu não achei graça.
— Mas eu acho que você herdou a alma da vó Hilda. — Marina cutucou a irmã de leve. — Séria desse jeito, parece até mais velha que eu.
Laura, de oito anos, manteve a carranca, mas era impossível esconder que estava um pouco aliviada ao ver a irmã ali.
Marina respirou fundo, segurou a mão dela e se desculpou do jeito que sabia:
— Tá bom, Laurinha. Eu vou tentar melhorar… mas sem prometer virar adulta amanhã, porque, convenhamos, isso seria trapaça.
A professora suspirou, sem paciência, mas Laura deixou-se levar pela irmã. E, enquanto caminhavam, Marina falava sem parar, inventando histórias de como quase foi promovida a “rainha das fritadeiras”.
Laura balançava a cabeça, séria, mas no fundo… já não conseguia evitar que o canto da boca tremesse em um quase-sorriso. Ela amava a irmã e mesmo tão nova se preocupava com Marina. Infelizmente a escolinha não permitia que ela cuidasse da irmã em tempo integral.
Voltando ao expediente no McDonald’s, Marina a deixou sentadinha no canto mais tranquilo. Laura puxou o caderno da mochila e começou a rabiscar os números com concentração quase adulta. Marina, por sua vez, foi para trás do balcão, improvisando um lanche extra para a “cliente VIP”. Entregou para a irmã numa bandejinha, fazendo reverência como se fosse uma garçonete de restaurante francês.
— Milady, aqui está seu McLanche Feliz, preparado com a mais fina maionese industrial.
Laura tentou segurar o riso, mas acabou deixando escapar um “humpf” que soava quase como uma risadinha.
Os colegas de Marina já estavam acostumados: tratavam Laura como mascote do turno. Um entregava balão, outro dava adesivos dos brindes. A menina revirava os olhos, fingindo seriedade, mas no fundo adorava a atenção.
Foi então que Marina percebeu enquanto servia uma mesa: um garotinho loiro, da mesma idade de Laura, se aproximou e sentou ao lado dela. Aquele já era figurinha carimbada. Pedro.
A cena enchia o coração escondidamente romântico de Marina, embora ela jamais admitisse isso em voz alta. Em sua cabeça, o enredo já estava pronto: Laura e Pedro seriam inseparáveis amigos de infância, cúmplices de segredos e travessuras até que, na adolescência, ele finalmente perceberia que aquela menina ao seu lado não era apenas uma amiga — era o grande amor da sua vida.
Marina riu sozinha com a própria imaginação. Claro que Laura não facilitaria; faria jogo duro, quebraria o coração do pobrezinho algumas vezes, só para depois, já adultos, se reencontrarem em algum lugar especial — e então, inevitavelmente, se casariam.
Era um clichê descarado de romance barato. E justamente por isso, Marina adorava.
Não resistiu e foi até eles, apoiando os cotovelos na mesa com aquele ar típico de irmã mais velha intrometida.
— E então, senhorita Laurinha e senhor Pepi… já marcaram a data do casamento? Preciso me programar para comprar o vestido.
Laura arregalou os olhos, indignada:
— Marina! A gente tá só fazendo a tarefa!
Marina caiu na risada, deliciada com o futuro romântico que já havia desenhado na cabeça. Passou a mão pelos cabelos loiros de Pedro, que imediatamente ficou vermelho até a ponta das orelhas. O pobrezinho sempre corava assim, e Marina achava aquilo irresistivelmente fofo. Ela adorava seu cunhadinho.
Foi nesse instante que um lápis de cor a acertou bem no meio da testa.
— Ai! — ela levou a mão ao local, pasma. — Mas que mira é essa?!
Laura a encarava séria, os bracinhos cruzados em fúria.
— Para de encher o saco! Vai trabalhar!
Marina escorregou teatralmente para o chão, dramatizando a queda como se tivesse levado um tiro fatal. Enquanto se recuperava do ataque covarde, um guardanapo surgiu em sua frente, estendido por uma pequena mão que se fazia de firme.
— Poxa, Lala… não machuca ela. — a voz de Pedro saiu contrariada.
— É minha irmã, eu posso corrigir! — retrucou Laura, firme.
— Mesmo assim! — pedro insistiu, corando ainda mais. — Ela é molinha.
— Você que sabe… mas depois não vem reclamar quando ela te deixar sem graça — disparou Laura.
Marina não perdeu a deixa. Abaixou delicadamente a mão do menino e se levantou, com um suspiro melodramático.
— Ah, Pepi…desculpa, eu não queria atrapalhar — disse, num sorriso derrotado. — Até o Leo me odeia… o que será de mim?
— O quê?! — ele ficou quase roxo de vergonha. — Eu nunca te odiaria! Nunca conseguiria!
Marina então puxou a bochechinha da irmã, vitoriosa:
— Tá vendo? Alguém aqui me valoriza. Você devia aprender com ele.
— Marina… — a voz de Pedro saiu baixinha, fazendo as duas o encararem. Ele mexia nos próprios dedos, sem coragem de erguer o olhar para Marina. — Eu não posso me casar com a Laura… porque… eu gosto de outra pessoa.
Marina congelou, surpresa, antes de forçar um sorrisinho.
— Outra pessoa? Ah, claro… claro… — respondeu, tentando soar indiferente, mas por dentro a curiosidade já estava lhe corroendo. Quem seria a misteriosa?
Laura, toda ranzinza, aproveitou para dar a última palavra:
— Viu só? Para de inventar esquisitice!
Marina apenas soltou a irmã e, antes de se afastar, mostrou-lhe a língua como a criança crescida que era. Mas enquanto caminhava, sua mente já disparava num enredo inteiro: Tudo bem. Essa tal “outra pessoa” não seria um obstáculo. Pelo contrário — ela mesma ajudaria os dois a superarem qualquer coisa, para que um dia Laura e Pedro finalmente percebessem que estavam destinados a ficar juntos. Claro, Laura nunca admitiria tão cedo… mas não precisava se preocupar, podia contar com ela, a grande arquiteta do romance.
Já era noite quando Marina decidiu encerrar o expediente do jeito mais divertido possível: escoltando as duas “crianças” para casa — a irmã mal humorada e o amigo loirinho disciplinado.
— Vamos lá, mocinhos, chega de pedidos por hoje. — anunciou, estendendo as mãos como uma babá orgulhosa.
Laura bufou, mas cedeu, entregando a mão. Pedro, mais tímido, demorou um segundo antes de segurar a outra. Marina sorriu satisfeita, caminhando pelo bairro com os dois a tiracolo, como se fossem seus guarda-costas particulares.
Pedro, sempre tão certinho, tentou manter a postura ereta… até que Marina resolveu inventar uma competição.
— Regra número um: quem pisar em alguma linha perde! E não vale pisar no asfalto como da última vez dona Laura.
Marina deu o primeiro passo, pulando de uma forma torta em um bloco de passeio.
Pedro ainda tentou resistir, mas não aguentou: soltou uma gargalhada e arriscou um passo torto. Laura revirava os olhos com toda a paciência de quem já estava acostumada às palhaçadas da irmã, mas era impossível ignorar o sorrisinho que teimava em aparecer cada vez que Pedro ria dela assim.
Quando deixaram o garoto em frente à sua casa, Marina se abaixou e bagunçou os cabelos loiros dele — justamente porque sabia que ele odiava, mas nunca reclamava.
— Vai com Deus, pequeno cavaleiro. Amanhã a gente marca outra aventura até o seu castelo.
Pedro andou até o portão de sua casa, ele que sempre se despedia com acenos tímidos, tinha ficado parado no portão por alguns segundos, como se quisesse dizer mais e não tivesse coragem. E depois entrou
Marina, claro, não perdeu a chance de cutucar a irmã:
— Tá vendo como ele te olha? Se não casar com ele, vai se arrepender pro resto da vida.
— Ai, Marina… — Laura resmungou, acelerando o passo.
De volta à própria porta, o contraste foi imediato: a rua barulhenta ficou para trás, e a sala organizada as recebeu com silêncio. A mãe trabalhava em dois turnos como enfermeira, e quase nunca estava ali nesse horário. Ainda assim, a casa estava sempre limpa, aconchegante, com comida pronta na mesa — o carinho dela se fazia presente nos detalhes.
Marina suspirava toda vez que via o prato de arroz tampado no fogão. Queria poder conversar sobre o trabalho, sobre os colegas, até sobre o menino loiro que rondava Laura. Mas, sem a mãe por perto, sobrava a ela inventar histórias, exagerar nas palhaçadas e tentar tapar os buracos de silêncio para que Laura não se sentisse sozinha e para que ela também não se sentisse.
Marina largou a mochila no sofá com um suspiro satisfeito.
— Tá com fome, Laurinha?
— Tô, mas vou tomar banho primeiro. — respondeu a irmã, desaparecendo pelo corredor.
Por um instante, Marina ficou sozinha na cozinha, olhando para o relógio da parede. Um sorriso escapou. Apesar da correria, tinha algo de bom em chegar em casa e cuidar de Laura.
E, no fundo, mesmo que a caçula fosse séria demais para admitir, Marina sabia. Era amada.
O dia seguinte começou do mesmo jeito: atrasado. Marina correu para o trabalho. Entre pedidos, bandejas e clientes apressados, tentava manter o bom humor.
Na hora de levar o lixo para fora, ajudando um colega, Marina saiu pelos fundos rindo de uma bobagem que tinha acabado de dizer. O riso ainda pairava em seus lábios quando parou de repente.
Ali, no canto da calçada, estava Pedro. Uniforme impecável, cabelo penteado para trás, mas com um papel cor-de-rosa preso entre as mãos pequenas. Ele respirava fundo, como se precisasse de coragem, antes de dar alguns passos em direção a ela.
— Marina… — a voz saiu baixa, quase trêmula. — Eu vim me despedir.
O saco de lixo escorregou das mãos dela.
— Se despedir? Como assim?
— A gente vai se mudar. Meu pai conseguiu um trabalho em outra cidade. Eu vou embora hoje. — disse, erguendo a cartinha com dedos hesitantes. — Eu… escrevi isso pra você.
Curiosa, Marina pegou o papel. Era uma cartinha infantil, com rabiscos tortos, coraçõezinhos desajeitados e frases diretas. No meio, lia-se:
“Eu gosto de você.
Quero casar com você quando crescer.
Vou voltar para você. Me espera.
Te amo, Pedro”
Ela ergueu os olhos, mas Pedro encarava o chão, envergonhado. Por um instante, o coração de Marina se apertou. Só que, como sempre fazia quando algo a deixava vulnerável, deixou a defesa natural falar mais alto: o riso.
— Ai, Pepi… casar comigo? Você é só um pirralhinho! — ela disse, rindo alto, cutucando o braço dele. — Tá maluco?
Pedro levantou os olhos, surpreso, como se não esperasse aquela reação.
— Mas eu gosto de você… — insistiu, com a sinceridade desarmada de uma criança.
Marina gargalhou ainda mais, chamando a atenção de alguns colegas que passavam.
— Gente, olha isso! O Pepi quer casar comigo! — disse, exibindo a cartinha como se fosse uma piada.
O rosto dele ficou vermelho — primeiro de vergonha, depois de dor.
— Não precisava rir… eu só queria dizer.
— Ó, Pepi, vai arrumar alguém da sua idade, vai. Eu não vou casar com um garotinho que nem sabe multiplicar direito. — ela soltou, ainda rindo, sem perceber a gravidade.
Pedro puxou a cartinha de volta, amassando-a nas mãos. Os olhos estavam marejados, mas ele tentou manter a postura certinha que sempre cultivava.
— Tá bom… desculpa incomodar.
Virou-se e começou a andar.
Foi nesse instante que o riso morreu nos lábios de Marina. Sentiu o estômago embrulhar, como se tivesse passado do ponto sem perceber. Uma culpa súbita a invadiu, quente e amarga. Ela quis chamá-lo de volta, mas a voz não saiu. Ficou parada, com o nó na garganta, assistindo ao menino loiro se afastar.
Era só uma criança, sim. Mas, naquele instante, sem saber, tinha transformado uma declaração inocente em uma lembrança amarga — para ele, e, mais cedo ou mais tarde, também para ela.
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